→ 02/10/2011 @21:05

Fetichismo Instrumental, fagotes e clarinetes baixos

Autor: Dean Dunakin

Hoje ve­nho falar-vos de uma do­ença psí­quica de que padeço…

Chama-se ela Fetichismo Instrumental, ou FI – eu pelo me­nos chamo-lhe, e o mais na­tu­ral é que não en­con­trem re­fe­rên­cias à dita cuja nos ma­nu­ais de psi­qui­a­tria ou neu­ro­lo­gia, isto por­que, pre­sumo, os ci­en­tis­tas da mente re­gra ge­ral não têm in­te­resse pela arte dos sons.

Consiste o FI em fan­ta­siar que se toca um de­ter­mi­nado ins­tru­mento mu­si­cal, ou mais, quando não se tem nem a ca­pa­ci­dade nem o co­nhe­ci­mento ne­ces­sá­rios para o fazer.

Um exem­plo gri­tante são os air gui­tar fes­ti­vals que se re­a­li­zam nos Estados Unidos, com uma des­fi­lada de gente que imita os ges­tu­a­lis­mos dos gui­tar­ris­tas sem ter uma gui­tarra nas mãos. E as­sim como há ba­res de ka­ra­oke, há-os tam­bém para fe­ti­chis­tas da gui­tarra ima­gi­ná­ria um pouco por todo o mundo…

Acontece a in­di­ví­duos que ou nunca apren­de­ram mú­sica ou os seus es­tu­dos mu­si­cais se fi­ze­ram com ou­tros ins­tru­men­tos que não aque­les que os ex­ci­tam. Estou no se­gundo caso: aprendi flauta, nunca me tendo sido pos­sí­vel fa­zer o ne­ces­sá­rio up­grade.

Há dois ti­pos de fe­ti­chis­tas ins­tru­men­tais. Por um lado te­mos aque­les que le­vam a pa­to­lo­gia às úl­ti­mas con­sequên­cias e so­bem aos pal­cos dos re­fe­ri­dos fes­ti­vais e ba­res para exi­bi­rem a sua alu­ci­na­ção. O ou­tro é ocu­pado pe­los mais pas­si­vos que gos­tam de ob­ser­var os ver­da­dei­ros exe­cu­tan­tes, a que serve a de­sig­na­ção de voyeurs instrumentais.

Para mi­nha fe­li­ci­dade, nunca pas­sei deste úl­timo ní­vel, o que me poupa de fa­zer fi­gu­ras tris­tes em pú­blico. Isso por­que aplico a mim pró­prio a única te­ra­pia sa­tis­fa­tó­ria para o FI: a pro­gra­ma­ção de con­cer­tos, co­lo­cando ins­tru­men­tis­tas re­ais a tocar.

Descobri este pro­cesso te­ra­pêu­tico (re­fe­rí­vel como «trans­fe­rên­cia») por mim mesmo, du­rante a pré-adolescência: pas­sava o tempo a for­mar ban­das ine­xis­ten­tes com os mú­si­cos de quem gos­tava, ou­vindo den­tro da ca­beça o que po­de­riam ser os resultados.

Se a mais vul­gar forma de FI in­cide so­bre a gui­tarra, a que me afecta é ainda mais bi­zarra: a mi­nha de­vas­si­dão ins­tru­men­tal vai pri­meiro que tudo para o fa­gote e de­pois para o cla­ri­nete baixo.

Foi uma fa­ta­li­dade que as mi­nhas erec­ções mu­si­cais ti­ves­sem o ins­tru­mento mu­si­cal fa­gote como ob­jecto. Mal con­sigo con­tro­lar te­ra­peu­ti­ca­mente a do­ença, dado que exis­tem pouquís­si­mos pra­ti­can­tes do mesmo nas mú­si­cas que me in­te­res­sam – jazz, mú­sica im­pro­vi­sada, rock al­ter­na­tivo, mú­sica experimental.

Poderia ter so­lu­ci­o­nado a coisa uma re­o­ri­en­ta­ção dos meus gos­tos para a mú­sica sin­fó­nica, na qual este ins­tru­mento de ma­deira com du­pla pa­lheta, da fa­mí­lia do oboé, tem pre­sença ha­bi­tual, mas os usos que aí ha­bi­tu­al­mente são de­sen­vol­vi­dos não me sa­tis­fa­zem a luxúria.

Dado o seu de­sign (é, ba­si­ca­mente, um longo e largo tubo pe­ni­forme, que só pode ser to­cado com uma in­cli­na­ção semi-vertical ou semi-horizontal, não es­tando nem num plano nem no ou­tro, mas a meio, in between), quase como uma gui­tarra, com a di­fe­rença de que para mim é bem mais cool.

A im­po­nên­cia deste príapo mu­si­cal tem o con­traste do seu som: é grave, de­certo, mas de na­tu­reza frá­gil e que não per­mite gran­des pro­je­ções es­pa­ci­ais. Nos ter­ri­tó­rios cri­a­ti­vos que me in­te­res­sam, en­tre as úni­cas pos­si­bi­li­da­des de que dis­põe para se fa­zer ou­vir o re­curso ideal é a uti­li­za­ção de mi­cro­fo­nes de pro­xi­mi­dade ou mesmo de contacto.

Das duas uma, ou se liga o fa­gote a um am­pli­fi­ca­dor de gui­tarra, o que ainda lhe au­menta mais a fa­mi­li­a­ri­dade com esta, ou, por exem­plo, a um com­pu­ta­dor, abrindo-se um ad­mi­rá­vel mundo de pro­ces­sa­men­tos ele­tró­ni­cos. Na mi­nha per­ver­si­dade, um fa­gote que seja tra­tado ele­tro­ni­ca­mente atinge um es­tado de per­ma­nente eja­cu­la­ção or­gás­mica. O pa­raíso do FI, em suma…

O cla­ri­nete baixo seduz-me por mo­ti­vos in­ver­sos. As for­mas deste são ele­gan­tes, es­guias, quase fe­mi­ni­nas, mas a so­no­ri­dade é baixa, ru­gosa, densa e pro­funda. Os meus ou­vi­dos ore­lhu­dos e os meus ou­vi­dos ima­gi­na­ti­vos nunca dei­xam de se sur­pre­en­der com esta con­tra­di­ção. É como um she­male: co­me­ça­mos por re­pa­rar nas re­don­das pro­tu­be­rân­cias que nas­cem do tronco, mas de­pois encontra-se um saco de al­fi­ne­tes e uma en­guia onde não se es­pe­rava que aparecessem.

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Só quando nin­guém está por perto é que me po­nho a fin­gir que fa­goto e que cla­ri­ne­to­baixo, so­bre­tudo quando ouço dis­cos em que sur­gem os dois ins­tru­men­tos. Já me ca­lhou ser apa­nhado, e des­sas ve­zes senti-me tão cons­tran­gido quanto to­dos aque­les que são sur­pre­en­di­dos a es­ga­lhar o pessegueiro.

Estou sem­pre à pro­cura de dis­cos com fa­go­tes e cla­ri­ne­tes bai­xos. É ob­ses­sivo, com­pul­sivo, do­en­tio, mas tem-me ga­ran­tido gran­des descobertas.

Foi as­sim que me de­pa­rei com o rock pro­gres­sivo dos Univers Zero na sua fase ini­cial, quando por lá an­dava Michel Berckmans, e com o avant folk-pop dos Clogs de Rachael Elliott. Foi as­sim que co­nheci Karen Borca e Lindsay Cooper, esta den­tro e fora dos Henry Cow. Foi as­sim que co­me­cei a ou­vir Michael Rabinowitz, Paul Hanson, Mick Beck. Estes são os fa­go­tis­tas que vou es­prei­tando do meu posto es­con­dido de voyeur.

João Pedro Viegas

Os cla­ri­ne­tis­tas bai­xos que des­co­bri já são em maior nú­mero, indo do in­con­tor­ná­vel Eric Dolphy a Jason Stein, pas­sando por Wolfgang Fuchs e Rudhi Mahall.

Para des­graça mi­nha, fiz ami­zade com um que é nosso con­ter­râ­neo, João Pedro Viegas. Ir aos seus fes­tins mis­tos de gas­tro­no­mia e mú­sica ali para as pro­xi­mi­da­des de Mafra sig­ni­fica um ra­di­cal agra­va­mento do meu FI. Da úl­tima vez, sem que o tipo visse, pe­guei no ae­ro­fone dele e todo eu tremia.

Em casa do João Viegas, ponho-me a pen­sar coi­sas do gé­nero «en­tão é a isto que sabe um ar­roz de pato feito por um cla­ri­ne­tista baixo» ou «ah, são es­tes fil­mes que um cla­ri­ne­tista baixo apre­cia»…

Acho que só me vou cu­rar quando ti­ver di­nheiro para com­prar um fa­gote e um cla­ri­nete baixo e quando ar­ran­jar tempo para os pra­ti­car se­ri­a­mente. Como a mi­nha vida não está para uma coisa nem para ou­tra, apro­veito a opor­tu­ni­dade: rogo ao nosso se­cre­tá­rio de Estado da cul­tura que, por uma vez, co­lo­que de lado as suas li­be­ra­li­ces e me sub­si­die a aqui­si­ção des­ses ins­tru­men­tos e o seu estudo.

Tenho toda a con­vic­ção de que esse se­ria um ótimo in­ves­ti­mento do Governo: bem ca­na­li­zado, o meu fe­ti­chismo só po­de­ria fa­zer de mim um génio.

 

2 comentários

  1. diogo dinis — 02/10/2011 @22:21 (26 comentários)

    Partilho essa von­tade meio para o des­con­tro­lada de um dia to­car cla­ri­ne­te­baixo :D

    (a mi­nha van­ta­gem é que não aprendi flauta mas sim cla­ri­nete so­prano, o que falta é dinheiro)

  2. Acho que (sem­pre que es­crevo ou digo isto, vem-me à me­mó­ria o meu pro­fes­sor de História, que as­sim que al­guém co­me­çava uma frase com esta ex­pres­são, in­ter­rom­pia com um olhar me­do­nho por cima dos ócu­los e um vo­zei­rão: “Achas ou tens a cer­teza?” ) mui­tos gé­nios neste país es­tão em banho-maria.

    Em par­ti­cu­lar, os que de­pen­dem di­recta ou in­di­rec­ta­mente do Ministério da Cultura, a jul­gar pelo es­tado do seu site, per­dão, sítio:

    “Sítio de in­ter­net em ac­tu­a­li­za­ção“
    http://www.portaldacultura.gov.pt/Pages/PaginaIni:?