As ameaças, diretas ou veladas, só enervam nos primeiros minutos. Enervam porque crescemos convencidos de que Portugal é uma Democracia e a nossa liberdade de expressão se encontra constitucionalmente protegida.
Existem várias formas de limitar esta liberdade sem passar por déspota aos olhos da opinião pública: uma delas, talvez a mais usada, é tentar convencer a voz incómoda a calar-se. Quando não se tem poder para o fazer de forma direta, procura-se fazê-lo de forma indireta.
Nesse processo de domesticação de vozes incómodas não se ouvem gritos ou palavras agressivas, apenas amigáveis e polidas sugestões. Às vezes a estratégia resulta, outras falha redondamente; quando resulta, nunca se chega a conhecer a origem da ameaça – faz parte do acordo; quando falha, ficamos a saber um bocadinho mais sobre a natureza dos cavalheiros que combatemos.
A liberdade de expressão é terrÃvel de aceitar para os velhos do Restelo e os parasitas que os apoiam, sobretudo quando é exercida online. Graças à Internet e à sua extraordinária vocação para diluir fronteiras, classes e géneros, todos podemos participar na grande conversação, como lhe chamou o jornalista Giuseppe Granieri, e esperar que uma única voz seja ouvida por milhares.
Para que isso aconteça não é necessário, sequer, o encantamento de uma voz famosa: basta que a causa seja válida e justa, e muitas outras pessoas se identifiquem com as posições defendidas.
Sem que os cretinos consigam compreender o fenómeno, a não ser quando é demasiado tarde, uma voz pequena multiplica-se por milhares de outras vozes pequenas até formar um coro insuportável e impossÃvel de silenciar que os mesmos cretinos acabarão por interpretar como «campanhas orquestradas».
E chega invariavelmente o momento em que uma pessoa – ou várias, ou milhares – se vê forçada a responder à s ameaças da forma mais simples que lhe é possÃvel: «Enganaram-se outra vez, idiotas! Não é medo que temos, é razão».