Se um número suficientemente grande de pessoas aceitar atitudes insanas durante um período de tempo significativamente longo, pode a insanidade de tais ações ser considerada normal?
A pergunta veio-me à cabeça ao assistir a um direto do canal de notícias da TVI. A «reportagem» consistia em andar atrás do autocarro da seleção de futebol, filmando-o durante o percurso entre o centro de estágios e o aeroporto.
Para não passarmos o tempo todo a observar as traseiras de um autocarro, a indiferença do trânsito e a ausência de bandeirinhas, comentadores em estúdio iam fazendo os habituais prognósticos para o Euro, como se do resultado daqueles jogos dependesse a nossa felicidade futura enquanto nação e estivessem por isso a fazer um esforço para nos sossegar.
A reportagem prosseguiu, mostrando-nos desta vez os jogadores, equipa técnica e restante staff (bela palavra!) a descerem do autocarro.
Para quem nunca viu um ser humano a sair de um autocarro este terá sido um extraordinário momento televisivo. Os telespectadores habituais do canal Panda devem ter batido palminhas de entusiasmo – e com toda razão.
Para que nenhum de nós, os infantilizados do futebol, deixasse de perceber a importância deste momento, os comentadores em estúdio iam descrevendo o que já estávamos a ver. Ao jornalismo de máxima relevância contrapõe-se agora o jornalismo de máxima redundância, e os patrocinadores e investidores e políticos gostam.
Por exemplo, quando dois jogadores pagavam qualquer coisa numa loja do aeroporto, era-nos explicado que «estavam a fazer compras de última hora». Ora aqui está um exemplo do «jornalismo interpretativo» que nunca incomodará os Relvas deste país.
Imaginem o que poderia acontecer se o jornalismo se libertasse do asilo esquizofrénico e deixasse de ver notícias onde elas não existem. Imaginem se esta matreira gestão de expectativas fosse aplicada à atuação de quem nos governa. Imaginem diretos onde se filmaria o carro que transporta o ministro das Finanças como se este fosse um Cristiano Ronaldo; e a troika, com quem se reúne para discutir o futuro dos nossos salários, como a seleção alemã com quem não queremos perder.











“como se do resultado daqueles jogos dependesse a nossa felicidade futura enquanto nação e estivessem por isso a fazer um esforço para nos sossegar”
O triste é que parece, não só ser isso que nos querem fazer crer, mas o que efectivamente muitos esperam. Tudo um bando de tristes, pá…
Pensei por momentos que fosses fazer referência à aterragem na lua, fazendo uma analogia com a descida do autocarro. Parece-me que estou a imaginar o Cristiano Ronaldo a dizer:
“Penso que… é um pequeno passo para mim… mas um passo gigante para a Selecção. AHAHAH”
Boa analogia, sim senhor.
Não dou importância a esta selecção… aliás, nem merece atenção.
No último mundial não assisti aos jogos da selecção (E não me arrependi). Como tal, vou fazer o mesmo.
E, parte da culpa, é também dos meios de comunicação social, porque dão demasiada importância aos jogadores e a toda a comitiva. Assim, eles sentem-se demasiado importantes e dão-se ao luxo de serem humilhados… porque, no fundo, os clubes pagam-lhes bem no final do mês… não é meia dúzia de dias numa competição de selecções que lhes dá o ganha-pão.
Sou leitor assíduo deste blog, e não costumo comentar os post´s que por aqui vão surgindo. As razões, para o assunto em questão, não interessam nada.
Contudo não posso deixar de concordar, mais uma vez, com o que foi escrito.
Vai desde “rabos” de autocarros, a “rabos” pessoais que em nada interessam.
Um bom exemplo deste género de jornalismo, são os aqueles programas de entretenimento que passam às 13:00h e às 20:00h nos três principais canais Portugueses.
Mas não vou ser totalmente injusto. Às vezes também nos informam sobre “Os Ídolos” e sobre aquele programa de transformismo… “A tua cara não me é estranha”!!
Isto sim, notícias que realmente interessam…
Infelizmente somos um povo bruto e estupidificado. Será genética? Serão razoes históricas?