Hoje venho falar-vos de uma doença psíquica de que padeço…
Chama-se ela Fetichismo Instrumental, ou FI – eu pelo menos chamo-lhe, e o mais natural é que não encontrem referências à dita cuja nos manuais de psiquiatria ou neurologia, isto porque, presumo, os cientistas da mente regra geral não têm interesse pela arte dos sons.
Consiste o FI em fantasiar que se toca um determinado instrumento musical, ou mais, quando não se tem nem a capacidade nem o conhecimento necessários para o fazer.
Um exemplo gritante são os air guitar festivals que se realizam nos Estados Unidos, com uma desfilada de gente que imita os gestualismos dos guitarristas sem ter uma guitarra nas mãos. E assim como há bares de karaoke, há-os também para fetichistas da guitarra imaginária um pouco por todo o mundo…
Acontece a indivíduos que ou nunca aprenderam música ou os seus estudos musicais se fizeram com outros instrumentos que não aqueles que os excitam. Estou no segundo caso: aprendi flauta, nunca me tendo sido possível fazer o necessário upgrade.
Há dois tipos de fetichistas instrumentais. Por um lado temos aqueles que levam a patologia às últimas consequências e sobem aos palcos dos referidos festivais e bares para exibirem a sua alucinação. O outro é ocupado pelos mais passivos que gostam de observar os verdadeiros executantes, a que serve a designação de voyeurs instrumentais.
Para minha felicidade, nunca passei deste último nível, o que me poupa de fazer figuras tristes em público. Isso porque aplico a mim próprio a única terapia satisfatória para o FI: a programação de concertos, colocando instrumentistas reais a tocar.
Descobri este processo terapêutico (referível como «transferência») por mim mesmo, durante a pré-adolescência: passava o tempo a formar bandas inexistentes com os músicos de quem gostava, ouvindo dentro da cabeça o que poderiam ser os resultados.
Se a mais vulgar forma de FI incide sobre a guitarra, a que me afecta é ainda mais bizarra: a minha devassidão instrumental vai primeiro que tudo para o fagote e depois para o clarinete baixo.
Foi uma fatalidade que as minhas erecções musicais tivessem o instrumento musical fagote como objecto. Mal consigo controlar terapeuticamente a doença, dado que existem pouquíssimos praticantes do mesmo nas músicas que me interessam – jazz, música improvisada, rock alternativo, música experimental.
Poderia ter solucionado a coisa uma reorientação dos meus gostos para a música sinfónica, na qual este instrumento de madeira com dupla palheta, da família do oboé, tem presença habitual, mas os usos que aí habitualmente são desenvolvidos não me satisfazem a luxúria.
Dado o seu design (é, basicamente, um longo e largo tubo peniforme, que só pode ser tocado com uma inclinação semi-vertical ou semi-horizontal, não estando nem num plano nem no outro, mas a meio, in between), quase como uma guitarra, com a diferença de que para mim é bem mais cool.
A imponência deste príapo musical tem o contraste do seu som: é grave, decerto, mas de natureza frágil e que não permite grandes projeções espaciais. Nos territórios criativos que me interessam, entre as únicas possibilidades de que dispõe para se fazer ouvir o recurso ideal é a utilização de microfones de proximidade ou mesmo de contacto.
Das duas uma, ou se liga o fagote a um amplificador de guitarra, o que ainda lhe aumenta mais a familiaridade com esta, ou, por exemplo, a um computador, abrindo-se um admirável mundo de processamentos eletrónicos. Na minha perversidade, um fagote que seja tratado eletronicamente atinge um estado de permanente ejaculação orgásmica. O paraíso do FI, em suma…
O clarinete baixo seduz-me por motivos inversos. As formas deste são elegantes, esguias, quase femininas, mas a sonoridade é baixa, rugosa, densa e profunda. Os meus ouvidos orelhudos e os meus ouvidos imaginativos nunca deixam de se surpreender com esta contradição. É como um shemale: começamos por reparar nas redondas protuberâncias que nascem do tronco, mas depois encontra-se um saco de alfinetes e uma enguia onde não se esperava que aparecessem.
Só quando ninguém está por perto é que me ponho a fingir que fagoto e que clarinetobaixo, sobretudo quando ouço discos em que surgem os dois instrumentos. Já me calhou ser apanhado, e dessas vezes senti-me tão constrangido quanto todos aqueles que são surpreendidos a esgalhar o pessegueiro.
Estou sempre à procura de discos com fagotes e clarinetes baixos. É obsessivo, compulsivo, doentio, mas tem-me garantido grandes descobertas.
Foi assim que me deparei com o rock progressivo dos Univers Zero na sua fase inicial, quando por lá andava Michel Berckmans, e com o avant folk-pop dos Clogs de Rachael Elliott. Foi assim que conheci Karen Borca e Lindsay Cooper, esta dentro e fora dos Henry Cow. Foi assim que comecei a ouvir Michael Rabinowitz, Paul Hanson, Mick Beck. Estes são os fagotistas que vou espreitando do meu posto escondido de voyeur.
Os clarinetistas baixos que descobri já são em maior número, indo do incontornável Eric Dolphy a Jason Stein, passando por Wolfgang Fuchs e Rudhi Mahall.
Para desgraça minha, fiz amizade com um que é nosso conterrâneo, João Pedro Viegas. Ir aos seus festins mistos de gastronomia e música ali para as proximidades de Mafra significa um radical agravamento do meu FI. Da última vez, sem que o tipo visse, peguei no aerofone dele e todo eu tremia.
Em casa do João Viegas, ponho-me a pensar coisas do género «então é a isto que sabe um arroz de pato feito por um clarinetista baixo» ou «ah, são estes filmes que um clarinetista baixo aprecia»…
Acho que só me vou curar quando tiver dinheiro para comprar um fagote e um clarinete baixo e quando arranjar tempo para os praticar seriamente. Como a minha vida não está para uma coisa nem para outra, aproveito a oportunidade: rogo ao nosso secretário de Estado da cultura que, por uma vez, coloque de lado as suas liberalices e me subsidie a aquisição desses instrumentos e o seu estudo.
Tenho toda a convicção de que esse seria um ótimo investimento do Governo: bem canalizado, o meu fetichismo só poderia fazer de mim um génio.









Partilho essa vontade meio para o descontrolada de um dia tocar clarinetebaixo
(a minha vantagem é que não aprendi flauta mas sim clarinete soprano, o que falta é dinheiro)
Acho que (sempre que escrevo ou digo isto, vem-me à memória o meu professor de História, que assim que alguém começava uma frase com esta expressão, interrompia com um olhar medonho por cima dos óculos e um vozeirão: “Achas ou tens a certeza?” ) muitos génios neste país estão em banho-maria.
Em particular, os que dependem directa ou indirectamente do Ministério da Cultura, a julgar pelo estado do seu site, perdão, sítio:
“Sítio de internet em actualização“
http://www.portaldacultura.gov.pt/Pages/PaginaIni…