As qualidades de comunicador de José Hermano Saraiva, a forma catita como entretinha na televisão e a simpatia com que muitos portugueses o encaravam, não pressupõem que tenha estado para a História como Carl Sagan esteve para a Astronomia.
Sagan era um grande comunicador e cientista que não desdenhava a fantasia, mas avisava-nos sempre de que estávamos prestes a embarcar numa nave da imaginação, delimitando com lealdade de pedagogo a fronteira entre factos e especulações, factos e gostos ou opiniões pessoais.
Aos elogios à «figura incontornável» da cultura, ao «vulto» que se foi e à «perda enorme para Portugal», é necessário acrescentar rigor e equilíbrio – tão importantes para um jornalista como, suponho, um historiador. Ou alguém que goste de História.
Felizmente temos os blogues para nos dar uma visão de maior autoridade do que as simples notícias de jornal que tudo elogiam e nada questionam: um bom princípio de conversa é ler este post no blogue A Terceira Noite. O artigo de Rui Bebiano — historiador e professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra — dá-nos uma panorâmica um bocadinho mais abrangente para acrescentar aos obituários, e com enorme clareza e elegância.











Ola’
O teu post fez me pensar em duas coisas: O unico livro de ficção de Sagan esgotou em edição de bolso e não o re-editaram em edição de bolso… Felizmente que ainda temos as bibliotecas.
Um amigo historiador perguntou-me um dia se os fascistas Portugueses tinham sido julgados pelos seus crimes. Eu penso que não (acho que não me engano) e talvez seja esse o drama da sociedade Portuguesa?
Nuno
Obrigado Marco. Completamente de acordo com o que dizes. Há um mito criado em torno de José Hermano Saraiva que não corresponde à realidade.
A comunicação social devia ser mais como alguns blogs e menos como alguns jornais.
Absolutamente de acordo. Mas se repararem nos comentários, (http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/reaccoes-a-morte-de-jose-hermano-saraiva_1555703) todos fogem ao “grande historiador”.
Não sendo eu um jovem de idade avançada, adorei o último parágrafo era aquilo que eu procurava saber com clareza. Obrigado pela sugestão de leitura, Marco.
Marco: “entretia?”
Outra coisa: quando eu entrei para a Faculdade , o Prof Saraiva ainda era o Ministro da Educação. Nesse tempo ainda assisti a assaltos da polícia de choque às instalações académicas e não só (p.ex à cantina). Não tenho boas recordações desses tempos. Mas hoje o Prof é uma figura popular. Tem com certeza muito mérito nisso. E tem também a sua história como homem daquele regime. É justo que sobre ele se faça um juízo completo e objectivo. Para isso há agora todo o tempo, só não precisa é de ser ainda antes do seu próprio funeral. Uma opinião.
Saudações.
Ups. Obrigado, já corrigi.
Marco: Embora não seja comentador habitual, já não é a primeira vez que te aborreço com pormenores nos textos. Deves achar que sou um picuínhas ou um chato do caraças. E tens razão. O problema é que eu continuo a pensar que não há muitos bloggers que escrevam tão bem como tu. E quando um sujeito escreve tão bem, a mínima gralha (porque é disso que se trata, gralhas), torna-se de repente numa coisa esquisita que brilha de forma incómoda no meio do texto. Isto quer dizer que os teus textos são tão bons, que uma gralha é uma injustiça.
Isso não me desculpa de ser um chato. Nem de te continuar a ler com toda a atenção. Porque vale a pena.
Gil: não foi gralha, foi mesmo erro. O bom de se cometer erros de Português e ter alguém a corrigir-nos é não voltar a repeti-los.
Eu não gosto mesmo nada de dar argoladas a escrever, mas não me importo de ser corrigido, pelo contrário: é sinal de que o post é lido. Só tenho a agradecer.
Finalmente, alguém que olha para as coisas com um olhar objectivo e imparcial. Sou aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, frequentando o curso de História. E ontem, tive pessoas, quase chocadas, a perguntar-me porque raio é que eu não havia mencionado a morte do historiador no facebook — quando o fiz com Carroll Shelby ou Sergio Pininfarina, mais recentemente. A resposta é simples: porque não o admirava. Não o admirava porque, tal como é dito, o homem, além do seu passado menos digno, perdia-se em suposições mirabolantes. E isso é criminoso no trabalho histórico! Tanto é que, nas bibliografias das mais diversas cadeiras, o nome dele NUNCA figura — pelo menos que eu tivesse reparado.
Se é uma pena? Sim, é sempre. Se vai fazer assim tanta falta? Duvido!
Tenho 2 familiares professores de História na família, e por várias vezes eles detectaram que o JHS, especialmente nos últimos anos, estava a dar muita patacoada na História. Foi bom comunicador, mas a comunicação social deu demasiado tempo de antena a ele e zero a outros, verdadeiros doutorados. Mas o homem já era uma instituição nacional, e nessas ‘não se toca’…
Como ex-estudante de Coimbra gostei de ver a alusão, neste texto, a alguma da verdade na vida e obra do Prof. J. H. Saraiva. E se a percepção da História pode variar com a época em que vivemos (sim, é estranho, mas é verdade) também podemos, e devemos, ter um ponto de referência que nos ajude a entender o que de facto passou. Falo da memória, algo que não é fácil de reproduzir, é certo, mas que nem sempre se apaga com “histórias mirabolantes”.
Povo de memória curta…
Excelente ligação.