A televisão ocupa um lugar tão central nas nossas vidas que se imiscuiu nas nossas recordações de infância. Nesses tempos ainda não vÃamos o televisor como um aparelho potencialmente nocivo, mas um companheiro que nos sugeria brincadeiras.
A primeira vez que nos deixámos levar pelas maravilhas da televisão foi quando a RTP transmitiu, em 1977, as fantásticas aventuras de um pirata – Sandokan, o famoso Tigre da Malásia. Até as raparigas – nunca tinham mostrado serem apreciadoras de brincadeiras de piratas – não queriam perder um único episódio.
Elas aborreciam-se com as partes em que havia porrada e duelos de capa e espada, não gostavam muito que nós andássemos aos pulos a imitá-los, mas ao mesmo tempo procuravam nos nossos olhos de piratas assexuados vestÃgios daquele olhar de matador amendoado do Sandokan.
Nem sempre os rapazes se portavam assim. Também tÃnhamos os nossos momentos mais sensÃveis em que mostrávamos a nossa alma de poetas. Muitas vezes saÃamos diante da televisão a cantar Sandokan Sandokan, sem cuecas e sem soutien. Bem sei que não era lá muito sofisticado, mas ao menos rimava.
Nós querÃamos mesmo era andar à porrada e as miúdas não serviam para isso. E as que serviam não eram consideradas miúdas. Naquele tempo em que não havia canais temáticos a passar filmes 24 horas por dia, sempre que dava uma coboiada ficávamos presos ao televisor a acumular energia. Só os caubóis conseguiam ser quase tão fixes como o Sandokan, embora ficássemos um bocado lixados sempre que aparecia uma personagem feminina. Mulheres? Pff. Isso significava gramar com longos minutos de conversa de chacha e beijinhos no bigode do xerife, quando o xerife devia era passar o tempo a dar tiros e pontapés e murros aos maus da fita. As raparigas – criaturas incompreensÃveis – pareciam sempre dar mais importância à s partes chatas. Para elas, aquilo é que era acção.
O dilema Sandokan deu-lhes boa bagagem para enfrentar um desafio incomensuravelmente maior: os jogos de futebol. O actual excesso de transmissões televisivas e o calendário sobrecarregado dos jogos podem ser óptimos para um adepto ferrenho, mas naquela altura um Benfica-Sporting era um evento único por ser tão raro. PodÃamos ver os melhores craques das nossas cadernetas de cromos sem sair de casa.
O poder da televisão enquanto potenciadora de outros poderes – neste caso, o poder do futebol – ficou demonstrado de forma inequÃvoca durante o Europeu de 1984 disputado na França. Só perdemos com a selecção anfitriã nas meias-finais (2-3) – e esse jogo que opôs Platini ao nosso Chalana foi tão tremendo que o consideraram a «final antecipada do Europeu».
Quando Portugal marcou o 2-1, dei um pulo tão grande que rebentei com o candeeiro da sala, desfeito em mil pedaços a meus pés. Fiquei à rasca das mãos mas queria lá saber. Ninguém deu grande importância, à excepção das mulheres (claro). Para nós, desde que a televisão não se estragasse, estava tudo bem.































8 comentários
Estes posts saudosistas quase que fazem chorar
Eu fui (sou?) uma daquelas que gostava de andar à porrada, mas algo de feminino devia haver, na medida em que, durante uns anos, achei que se tivesse uma filha, lhe chamaria Marine Marianne, que era o nome da gaja de quem o Sandokan gostava.
Sim, comprei a série em DVD.
Não, ainda não tive coragem para rever. Ouvi dizer que é uma daquelas séries que envelhecem mal, e eu acho que prefiro ficar com as recordações.
lembro-me perfeitamente do SANDOKAN, apesar de ser muy piquenita… tenho uma memória de elefante, é o que é!!
Curiosamente, também me lembro de canção. Completamente estúpida de facto.
De certeza que não é por estares a usar o Windows Vista, Rui?
Recordo-me perfeitamente da série do Sandokan, interpretada pelo indiano Kabir Bedi.
Mas recordo sobretudo a bela Mariana, interpretada por Carol André.
Como recordação fÃsica, guardo uma caderneta de cromos editada na altura.
Como não podia deixar de ser, assisti também ao célebre jogo com a França no Europeu 84.
Bons tempos, em que de facto a televisão exercia fascÃnio. Hoje remete-se a outros exercÃcios, sem dúvida de poder.
Não
. O software em geral e os sistemas operativos em particular fazem perder os cabelos e gritar, mas chorar não
Aiii a Mariana…
77? Pois, está explicado. Não faço ideia do que seja…