Hoje de manhã resolvo apanhar um táxi no Cais do Sodré. Chego adiantado em relação a uma senhora e, sem pensar muito no assunto, digo-lhe para passar à frente. Não queria transmitir-lhe a impressão de que tinha feito uma corrida para chegar primeiro à fila. Estavam dois táxis na paragem, pelo que nem foi um acto especialmente cavalheiresco: o carro seguinte seria sempre meu.
Entro no segundo táxi. Para onde vou? «Marquês de Pombal, à entrada da Duque de Loulé, mas faça-me um favor, suba pelo Alecrim e vire à direita, pelas Taipas». O motorista, homem de meia-idade, pálido, soturno, a pele repleta de mini-crateras provocadas pelas borbulhas que o bombardearam na adolescência, não arranca de imediato com o carro. Primeiro suspira: «Isto de ser prestável aos outros é que não pode ser». E só então mete a primeira, depois a segunda, como se estivesse a sacudir a maneta.
«Como?» – O meu detector de cromos já tinha começado a assobiar. «Você é que chegou primeiro à fila», continuou ele. – «Não devia ter dado passagem à senhora!»
O azedume na voz deixou-me o sangue a ferver. «Mas qual é o seu problema?», perguntei.
«Você sabe para onde vai a senhora? Eu não. O meu colega da frente também não sabe para onde você vai. Não acho bem que tenha feito isto, porque depois acaba sempre por prejudicar alguém.»
Ah! Dinheiro, já percebi. Ao dar passagem à senhora, condenei-o a uma corrida curta e fraca. É óbvio que sou um filho da mãe que só quer lixar-lhe a vida. «Oiça, eu não tenho de ser responsável por isso – nunca me passou pela cabeça. Você nunca deixa uma mulher passar à sua frente por uma razão qualquer?»
«Deixo. No autocarro! Mas só quando há lugares disponíveis. Se tem só um lugar sentado, é meu».
Desisto. Não estou suficientemente bem-disposto para puxar pelo tipo, nem tão mal-disposto que prefira confrontá-lo a sério: encolho os ombros, ponho os olhos no jornal e ignoro o resto do discurso. Na rádio, um Marco Paulo brasileiro canta, entre violinos pegajosos, Só encontra a fêlicidadi quem entrega seu côração.
Ui, o dia de hoje está a começar bem.































30 comentários
Sem comentários.
isto de ser cavalheiro já não é como antigamente
agora elas é que têm de ser “cavalheiras”. se só houver um lugar sentado é para o homem, com certeza, jamais iria ser para uma senhora, especialmente se ela estiver de saia que nem da jeito nenhum estar sentada
Toda esta falta de civismo a que assistimos mete-me cada vez mais nojo. A civilização ganha já contornos de selva, onde é cada um por si. País de bárbaros!
Ainda não percebeste que lixaste o engate do taxista?
Não o teres mandado pró… pró… para um sítio qualquer já foi um acto de enorme estoicidade, Marco.
Os meus respeitos pela tua actuação em todo o episódio.
Eu não seria tão polido como tu foste capaz.
Shark, nem por isso. Nada estóico, garanto-te. Já começo é a ficar habituado.
Mas… desde quando deixar a senhora passar a frente é sinal de boa educação? Sempre pensei que fosse para mirar-lhes o rabo, sobretudo nas escadas…
Neste caso, Edgard, era uma senhora de alguma idade. A segunda hipótese nunca se colocou. Mas tenho ali um elevador ali ao fundo, deixa-me lá ver se agora vale a pena deixar passar alguém à frente…
Nunca. As caras querem-se sem vergonha!
Felizmente poucas vezes tive necessidade de apanhar Táxi… mas das poucas vezes que o fiz em LX também fui “mal-tratado” dessa forma, como se o homem me estivesse a fazer um especial favor por me estar a levar numa viagem curta – e vão a “chorar” o caminho todo.
É mesmo de nos tirar do sério…
Em contraste, uma vez na Dinamarca apanhei um Taxi, sem saber que o destino era “ali ao lado”, e o condutor – sempre prestável e simpático – informou-nos disso, e perguntou se mesmo assim queriamos que nos levasse.
Conduziu-nos até lá (cerca de 500m, se tanto) sempre com uma atitude simpática; informou-nos que teria que fazer mais um “desvio”, pois a entrada dos táxis no Hotel era numa rua lateral de sentido único, e no fim tirou o talão da conta de uma impressora e pronto.
Não é como cá, onde também ficam lixados por terem que passar um recibo!
Tanta coisa com a “dignificação da classe” e tal, mas parecem esquecer-se da forma ordinária como tratam os clientes.
Ou então sou eu que tenho azar, e que das vezes que ando de Taxi apanho sempre os “anormais” que lhes dão má fama!
Obrigado.
Marco, acho que poderias escrever um livro, o titulo seria, viagens num táxi, ou (des)conversas de um taxista, e seriam relatadas nesse livros, histórias com taxistas, eu também tenho algumas, não tão coisas como esta mas também elas coisas, e muita gente deve ter, ou serei só eu e tu a apanhar marmanjos destes
Marco, acho que vais gostar desta xD
http://www.megagames.com/news/html/pc/burglarleaveshisfacebookinfoatcrimescene.shtml
Eu aqui vou ser do contra.
Tenho lido com assiduidade as crónicas do marco, algumas vezes concordo, outras nem por isso mas sempre admiro a escrita e a argumentação do autor.
Neste caso sem querer defender o taxista acho que os tempos mudaram e o conceito de cavalheirismo também.
Justifica-se ceder o lugar a um deficiente, um pessoa idosa, um doente ou uma grávida, mas e a uma mulher que justificação existe hoje em dia? Que argumento válido existe que permite a senhora em causa ir a frente do Marco? Eu não encontro nenhum.
E não encontro nenhum porque vivemos numa sociedade em que ouvimos diariamente dizer que as mulheres devem ter os mesmo direitos que os homens, e muito bem. E os deveres? Os mesmos também, não acham?
A razão pela qual eu não devo ficar com um emprego apenas porque sou homem é a mesma pela qual uma mulher não deva ficar com o táxi que é meu por direito e ordem de chegada.
Este tipo de cavalheirismo já não faz qualquer sentido hoje em dia, as mulheres devem ser tratadas como os homens, em todas as situações. Não aceito que as mulheres queiram serem tratadas com delicadeza e cavalheirismos para determinadas situações e para outras exigem um tratamento indiferenciado. Igualdade sim, mas em tudo.
É claro que a preocupação monetária do motorista é tonta e nisso estamos de acordo.
Um taxi do CS para o MP? Qual é o problema do metro? sais na Baixa Chiado apanhas a azul e chegas mais depressa e barato que o taxi. Mas isso já tu sabes, portanto só posso concluir que tu gostas é de uma boa conversa com o taxista.
Estavas mesmo a pedir um cromo.
E ainda bem que levaste com o cromo. O post está hilariante.
Eu concordo com o Miguel Guerreiro. Marco, privaste ao pobre homem os olhares sofrêgos que iria lançar pelo retrovisor à encantadora senhora. Eu já não dormiria bem este fim-de-semana com esse peso na consciência…
Benjamim: estava atrasado, foi por isso que apanhei o táxi. Todos os dias ando de metro.
Luís Bastos: mesmo que tivesses razão e a igualdade entre os sexos tivesse uma aplicação burocrática, que raio tem o taxista ou outra pessoa qualquer a ver com o facto de eu decidir deixar passar uma senhora à frente?
Nuno e Miguel: vocês são uns românticos incuráveis
Marco, imagina tu que chegavas à paragem e simultaneamente ZÁS, aparece um casal de ciganos com 2 miudos. Tu delicadamente dás a vez ao casal, isto porque não és xenófobo nem preconceituoso. Eles entram no táxi, grande algazarra, batem com a porta com força, sente-se tensão dentro do veículo. Achas que o teu amigo taxista agradecia-te ou recriminava-te ?
Marco, atiravas-lhe com o cartão de sócio do benfica, e o tipo subia-te pela rua do Alecrim, virava à direita pela rua de lavacolhos, e entregava-te no grande marquês, sem problemas de maior. Foi um erro de “comunicação”. Saúde. E na 2ª feira…bicla.
@Edgard, mas nas escadas, o homem deverá sempre ir à frente. No sentido ascendente para evitar ir precisamente a olhar para onde não deve (ou deve evitar) e no sentido descendente para poder apanhar a senhora em caso de queda
@Luís Bastos, os meus 41 anos não me incluem em nenhum grupo saudosista dos velhos tempos (espero eu), mas no que toca ao cavalheirismo eu nunca deixarei de seguir o protocolo: Mulher passa sempre à frente; a porta somos nós que abrimos; e no que toca a pagar, a não ser que exista o risco de se gerar um braço de ferro desnecessário, eu faço questão de ter a iniciativa. Onde eu perco o cavalheirismo é nas caixas multibanco, pois nunca se sabe se a pessoa que chegou à mesma primeiro que nós, apenas porque não apressámos o passo, não irá consultar todos os extractos de todos os seus inúmeros cartões.
Não vejo como pode algum homem abdicar das regras elementares de cavalheirismo só porque as mulheres, e muito bem, decidiram reclamar algo que nunca deveria ter-lhes sido negado à partida.
Levada a coisa ao extremo qualquer dia deixamos de utilizar determinadas posições no sexo por causa da igualdade e mainãoseiquê…
Não me leves a mal, Luís Bastos, mas nem o meu avô era capaz de uma dessas.
Shark, agora é que disseste tudo.
Excelente relato. Essa espécie, que tem por habitat as ruas de Lisboa, será possivelmente a ‘classe’ profissional mais mal educada deste país.
O estratégico desvio de voos com o destino a Pedras Rubras e que passaram a ter a Portela, faz com que se passe horas à espera de ligação ou, em alternativa, vir-se de comboio para o Porto.
Eis a razão do comentário ao post… apanhar um taxi na Portela com destino à Gare do Oriente, sem bagagem, ou com uma pasta ou uma mochila de fim de semana, dá vontade de lhes enfiar um supositório… pelos ouvidos.
@bluewater68
Putz! Sempre fui mal-educado e não sabia (
). Nas escadas, em sentido ascendente, sempre dei a passagem…
@Edgard
pois…
Eu gosto desta. E Zás. Grande tuga. E Zás. Mainada.
Aconteceu-me uma situação semelhante, mas no meu caso ia eu no táxi com o homem sempre em grande stress que lhe tinha tirado a fortuna quando não é que ao fim de nem 5 minutos de viagem passamos pelo táxi que estava à frente, a deixar a senhora possivelmente no destino. Certo foi que bastou eu dizer-lhe, algo como “ainda bem para si que eu deixei passar a senhora!” para o senhor ficar o resto da viagem calado. Não foi longe, mas foram bem mais que 5m de viagem.
zás, meti-te o manuel alegre, pelo mário soares.