Proponente da constituição de uma Internacional Sonora, com todas as implicações políticas que se queira disso retirar, o duo francês Kristoff K. Roll habituou-nos a dele esperar uma música de viagem pelo mundo e pelos seus sons. Os da natureza, mas, sobretudo, aqueles que resultam do bulício humano.
Foi assim com «Corazón Road», depois de uma visita à revolução zapatista de Chiapas, no México, o mesmo território índio visitado por José Saramago com a curiosidade que trouxe Jean-Paul Sartre a Lisboa no pós-25 de Abril.
E foi assim também com «Le Petit Bruit d’à Cótê du Coeur du Monde», mapa sonoro de África em que, por exemplo, ouvimos um formidável despique entre um comboio a vapor e o saxofone barítono de Daunik Lazro – este também um visitante de Portugal aquando da Revolução dos Cravos, para concertos com o grupo Plexus de Carlos “Zíngaro”.
Esses concertos terminavam sempre com uma interpretação jazzificada da Internacional, não a Sonora, mas a outra, histórica, fundada por Karl Marx e Mikhail Bakunine.
Agora, Carole Rieussec e Jean-Christoph Camps convidam-nos a uma viagem interior, aparentemente individualista, virada para dentro, mas novamente com implicações sociais. «À l’Ombre des Ondes» apresenta-se como uma «sesta áudio», para ouvir deitado com auscultadores.
Deitado, mas não na nossa cama ou no sofá. A audição deste disco tem um modo de uso, e este recomenda que se escolha um local público ou ao ar livre, onde o olhar possa divagar e haja, já por si, uma paisagem sonora.
Algo de distinto do que vem propondo na área das músicas eletroacústicas o equivocado Robert Rich, cujas atuações são acompanhadas pela recomendação de que os espetadores levem sacos-cama. O propósito é fazê-los dormir, quando o que os dois Kristoff K. Roll pretendem é que sonhem acordados.
Não se propõe um desligamento do mundo, mas tão-só que o mundo passe para segundo plano, que seja um cenário, permitindo que atentemos, com uma descontração contemplativa, nos nossos sentidos e nos nossos mecanismos de perceção.
Mais uma vez, Rieussec e Camps fazem a ponte entre a muito gaulesa Acousmatique, fórmula criada por Pierre Schaeffer que se define pelo facto de os sons ouvidos não corresponderem ao que os olhos vêem, e a norte-americana Live Electronics, ou seja, eletrónica tocada ao vivo e em tempo real, vulgo improvisada — algo de deliciosamente paradoxal, já que a dita acusmática é uma música «enlatada». Na sua primeira versão, a da música concreta, estava encerrada em fita magnética e com a evolução da tecnologia passou para o disco rígido do computador.
A Chiapas que havia em nós
Neste processo de mudança do gravador de bobinas para o laptop houve, necessariamente, uma troca de paradigmas.
O primeiro era o da rádio, entendendo esta cada som como uma imagem de um «cinema para os ouvidos», e o atual é já o da sétima arte propriamente dita, rádio com figuras animadas, se bem que com a autonomização das imagens sonoras e das imagens visuais trazidas pelo desenvolvimento da semiótica audiovisual. Para a qual, acrescente-se, o vídeo muito contribuiu.
Este é o campo de teorização predileto de Michel Chion, compositor eletrónico de França que se distinguiu, sobretudo, pela sua profusa obra ensaística. Curiosamente, os seus livros incidem mais sobre o cinema, e sobre o som no cinema, do que sobre a música e a eletroacústica.
De Charles Chaplin a David Lynch, com alguma especial atenção a Stanley Kubrick pelo meio, a sua pena foi denotando o fascínio de um músico, um criador de sons em movimento, pelas imagens em movimento do cinema e pelo que nelas há, ou pode haver, de musical.
Ora, o projeto Kristoff K. Roll é filho das ideias de Chion. Um filho rebelde e inconveniente, dada a sua decisão de criar uma acusmática improvisada, algo que parecia um contrassenso, e de, com os preceitos audiovisuais, fazer da intimidade uma tela de projeção cinematográfica e videográfica.
«À l’Ombre des Ondes» é um regresso ao corpo, ao sistema nervoso central, à mente. À capacidade mental, nervosa, física, química de produzir imagens por indução sonora.
É um regresso ao sonho, o cinema que havia antes de os irmãos Lumière inventarem o cinema. Carole Rieussec e Jean-Christophe Camps descobriram que havia uma Chiapas em cada um de nós.
Pois: temos a revolução no nosso código genético e nela vê-se e ouve-se uma corrida entre um saxofone e um comboio.


















































