→ 24/09/2008 @10:48

Uma falsa Nefertiti no táxi

Às terças saio sempre muito tarde do trabalho e a empresa tem a amabilidade de pagar-me um táxi para casa. Foi na viagem de ontem que reparei num LCD montado no banco da frente emitindo uma série de spots de auto-promoção – «a televisão dos taxistas», a TaxiTV.

Mas não é da TaxiTV que quero falar, pois não passa de um painel publicitário animado em repetição contínua, mas do poder da informação e de como este não deve ser desprezado.

Num dos segmentos, a TaxiTV mostrava uma série de «curiosidades», entre as quais o rosto «reconstituído em computador» de uma mulher que viveu há mais de 3000 anos, Nefertiti, a bela e poderosa esposa do faraó Akhenaton.

Eu sei de onde vem essa história. Em 2003, uma expedição ao Vale dos Reis patrocinada pelo Discovery Channel e liderada pela arqueóloga Joann Fletcher pretendeu ter descoberto no túmulo KV35 a múmia de Nefertiti. A reconstituição digital do rosto da rainha foi feita a partir do crânio de uma das múmias descobertas nesse túmulo.

O problema é que Joann Fletcher é a única que acredita que aquela múmia é Nefertiti; todos os outros egiptólogos consideram que ela está completamente enganada e a falar de assuntos que não domina. Alguns afirmam mesmo que a múmia que a arqueóloga acredita ser a de Nefertiti é a de um rapaz de 16 anos – a conclusão de Fletcher será assim um bocado caluniosa para o pobre rapaz, tendo em conta que o nome «Nefertiti» significa «A bela chegou».
Estou tentado a achar que os egiptólogos têm razão e a arqueóloga não, dada a diferença entre o que se conhece do rosto de Nefertiti e a sua réplica digital.

Fletcher transformou uma mera hipótese de investigação num dado praticamente adquirido, aceitou dar a cara num documentário de difusão mundial em que as suas especulações foram tomadas como factos, nem sequer consultou as autoridades egípcias e os egiptólogos sobre as suas conclusões. Esta atitude saiu-lhe cara, pois foi banida de trabalhar no Egipto por Zahi Hawass, chefe do Conselho Supremo das Antiguidades.

A desinformação pode percorrer um caminho longo, mas não se perde; cinco anos depois, o falso rosto de Nefertiti é exibido como verdadeiro numa televisão em miniatura montada num táxi.

É verdade, falta a moral da história. Aqui está: neste mundo onde a informação é abundante e nos chega de todos os lados e por todos os meios, devemos verificar a veracidade do que nos chega antes de formarmos opiniões ou, como tantas vezes vi, insultarmos alguém. Se esta atitude fosse adoptada por todos, escreviam-se muitos menos disparates na blogosfera e nas caixas de comentários.

3 comentários

  • 1
    com GNU IceCat 3.0.1 GNU IceCat 3.0.1 em GNU/Linux GNU/Linux
    24 de Setembro de 2008 - 13:37 | Link permamente

    Eu já vi esse documentário, mas não fazia ideia da polémica em que ele esteve envolto…

  • 2
    Rui
    com Firefox 3.0.2 Firefox 3.0.2 em Windows XP Windows XP
    24 de Setembro de 2008 - 16:19 | Link permamente

    Marco, não sei se acredito que dizes neste post… Vou ter que averiguar para ter a certeza…

    :mrgreen:

  • 3
    abidos
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    25 de Setembro de 2008 - 01:20 | Link permamente

    Um exemplo do oposto:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Disco_de_Nebra

    Este disco foi encontrado numa escavação ilegal, por parte de um gupo que procurava tumulos pré-historicos, foi ‘recuperado’ numa operação policial, onde um policia se fez passar por um traficante internacional de antiguidades, a sua autenticidade foi posta em causa desde do primeiro minuto, principalmente porque nessa altura, se alguém afirmasse que a representação Astromonica(conhecida) mais antiga da humanidade, foi feita por Barbaro da Floresta Negra, e não por um Egipicio, nem por um Sumerio, nem por um Chinês, era imediatamente considerado ‘Maluco’!!!

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