→ 08/07/2012 @19:23

Buraco Negro com cartolas

Fotos: Patrícia de Melo Moreira

Nikodem Poplawsky, um fí­sico teó­rico da Universidade de Indiana, Estados Unidos, de­fende a te­o­ria se­gundo a qual o nosso Universo está den­tro de um bu­raco negro.

Um bu­raco ne­gro é uma de­for­ma­ção no te­cido do Espaço-Tempo cau­sada por um ob­jeto tão mas­sivo e com­pacto que uma bola de té­nis feita desse ‘ma­te­rial’ te­ria a massa de todo o pla­neta Terra.

Dos efei­tos gra­vi­ta­ci­o­nais deste mons­tri­nho das bo­la­chas cós­mico ab­so­lu­ta­mente nada, nem a pró­pria luz, é ca­paz de es­ca­par – daí o nome.

Para de­fi­nir as con­di­ções exis­ten­tes no in­te­rior de um bu­raco ne­gro, os fí­si­cos usam uma fan­tás­tica pa­la­vra, sin­gu­la­ri­dade. Existem sin­gu­la­ri­da­des de cur­va­tura e sin­gu­la­ri­da­des có­ni­cas, mas nem que vi­vesse 150 anos se­ria ca­paz de per­ce­ber mais do que isto.

A sin­gu­la­ri­dade tam­bém é im­por­tante por­que o facto de exis­tir im­plica que as ve­lhas e fiá­veis des­cri­ções da Teoria da Relatividade Geral po­dem fa­lhar nes­sas con­di­ções ex­tre­mas. Se nem o ve­lho Albert Einstein nos pode va­ler, quem poderá?

Do ponto de vista de um leigo, sin­gu­la­ri­dade tam­bém po­derá sig­ni­fi­car «ma­ca­cos me mor­dam se eu sei o que é isso» e sus­peito que mui­tos fí­si­cos acha­riam esta de­fi­ni­ção igual­mente ade­quada, so­bre­tudo quando apli­cada ao Big an­tes de fa­zer Bang. Aliás, se al­guma vez o Universo teve o seu mo­mento Zen deve ter sido por essa al­tura. Depois foi só agitação…

A te­o­ria se­gundo a qual vi­ve­mos den­tro de um bu­raco ne­gro tem im­pli­ca­ções im­por­tan­tes: ima­gi­ne­mos que um vi­a­jante de um uni­verso al­ter­na­tivo ar­ranja ma­neira de so­bre­vi­ver à en­trada no ‘nosso’ bu­raco ne­gro e se de­para com este Universo. Sim, Poplawsky, que tem tanto de fí­sico como de con­tro­verso e agoi­rento, quer convencer-nos de que no in­te­rior do bu­raco ne­gro onde vi­ve­mos e do qual ja­mais po­de­re­mos es­ca­par exis­tem, en­tre ou­tras sin­gu­la­ri­da­des, um Passos Coelho, um Gaspar ou um Portas – o que só abona a fa­vor da plau­si­bi­li­dade da teoria.

Se Poplawsky vi­vesse em Portugal já te­ria lan­çado a te­o­ria há muito mais tempo por­que te­ria so­frido na pele os efei­tos de uma ‘des­cida’. Lembrem-se, os fí­si­cos cos­tu­mam di­zer na­que­les pro­gra­mas da Discovery que o corpo do as­tro­nauta, ao aproximar-se em de­ma­sia de um bu­raco ne­gro, co­meça a esticar-se, a esticar-se até ao in­fi­nito de­vido aos efei­tos de uma gra­vi­dade infinita

(e já no­ta­ram que gra­vi­dade rima com austeridade?).

Não sei se vi­ve­mos den­tro de um bu­raco ne­gro como diz Poplawsky, mas es­ta­mos de­fi­ni­ti­va­mente a so­frer os seus efei­tos: es­ti­ca­mos, es­ti­ca­mos, es­ti­ca­mos, es­ti­ca­mos, en­quanto nos di­zem que des­pe­di­men­tos são no­vas opor­tu­ni­da­des e quei­xas me­ras la­me­chas, en­quanto os que tra­ba­lham são rou­ba­dos e os cor­rup­tos pros­pe­ram; es­ti­ca­mos, es­ti­ca­mos, es­ti­ca­mos ao ponto de já não sa­ber­mos onde está a nossa car­teira, por­que está cada vez mais longe, sendo de­vo­rada como tudo o resto; ire­mos es­ti­car, es­ti­car, es­ti­car até que a nossa re­sis­tên­cia que­bre de vez.

Einstein, recordem-se, já não nos pode va­ler. E a culpa desta si­tu­a­ção é nossa: fo­mos nós que es­ban­ja­mos, não eles; fo­mos nós que vi­ve­mos acima das nos­sas pos­si­bi­li­da­des, não eles; fo­mos nós que gas­tá­mos ao des­ba­rato, não os go­ver­nos, os mu­ni­cí­pios, os ban­cos e os ins­ti­tu­tos da inu­ti­li­dade na­ci­o­nal; fo­mos nós que di­ri­gi­mos a nave por­tu­guesa na di­re­ção do bu­raco negro.

Felizmente te­mos Stephen Hawking.

Hawking prevê que até um bu­raco ne­gro se pode eva­po­rar e de­sa­pa­re­cer. Não pre­ci­sa­mos de pen­sar que es­ta­mos con­de­na­dos a es­ti­car até ao in­fi­nito. Efeitos quân­ti­cos per­mi­tem que o bu­raco emita ra­di­a­ção tér­mica – a ra­di­a­ção Hawking, jus­ta­mente – e vá per­dendo massa ao longo do pro­cesso. Demora tempo, mas acaba por acontecer.

(Já re­pa­ra­ram que ra­di­a­ção rima com revolução?)

Antes de Hawking – corrijam-me se es­ti­ver en­ga­nado – não pas­sava pela ca­beça de nin­guém que um bu­raco ne­gro tam­bém vi­esse a eva­po­rar, en­co­lher e mor­rer, tal como não nos passa pela ca­beça que as sin­gu­la­ri­da­des que nos go­ver­nam e es­ti­cam até ao in­fi­nito, es­pe­rando retirar-nos subs­tân­cia e den­si­dade, ve­nham a eva­po­rar, en­co­lher e, fi­nal­mente, cair.

Depende do Hawking que há em cada um de nós e da von­tade de o des­co­brir quando for a nossa vez de vo­tar. Stephen Hawking, o ci­en­tista da ca­deira de ro­das con­de­nado à morte desde a ado­les­cên­cia, mantém-se in­ve­ja­vel­mente vivo. Só te­mos de fa­zer como ele, mantermo-nos vi­vos e não es­ti­car o per­nil di­ante da te­le­vi­são e do Facebook, em­ba­la­dos com tra­fu­lhi­ces me­no­res como a da li­cen­ci­a­tura do dou­tor Relvinhas.

 

Um comentário

  1. J.C.Lopes — 09/07/2012 @9:15 (111 comentários)

    Sou um amante da as­tro­no­mia e de tudo o que diga res­peito ao uni­verso, de­voro to­dos os do­cu­men­tá­rios so­bre o as­sunto que pas­sam nos ca­nais te­má­ti­cos National Geographic, Odisseia, História, etc. mas con­fesso que há al­gu­mas coi­sas que me cus­tam a en­ten­der no­me­a­da­mente o con­ceito es­paço tempo e a ques­tão dos bu­ra­cos ne­gros. Para onde vai a massa dos cor­pos que são en­go­li­dos pelo bu­ra­cos negros?

    A te­o­ria do fí­sico Nikodem Poplawsky, que eu des­co­nhe­cia, e a ex­pli­ca­ção do Marco, deram-me al­guma luz so­bre o assunto.

    Não sei se todo o uni­verso se en­con­tra den­tro de um bu­raco ne­gro mas Portugal, te­nho a cer­teza de que está pois a nossa massa está a de­sa­pa­re­cer a um ritmo alar­mante e isso só pode in­di­ciar que es­ta­mos den­tro de um des­ses bu­ra­cos de onde é im­pos­sí­vel escapar.

    A mi­nha dú­vida con­ti­nua a ser para onde vai a massa que esse bu­raco nos suga.