David Guttenfelder, 40 anos,
fotógrafo da Associated Press, fez magníficas reportagens fotográficas durante os sete anos em que, de forma intermitente, cobriu a guerra americana no Afeganistão. O seu trabalho no terramoto de 2008, na China, foi finalista dos Prémios Pulitzer. Uma visita «ao que tem de mais parecido com uma página pessoal» é suficiente para avaliar a sua qualidade como fotógrafo e jornalista.
Pouco tem a provar como fotojornalista — faça o que fizer no futuro, porém, dificilmente David Guttenfelder deixará de ser lembrado como o gajo que fotografou o soldado com as cuecas boxers cor-de-rosa.

É esta foto, tirada a 11 de Maio deste ano no vale de Korengal, no Afeganistão.
Nela vemos Zachary Boyd, o famoso soldado das cuecas boxer, um miúdo de 19 anos; Jordan Custer, ao lado, e Cecil Montgomery, à direita. Não sei porquê, esta imagem faz-me lembrar a célebre confissão do Tenente-Coronel Kilgore, do filme Apocalypse Now, quando lançou o I love the smell of napalm in the morning.
A base onde estava aquartelada a 26ª Infantaria do primeiro batalhão do Exército americano sofrera um ataque-surpresa dos talibãs. Os soldados que estavam a descansar saltaram da cama directamente para a frente de combate – e Guttenfelder, como sempre, estava com eles.
O que Guttenfelder não esperava era que aquela foto tivesse um impacto tão grande nos Estados Unidos quando foi publicada na primeira página do The Times, a 12 de Maio. Ao saber que tinha sido fotografado sem o uniforme, Zachary Boyd julgou estar em apuros. Contou mais tarde ao pai, por telefone, «Bem, se o Times é o jornal que o presidente começa a ler de manhã, quando ele me vir assim estou feito».
Zachary não levou em conta a notável capacidade americana de curar as feridas através da fabricação de heróis. Afinal, o rapaz tinha saltado da cama para combater os talibãs, nem quis perder tempo a vestir o uniforme – Zachary foi assim transformado pelos media e políticos num símbolo da coragem do soldado americano e da sua aptidão e prontidão para o combate.
O próprio Secretário de Defesa Americano, Robert Gates, louvou-o publicamente: «Qualquer soldado que vá combater os talibãs em boxers cor-de-rosa e chinelos tem um tipo muito especial de coragem». Gates falou do assunto meio a sério meio a brincar, mas por esta altura era óbvio para Guttenfelder que a sua fotografia das cuecas cor-de-rosa de combate transformara o rapaz num ícone.
Mais tarde, um pai muito babado contaria aos jornalistas que o filho se alistara como voluntário em memória dos ataques do 11 de Setembro ocorridos oito anos antes – daí o I Love New York das boxers. A mãe concentrou-se mais no assunto das boxers: «Ele sempre preferiu usá-las e eu o que lhe pedi foi que vestisse pelos menos dois pares».
Zachary não morreu.
Regressou recentemente a casa, são e salvo, aclamado pela família, pelos amigos, por Deus e pela Nação. Zachary não regressará tão cedo ao Afeganistão, mas já disse que vai prosseguir carreira militar — quer ser piloto de helicópteros. As famosas boxers cor-de-rosa ficarão em exibição no museu da Divisão de 1ª Infantaria do Forte Riley, no Kansas. E tudo isto começou com uma fotografia.











Belo post
Marco, foi directamente para os favoritos sem passar pela casa de partida. O soldado do meio também entrou em combate sem meias e com ténis de corrida.
Muito bom este post!
Sem qualquer narcisismo da minha parte, alguém me explica como se faz para inserir a pequena imagem identificativa de quem comenta?
@Alberto Nogueira: quando meti os gravatars no blogue fiz um post a anunciar. Nesse post as dúvidas foram esclarecidas. Vai lá ver.
O que mais me impressionou na foto foi o aspecto infantil do soldado.
O meu primeiro pensamento foi que o post se referisse à utilização de crianças na guerra.
Depois percebi que a foto tinha sido tirada “deste” lado, portanto… rs
E no artigo do NewYork (“The child has always worn multiple layers of boxers. He’s just always run around like that … had wild looking boxers and everything,” Sheree said. “How can I keep him from it? He’s 20 now. I just ask that he wears at least two pair.”) o que a mãe refere não é que lhe pede que ele use 2 boxers ao mesmo tempo ?
Provavelmente para ele não estar sujeito aos mesmos imprevistos que preocupam o Bluewater68 quando veste as suas Slips… rs
Já corrigi, gracias. E é pena: a minha versão tinha muito mais piada
Marco
Pois tinha ! rs
Mas não fazia sentido que a mamã o mandasse para a guerra só com 2 pares de boxers… rs
Imagina o rapaz a ter que as lavar dia sim dia não (ou dia sim dia sim, para usar as duas ao mesmo tempo) e com a preocupação de que secassem a tempo ! lol
Marco, se tu também usares cuecas cor-de-rosa, podemos combinar e eu faço a fotografia. Um Yoda com esse tipo de roupa interior tem tudo para também se transformar num ícone.
Alberto Nogueira: eu não percebo nada disto mas tropecei por aqui. Depois parece que é só pôr o endereço de e-mail onde se comenta.
Excelente artigo, como sempre.
O que me causou mais “impacto” nem foram os boxers, foi a tshirt vermelha com que o rapaz está vestido, tipo alvo humano
Realmente, devia era ter levado um raspanete dos superiores. Com aquela t-shirt, estava a por em perigo a vida dele, e dos outros à sua volta. Aquelas listas da roupa dos colegas não é por estar na moda…

As guerras tem destas coisas,pelo menos neste caso(a foto) até é bastante engraçado,coisa rara e que contrasta com o típico ambiente de tensão e de destruição de uma guerra…e embora ele esteja “à Benfica”,a situação naquele momento era de se mijar pelos boxers abaixo.…a vida é preciosa
O puto “mostrou que é home” 8)
ps — “estar à Benfica” e ser um “ganda homem” é pura coincidência,não é minha intenção fazer esse tipo de associação