Há tempos – já não me lembro a propósito de quê – a minha filha perguntou se eu alguma vez tinha chorado. «Claro», respondi com a máxima naturalidade. «A sério?» Ela sorriu com ar incrédulo. «Mas eu nunca te vi chorar!». «Pois não, filha, mas já chorei.»
A Diana viu-me chorar, mas era demasiado nova e as lágrimas já secaram na memória. Eu vou lembrar-me para sempre: ela imersa nos pensamentos secretos dos bebés, eu concentrado a mudar-lhe a fralda, e o telefone tocou. Um polícia de voz simpática anunciou-me que a minha avó falecera nessa noite. Agradeci, despachei-o e voltei como um zombie para junto da minha filha. «O pai está um bocadinho perturbado», disse, aos tremeliques. «Por isso é que está assim. Mas está tudo bem». Podia ter dito qualquer outra coisa. Podia ter lido a previsão do estado do tempo ou a programação da televisão. As palavras eram um pretexto para me mostrar casual.
A minha avó fora hospitalizada com um cancro no pâncreas e há uma semana que estava nos cuidados intensivos. Descobriram-no quando lhe fizeram uma série de testes antes da operação às cataratas. Ela queria ver a Diana como outrora me vira a mim, por isso submetera-se aos testes e ao cheiro enjoativo do hospital. O médico declarou-a demasiado fraca para resistir ao tratamento. Esgotadas as palavras brancas, fez uma careta resignada e deixou-nos a sós para que compreendêssemos o resto.
Quando a morte de alguém que amamos desde que nascemos nos é previamente anunciada tentamos obter consolação na ideia de que, afinal de contas, já estávamos à espera, é pior quando estas coisas acontecem de repente – um acidente de carro, por exemplo.
Talvez seja verdade, mas a morte surge de rompante mesmo quando passamos meses à sua espera. O seu bafo congela o peito, atrofia os músculos, seca a garganta, afoga os olhos, descontrola-nos, submete-nos, vulgariza o nosso amor, torna impotente a nossa razão.
Eu sentia-me ainda pior porque estava cheio de remorsos. No dia anterior não a fora visitar. Lembro-me de a minha mãe ter telefonado ao princípio da tarde a perguntar se podia. Podia, sim, mas disse-lhe que não. Inventei uma desculpa qualquer. Baldei-me.
Atormentava-me a ideia de que nos seus últimos momentos de vida tivesse precisado de mim. Imaginava-a sozinha perante as trevas e sentia-me a enlouquecer de culpa.
Por causa disso responsabilizei-me por tudo: falei com a agência funerária e tratei de grande parte da papelada. Quando o agente funerário me disse que era preciso alguém para reconhecer o corpo, cheguei-me à frente e disse que ia eu.
A pele do meu rosto estava mais seca do que o pão de véspera que nos esquecemos na cozinha, senti que se abrisse a boca para exprimir o que estava a sentir me iria desfazer em migalhas, mas avancei para a morgue com tanta determinação que ninguém da família se opôs.
Da morgue retenho a vaga recordação de uma sala mergulhada numa luz mole e peganhenta, e um imponente armário cheio de grandes gavetas que se abriam como camas. A da minha avó estava junto ao chão. O funcionário abriu-a com demasiada força, o corpo surgiu de repente e o rosto oscilou de um lado para o outro, desamparado. O funcionário, um tipo pesado, barba cerrada, mãos gordas, tomou consciência de que abrira a gaveta com demasiada brusquidão. Desculpou-se pegando numa escova e penteando-lhe o cabelo branco com tanto cuidado que parecia uma criança a brincar com uma boneca. Pobre homem.
Entrei em colapso. Sentia-a tão frágil e desprotegida, estendida ali em baixo numa fria cama de alumínio, que da garganta me saíram vómitos incontroláveis de choro seco. Foi o suficiente para que o agente funerário concluísse que o corpo tinha sido reconhecido e me puxasse dali para fora com uma expressão gentil.
Nessa noite voltei a vomitar soluços. Não conseguia deixar de pensar na expressão frágil e abandonada que vira na morgue e de a associar ao facto de não ter sido suficientemente forte para a visitar no seu último dia de vida.
Nessa noite sonhei que estava a dormir. Virei-me para o outro lado da cama e vi a minha avó deitada a meu lado. Reconheci o sorriso compreensivo que fazia quando eu delirava de febre e só a chamava a ela, e mais ninguém. O cabelo branco resplandecia como a lua cheia. Não disse nada, limitou-se a sorrir para a criança em que me transformara. Já não parecia frágil ou abandonada. Estava serena e contente por me ver. Adormeci no sonho.
No dia seguinte senti-me aliviado. As visões da morgue haviam desaparecido. Tudo o que existia na minha cabeça era a luminosidade serena daquele sorriso. Lembro-me de ter achado que o meu subconsciente se encarregara de sarar uma ferida muito profunda. Pensei quão maravilhoso e inexplorado é ainda o cérebro humano. Mas passados todos estes anos uma voz da infância ainda persiste em dizer-me: «A tua avozinha cuidou de ti até ao fim.»































11 comentários
Bem podias ter publicado isto noutra altura, porra.
Estava eu aqui tão bem, a saborear a calma duma manhã de Natal com a casa em silêncio, e chegas tu, e abanas-me assim.
No Natal, os que nos faltam, fazem mais falta. E as lágrimas estão sempre à beira do precipício. Mais à beira do que é costume. Gerimos os olhares que trocamos com quem nos é próximo, para evitar que caiam as lágrimas. Mesmo quando encontramos um olhar que faz um clique, desviamos rapidamente. Cúmplices, dizemos em silêncio, hoje não, e olhamos para os putos.
Não consegui desviar os olhos do teu post, e agora estou a ver se não molho o teclado, caraças.
Boas Marco,
O meu avô paterno morreu na véspera do Natal de 1994, com um cancro no estômago. Tinha eu 25 anos e acabado de me casar há meses. Estava felicíssmo.
Foi na casa dele em Álcacer do Sal – e com ele – que desde que nasci, passei os Natais em grande alegria junto da família toda: avós, pais, irmã, tios, primos. Uns dias sempre de verdadeira festa.
Nunca mais desde esse dia quis voltar a essa casa e nunca mais ninguém falou sobre essa noite. Mas toda a gente, quando está a mesa a saborer o bacalhau e o perú, se lembra do avô/pai/sogro, “O Velho Setenta”.
O resto, a Jonas já disse. Não era hoje o dia.
E se ela acabou por molhar o teclado ou não, não disse. Mas eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que sim.
Abraço,
Mário
Post Scriptum: para que não julgues que foi uma história inventada à pressa e para que compreendas melhor o que senti quando numa manhã de Natal cheguei ao teu blog e li o artigo, lê isto que escrevi em 27 de Junho de 2007:
http://gamito.blogs.sapo.pt/3884.html
Claro que nada disto te retira o teu absoluto direito de escreveres sobre o que quiseres e quando quiseres.
Um abraço,
Mário
O meu pai faleceu há poucos dias, com 92 anos. Casou muito tarde, com quarenta e tal, mas ainda a tempo de deixar 8 ramos que se multiplicaram: 8 netos e 8 netas. Quase chegava a bisavõ, o que de resto seria normal para a sua idade, não fora casar tarde.
Quanto ao resto, acho que para nos lembrarmos dos nossos ente-queridos, qualquer dias é dia, mesmo que num dia de Natal. Aliás até será o dia mais adequado.
Para quantos não hospedam os pais e avós numa qualquer urgência, para não incomodarem o seu Natal, é prefeitamente natural que neste dia sintamos com mais força a ausência de quem ainda há pouco nos sorria. Mas, como diria alguém, os mortos só morrem quando deles nos esquecemos.
Bom Natal!
Marcos…lamento muito a tua perda.
Fiquei a adorar-te. Porra
Fiquei sem palavras…
Boas,
Sei que vai parecer “conveniente” dizer isto, mas acreditem que não.
Esta semana, foi a minha avó de emergência para o Hospital (Santos Silva), após ter vomitado várias vezes, ao chegar ao Hospital os médicos fizeram os respectivos exames e tiveram que a operar de urgência. Ainda não entendi bem, mas pelo que percebi era um problema com a vesícula e tiveram que tirar uma tripa( espero não estar a dizer nenhuma barbaridade, mas foi o que entendi).
Resumindo, hoje ao ler o teu post , tive um “déja vu”, pois a minha mãe perguntou-me se eu queria ir ver a minha avó hoje , e eu disse que não, para curar a gripe que estou a “chocar” (é verdade, mas foi um género de malandrice também para não ir), mas o teu post “fez-me lá ir” , não consegui ficar em casa. Ainda bem, porque até gostei de ter ido, senti-me útil, pois ela estava já sozinha (apesar de receber visitas a toda hora) e estava na hora de tomar o chá, dei-lhe o chá com uma palhinha (ela está a soro), e no fim agradeceu-me ,pois estava cheia de fome e aquele simples chá fez lhe parecer, passo a citar “parece que comi um presunto, já estou cheia!”
Obrigado Marco pelo post que me moveu até lá!
Boas festas.
Uhm!
A minha mãe teve uma conversa parecida esta semana…
Não gosto, também, dessa sensação de culpa. Só que agora vejo que quando me sentia dessa forma, era devido a outro genero de coisas cujo valor ou importância são menores quando comparados a perda de uma pessoa.
É o comentário de estreia, como registado.
Ora, caro dono do blog, ou mesmo comentadores, alguem me sabe dizer, se é que existe, o nome do desenho feito pela janis joplin, o espantalho, que por acaso figura uns posts atrás?
Epá, obrigado!
Ando há cerca de 3 semanas um pouco afastado do mundo virtual mas tenho lido os teus posts conforme posso. Quanto a este nem sequer vou dizer mais nada que os outros já tudo disseram aproveitando o ensejo de te desejar umas Boas-Festas e pontapé para a frente!
@braço.
É sempre muito complicado quando isto acontece, tenho 21 anos e já não tenho avós. Quando eles morreram era demasiado novo para lhes dar a devida atenção, quantas vezes eu não penso que dava tudo para os voltar a ter comigo. É difícil mas a vida continua, eles sabem que lhes dávamos o devido valor, pois hoje estamos a falar desta forma…
E falta aqui um post a falar bem do Benfica para eu ficar com azia, ou um a falar mal para eu pensar ‘coitado’
Abraço
ola eu tenho 22 ano e a minha avo paterna faleceu a 21anos,eu tinha apenas 1aninho,ainda hoje sinto muito de nunca a ter cunhecido,mas ela ainda m cunheceu.mas vo sempre k posso ao cemiterio a campa dela,sinto muit nunca ter cunhecido a minha avozinha..morreu com um tumor no peito…..
so um desabafo k nunca tinha feito
obrgad