Post número 4087
O professor Paunocu

Foto: Carlos Manuel Ribeiro
A olho nu não se vê, mas de certeza que tem um pau a entrar-lhe pelo cu e a sair-lhe pela boca. Anda e articula-se como se algo mais lhe atravessasse a espinha para além da própria espinha. Talvez porque esta não existe: naquela altura de gente não há osso.
Parece um boneco, embora engravatado como um administrador de empresas. E quando a glote lhe arredonda as palavras, um boneco continua a parecer. Tem voz de Pinóquio, emprestada de um ventríloquo que também não é visível. Será de presumir que tal acontece por não a usar muito: regra geral, está calado. Tem tendência para dizer disparates. Daqueles com cheiro a alho, à labrego…
Aliás, das poucas vezes que fala percebemos que anda por ali um perturbador complexo de inferioridade social: o seu currículo pode ser o de um catedrático, mas a conversa que arrisca, misturando verbos e saliva seca, é a de um pescador que se envergonha das suas origens.
Diz-se um homem de visões largas, mas afinal o que o caracteriza é uma estranha receita para resolver os seus conflitos interiores: professa o capitalismo popular. O seu ideal é um país em que todos joguem na Bolsa, uma sociedade de proletários acionistas.
Como, em vez de apostarmos na roleta económica, vamos a pouco-e-pouco perdendo os empregos, tende a fechar-se. Não entende o que se passa, anda confuso e angustiado. Se calha pôr a cabeça fora da porta, não é capaz de dirigir ao mundo mais do que um sorriso atrapalhado.
Esse esgar com dentinho de fora hesita entre o patético e o sinistro: ora suscita pena, ora denuncia um secreto Mefistófeles. O coitado diz que o dinheiro não lhe chega até ao fim do mês e que fez mal em ter trocado o ordenado a que tinha direito por uma humilde pensão. Mas quando estamos quase, quase a comiserar-nos com o pobre, desconfiamos. Os olhinhos de boi que se encovam no seu rosto paralelepípedo só podem esconder marosca.
O pior é que, como bons portugueses que somos, o pé atrás apenas contribui para sermos assoberbados por cruéis sentimentos de culpa. Sobretudo quando lhe gozamos a marquise, a postura rígida e auto-repressiva de múmia.
Por isso, lá vai ele ficando escondido e silencioso, feito emblema da mediocridade e da inércia nacionais. Não é ninguém em especial, apenas um professor chico-esperto, mas o pior é que também é nós todos, coletivamente empalados por nossas próprias mãos depois de séculos de osteoporose mental.
Os monstrinhos das crianças
Esta é uma daquelas ideias brilhantes – um projeto que eu nunca teria conhecido sem a Internet. Obrigado, Internet, nunca te deixes estragar.
O projeto chama-se «The Monster Engine» e resulta de uma simples questão colocada por Dave DeVries, ilustrador da Marvel e DC comics: «como ficariam os rabiscos que as crianças costumam desenhar se fossem reproduzidos com o maior realismo possível?» Por exemplo:
Dave DeVries – cujo trabalho para a Marvel e DC Comics consiste sobretudo em trabalhar os cartoons, dando-lhes uma ilusão de tridimensionalidade – chegou a esta ideia por um simples acaso.
A sobrinha costumava encher-lhe os cadernos com rabiscos – um dia, observando-os, pensou no que aconteceria se aplicasse as técnicas usadas nos cartoons naqueles desenhos da sobrinha. Isto aconteceu em 1998.
15 anos depois, com um livro de 48 páginas publicado, «The Monster Engine» chegou aos jornais e à televisão, e estabeleceu recentemente uma parceria com a Microsoft para criar um concurso de arte. O sítio do projeto e a página pessoal de DeVries.
Quatro fotos da Venezuela
A grande mistificadora
Stefani Joanne Angelina Germanotta. Duvido que este nome vos diga alguma coisa. Mas e seu vos disser que se trata de Lady Gaga?
Exato: este post é sobre a cantora pop. Estranham que eu, um escriba dedicado às músicas experimentais e «esquisitas», esteja a debitar umas considerações sobre a dita?
Não se surpreendam: Lady Gaga não é o que a esmagadora maioria dos seus fãs pensa que é.
Lady Gaga é uma personagem, surgida da cabeça de alguém que entrou no mundo da pop com o firme propósito de o levar até aos limites, e mais além, da própria «popicidade», no ínterim minando-o por dentro.
«I’ve made it my goal to revolucionize pop music», disse.
Nesse sentido, encontro-lhe semelhanças com Marilyn Manson, o antigo jornalista e teórico musical Brian Hugh Warner, que quis continuar a perspetivação teatral da música que David Bowie protagonizou com o seu Ziggy Stardust. Bowie é, de resto, uma das influências maiores da Gaga.
A Stefani era uma rapariga do underground nova-iorquino, uma intelectual fascinada pelo experimentalismo, mas também pelas manifestações culturais populares: as metropolitanas, da sua juventude, personificadas num Michael Jackson e numa Madonna, ambos especialistas da transmutação visual (tal como o andrógino Ziggy), mas também as mais tradicionais, como o burlesco, essa arte do travestismo que remonta à era vitoriana.
Estudou teatro musical no CAP21 da Tisch School of the Arts, um departamento da Universidade de Nova Iorque, mas os seus interesses ultrapassaram esse âmbito: a sua tese de licenciatura versou os artistas Spencer Tunick, o tal que faz fotos com milhares de pessoas nuas em espaços públicos, e o instalacionista (pintor, escultor) Damien Hirst.
A sua produção ensaística na altura, para além da arte, versou temas de política, sociedade e religião. Neste último caso tinha muito a dizer: a sua educação católica, enquanto boa menina de ascendência italiana (tal como Madonna, de resto), deu-lhe uma particular visão do pecado.
À semelhança do escritor Graham Greene, percebeu que só pecando se encontra a expiação. Que só sendo uma menina má podia aliviar a consciência.
Aliás, de certeza que ela o leu. Trata-se de uma mulher letrada e culta, ao contrário de todas as outras estrelas do canto na atualidade, algumas delas raiando a boçalidade. O verso do poeta Rainer Maria Rilke que tem tatuado na pele diz muito sobre isso.
Sexo oral e performance-arte

Quando percebeu que possuía uma boa voz de contralto, começou por fazer covers de bandas de rock duro como Led Zeppelin e Black Sabbath. Em pouco tempo tinha o seu próprio repertório, causando sensação as suas canções mistas de electropop, rhythm ‘n’ blues, metal e hip-hop sobre sexo oral.
Muito se especula sobre se os seus espetáculos são, ou não, manifestações de performance-arte, com a mais respeitada das artistas da área, Marina Abramovic, a endereçar-lhe largos elogios. É natural: foi a performer Lady Starlight que a ajudou a construir a personagem Lady Gaga.
Com esta chegou mesmo a desenvolver trabalho colaborativo, sob a designação Lady Gaga and the Starlight Revue, misto de ato vanguardista e de dança go-go. O «Gaga», elucide-se, veio do tema «Radio Gaga», dos Queen.
Também a figura de Freddy Mercury a interessava, numa fase em que assumiu publicamente a sua bissexualidade.
Então lamentando que os namorados nunca estivessem interessados em ménages a trois com outra mulher, com o argumento de que ficavam felizes por a terem só a ela.
Durante algum tempo, era em clubes gay masculinos que atuava, e daí que acabasse por se tornar num ícone dos rapazes que o nosso Eugénio de Andrade retratou: «O seu olhar era oblíquo à passagem das raparigas / mas era um para o outro que sorriam.»
Ao longo da sua carreira, a grande mistificadora que Stefani é trouxe para a pop referências claramente avant-garde. Por exemplo, a sua equipa criativa, a Haus of Gaga, inspira-se na Factory de Andy Warhol, o papa da Pop Art dos anos 1960. Não é coincidência, igualmente, que o seu novo álbum, prometido para 2013, se intitule «ARTPOP».
Bifes crus e drag queens
Quando causou escândalo ao utilizar um vestido feito de bifes crus, não fez mais do que imitar uma artista ligada ao movimento Fluxus, Carolee Schneemann. Isso não percebeu a imprensa musical mainstream, que não faz ideia de quem foi Schneemann.
Tal como aconteceu com Marilyn Manson, os videoclips que vai produzindo, totalmente concebidos por si, prolongam a mensagem da sua música. Neles, vemo-la rodeada de drag queens, em situações de sado-masoquismo ou representando o poder das mulheres sobre os homens.
Com habituais protestos da Igreja Católica, o que decerto a Gaga previu e provocou, para mais completamente se purgar na intimidade. Afinal, Stefani Germanotta é paciente (sofre de lúpus) do ‘médico’ ayurvédico Deepak Chopra, que intervém tanto a nível espiritual quanto do corpo.
Pois, a rapariga má que canta sobretudo para os rebeldes e os deserdados, apesar dos caríssimos fatos de Alexander McQueen e Donatella Versace, tem um coração do tamanho do mundo: doou milhares de dólares às populações indonésia e japonesa que sofreram os recentes tsunamis e dá dinheiro para as campanhas de combate ao HIV.
Fundou a Born This Way Foundation, destinada a fortalecer a confiança de jovens com problemas de amor-próprio, é uma ativista contra as políticas de imigração dos Estados Unidos e está sempre presente quando se trata de defender os direitos LGBT.
Tudo isso sob o nome de Lady Gaga, mas denotando que por trás está uma pessoa social e politicamente engajada, uma mulher inteligente e sensível que resolveu construir uma enorme ficção para dar um pouco mais de interesse à música que os adolescentes preferem ouvir.
Terá sido nesse processo atropelada pelo turbilhão capitalista da cultura de massas? Foi, sem dúvida, a crer no facto de prezar demasiado esta — mas Lady Gaga está a fazer o que nem David Bowie e Madonna imaginavam possível…
Quem diria: não é apenas o vírus pop que se mete em tudo. Também o vanguardismo se tornou epidémico.































