O respeitável Paul Hellyer, 85 anos, engenheiro, ex-ministro da Defesa do Canadá, figura polémica no país por ter fundido os três ramos das forças armadas numa única organização, teve uma epifania ovnilógica numa noite de fevereiro de 2005 e, desde aí, passou a tratar os OVNIs como veículos reais tripulados por seres extraterrestres reais.

Paul Hellyer em 2004
A história com os ETs começara mais cedo, em 2003, quando o ex-ministro, a falecida mulher e alguns amigos deram com um OVNI nos céus.
Na altura não atribuira grande importância ao avistamento mas, dois anos depois, viu um documentário na ABC sobre objetos voadores não-identificados e ficou muito impressionado. Tendo em conta a sua própria experiência, o senhor Hellyer abriu a mente e concluiu que, tal como no sexo, um mais um podia ser igual a três.
Quanto mais pesquisava, mais impressionado se sentia: «Os OVNI são tão reais como os aviões que voam sobre as nossas cabeças», afirmou na semana passada em Washington. E tanto abriu a mente que agora acredita na existência de quatro raças diferentes de ETs, duas das quais a trabalhar («provavelmente», acrescentou, cauteloso) com o governo dos Estados Unidos.
Hellyer fez estas afirmações numa audiência pública em Washington, um evento chamado «The Citizen Hearing on Disclosure» que pretende pressionar os governos a revelar o que sabem sobre OVNIs. O evento foi organizado pela Paradigm Research Group e decorreu de 29 de abril a 3 de maio. Passará à história, afirmaram os organizadores, como «um marco na educação do público em Vida Extraterrestre e Tecnologias Secretas em Espaço e Energia».
A Paradigm Research Group organiza eventos desta natureza a um ritmo anual desde pelo menos 2007, mas tem sempre uma notável capacidade em apresentá-los de forma explosiva, como se estivéssemos prestes a descobrir pólvora marciana.
Que havia então de diferente neste evento específico? Resposta: a prestigiante presença de cinco ex-senadores e um ex-membro do Congresso dos EUA.
O Cavaleiro das Flores apoia esta demanda
Que este evento se estava a realizar já eu sabia há uns tempos, graças a um tweet do ator Finn Jones, conhecido por interpretar Ser Loras Tyrell na série Game of Thrones.
O Cavaleiro das Flores apresentou-o como um acontecimento com potencial para mudar o mundo, manifestando estranheza por os media não pegarem num assunto tão importante.
Caí que nem um patinho, claro. O link que depositou na timeline mandou-me para o YouTube – um importante centro de investigação científico na Web, como se sabe – e a um vídeo no qual uma série de gente conhecida da Ovnilogia repetia alegações já ouvidas há muito tempo e um pouco por todo o lado.
Creio que já conhecem bem o filme: os eles extraterrestres existem, mas os eles terrestres não querem que se saiba.
Anteriormente o Finn partilhara ligações para sítios onde se discutiam «os segredos da Geometria Sagrada» e as «realidades transcendentais quânticas», pelo que eu já devia contar com revelações da mesma envergadura.
A pouco e pouco, porém, a imprensa foi pegando no assunto das revelações extraterrestres e dos encobrimentos governamentais. Até o respeitável The New York Times, atraído pelo facto de senadores e congressistas presidirem ao evento, noticiou-o com toda a seriedade.
Que estavam então os ex-senadores lá a fazer? Iriam revelar segredos ocultos? Fazer-nos uma visita guiada à Área 51? Organizar uma excursão a Roswell com bilhete para a primeira fila de uma autópsia? Desmascarar conspirações? Dar a cara pelos homenzinhos verdes?
A Paradigm Research Group certamente apresentará respostas diferentes a estas questões, mas quem respondeu de forma factual e muito sucinta foi o The Guardian: os cinco ex-senadores e o ex-congressista (nenhum com formação científica) receberam, cada um, 20 mil dólares em honorários para presidirem ao evento e interrogar, durante cinco minutos, as testemunhas.
E quem os pode criticar? Se me quisessem pagar mais de 14 mil euros para passar uns dias de rabo sentado a ouvir uma série de malta a falar de extraterrestres e conspirações, com a obrigação de fazer, durante cinco minutos, umas perguntas inócuas às testemunhas, caramba, alinhava logo.
Cinco minutos passam num instante e, dado que as pessoas têm sempre muitas coisas importantes a revelar, com sorte ficava-me por uma perguntinha a cada uma e despachava-as com um mínimo de brio profissional.
As testemunhas também não são forçadas a colocar a mãozinha sobre a Bíblia e a jurar dizer toda a verdade e nada mais do que a verdade, portanto o acontecimento tem todo o ar de ser uma daquelas inocentes festividades marcianas que não fazem mal a ninguém.
Se tinham 120 mil dólares para gastar em propaganda circense, bem podia ter contratado uns cientistas para investigar as histórias contadas por estes «cidadãos unidos pela transparência».
É compreensível que tenham preferido não arriscar: um cientista poderia defender conclusões embaraçosas para as testemunhas; com um político, contudo, raramente se corre o risco de que diga o que verdadeiramente pensa.

Roscoe G. Bartlett
Se investigarmos mais o perfil destes políticos na reforma quase chegamos à conclusão que eles próprios são, também, extraterrestres: por exemplo, Roscoe Bartlett, membro republicano do Tea Party e com 10 anos de Congresso nas costas, explicou a sua participação nos seguintes termos: «Extraterrestres não são anti-biblícos. Leiam o Livro de Jó – está lá tudo.»
Outro dos participantes foi o Republicano Merril Cook, sobre quem recaem histórias pouco edificantes sobre «comportamentos erráticos» durante os anos em que esteve no Congresso. «Merril fixou residência permanente na terra dos malucos», escreveu a sua própria chefe de gabinete num email interno datado de 2000. «Se ele vos pedir para mandar a roupa interior por fax, por favor façam-no».