JANELAS › 19/06 Istambul: protesto silencioso faz-se ouvir (Marko Djurica)

O que se passa no Brasil? Brasileiro responde.

A mi­lha­res de qui­ló­me­tros de dis­tân­cia, não posso co­nhe­cer em por­me­nor o mo­vi­mento que nas re­des so­ci­ais se in­ter­na­ci­o­na­liza com a hash­tag #ChangeBrazil.
Suspeito que esta re­volta não co­me­çou numa vi­a­gem de au­to­carro mais cara: o ca­mi­nho per­cor­rido é mais longo e tor­tu­oso, e su­jeito a múl­ti­plas in­ter­pre­ta­ções quanto ao seu ver­da­deiro tra­jeto — como se verá nos de­poi­men­tos dos bra­si­lei­ros que acei­ta­ram res­pon­der à pergunta.

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O genial Maximov entre a infância e a idade adulta

Os de­se­nhos do russo Dmitry Maximov – so­bre­tudo o pe­queno du­ende en­ca­pu­çado – lem­bram uma mis­tura en­tre as ani­ma­ções do ve­ne­rá­vel mes­tre ja­po­nês Hayao Miyazaki e os ex­tra­ter­res­tres ne­go­ci­an­tes de robôs no pri­meiro filme de A Guerra das Estrelas.
Maximov, que vive em Moscovo e tem 26 anos, mis­tura ilus­tra­ção e fo­to­gra­fia com grande ta­lento. Não ad­mira que meia-Web se des­faça em elogios…

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20 wallpapers completamente diferentes

Fartos das mes­mas pai­sa­gens? De car­tões pos­tais? Imagens ve­to­ri­ais? Não en­con­trar algo de re­al­mente di­fe­rente quando pro­cu­ram mu­dar o am­bi­ente de tra­ba­lho?
Que tal ex­pe­ri­men­tar es­tes? São fei­tos a par­tir do tra­ba­lho do fo­tó­grafo David Stewart, visto como um mes­tre na co­mé­dia do ab­surdo. Com as fo­tos que se se­guem, te­rão um desk­top que cha­mará a aten­ção de todos…

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A última rosa

Ana Cordeiro Reis tem novo tí­tulo para des­car­re­gar na ne­tla­bel Stray Recordings: «The Last Rose of Irunea». É o úl­timo do seu he­te­ró­nimo Hyaena Fierling Reich – a par­tir de agora uti­li­zará o seu pró­prio nome.
Trabalha nos meios da mú­sica ele­tró­nica, em­bora uti­lize so­bre­tudo o baixo elé­trico, e tem a im­pro­vi­sa­ção como lin­gua­gem. Segue-se a entrevista.

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Because the night is dark and full of (t)errors

Há três anos que os lei­to­res da saga «As Crónicas de Gelo e Fogo» es­pe­ra­vam pe­las re­a­ções de pasmo e hor­ror dos fãs da sé­rie de te­le­vi­são pe­rante o evento que fi­cou para sem­pre co­nhe­cido como The Red Wedding. Finalmente acon­te­ceu – a noite em que o Twitter ex­plo­diu de in­dig­na­ção e al­guns ame­a­ça­ram boi­cotar a sé­rie.
Imaculados: sem­pre a de­ses­pe­rar pe­las fór­mu­las de Hollywood com que cresceram…

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→ 17/05/2013 @18:53

Foi há dois anos, foi hoje

Ragesoss

Crédito: Ragesoss

Hoje re­cebi a no­tí­cia que du­rante tanto tempo mais temi. Morreu o meu amigo Mário Rocha, o meu com­pa­nheiro de tra­ba­lho e di­ver­ti­mento desde os tem­pos do Diário de Lisboa e do Teatro Nacional D. Maria II até que as cir­cuns­tân­cias nos afastaram…

Foi há dois anos, mas só hoje tive co­ra­gem de per­gun­tar. Para mim, é como se ti­vesse acon­te­cido agora mesmo. O Mário ti­nha aca­bado de fa­zer uma diá­lise no hos­pi­tal (ima­gino que, como ha­bi­tu­al­mente, flir­tando com as en­fer­mei­ras), e ao sair so­freu um co­lapso car­díaco. Mais um, mas este o de­fi­ni­tivo: ficou-se logo ali.

Pelo me­nos um ano an­tes disso algo me pa­ra­li­sava an­tes de pe­gar no te­le­fone para sa­ber dele e com­bi­nar­mos uma saída. O gra­dual pro­cesso de de­ca­dên­cia fí­sica de­cor­rente de uma di­a­be­tes aguda, pi­o­rada por mui­tos anos de con­su­mos uís­qui­cos – gos­tava quase tanto do pro­duto es­co­cês como de mu­lhe­res –, foi-lhe des­truindo o corpo.

Das úl­ti­mas ve­zes que o vi, o Mário es­tava muito de­bi­li­tado, co­xe­ava por lhe te­rem ti­rado parte de um pé e quase não via. Já não con­se­guia tra­ba­lhar e era-lhe di­fí­cil, se­não im­pos­sí­vel, dedicar-se à sua grande pai­xão, a fo­to­gra­fia. Ficava em casa, a ou­vir Nick Cave e Cowboy Junkies.

Se an­tes fa­zía­mos gran­des noi­ta­das, cons­pi­rando até al­tas ho­ras da ma­dru­gada – os meus pri­mei­ros li­vros nas­ce­ram des­ses brain stor­mings em ba­res a meia-luz –, já ele não re­sis­tia a mais de meia-hora de tro­cas de palavras.

Por essa al­tura as coi­sas co­me­ça­vam a cor­rer mal co­migo, e de cada vez que nos en­con­trá­va­mos eu sen­tia dissiparem-se as for­ças que, muito a custo, ia con­se­guindo reu­nir para ul­tra­pas­sar as ad­ver­si­da­des. Ficava hor­ri­vel­mente de­pri­mido com o que se es­tava a pas­sar com este grande jor­na­lista e fo­tó­grafo que tam­bém es­cre­via po­e­sia e tra­du­zia pe­ças de teatro.

Era um vo­raz ou­vinte de bom rock e lia tudo o que es­ti­vesse ao seu al­cance, desde fi­lo­so­fia a li­te­ra­tura, sem­pre atento a no­vas cor­ren­tes de pen­sa­mento e a no­vas ten­dên­cias do ro­mance. Deu-me a co­nhe­cer muita coisa que me pas­sara ao lado e es­tá­va­mos cons­tan­te­mente a tro­car dis­cos e livros.

Livros, so­bre­tudo. Possuía de­ze­nas de mi­lha­res, em­pi­lha­dos num quarto por todo o lado. Estão al­guns dele aqui em casa e agora sei que não os posso de­vol­ver… Olho para as lom­ba­das e vejo au­to­res como Foucault e Eco.

Tinha uma cu­ri­o­si­dade in­sa­ciá­vel pelo sexo fe­mi­nino e a fa­ci­li­dade com que se­du­zia as mu­lhe­res era um mis­té­rio para este de­sa­jei­tado nas ar­tes do amor. Sempre pes­soas fas­ci­nan­tes, be­las, in­te­li­gen­tes. Dei por mim, em al­gu­mas oca­siões, a invejá-lo.

Não es­tive com ele na úl­tima fase da sua do­ença e isso vai assombrar-me até che­gar a mi­nha vez de par­tir. Tive sem­pre re­ceio de que, no ou­tro lado do te­le­fone, sur­gisse não o Mário, mas uma voz a anunciar-me o des­fe­cho que pa­re­cia cada vez mais inevitável.

Pois acon­te­ceu e eu não fiz o que um bom amigo deve fa­zer nas ho­ras más: apoiá-lo, es­tar pre­sente, mesmo que tam­bém mal-amanhado pela vida. Nunca me per­do­a­rei tal cobardia.

→ 17/05/2013 @15:11

O rock das docas

The Fall é o punk de de­pois do punk, e tal­vez seja por isso que lhe co­lo­cam o ca­rimbo «pós». Uma sim­pli­fi­ca­ção que ig­nora al­guns fac­tos. Este, por exem­plo: se o punk era uma mú­sica de jo­vens em co­li­são com o sis­tema de en­sino, o punk pós-punk de Mark E. Smith, o vo­ca­lista, au­tor das can­ções e único mem­bro per­ma­nente deste grupo bri­tâ­nico, foi desde o co­meço – e as­sim con­ti­nuou – uma mú­sica de operários.

Mark E. Smith

Smith tra­ba­lhava nas do­cas, mas ti­nha um ape­tite in­te­lec­tual imenso. Devorava os es­cri­to­res exis­ten­ci­a­lis­tas e muito em par­ti­cu­lar Albert Camus (a quem foi bus­car o nome da banda), as­sim como a li­te­ra­tura ne­gra de um Edgar Allan Poe e um H. P. Lovecraft, e ti­nha es­pe­cial de­vo­ção pelo alu­ci­nado Philip K. Dick.

O sur­re­a­lismo nas ar­tes vi­su­ais e o neo-realismo ci­ne­ma­to­grá­fico eram ou­tras suas fon­tes de interesse.

Além disso, ga­nhara uma cons­ci­ên­cia po­lí­tica nas car­gas e des­car­gas dos na­vios: está há muito li­gado ao trots­kista Soci­a­list Workers Party.

Cedo viu no rock uma via para se ex­pres­sar ar­tis­ti­ca­mente, pelo que tro­cou a es­tiva por uma car­reira como mú­sico a par­tir de 1976, nunca es­que­cendo as suas ori­gens. Com uma tal con­vic­ção que che­gou a fa­zer uma tour­née com a ba­cia par­tida, sen­tado numa ca­deira de ro­das, até que as do­res e os efei­tos da me­di­ca­ção o im­pe­di­ram de con­ti­nuar com os concertos.

A sua con­tra­di­tó­ria aten­ção às re­a­li­da­des so­ci­ais e eco­nó­mi­cas e aos uni­ver­sos fan­ta­si­o­sos e de fic­ção ci­en­tí­fica de­ter­mi­nou o con­teúdo dos mi­lha­res de le­tras (ou, mais exa­ta­mente, de po­e­mas, pois têm re­le­vân­cia lí­rica) que já es­cre­veu: tanto canta so­bre os di­rei­tos dos tra­ba­lha­do­res, as con­sequên­cias do abuso de dro­gas e a vi­o­lên­cia dos ho­o­li­gans como so­bre o so­bre­na­tu­ral e as vi­a­gens no tempo.

Sempre de forma críp­tica, com jo­gos de sen­tido, pro­cu­rando mos­trar o ab­surdo dos mo­dos de vida capitalistas.

Tem uma voz e uma ma­neira de can­tar úni­cas, en­tre o de­cla­ma­tó­rio e o per­verso, ora pa­re­cendo cus­pir as pa­la­vras, ora mantendo-as na boca para lhes ava­liar a acidez.

Tornou-se num sím­bolo, sendo cons­tan­te­mente con­vi­dado para ses­sões de spo­ken word, fil­mes, sé­ries te­le­vi­si­vas e gra­va­ções de dis­cos de ou­tros gru­pos, como Mouse on Mars, Gorillaz, Coldcut e Inspiral Carpets. A in­dús­tria da mú­sica e do es­pe­tá­culo gosta às ve­zes de se mos­trar pro­gres­sista, e quando tal foi da con­ve­ni­ên­cia deste mi­li­tante ele apro­vei­tou as cir­cuns­tân­cias para es­pa­lhar a mensagem.

A mú­sica de The Fall, essa, é rit­mi­ca­mente re­pe­ti­tiva, hip­nó­tica, obsessivo-compulsiva. Há algo de funk nas li­nhas de baixo e ba­te­ria, mas a gui­tarra coloca-se de fora das tra­mas, sendo uti­li­zada como um ge­ra­dor de ruído.

Ou ama-se ou odeia-se e eu es­tou en­tre os que a ela ade­ri­ram logo desde a pri­meira au­di­ção. Pelos vis­tos, tam­bém os or­ga­ni­za­do­res do fes­ti­val Out Fest, que to­dos os anos de­corre no Barreiro. Em Outubro te­re­mos por cá Mark Edward Smith, o pro­le­tá­rio do rock, mais os seus parceiros…

→ 17/05/2013 @10:25

5 filmes que nunca mais se esquecem

Todos te­mos fil­mes que nunca mais es­que­ce­mos – às ve­zes por os achar­mos de grande qua­li­dade, ou­tras por os as­so­ci­ar­mos a mo­men­tos im­por­tan­tes da nossa vida. Ocasionalmente, pe­las duas ra­zões. Sem mais de­lon­gas, seguem-se cinco dos fil­mes que nunca es­que­ce­rei na vida — e porquê.

 

The Shining

The ShiningThe Shining

É um clás­sico de ter­ror do mes­tre Kubrik, mas du­rante uns tem­pos foi a me­lhor ma­neira que ar­ran­jei para ex­pli­car por que ra­zão o ci­nema era uma coisa muito fixe. As ca­re­tas ar­tís­ti­cas do Jack Nicholson, a mú­sica, os pla­nos, os tra­vel­lings, a mon­ta­gem, tudo isso os des­gra­ça­dos e des­gra­ça­das sen­ta­dos a meu lado te­riam de re­pa­rar, quer qui­ses­sem ou não. Rituais mas­si­vos de con­ver­são? Bons tempos!

 

Encontros Imediatos do Terceiro Grau

Encontros Imediatos do Terceiro GrauEncontros Imediatos do Terceiro Grau

O meu pri­meiro con­tacto a sé­rio com ex­tra­ter­res­tres! Como po­de­ria eu es­que­cer a cri­ança apon­tando para uma nave es­pa­cial no céu ex­cla­mando «Olha, ge­la­dos!», a con­versa sin­fó­nica com os ET’s — não fa­lando da tre­menda (di­ria: as­tro­nó­mica) dor de ca­beça com que fi­quei de­pois de sair do ci­nema? Ah, ganda Spielberg, que nessa al­tura ainda te achava o su­pras­sumo da cos­te­leta cinematográfica.

E este foi o pri­meiro filme em que fui au­to­ri­zado pe­los meus pais a ver sem su­per­vi­são. Vi-o num ci­nema no Estoril há muito de­sa­pa­re­cido, o Oxford, fa­moso por ter ca­dei­ras tão con­for­tá­veis que me­tade das pes­soas nas ses­sões da meia-noite aca­bava por adormecer.

 

Vem e Vê — Requiem para um Massacre

Vem e vê - Requiem para um massacre

O me­lhor filme de guerra que vi na vida não foi o ex­ce­lente Apocalypse Now (Francis Coppola), Nascido Para Matar (Kubrick), Platoon (Oliver Stone) ou o mí­tico Iron Cross (Sam Peckinpah). O me­lhor de to­dos foi um filme so­vié­tico de Elem Klimov que in­fe­liz­mente mui­tos des­co­nhe­cem: Vem e Vê — Requiem Para um Massacre.

Quando o vi pela pri­meira vez foi em vés­pe­ras de ir para a tropa e é di­fí­cil des­cre­ver o im­pacto que me cau­sou. O filme é um re­lato da in­va­são da Bielorrússia pe­las tro­pas na­zis du­rante a II Guerra Mundial, e das atro­ci­da­des co­me­ti­das con­tra os al­deões e os par­ti­zans que pe­ga­ram em ar­mas para de­fen­der as ter­ras. À su­per­fí­cie, re­trata a guerra como algo obs­ceno e he­di­ondo. Mas es­te­ti­ca­mente é tão belo que, às tan­tas, a vi­o­lên­cia pa­rece ir­rom­per do filme como uma chama glo­ri­fi­ca­dora, quei­mando a face de quem está a as­sis­tir. (Trailer)

 

Asas do Desejo

Asas do Desejo

Se nunca vi­ram este filme vejam-no, por fa­vor. Belíssimo e emo­ci­o­nante, um dos meus fil­mes de ca­be­ceira. E não se dei­xem en­ga­nar pela pin­dé­rica adap­ta­ção que Hollywood fez uns anos mais tarde com o Nicholas Cage… Refiro-me ao ori­gi­nal ale­mão, fil­mado numa Berlim ainda di­vi­dida ao meio pelo Muro e re­pleta de an­jos da guarda — al­guns flu­tu­ando es­toi­ca­mente nas nos­sas cons­ci­ên­cias, ou­tros su­cum­bindo ao amor e caindo à Terra.

Em ví­deo: um «falso» te­le­disco dos Radiohead com as ima­gens deste filme extraordinário.

 

Solaris

Solaris

A his­tó­ria de uma es­ta­ção es­pa­cial or­bi­tando o pla­neta Solaris, onde o único ser vivo é um oce­ano in­te­li­gente, é a mais co­nhe­cida do es­cri­tor de fic­ção ci­en­tí­fica Stanislav Lem e foi adap­tada por Andrei Tarkovski em 1972 (não gosto muito da ver­são de Steven Soderbergh, de 2002).

A forma como esse oce­ano in­te­rage com os ci­en­tis­tas que o ten­tam es­tu­dar re­flete a vi­são de um en­con­tro com uma exis­tên­cia po­de­rosa e quase ina­tin­gí­vel, ca­paz de to­car a alma dos ci­en­tis­tas sem re­le­var qual­quer tipo de mo­ra­li­dade ou juízo hu­mano. A um dos ci­en­tis­tas faz sur­gir um amor per­dido: a mu­lher fa­le­cida há muito, agora uma ré­plica per­feita, es­pe­lho da sua pró­pria me­mó­ria, mas imor­tal e auto-consciente, do­tada de uma força e re­sis­tên­cia sobre-humanas.

Essas ré­pli­cas têm uma exis­tên­cia boa ou má? Qual a sua fi­na­li­dade? A res­posta não se en­con­tra ao al­cance dos con­cei­tos hu­ma­nos — e é essa au­sên­cia de res­posta com sen­tido mo­ral que, a pouco e pouco, vai en­lou­que­cendo toda a tripulação.

 

A vossa lista de fil­mes inesquecíveis

Reduzir esta lista a cinco fil­mes é cruel, claro – po­dia ter in­cluído o Magnolia, os dois pri­mei­ros Padrinhos, Era Uma Vez na América, A Ár­vore da Vida ou Cidade de Deus, en­tre mui­tos ou­tros – o que não fal­tam são bons fil­mes e te­mos uma caixa de co­men­tá­rios pronta a re­ce­ber mais obras para a lista dos inesquecíveis.

Sendo as­sim, meus ca­ros, di­gam lá quais os fil­mes que nunca mais con­se­gui­ram esquecer?

→ 17/05/2013 @3:37

6 fotos, 6 mulheres

As ima­gens que se se­guem são fo­tos ines­que­cí­veis. Têm em co­mum o facto de te­rem sido ti­ra­das por mu­lhe­res ou te­rem uma mu­lher como prin­ci­pal protagonista.

Da mu­lher que en­fren­tou as ba­las para fo­to­gra­far uma guerra à que en­fren­tou a fú­ria de um com­pa­nheiro ciu­mento, as fo­tos do­cu­men­tam mo­men­tos bi­zar­ros, trá­gi­cos, in­qui­e­tan­tes, de vá­rias épo­cas e mun­dos, ima­gens di­fí­ceis de di­ge­rir, se ca­lhar, mas to­das marcantes.

 

Lee Miller na banheira

 David E. Scherman

Uma mu­lher lavando-se numa ba­nheira de uma casa qual­quer – nada há de ex­tra­or­di­ná­rio na cena que a foto retrata.

É nos por­me­no­res cui­da­do­sa­mente es­co­lhi­dos pelo fo­tó­grafo David E. Scherman que per­ce­be­mos o que a torna in­tri­gante: o re­trato de Hitler atrás da mo­delo, a es­cul­tura clás­sica à frente, as bo­tas da tropa que dei­xa­ram man­chas de lama no ta­pete, o uni­forme lan­çado para a ca­deira: o mundo de onde veio Lee Miller, a mu­lher na ba­nheira, está de­ma­si­ado sujo.

Nada nes­tes ele­men­tos fa­ria da foto um clás­sico, mas a casa onde Lee Miller e David E. Scherman se en­con­tram é a de Adolf Hitler: aquela é a sua casa de ba­nho, a sua ba­nheira, o seu ta­pete que um dia foi ima­cu­la­da­mente branco.

A foto foi ti­rada a 30 de abril de 1945, mas por esta época já era longo e si­nu­oso o per­curso de Lee Miller, que ti­nha 38 anos quando en­trou na ba­nheira do di­ta­dor nazi.

Começara a sua car­reira como mo­delo em Nova Iorque, aos 19 anos, mas no fi­nal da dé­cada de 20 mudara-se para Paris, ini­ci­ando uma car­reira ainda mais pro­mis­sora como fo­tó­grafa de moda. Em 1932, re­gres­sou a Nova Iorque. Dois anos de­pois, aban­do­nou uma car­reira de su­cesso como fo­tó­grafa para ca­sar com um ho­mem de ne­gó­cios egíp­cio. Em 1937, can­sada de uma vida mo­nó­tona no Cairo, dei­xou o ma­rido e re­gres­sou a Paris, onde co­nhe­ceu o se­gundo ho­mem da sua vida, o pin­tor sur­re­a­lista bri­tâ­nico Roland Penrose.

A guerra alcançou-a em Londres, quando a par­tir de me­a­dos de agosto de 1940 se ini­ciou a Batalha de Inglaterra – uma gi­gan­tesca ofen­siva aé­rea alemã des­ti­nada a ar­ra­sar as prin­ci­pais ci­da­des in­gle­ses e a mo­ral das po­pu­la­ções. Ignorando os pe­di­dos de ami­gos e fa­mi­li­a­res para re­gres­sar de ime­di­ato aos EUA, Miller de­ci­diu tornar-se cor­res­pon­dente de guerra para a Vogue. Os seus pri­mei­ros tra­ba­lhos do­cu­men­tam os bom­bar­de­a­men­tos alemães.

Em 1942, um mês de­pois do Dia D, já se en­con­trava em França. Fotografou a li­ber­ta­ção de Paris e os hor­ro­res dos cam­pos de con­cen­tra­ção em Buchenwald e Dachau. Foi de­pois de Dachau que ela e o fo­tó­grafo David E. Scherman par­ti­ram para Munique, a ci­dade onde Hitler vi­vera desde a dé­cada de 20, «o berço do ter­ror» cuja queda am­bos an­si­a­vam por fotografar.

Quando lá che­ga­ram, já a ci­dade caíra às mãos da 45ª Divisão do exér­cito dos Estados Unidos. Sabiam a mo­rada da casa de Hitler e para lá se di­ri­gi­ram. Depois de com­prar o edi­fí­cio em 1935, o chan­ce­ler trans­for­mara a cave num abrigo con­tra bom­bas e o rés-do-chão e pri­meiro an­dar em aquar­te­la­men­tos para os guar­das, fixando-se no úl­timo piso.

Miller e o co­lega, que por esta al­tura se tor­nara seu amante, en­tra­ram nos apo­sen­tos de Hitler, ob­ser­vando qua­dros «de arte me­dío­cre», ar­má­rios «com as ini­ci­ais A.H.» e uma mesa de reu­niões onde o di­ta­dor se sen­tara, pla­ne­ando com os seus ca­pan­gas na­zis a im­ple­men­ta­ção da Solução Final». Passaram ho­ras na­quela casa, des­fru­tando dos con­for­tos mo­der­nos: a água cor­ria quente nas tor­nei­ras, a ele­tri­ci­dade ainda funcionava.

Pela pri­meira vez em muito tempo, po­diam to­mar ba­nho como pes­soas nor­mais. E a ideia da foto to­mou forma, com Miller afir­mando mais tarde que usara a ba­nheira de Hitler para «lim­par o pó que trou­xera do campo de con­cen­tra­ção de Dachau».

A en­ce­na­ção de fo­tos não era ati­vi­dade es­tra­nha à du­pla de fo­tó­gra­fos, que ho­ras an­tes con­ven­cera um sol­dado a deitar-se na cama de Hitler, fin­gindo que es­tava a ler um exem­plar da fa­mosa auto-biografia po­lí­tica e ide­o­ló­gica do di­ta­dor, Mein Kampf.

O re­trato, a es­tá­tua, as bo­tas, o uni­forme, tudo foi cui­da­do­sa­mente co­lo­cado como se es­ti­ves­sem a pre­pa­rar uma foto para uma re­vista de de­co­ra­ção. E Miller fi­cou co­lo­cada en­tre dois ex­tre­mos, o mons­tru­oso Hitler e a be­leza clás­sica de uma obra de arte, a mão to­cando no om­bro com toda a le­veza do mundo, o rosto mos­trando uma ex­pres­são am­bí­gua, quase indecifrável.

Dachau tam­bém ti­nha os seus pró­prios «ba­nhei­ros», recordava-se Miller, aquele em que as ví­ti­mas eram for­ça­das a despir-se, jul­gando que iriam to­mar ba­nho, para de­pois mor­re­rem ga­se­a­das. E de­pois, para tor­nar a oca­sião (e a foto) ainda mais me­mo­rá­vel, pouco an­tes da meia-noite re­ce­be­ram a no­tí­cia de que Hitler, re­fu­gi­ado no bun­ker de uma Berlim em ruí­nas, se sui­ci­dara para evi­tar ser cap­tu­rado pe­los sol­da­dos so­vié­ti­cos. Um mundo tem­po­ra­ri­a­mente mais limpo.

 

A prin­cesa de cera do III Reich

Lee Miller

A 30 de abril de 1945, en­quanto Lee Miller se la­vava dos hor­ro­res dos cam­pos de con­cen­tra­ção, o Exército Vermelho encontrava-se a dois blo­cos de apar­ta­men­tos de dis­tân­cia da Chanceleria do Reich. Enquanto ale­mães e so­vié­ti­cos com­ba­tiam edi­fí­cio a edi­fí­cio, rua a rua, Hitler suicidou-se no seu bun­ker com um tiro na cabeça.

Segundo as me­mó­rias de um di­plo­mata ja­po­nês, o Führer so­nhara com um fim mais glo­ri­oso: se o ini­migo bol­che­vi­que al­guma vez che­gasse a Berlim, em­bar­ca­ria so­zi­nho num Messerschmitt car­re­gado de bom­bas e far-se-ia ex­plo­dir al­gu­res so­bre o Báltico, sacrificando-se como a he­roína Brünnhilde na pira fu­ne­rá­ria de Siegfried, da ópera de Wagner «O Crepúsculo dos Deuses». Hitler pla­ne­ara elevar-se aos céus como um deus, mas não pas­sou do sofá de um bun­ker.

Muitos ale­mães se sui­ci­da­ram à me­dida que o III Reich se des­fa­zia em ruí­nas. Aos que as­sis­ti­ram ao úl­timo es­pe­tá­culo da Filarmónica de Berlim – «Crepúsculo dos Deuses», por si­nal – fo­ram da­das cáp­su­las de ci­a­neto. Muitos na au­di­ên­cia as to­ma­ram, pre­fe­rindo mor­rer ao som de Wagner do que ao da ins­pi­ra­dora nº 7 de Shostakovich, sinfonia-tributo à cidade-natal, a mar­ti­ri­zada Leninegrado cer­cada pe­los na­zis du­rante 872 dias.

Lee Miller, a modelo-fotógrafa que se sen­tara na ba­nheira de Hitler, ti­rou esta fo­to­gra­fia à fi­lha do bur­go­mes­tre de Leipzig – uma mu­lher loira, jo­vem, bo­nita, que pre­fe­riu ser um ca­dá­ver ima­cu­lado do que um corpo vivo vi­o­lado pelo ini­migo. Toda a fa­mí­lia se suicidou.

Miller, que co­me­çou e ter­mi­nou a car­reira como fo­tó­grafa de moda para a Vogue, transformou-a numa prin­cesa de cera. Não é a suás­tica que ve­mos, mas o sím­bolo da Cruz Vermelha Alemã co­lado no braço, um sím­bolo que nos ajuda a lem­brar que tal­vez, no fundo, aquela mu­lher nunca ti­vesse sido nazi. Uma prin­cesa de cera fi­nal­mente li­berta de to­dos os ma­les deste mundo, os lá­bios en­tre­a­ber­tos como se ainda es­ti­vesse à es­pera de um beijo que a fi­zesse acordar.

 

A ex­pe­ri­ên­cia com Ninalee Craig

Ruth Orkin

Ruth Orkin vi­a­jou para Itália em 1951 com a ideia de re­criar os pro­ble­mas que en­fren­ta­vam as jo­vens mu­lhe­res quando de­ci­diam vi­a­jar so­zi­nhas – en­tre es­tes, li­dar com ho­mens e ra­pa­zes de san­gue quente, san­gue la­tino. Viajou em con­junto com a mo­delo Ninalee Craig, 23 anos, sa­bendo de an­te­mão que tipo de fo­to­gra­fia procurava.

Queria cap­tar uma si­tu­a­ção ainda vul­gar nos nos­sos dias: uma mu­lher pas­sando pela rua (neste caso a es­quina da Piazza Della Repubblica) su­jeita ao olhar in­tenso dos ho­mens, aos sor­ri­sos, às «bo­cas», às pro­vo­ca­ções, mas sem se dei­xar in­ti­mi­dar ou desviar-se do ca­mi­nho que escolhera.

O que fez a di­fe­rença en­tre uma fo­to­gra­fia pu­ra­mente en­ce­nada e esta American Girl in Italy? Em vez de re­criar ar­ti­fi­ci­al­mente a si­tu­a­ção em es­tú­dio, Orkin fez uma «ex­pe­ri­ên­cia»: co­lo­cou a be­lís­sima amiga a pas­sar so­zi­nha di­ante de um nu­me­roso grupo de ho­mens ita­li­a­nos e fo­to­gra­fou o que su­ce­deu a se­guir. A fo­to­gra­fia aca­bou por ser­vir a Orkin para ilus­trar um ar­tigo in­ti­tu­lado Don’t Be Afraid to Travel Alone, pu­bli­cado pela re­vista Cosmopolitan.

Sessenta anos de­pois do pas­seio pela Piazza Della Repubblica, a mo­delo na foto veio ex­pli­car que a ima­gem re­sul­tara de mui­tas ho­ras de di­ver­são. Não se trata de um sím­bolo de as­sé­dio so­frido pe­las mu­lhe­res, in­sis­tiu Ninalee Craig, agora com 83 anos, «mas de al­guém que está a pas­sar um tempo ab­so­lu­ta­mente ma­ra­vi­lhoso». A fo­tó­grafa que­ria de­mons­trar que uma mu­lher não de­via re­cear vi­a­jar so­zi­nha, ou seja, não deve ter medo de ser in­de­pen­dente e colocar-se acima de qual­quer olhar.

 

A luta de Maggie pela felicidade

Sara Naomi Lewkowicz

Não era para aca­bar as­sim, numa foto tão pe­nosa e an­gus­ti­ante, o ho­mem ata­cando fi­si­ca­mente a mu­lher; uma cri­ança de dois anos, de­ses­pe­rada, in­ca­paz de aca­bar com a violência.

A re­por­ta­gem fo­to­grá­fica de Sara Naomi Lewkowicz nada ti­nha a ver com um caso de vi­o­lên­cia doméstica.

A ideia, con­cre­ti­zada du­rante me­ses, te­ria sido fo­to­gra­far Shane e Maggie, no Ohio, e a sua luta diá­ria para re­cons­truir as suas vi­das: Maggie, 20 anos, mãe de duas cri­an­ças fruto de uma re­la­ção fa­lhada, apos­tara agora num amor à pri­meira vista com um ex-presidiário; Shane, 31 anos, cres­cera num am­bi­ente fa­mi­liar vi­o­lento, pas­sara mais de me­tade da vida na pri­são e ten­tava agora ar­ran­jar tra­ba­lho, mu­dar de vida; essa nova vida, ga­ran­tira, só se­ria pos­sí­vel com Maggie.

Shane, de­pois de sair de uma pri­são real, en­fren­tava agora o es­tigma do seu pas­sado, uma pri­são me­ta­fó­rica que mui­tos na sua si­tu­a­ção sen­tem. Era esse o tema prin­ci­pal da reportagem.

Sem con­se­guir ar­ran­jar tra­ba­lho, Shane era in­ca­paz de li­dar com as ten­sões em casa: os ciú­mes do fi­lho de qua­tro anos de Maggie, com quem dis­pu­tava quase in­fan­til­mente as aten­ções da mãe e mulher.

As pe­que­nas dis­cus­sões, lu­tas, ciú­mes, zan­gas, re­con­ci­li­a­ções e ro­ti­nas fo­ram do­cu­men­ta­das pela fo­tó­grafa du­rante meses.

A enorme ta­tu­a­gem no pes­coço onde exi­bia o nome da com­pa­nheira e a re­la­ção mais ca­ri­nhosa com a fi­lha, de dois anos, da­vam a Maggie a es­pe­rança de que a vida tran­quila e es­tá­vel com que sem­pre so­nhou ainda pu­desse vir a acon­te­cer, ao lado de Shane.

Depois de uma noite em que fi­nal­mente pu­de­ram sair os dois jun­tos, Shane ex­plo­diu num ata­que in­con­tro­lá­vel de ciú­mes e tornou-se vi­o­lento. Confrontou Maggie, cercou-a, empurrou-a, gri­tou, ame­a­çou, in­di­fe­rente aos ape­los da mu­lher que o avi­sava, aos so­lu­ços, «por fa­vor, Shane, a cri­ança está a as­sis­tir a isto tudo».

A fo­tó­grafa Sara Naomi Lewkowicz apro­vei­tou um mo­mento de dis­tra­ção de Shane para pe­gar no te­le­mó­vel e cha­mar a po­lí­cia. Depois o ins­tinto pro­fis­si­o­nal sobrepôs-se e con­ti­nuou a fo­to­gra­far até à che­gada dos agen­tes. Shane foi le­vado pe­los po­lí­cias, en­quanto su­pli­cava a Maggie para não apre­sen­tar queixa; Maggie cho­rou, mas não cedeu.

Shane vol­tou para a pri­são e Maggie, uma vez mais, foi for­çada a re­co­me­çar. Autorizou a fo­tó­grafa a pu­bli­car to­das as fo­tos, sem ex­ce­ção, «como exem­plo para ou­tras mu­lhe­res», e mudou-se para ou­tra ci­dade, longe do ho­mem por quem ar­ris­cou tudo. A sequên­cia com­pleta de fo­tos foi pu­bli­cada neste site.

 

A morte da mu­lher formosa

A 29 de abril de 1979, uma mu­lher pres­tes a mor­rer de­cide atra­ves­sar a Avenida Chapultepec pela rua Monterrey, uma das mais mo­vi­men­ta­das da Cidade do México.

Trinta e qua­tro anos de­pois já pouco se co­nhece dela, ex­ceto o nome, a be­leza e a ele­gân­cia, que sobreviveram.

Enquanto Adela Legarreta Rivas atra­vessa a rua, o con­du­tor de um Datsun branco passa um cru­za­mento com o si­nal ver­me­lho e em­bate nou­tro carro.

Deste ho­mem tam­bém nada se co­nhece, ex­ceto o sexo e a cri­mi­nosa im­pru­dên­cia. Perde o con­trole do Datsun e apa­nha Adela em cheio, lançando-a con­tra um poste.

Enrique Metinides

Este poste, esta mulher.

O ho­mem que cap­tou o mo­mento em que Adela mor­reu como uma so­prano numa tra­gé­dia de ópera fo­to­gra­fara o seu pri­meiro ca­dá­ver aos doze anos.

O pai ti­nha uma loja que ven­dia má­qui­nas fo­to­grá­fi­cas e fa­zia re­ve­la­ções, e mu­dou a vida do fi­lho quando lhe co­lo­cou uma nas mãos.

Enrique Metinides, me­xi­cano, grande con­su­mi­dor de fil­mes de gangs­ters ame­ri­ca­nos, plantava-se à porta das de­le­ga­cias para re­criar com a jo­vem câ­mara as ce­nas que via na televisão.

Aos treze, já tra­ba­lhava para os ta­bloi­des me­xi­ca­nos ávi­dos do san­gue que es­cor­ria abun­dan­te­mente pe­las es­tra­das e ru­e­las do país.

A nota roja, como é co­nhe­cida a im­prensa sen­sa­ci­o­na­lista no país, deu-lhe fama e uma al­cu­nha: El niño, por ser miúdo e pela tur­bu­lên­cia com que en­fren­tava o pe­rigo só para con­se­guir as me­lho­res fotos.

Tirou mui­tas em que é pre­ciso um estô­mago forte para su­por­tar o que os olhos veem, mas tam­bém pro­cu­rou ser dis­creto, va­riar o ân­gulo dos acon­te­ci­men­tos mór­bi­dos e san­gren­tos que se re­pe­tiam dia após dia e focar-se tam­bém nos ros­tos dos que as­sis­tiam, com­pondo um qua­dro ge­ral de ví­ti­mas e voyeurs do ma­ca­bro. Estas são as suas me­lho­res fotos.

Ainda as­sim, «se pu­desse em­pi­lhar to­dos as ví­ti­mas e ca­dá­ve­res que já fo­to­gra­fei, te­ria uma pi­lha com a al­tura de uma mon­ta­nha» — cal­cu­lou ele numa ex­tensa en­tre­vista gra­vada em ví­deo. — «Você não faz ideia os mi­lha­res e mi­lha­res de aci­den­tes que tes­te­mu­nhei ao longo de cin­quenta anos de car­reira, as ve­zes em que tes­te­mu­nhei o ódio e a mal­dade en­tre os ho­mens, o ins­tinto do ser hu­mano de ma­tar por ma­tar».

Aos 72, é um ho­mem ha­bi­tu­ado à pre­sença dos mor­tos e ao so­fri­mento dos que lhes so­bre­vi­vem, e só ad­mite ter sen­tido «trans­torno» quando se de­pa­rava com cri­an­ças mor­tas em aci­den­tes ou em cir­cuns­tân­cias ainda mais hor­rí­veis – o que lhe acon­te­ceu mui­tas vezes.

Mas «aquela foto é es­pe­cial» — re­corda ele na mesma en­tre­vista — «por­que a se­nhora não pa­rece es­tar morta».

O fo­tó­grafo afirma que a se­nhora era uma jor­na­lista e es­tava ali para se en­con­trar com a irmã para se di­ri­gi­rem à apre­sen­ta­ção do seu úl­timo li­vro – daí es­tar tão im­pe­ca­vel­mente ves­tida e ma­qui­lhada; to­dos os ar­ti­gos de jor­nais que con­sul­tei so­bre Enrique Metinides e a sua fa­mosa foto di­zem que Adela, «na ver­dade», era uma atriz mexicana.

Na ver­dade, a ex­cen­tri­ci­dade da foto tor­nou to­dos es­tes por­me­no­res in­sig­ni­fi­can­tes, o que não deixa de ser triste para quem re­al­mente a conheceu.

Todos os ele­men­tos são a an­tí­tese do que nor­mal­mente se es­pera en­con­trar em ima­gens de aci­den­tes, com os cor­pos en­san­guen­ta­dos, hor­ri­vel­mente mu­ti­la­dos, vi­ra­dos do avesso. Contudo, impressiona.

A pre­sença da morte nesta foto é tão sub­til que, à me­dida que nos aper­ce­ber­mos dos seus si­nais, nos sen­ti­mos mais afe­ta­dos; um ri­a­cho de san­gue a escorrer-lhe pelo rosto pa­rece cho­car mais do que os la­gos ver­me­lhos que ba­nham as mar­gens dos con­ti­nen­tes inex­plo­ra­dos da morte.

Como re­fere um ar­tigo no site Iconic Photos, «Death of a Beautiful Woman», olha­mos para a foto e jul­ga­mos es­tar pe­rante uma en­ce­na­ção ao es­tilo da United Colors of Benetton ou uma ima­gem edi­to­rial, cheia de gla­mour, da re­vista Face: a ex­pres­são do rosto, o olhar se­reno, «o ca­belo tão ma­cio, as unhas ver­me­lhas e cui­da­das, a pul­seira bri­lhante, a bolsa, o ho­mem da Cruz Vermelha inclinando-se so­bre a mu­lher para a co­brir com um ca­saco»

tão so­lí­cito como um ca­va­lheiro pro­cu­rando pro­te­ger a sua don­zela do frio.

 

A úl­tima ses­são de Marilyn

Lawrence Schiller

Marilyn Monroe es­tava no seu úl­timo ano de vida, «ele­gante e bo­nita como nunca an­tes es­ti­vera».

Estas pa­la­vras são do ar­gu­men­tista, pro­du­tor e fo­tó­grafo Lawrence Schiller, o ho­mem que fi­cará co­nhe­cido por ter re­gis­tado para a pos­te­ri­dade o mo­mento em que pela pri­meira vez uma grande e de­se­já­vel es­trela de Hollywood se des­piu por com­pleto para as câmaras.

Em Abril de 1962, Marilyn Monroe ini­ciou as fil­ma­gens de um re­make de um an­tigo su­cesso da 20th Century Fox, My Favorite Wife. A ideia era fil­mar uma co­mé­dia ro­mân­tica, mas o que fi­cou para a his­tó­ria fo­ram os trá­gi­cos mo­men­tos de Marilyn, con­su­mida por an­ti­de­pres­si­vos e bar­bi­tú­ri­cos, in­ca­paz de en­con­trar um ca­mi­nho que lhe per­mi­tisse se­guir em frente com a sua vida: apa­nhou uma grave in­fe­ção res­pi­ra­tó­ria que a dei­xou de­bi­li­tada du­rante al­gum tempo e in­ca­paz de tra­ba­lhar. Quando su­pe­rou a do­ença, fal­tou às fil­ma­gens por pro­ble­mas que nin­guém de­se­jou, ou con­se­guiu, entender.

A 19 de Maio, a «de­sa­pa­re­cida» re­a­pa­rece em Nova Iorque, no Madison Square Garden, para ce­le­brar o 45º ani­ver­sá­rio de John F. Kennedy. Marilyn sobe ao palco para can­tar um in­si­nu­ante Parabéns a Você ao ex-amante e pre­si­dente dos Estados Unidos. Conta-se que o ves­tido que usou era tão justo que teve de ser li­te­ral­mente en­fi­ada den­tro da roupa.

O es­tú­dio fi­cou ir­ri­tado com o es­cân­dalo, mas dei­xou pas­sar. Marilyn re­gressa de Nova Iorque como se ti­vesse re­nas­cido. Chega para fil­mar uma cena à beira da pis­cina. Todos es­pe­ram que seja fil­mada em fato de ba­nho, como prevê o ar­gu­mento, mas Marilyn sur­pre­ende toda a gente: despe-se, nada nua, deleita-se, Marilyn na pose, Marilyn no sor­riso, Norma Jean no olhar. A câ­mara de Lawrence Schiller, or­gás­mica, dis­para incessantemente.

Marilyn Monroe, o maior sím­bolo se­xual de Hollywood, era a pri­meira a despir-se di­ante das câ­ma­ras. O filme es­tava fa­dado para o su­cesso, mas dos olhos de Marilyn de­sa­pa­re­ce­ram os re­fle­xos das lu­zes de Nova Iorque e de­pressa a vida se tor­nou baça por ra­zões que nin­guém de­se­jou, ou con­se­guiu, entender.

As suas fal­tas tornaram-se in­com­por­tá­veis e, em Junho, o es­tú­dio despediu-a. Só a in­ter­ven­ção da co-estrela do filme, o en­tão todo-poderoso Dean Martin, grande amigo de Frank Sinatra, lhe per­mi­tiu re­cu­pe­rar o tra­ba­lho e comprometer-se com um novo pe­ríodo de fil­ma­gens que se ini­ci­a­ria no prin­cí­pio de outubro.

Demasiado tarde: a 5 de agosto, foi en­con­trada morta na sua casa em Brentwood. Embora as es­pe­cu­la­ções so­bre a ver­da­deira causa da sua morte se­jam mui­tas, a ver­são ofi­cial afirma que a atriz mor­reu com uma «over­dose de com­pri­mi­dos» — por ra­zões que nin­guém de­se­jou, ou con­se­guiu, entender.

→ 16/05/2013 @15:13

Horizontes longínquos

Lua

Lua

O que não po­de­mos ex­pe­ri­men­tar com­pen­sa­mos com ima­gi­na­ção – neste caso, com a de Ron Miller, fa­moso ilus­tra­dor de pai­sa­gens es­pa­ci­ais, re­ais e fic­tí­cias, «es­pe­ci­a­li­zado em Astronomia, Ciência, Ficção Científica e Fantasia», como ex­plica o pró­prio na sua pá­gina.

Miller par­tiu do prin­cí­pio de que, afi­nal de con­tas, a mon­ta­nha sem­pre vem a Maomé, ilus­trando a mesma pai­sa­gem ter­res­tre para res­pon­der à per­gunta: e se os pla­ne­tas do Sistema Solar fos­sem co­lo­ca­dos no lu­gar da nossa lua, como apa­re­ce­riam no ho­ri­zonte? Que ta­ma­nho teriam?

E res­pon­deu da se­guinte forma:

Vénus

Vénus

Marte

Marte

Neptuno

Neptuno

Úrano

Úrano

Saturno

Saturno

Júpiter

Júpiter

Ora está aí algo que da­ria muito que pen­sar aos nos­sos mú­si­cos e po­e­tas – gi­gan­tes­cas, bri­lhan­tes luas no céu. Com Vénus à mesma dis­tân­cia que a Lua, mui­tas das noi­tes es­ta­riam mais ilu­mi­na­das do que os nos­sos dias som­brios de in­verno. E no caso de Júpiter se­ría­mos nós a lua, para começar.

A pre­sença do maior pla­neta do Sistema Solar so­bre as nos­sas ca­be­ças im­pres­si­ona. Teria sido muito pouco pro­vá­vel a so­bre­vi­vên­cia de po­e­tas ou mú­si­cos num mundo as­sim, a não ser que ti­vés­se­mos ga­nho re­sis­tên­cias à in­tensa ra­di­a­ção do pla­neta ou uma ci­vi­li­za­ção pu­desse edificar-se à re­ve­lia da força gra­vi­ta­ci­o­nal exer­cida pelo gi­gante – neste caso, con­tudo, já não se­ría­mos se­res hu­ma­nos, mas ou­tra coisa qualquer.

E a pai­sa­gem não se­ria tão tran­quila como uma noite de ve­rão: aque­les mon­tes pa­cí­fi­cos se­riam vul­cões em erup­ção e a es­trada di­fi­cil­mente se man­te­ria tão lisa, de­vido à gra­vi­dade do gi­gante ga­soso. E os oce­a­nos? Nem con­sigo ima­gi­nar a in­ten­si­dade das nos­sas ma­rés al­tas com aquele mons­tro nos céus a «pu­xar» por elas.