→ 15/07/2008 @3:57

Post sobre o post seguinte

Se há coisa que me acontece com frequência é não conseguir dar seguimento a novos posts se tenho ainda alguma coisa para dizer sobre os que já escrevi. Enquanto não o fizer, bem posso andar às voltas de um texto que não consigo seguir em frente.

O post que se segue a propósito do vídeo «Two Girls, One Cup» (link para quem apanhar este texto já arquivado e não tiver lido o post a que me refiro), levantou-me dúvidas sobre os assuntos de que posso ou não falar no Bitaites.

Se vivesse sozinho e não tivesse filhos menores que ocasionalmente espreitam para ver o que o pai anda a fazer aqui, estaria muito mais à vontade na escolha de temas. Não digo que essa escolha seria radicalmente diferente, mas não seria feita de forma tão cautelosa.

Ao mencionar a história do vídeo «Two Girls, One Cup», senti ter quebrado uma regra que impus desde que iniciei o blogue: nunca escrever ou mostrar nada que não pudesse falar com os miúdos olhos nos olhos. Ao reler o post apercebi-me de que se qualquer um deles me fizesse perguntas sobre os pormenores escabrosos da história, eu teria enorme dificuldade em falar abertamente. Portanto fiquei à rasca.

Quando o meu «amigo virtual», fotógrafo cujo trabalho eu muito gosto, o Benjamim, inseriu um link directo para o vídeo nos comentários, fiquei ainda mais à rasca. Removi-o, a minha explicação foi aceite por ele sem problemas, mas a verdade é que quem visita o blogue não pode ser responsabilizado por uma situação que desconhece ou devido às decisões do blogger: se não tivesse falado no assunto, o Benjamim não teria colocado o link. Tão simples como isto.

Eu e a Susana temos falhas enquanto pais, mas se há escolha que sentimos ter sido a mais correcta é precisamente a de não ter problemas em falar de sexo. Eles não têm vergonha de fazer perguntas, nós não temos vergonha de responder.

Neste mundo de preconceitos e ideias feitas, a abertura de espírito é a melhor base de conversa; nesta gigantesca base de dados que é a Internet, seleccionar informação é a melhor arma que podemos fornecer aos nossos filhos. O sexo afinal é saudável, é íntimo mas não é secreto, não é sujo nem pecaminoso, mais tarde ou mais cedo será uma escolha na vida de qualquer criança actual – tal como todas as outras escolhas, queremos que saibam que resulta melhor quando é ponderada e não precipitada, tem mais significado quanto é feita com paixão do que de forma inconsequente. Máxima informação, mínima imposição.

Dantes as coisas talvez fossem mais simples para o instinto protector dos pais: o mundo estava lá fora e continuava a ser percorrido por assassinos e pedófilos e abutres e doentes mentais, mas a fronteira entre o desconhecido cujos doces não devem ser aceites e os nossos filhos era delimitada pelas paredes da nossa casa.

A televisão violou parcialmente as fronteiras estabelecidas, mas os computadores e a Internet estilhaçaram-nas. O mundo fixou-se dentro de casa, o mundo todo, sem restrições, com os seus anjos e demónios, as suas maravilhas e horrores, rompendo as protecções antigas de uma forma que a televisão nunca conseguira. E o problema é que muitos pais não se apercebem de que existe dentro de casa um mundo sem horários nem grelhas de programação, pois nada sabem sobre computadores e muito menos sobre a Internet.

Até eu, que julgo saber o suficiente, continuo cheio de dúvidas sobre o que fazer e, sobretudo, como fazer. Os programas de controlo parental, os filtros que podemos activar no Google, as regras que estabelecemos numa firewall, o software anti-spam, são ferramentas que ajudam mas não podem desresponsabilizar-me.

Entre a nossa protecção e o direito dos filhos à liberdade de escolha e ao erro, nasce um conflito muito difícil de resolver. Senti precisamente isso quando reli o post: o meu primeiro impulso foi apagá-lo por não me sentir preparado para lhes explicar que nem sempre o sexo é saudável e as paixões são verdadeiras. Ao mesmo tempo, não posso impedi-los de se sentirem incomodados e de fazer perguntas incómodas. Mais importante do que tentar convencê-los de que temos todas as respostas, é fazer com que eles confiem sempre nas nossas respostas – mesmo que as únicas que possamos dar sejam um Não sei. Por isso o post ficou.

7 comentários

  • 1
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2008 - 04:07 | Link permamente

    És um grande pai! Já o meu… Bem… Foi e é um pai ausente.

  • 2
    com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    15 de Julho de 2008 - 04:24 | Link permamente

    Daniel, sou um pai como os outros: com qualidades e defeitos, coisas onde acerto e outras onde falho.
    Olha, quanto ao que disseste, pensa assim: tudo o que passares agora poderá fazer de ti um pai muito melhor no futuro. Um grande abraço!

  • 3
    Zé Bruno
    com Firefox 3.0 Firefox 3.0 em GNU/Linux GNU/Linux
    15 de Julho de 2008 - 06:12 | Link permamente

    pô, Marcos, grande postagem! recomendei no meu google reader (“shared list” ou algo do tipo) com a seguinte nota:

    muito lúcido, muito verdadeiro. tem já uma cara que eu andava pensando e discutindo um pouco isso com o povão aí do IRC — essa brisa de uso & desvantagem da internet, especialmente com relação aos filhos. muito bom ver uma postagem dessas de alguém que é pai, constatar que a aflição prevista está aí, de fato, e pá. vale a pena a leitura e mais discussão.

  • 4
    quazatron
    com Firefox 3.0.1 Firefox 3.0.1 em GNU/Linux GNU/Linux
    15 de Julho de 2008 - 09:34 | Link permamente

    +5 Insightful

  • 5
    corvo
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2008 - 10:28 | Link permamente

    De facto esse video é execrável, mas por outro lado, é inevitável que este ou outros vídeos nojentos esteão por toda a net ao alcance de qq um (mesmo dos mais novos) nós todos sabemos isso, quem se deve sentir culpado (ou pelo menos devia) não é quem vai vêr mas quem filma, pq é tão nojento quem faz aquilo como a pessoa que filma, é de facto uma maneira de dizer que não têm nada que fazer de concreto e objectivo, que qq coisa serve……………o que não é verdade…………..por isso Marco nem devias pensar mais nisso, não foi um erro teu nem do teu amigo virtual, claro que é complicado qd se tem menores, que nos questionam sobre tudo e que às vezes não temos a resposta mais adequada, mas à coisas muito piores…..(se bem que esse vídeo é mesmo nojento lol)……………. :twisted:

  • 6
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2008 - 11:21 | Link permamente

    Marco, quanto ao título do post, como está está bem. Mas “Post sobre o post anterior” não ficaria pior. Esquece…
    Quanto à questão do “batido”, ainda não vi , mas nem preciso, para saber que é nojento de mais. De facto é nestas situações que constatamos que a raça humana é capaz das coisas mais hediondas e desprezíveis na justa proporção da sua inteligência e génio. Ainda mais nojento, é pensar nos objectivos que estão por detrás destas coisas. Sim, porque há sempre alguém que lucra com isto.
    Filmar e exibir situações de violência gratuita tornou-se moda. Agora isto. O que virá a seguir?
    Quanto à pertinência do post, vale pelas discussões e reflexões que pode despoletar. Fora isso, penso que de facto foge à sensibilidade e ao senso comum. Daí achar relevante o tua reflexão à posteriori. Chego à conclusão que neste tipo de assuntos, o melhor será fazer como se aconselha nas importantes decisões: Dormir sobre elas uma ou duas noites.
    Quanto à eventual remoção, que chegaste a considerar. Porque não? Afinal não seria um consequência da liberdade pessoal que preconizas para o Blog, a ponto de recusares publicidade? Os leitores e comentadores só teriam que compreender. Ou seja, retirar ou remover um post deveria ser tão natural como o publicar. Mas esta será uma dica para novas reflexões.

  • 7
    lemon
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    15 de Julho de 2008 - 14:36 | Link permamente

    não foi o problema de disponibilizar links…basta meter o nome no google, que o video salta à vista. (estou arrependido de o ter feito, a quem estiver a ver isto, nao tenha curiosidade em googlar, que não vai acrescentar nada à vossa cultura) o problema, foi a abordagem do assunto. mas concordo com a tua ideologia zappaniana

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