→ 25/04/2008 @2:48

O meu 25 de Abril

No dia em que o Povo foi livre não me deixaram sair de casa. No dia em que todos os adultos davam pulos de alegria como só as crianças sabiam dar, não pude pular com eles. Os meus pais ainda estavam em Lisboa e a minha avó tinha pavor que me acontecesse qualquer coisa. Vivera em Elvas durante muitos anos, tantos que eu nem sequer os podia conceber, e na memória ressoavam-lhe as balas disparadas em Espanha durante a Guerra Civil.
Saíra de Elvas, subira a Castelo Branco, onde nasceu a minha mãe, descera finalmente para os subúrbios de Lisboa, onde ficou até morrer, mas as balas acompanharam-na sempre. Ela sabia o que se estava a passar, mas não tinha palavras para mo descrever, e em nome de uma hipotética guerra civil em Portugal disse-me que não, não podia sair à rua.
Lembro-me que já nesse dia, e em muitos outros que se seguiram, a rádio estava sempre a passar a mesma música. Desta eu não gostava nada: aquele som de pessoas a caminhar sobre cascalho fazia-me lembrar um cortejo fúnebre e, de facto, aos sete anos, não tinha possibilidade de saber o que estavam eles a enterrar. Se me tivessem dado a escolher a música para aqueles dias de celebração teria preferido pôr a tocar, em altos berros, com as janelas abertas para toda a gente ouvir e dançar, os discos de 45 rotações do Cat Stevens da minha mãe. Esses é que eram fixes.
Da minha janela vi homens e mulheres de todas as idades andando de um lado para o outro, ansiosos, excitados, dizendo palavras que mal conhecia, e lembrei-me de como também ficava irrequieto quando nas manhãs de 25 de Dezembro esperava de olhos semicerrados que o Pai Natal descesse da chaminé para colocar as prendas ao pé da árvore.
Quando passou um vizinho que eu conhecia bem, já estava determinado em desvendar o mistério de uma vez por todas. Debrucei-me sobre o parapeito da janela com a cabeça toda esticada lá para fora, quase em desequilíbrio, e perguntei «Que prenda é que recebeste?» Ele olhou para mim com ar surpreendido, ficou ali uns segundos a pensar, depois iluminou-se num enorme sorriso: «A liberdade, rapaz, a liberdade!»
Fiquei tão furioso.

12 comentários

  • 1
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    25 de Abril de 2008 - 10:18 | Link permamente

    tu és bom

  • 2
    a. almeida
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    25 de Abril de 2008 - 10:25 | Link permamente

    Recordo-me bem desse dia. Que mais não fosse porque as aulas foram suspensas, até porque frequentava o Ciclo Preparatório TV e o ecrã a preto e branco passava tudo menos aulas de história, português ou francês. Claro que não tinha noção exacta dos acontecimentos e a minha preocupação primeira era de que com todo aquele frenesim de reportagens na rua, iria perder os habituais programas na televisão, incluindo dos desenhos animados. Só dava amontoado de pessoas, o Balsinha, o Fialho e outros apresentadores de então.
    Hoje, olho para trás, e o 25 de Abril é quase uma penumbra apesar de dizerem que está sempre presente. Mas não. Não está. A liberdade, esse presente maior da revolução, há muito que foi deturpada. De tanta fome de liberdade, usámos e abusámos da mesma até ficarmos barrigudos de fartura e, pior de tudo, não a soubemos transmitir na justa medida aos nossos filhos.
    Ainda ontem, Jorge Gabriel, a fechar o “Praça da Alegria”, aludindo ao 25 de Abril, disse mais ou menos de forma ligeira que conquistámos a liberdade de dizer-mos tudo o que nos apetece. Claro que disse isso sem qualquer reflexão, mas ilustrou muito bem o conceito que a maior parte dos jovens nascidos para lá de 26 de Abril de 1974 têm sobre a Liberdade: Dizer tudo o que lhes apetece, sem regras, sem disciplina e sem deveres. Ora a verdadeira Liberdade não é bem assim. É muito mais nobre e profunda e as gerações que a compreenderam já têm poucas testemunhas entre nós.
    Mas valeu a pena.Os aspectos negativos são as feridas de uma revolução sem sangue.

  • 3
    JCBarros
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    25 de Abril de 2008 - 14:38 | Link permamente

    Como com 25 anos não posso partilhar experiências vividas no 25 de Abril de 1974 tenho de me ficar pelos parabéns ao autor pela categoria do texto. Muito bom.

  • 4
    Antonio
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    25 de Abril de 2008 - 20:49 | Link permamente

    Estava em Mueda, Moçambique, quando pelas 23 horas, locais, soube através duma rádio Sul Africana, que emitia em português, que tinha havido um golpe militar em Lisboa. Esta notícia, tão lacónica e surpreendente, despertou em mim uma grande apreensão desfeita com o passar dos dias e a certeza de que a guerra iria terminar e não demoraríamos a voltar para onde nunca deveríamos ter saído, já que estávamos no lado errado da guerra.

  • 5
    susana
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    25 de Abril de 2008 - 23:54 | Link permamente

    Hoje em dia, infelizmente, parece que toda a gente esqueceu-se do que é a Liberdade e a confundo com a Anarquia! Vivo com a sensaçao de que a nossa democraçia esta só por alguns… Abraço!

  • 6
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    26 de Abril de 2008 - 00:33 | Link permamente

    merda pá… tu saíste-me cá uma artista!!! :D
    muito bem…muito bem :D

  • 7
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    26 de Abril de 2008 - 00:33 | Link permamente

    lol… “um” artista!!!! (foi a emoção!!!!)

  • 8
    Izzy
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    26 de Abril de 2008 - 04:11 | Link permamente

    Ainda era muito pequenita no 25 de Abril, tinha apenas 4 meses, mas o meus pais contam-me muitas vezes aquilo que foi.

    Contam-me como era antes, como passavam cartas dos exilados em França para as famílias, como se reuniam com os amigos para sonharem com a revolução, como escondiam os livros proibidos que queriam ler, como o meu avô foi preso por ter um isqueiro, como o meu pai também foi preso.

    Contam-me as guardas aos quartéis e a emoção que sentiram quando ouviram a tal musica na rádio. O que foi ver passar os militares com cravos nas armas.

    Contam-me também o que foi depois, a bebedeira de liberdade, os excessos, as decepções e sobretudo que, mesmo assim, voltavam a fazer tudo igual.

    Liberdade foi uma prenda que os meus pais (e muitos outros) me deram e hei-de estar sempre grata por isso e hei-de honrar essa liberdade respeitando sempre a liberdade dos outros, ensinando ao meu filho o que é realmente ser livre e não esquecendo o que foi, acima de tudo não esquecendo.

  • 9
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    26 de Abril de 2008 - 10:07 | Link permamente

    Independentemente do que ainda sobra do 25 de Abril nos dias de hoje, o seu relato está animado e comovente. Deixou-me com um sorriso nos lábios e uma lágrima a querer fugir… Obrigada

  • 10
    LAndrade
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    27 de Abril de 2008 - 22:20 | Link permamente

    Tinha 11 anos e recordo-me de tudo. Como moro ao lado da Casa da Moeda em Lisboa, assisti ao vivo ao seu assalto. Veio um carro de assalto, um pelotão de soldados do MFA e foi em minutos, sem resistência porque senão o povo dava cabo dos polícias e dos pides.

    Lembro-me também da minha família e dos meus vizinhos no terraço do prédio a beber champanhe a a pular de alegria, pareciam uns maluquinhos. Mas aqueles dois anos foram explosivos, sentia-se que podia explodir qualquer coisa em qualquer lado e andava tudo desconfiado.

    Os comunas foram corridos do poder e Vasco Gonçalves ficou a brincar às casinhas e soldadinhos sózinho. Esse período foi dos mais incríveis que Portugal viveu até hoje.

    Depois veio o Eanes, o Cavaco, foi-se o Cherne e temos agora o Sócrates… será que no futuro teremos o Pilates… ou o Sansão?

  • 11
    Ana
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    20 de Abril de 2009 - 16:11 | Link permamente

    Olá
    não sei se este blogue ainda está em funcionamento, mas eu e o meu grupo estamos a organizar uma exposição sobre o 25 de Abril, a liberdade de expressão. Se nos puder ajudar de alguma forma agradeciamos .

    obrigada

  • 12
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    25 de Abril de 2009 - 10:26 | Link permamente

    São só memorias! O 25 de Abril morreu ao nascer com o 25 de Novembro, eu desgostoso de ver o Pais que queriamos morrer triste e desanimado…de quem é a culpa?

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