O Natal irrita-me. Não vivo noutro planeta e dei prendas à s pessoas que amo. Gosto das iluminações e da expectativa nas crianças – mas irrita-me. Nem é por celebrar o nascimento de alguém que se calhar nunca existiu. Eu preferia celebrar o nascimento do Bertrand Russell, do Einstein, do Carl Sagan, do Roger Waters, do Zappa, do Coltrane e do rabo da Jennifer Lopez, mas pronto, cada um celebra o que quer.
Mas irrita-me. Há muitas pessoas que não desdenham o Natal, mas falam em comprar prendas com o mesmo entusiasmo com que pensam em pagar impostos. Ninguém gosta de transformar aquilo que sentimos pelas pessoas que amamos numa epopeia burocrática com datas e regras definidas. Não cumprir a etiqueta equivale a ser visto como pessoa fria, distante ou esquisita. Por isso vencem as convenções e os engarrafamentos nos centros comerciais. Imagino o Pai Natal como um gajo anafado mascando pastilha elástica enquanto carimba o selo de validade natalÃcia nas nossas testas, observando a fila de gente com ar de enfado e dizendo: «Próximo!»
É como certos emails que um gajo recebe com felicitações de Natal. Um dos que li esta semana começava assim: «Caro(a) Marco Santos». Portanto eis alguém que me deseja a felicidade e parte do princÃpio que aproveitei esta época de boa vontade para fazer uma operação de mudança de sexo. Na dúvida sobre quais dos sexos terei escolhido, optou pela duas opções.
Irrita-me também o Natal por ser um perÃodo em que se espera mais sensibilidade em relação a problemas sociais como a pobreza, a solidão e o abandono. É a época da boa vontade, dizem, embora me pareça mais uma época de hipocrisia. O que falta em solidariedade o ano todo sobra nestas duas semanas em esmola e caridade. É tudo muito bonito, mas quando as luzes de Natal se apagam e as figuras do presépio são arrumadas nas caixas resta apenas dizer adeus e até para o ano.
Aliás, sempre que oiço falar em boa vontade a propósito desta quadra festiva fico com vontade de vomitar. Sempre que vejo programas como o Natal dos Hospitais desejo que todos aqueles artistas e locutores se afoguem num oceano de pirilampos mágicos. Quando vejo na televisão um grupo de beatas a ajudar os pobres pobrezinhos dá-me vontade de lhes atirar um sapato. Sim, atirar sapatos à moda dos árabes pode ser inspirador e viciante. Pelo menos é mais verdadeiro do que pôr a prenda no sapatinho a quem anda de pés descalços o ano inteiro.































5 comentários
Eu ando farto de ser bombardeado com anúncios de Natal. Eu já percebi que estamos na época, mas os senhores das empresas, da publicidade e da comunicação social insistem em lembrar-me, de 5 em 5 minutos, que estamos no Natal. Não há paciência!
E o nascimento do Mantorras?
PS: Esse Ãcone que foste meter para os feeds não foi propriamente a melhor escolha estética
Marco, arranjas palavras para dizer aquilo que eu penso. É que é tal e qual como dizes. Mas é mais, o Natal leva-me a ser hipócrita. Porque tenho, pelos meus princÃpios, que ter esse discurso mas depois gosto de dar prendas, e, não nego, não desgosto de receber umas lembranças.
Btw, não discordo do Miguel Guerreiro no que toca ao Ãcone dos feeds…
Grande verdade, grande blog. Deixei de acreditar da magia do natal ainda antes de saber que o pai natal nao era real xD
O sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança. Para todos os que não se irritaram a ler a Pedra Filosofal, um bom Natal.
Para o Marco irritadiço, uma boa pomada, isso passa!