Às terças saio sempre muito tarde do trabalho e a empresa tem a amabilidade de pagar-me um táxi para casa. Foi na viagem de ontem que reparei num LCD montado no banco da frente emitindo uma série de spots de auto-promoção – «a televisão dos taxistas», a TaxiTV.
Mas não é da TaxiTV que quero falar, pois não passa de um painel publicitário animado em repetição contÃnua, mas do poder da informação e de como este não deve ser desprezado.
Num dos segmentos, a TaxiTV mostrava uma série de «curiosidades», entre as quais o rosto «reconstituÃdo em computador» de uma mulher que viveu há mais de 3000 anos, Nefertiti, a bela e poderosa esposa do faraó Akhenaton.
Eu sei de onde vem essa história. Em 2003, uma expedição ao Vale dos Reis patrocinada pelo Discovery Channel e liderada pela arqueóloga Joann Fletcher pretendeu ter descoberto no túmulo KV35 a múmia de Nefertiti. A reconstituição digital do rosto da rainha foi feita a partir do crânio de uma das múmias descobertas nesse túmulo.
O problema é que Joann Fletcher é a única que acredita que aquela múmia é Nefertiti; todos os outros egiptólogos consideram que ela está completamente enganada e a falar de assuntos que não domina. Alguns afirmam mesmo que a múmia que a arqueóloga acredita ser a de Nefertiti é a de um rapaz de 16 anos – a conclusão de Fletcher será assim um bocado caluniosa para o pobre rapaz, tendo em conta que o nome «Nefertiti» significa «A bela chegou».
Estou tentado a achar que os egiptólogos têm razão e a arqueóloga não, dada a diferença entre o que se conhece do rosto de Nefertiti e a sua réplica digital.
Fletcher transformou uma mera hipótese de investigação num dado praticamente adquirido, aceitou dar a cara num documentário de difusão mundial em que as suas especulações foram tomadas como factos, nem sequer consultou as autoridades egÃpcias e os egiptólogos sobre as suas conclusões. Esta atitude saiu-lhe cara, pois foi banida de trabalhar no Egipto por Zahi Hawass, chefe do Conselho Supremo das Antiguidades.
A desinformação pode percorrer um caminho longo, mas não se perde; cinco anos depois, o falso rosto de Nefertiti é exibido como verdadeiro numa televisão em miniatura montada num táxi.
É verdade, falta a moral da história. Aqui está: neste mundo onde a informação é abundante e nos chega de todos os lados e por todos os meios, devemos verificar a veracidade do que nos chega antes de formarmos opiniões ou, como tantas vezes vi, insultarmos alguém. Se esta atitude fosse adoptada por todos, escreviam-se muitos menos disparates na blogosfera e nas caixas de comentários.































3 comentários
Eu já vi esse documentário, mas não fazia ideia da polémica em que ele esteve envolto…
Marco, não sei se acredito que dizes neste post… Vou ter que averiguar para ter a certeza…
Um exemplo do oposto:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Disco_de_Nebra
Este disco foi encontrado numa escavação ilegal, por parte de um gupo que procurava tumulos pré-historicos, foi ‘recuperado’ numa operação policial, onde um policia se fez passar por um traficante internacional de antiguidades, a sua autenticidade foi posta em causa desde do primeiro minuto, principalmente porque nessa altura, se alguém afirmasse que a representação Astromonica(conhecida) mais antiga da humanidade, foi feita por Barbaro da Floresta Negra, e não por um Egipicio, nem por um Sumerio, nem por um Chinês, era imediatamente considerado ‘Maluco’!!!