→ 04/06/2012 @17:04

A relevância jornalística no rabo de um autocarro

Se um nú­mero su­fi­ci­en­te­mente grande de pes­soas acei­tar ati­tu­des in­sa­nas du­rante um pe­ríodo de tempo sig­ni­fi­ca­ti­va­mente longo, pode a in­sa­ni­dade de tais ações ser con­si­de­rada normal?

A per­gunta veio-me à ca­beça ao as­sis­tir a um di­reto do ca­nal de no­tí­cias da TVI. A «re­por­ta­gem» con­sis­tia em an­dar atrás do au­to­carro da se­le­ção de fu­te­bol, filmando-o du­rante o per­curso en­tre o cen­tro de es­tá­gios e o aeroporto.

Para não pas­sar­mos o tempo todo a ob­ser­var as tra­sei­ras de um au­to­carro, a in­di­fe­rença do trân­sito e a au­sên­cia de ban­dei­ri­nhas, co­men­ta­do­res em es­tú­dio iam fa­zendo os ha­bi­tu­ais prog­nós­ti­cos para o Euro, como se do re­sul­tado da­que­les jo­gos de­pen­desse a nossa fe­li­ci­dade fu­tura en­quanto na­ção e es­ti­ves­sem por isso a fa­zer um es­forço para nos sossegar.

A re­por­ta­gem pros­se­guiu, mostrando-nos desta vez os jo­ga­do­res, equipa téc­nica e res­tante staff (bela pa­la­vra!) a des­ce­rem do autocarro.

Para quem nunca viu um ser hu­mano a sair de um au­to­carro este terá sido um ex­tra­or­di­ná­rio mo­mento te­le­vi­sivo. Os te­les­pec­ta­do­res ha­bi­tu­ais do ca­nal Panda de­vem ter ba­tido pal­mi­nhas de en­tu­si­asmo – e com toda razão.

Para que ne­nhum de nós, os in­fan­ti­li­za­dos do fu­te­bol, dei­xasse de per­ce­ber a im­por­tân­cia deste mo­mento, os co­men­ta­do­res em es­tú­dio iam des­cre­vendo o que já es­tá­va­mos a ver. Ao jor­na­lismo de má­xima re­le­vân­cia contrapõe-se agora o jor­na­lismo de má­xima re­dun­dân­cia, e os pa­tro­ci­na­do­res e in­ves­ti­do­res e po­lí­ti­cos gostam.

Por exem­plo, quando dois jo­ga­do­res pa­ga­vam qual­quer coisa numa loja do ae­ro­porto, era-nos ex­pli­cado que «es­ta­vam a fa­zer com­pras de úl­tima hora». Ora aqui está um exem­plo do «jor­na­lismo in­ter­pre­ta­tivo» que nunca in­co­mo­dará os Relvas deste país.

Imaginem o que po­de­ria acon­te­cer se o jor­na­lismo se li­ber­tasse do asilo es­qui­zo­fré­nico e dei­xasse de ver no­tí­cias onde elas não exis­tem. Imaginem se esta ma­treira ges­tão de ex­pec­ta­ti­vas fosse apli­cada à atu­a­ção de quem nos go­verna. Imaginem di­re­tos onde se fil­ma­ria o carro que trans­porta o mi­nis­tro das Finanças como se este fosse um Cristiano Ronaldo; e a troika, com quem se reúne para dis­cu­tir o fu­turo dos nos­sos sa­lá­rios, como a se­le­ção alemã com quem não que­re­mos perder.

 

6 comentários

  1. ricman — 04/06/2012 @17:23 (19 comentários)

    “como se do re­sul­tado da­que­les jo­gos de­pen­desse a nossa fe­li­ci­dade fu­tura en­quanto na­ção e es­ti­ves­sem por isso a fa­zer um es­forço para nos sossegar”

    O triste é que pa­rece, não só ser isso que nos que­rem fa­zer crer, mas o que efec­ti­va­mente mui­tos es­pe­ram. Tudo um bando de tris­tes, pá…

  2. Joca Carvalho — 04/06/2012 @17:41 (15 comentários)

    Pensei por mo­men­tos que fos­ses fa­zer re­fe­rên­cia à ater­ra­gem na lua, fa­zendo uma ana­lo­gia com a des­cida do au­to­carro. Parece-me que es­tou a ima­gi­nar o Cristiano Ronaldo a dizer:

    “Penso que… é um pe­queno passo para mim… mas um passo gi­gante para a Selecção. AHAHAH”

  3. Não dou im­por­tân­cia a esta se­lec­ção… aliás, nem me­rece atenção.

    No úl­timo mun­dial não as­sisti aos jo­gos da se­lec­ção (E não me ar­re­pendi). Como tal, vou fa­zer o mesmo.

    E, parte da culpa, é tam­bém dos meios de co­mu­ni­ca­ção so­cial, por­que dão de­ma­si­ada im­por­tân­cia aos jo­ga­do­res e a toda a co­mi­tiva. Assim, eles sentem-se de­ma­si­ado im­por­tan­tes e dão-se ao luxo de se­rem hu­mi­lha­dos… por­que, no fundo, os clu­bes pagam-lhes bem no fi­nal do mês… não é meia dú­zia de dias numa com­pe­ti­ção de se­lec­ções que lhes dá o ganha-pão.

  4. Pimenta — 05/06/2012 @15:41 (5 comentários)

    Sou lei­tor as­sí­duo deste blog, e não cos­tumo co­men­tar os post´s que por aqui vão sur­gindo. As ra­zões, para o as­sunto em ques­tão, não in­te­res­sam nada.

    Contudo não posso dei­xar de con­cor­dar, mais uma vez, com o que foi escrito.

    Vai desde “ra­bos” de au­to­car­ros, a “ra­bos” pes­so­ais que em nada interessam.

    Um bom exem­plo deste gé­nero de jor­na­lismo, são os aque­les pro­gra­mas de en­tre­te­ni­mento que pas­sam às 13:00h e às 20:00h nos três prin­ci­pais ca­nais Portugueses.

    Mas não vou ser to­tal­mente in­justo. Às ve­zes tam­bém nos in­for­mam so­bre “Os Ído­los” e so­bre aquele pro­grama de trans­for­mismo… “A tua cara não me é estranha”!!

    Isto sim, no­tí­cias que re­al­mente interessam…

  5. TViegas — 05/06/2012 @20:59 (81 comentários)

    Infelizmente so­mos um povo bruto e es­tu­pi­di­fi­cado. Será ge­né­tica? Serão ra­zoes históricas?