→ 20/07/2012 @23:45

Só um bocadinho de água na fervura elogiosa

As qua­li­da­des de co­mu­ni­ca­dor de José Hermano Saraiva, a forma ca­tita como en­tre­ti­nha na te­le­vi­são e a sim­pa­tia com que mui­tos por­tu­gue­ses o en­ca­ra­vam, não pres­su­põem que te­nha es­tado para a História como Carl Sagan es­teve para a Astronomia.

Sagan era um grande co­mu­ni­ca­dor e ci­en­tista que não des­de­nhava a fan­ta­sia, mas avisava-nos sem­pre de que es­tá­va­mos pres­tes a em­bar­car numa nave da ima­gi­na­ção, de­li­mi­tando com le­al­dade de pe­da­gogo a fron­teira en­tre fac­tos e es­pe­cu­la­ções, fac­tos e gos­tos ou opi­niões pessoais.

Aos elo­gios à «fi­gura in­con­tor­ná­vel» da cul­tura, ao «vulto» que se foi e à «perda enorme para Portugal», é ne­ces­sá­rio acres­cen­tar ri­gor e equi­lí­brio – tão im­por­tan­tes para um jor­na­lista como, su­po­nho, um his­to­ri­a­dor. Ou al­guém que goste de História.

Felizmente te­mos os blo­gues para nos dar uma vi­são de maior au­to­ri­dade do que as sim­ples no­tí­cias de jor­nal que tudo elo­giam e nada ques­ti­o­nam: um bom prin­cí­pio de con­versa é ler este post no blo­gue A Terceira Noite. O ar­tigo de Rui Bebiano — his­to­ri­a­dor e pro­fes­sor de his­tó­ria con­tem­po­râ­nea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra — dá-nos uma pa­no­râ­mica um bo­ca­di­nho mais abran­gente para acres­cen­tar aos obi­tuá­rios, e com enorme cla­reza e elegância.

 

12 comentários

  1. Ola’

    O teu post fez me pen­sar em duas coi­sas: O unico li­vro de fic­ção de Sagan es­go­tou em edi­ção de bolso e não o re-editaram em edi­ção de bolso… Felizmente que ainda te­mos as bibliotecas.

    Um amigo his­to­ri­a­dor perguntou-me um dia se os fas­cis­tas Portugueses ti­nham sido jul­ga­dos pe­los seus cri­mes. Eu penso que não (acho que não me en­gano) e tal­vez seja esse o drama da so­ci­e­dade Portuguesa?

    Nuno

  2. Simão Miranda — 21/07/2012 @0:43 (1 comentário)

    Obrigado Marco. Completamente de acordo com o que di­zes. Há um mito cri­ado em torno de José Hermano Saraiva que não cor­res­ponde à realidade.

    A co­mu­ni­ca­ção so­cial de­via ser mais como al­guns blogs e me­nos como al­guns jornais.

  3. Nuno Gomes — 21/07/2012 @2:56 (6 comentários)

    Absolutamente de acordo. Mas se re­pa­ra­rem nos co­men­tá­rios, (http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/reaccoes-a-morte-de-jose-hermano-saraiva_1555703) to­dos fo­gem ao “grande historiador”.

  4. Não sendo eu um jo­vem de idade avan­çada, ado­rei o úl­timo pa­rá­grafo era aquilo que eu pro­cu­rava sa­ber com cla­reza. Obrigado pela su­ges­tão de lei­tura, Marco.

  5. Gil — 21/07/2012 @8:01 (13 comentários)

    Marco: “en­tre­tia?”

    Outra coisa: quando eu en­trei para a Faculdade , o Prof Saraiva ainda era o Ministro da Educação. Nesse tempo ainda as­sisti a as­sal­tos da po­lí­cia de cho­que às ins­ta­la­ções aca­dé­mi­cas e não só (p.ex à can­tina). Não te­nho boas re­cor­da­ções des­ses tem­pos. Mas hoje o Prof é uma fi­gura po­pu­lar. Tem com cer­teza muito mé­rito nisso. E tem tam­bém a sua his­tó­ria como ho­mem da­quele re­gime. É justo que so­bre ele se faça um juízo com­pleto e ob­jec­tivo. Para isso há agora todo o tempo, só não pre­cisa é de ser ainda an­tes do seu pró­prio fu­ne­ral. Uma opinião.

    Saudações.

    • Ups. Obrigado, já corrigi.

    • Gil — 21/07/2012 @12:28 (13 comentários)

      Marco: Embora não seja co­men­ta­dor ha­bi­tual, já não é a pri­meira vez que te abor­reço com por­me­no­res nos tex­tos. Deves achar que sou um pi­cuí­nhas ou um chato do ca­ra­ças. E tens ra­zão. O pro­blema é que eu con­ti­nuo a pen­sar que não há mui­tos blog­gers que es­cre­vam tão bem como tu. E quando um su­jeito es­creve tão bem, a mí­nima gra­lha (por­que é disso que se trata, gra­lhas), torna-se de re­pente numa coisa es­qui­sita que bri­lha de forma in­có­moda no meio do texto. Isto quer di­zer que os teus tex­tos são tão bons, que uma gra­lha é uma injustiça.

      Isso não me des­culpa de ser um chato. Nem de te con­ti­nuar a ler com toda a aten­ção. Porque vale a pena.

    • Gil: não foi gra­lha, foi mesmo erro. O bom de se co­me­ter er­ros de Português e ter al­guém a corrigir-nos é não vol­tar a repeti-los.

      Eu não gosto mesmo nada de dar ar­go­la­das a es­cre­ver, mas não me im­porto de ser cor­ri­gido, pelo con­trá­rio: é si­nal de que o post é lido. Só te­nho a agra­de­cer. :)

  6. Mestre Slip — 21/07/2012 @10:52 (252 comentários)

    Finalmente, al­guém que olha para as coi­sas com um olhar ob­jec­tivo e im­par­cial. Sou aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fre­quen­tando o curso de História. E on­tem, tive pes­soas, quase cho­ca­das, a perguntar-me por­que raio é que eu não ha­via men­ci­o­nado a morte do his­to­ri­a­dor no fa­ce­book — quando o fiz com Carroll Shelby ou Sergio Pininfarina, mais re­cen­te­mente. A res­posta é sim­ples: por­que não o ad­mi­rava. Não o ad­mi­rava por­que, tal como é dito, o ho­mem, além do seu pas­sado me­nos digno, perdia-se em su­po­si­ções mi­ra­bo­lan­tes. E isso é cri­mi­noso no tra­ba­lho his­tó­rico! Tanto é que, nas bi­bli­o­gra­fias das mais di­ver­sas ca­dei­ras, o nome dele NUNCA fi­gura — pelo me­nos que eu ti­vesse reparado.

    Se é uma pena? Sim, é sem­pre. Se vai fa­zer as­sim tanta falta? Duvido!

  7. Pedro — 22/07/2012 @18:35 (385 comentários)

    Tenho 2 fa­mi­li­a­res pro­fes­so­res de História na fa­mí­lia, e por vá­rias ve­zes eles de­tec­ta­ram que o JHS, es­pe­ci­al­mente nos úl­ti­mos anos, es­tava a dar muita pa­ta­co­ada na História. Foi bom co­mu­ni­ca­dor, mas a co­mu­ni­ca­ção so­cial deu de­ma­si­ado tempo de an­tena a ele e zero a ou­tros, ver­da­dei­ros dou­to­ra­dos. Mas o ho­mem já era uma ins­ti­tui­ção na­ci­o­nal, e nes­sas ‘não se toca’…

  8. Como ex-estudante de Coimbra gos­tei de ver a alu­são, neste texto, a al­guma da ver­dade na vida e obra do Prof. J. H. Saraiva. E se a per­cep­ção da História pode va­riar com a época em que vi­ve­mos (sim, é es­tra­nho, mas é ver­dade) tam­bém po­de­mos, e de­ve­mos, ter um ponto de re­fe­rên­cia que nos ajude a en­ten­der o que de facto pas­sou. Falo da me­mó­ria, algo que não é fá­cil de re­pro­du­zir, é certo, mas que nem sem­pre se apaga com “his­tó­rias mirabolantes”.

  9. Povo de me­mó­ria curta…

    Excelente li­ga­ção.