Quis o destino que a data em que tinha de levar a minha filha à consulta do ortopedista (ela fracturou o pé) coincidisse com a greve geral de hoje. Chegámos à clÃnica por volta das oito e meia da manhã. Dezenas de pessoas já estavam sentadas à espera, mas pareciam ter sido ali esculpidas há uns bons milhares de anos. A senhora da recepção não sabia informar a que horas o ortopedista ia chegar, se viria a chegar ou se resolvera aderir à greve. Havia que aguardar.
Aguardámos. Aguardámos. Aguardámos.
Duas horas depois (já lia a crónica do Eduardo Prado Coelho no Público, tal era o meu desespero), fomos informados de que afinal o senhor doutor aderira à greve e que terÃamos então de fazer o favor de regressar ao serviço de pediatria do hospital (onde vinte dias antes estivera com a minha filha) para que fosse reexaminada por quem calhasse porque só depois de ser reavaliada por quem calhasse se podia passar um novo papel através do qual se marcaria outra consulta
Eu já não ouvia nada. No meu espÃrito tuga mais profundo, ou seja, naquele zona recôndita do cérebro formada quando ainda andávamos a combater os mouros, já eu estava de braço no ar como se tivesse uma espada na mão e a gritar Então custava alguma coisa ao ortopedista avisar o pessoal que ia fazer greve? Escusávamos de ficar aqui duas horas feitos palhaços e mais umas quantas asneiras que eu preferi ocultar aqui.
Naturalmente que nada disto aconteceu. Portei-me como um cidadão exemplar. Eu e a minha filha aguentámos mais duas horas de hospital e lá teremos de repetir a consulta.
O direito à greve é tão justo e evidente que até me fica mal dizer que sou a favor. É como afirmar que apoio a existência de oxigénio na atmosfera. Mas queria aproveitar a oportunidade que este blogue me dá para recordar esse ortopedista de um facto que parece ter esquecido: os doentes também são trabalhadores. Tanto têm direito à indignação como ao respeito. E quem faz greve também deve ser digno dessa luta.
(*) Editado a 31/05. Dois comentários foram suprimidos: o do Anónimo e a minha resposta. Razão? Referiam (e citavam) uma parte do texto em que fui desnecessariamente agressivo mas que agora, mais calmo, decidi remover. Desculpa, Anónimo, espero que compreendas que não foi minha intenção censurar-te. A todos os outros: o essencial do desabafo mantém-se.































19 comentários
That’s the point..
Qual o impacto de uma greve que não causa transtorno a terceiros?
Fazias greve! Duh!
PS: Bem… se o Comuna cá vem, fica doente. Se vivesses na China isto não acontecia (e se calhar não acontecia mesmo).
melhora para a pikena. E deixa de ser rezingão.
Tiago: transtorno é não ter consulta. Fazer esperar dezenas de pessoas mais de duas horas é falta de respeito.
Boas Marco, eu não creio que o culpa seja a Greve, até porque todos temos direito a ela e ninguém é obrigado a avisar, essas duas horas de espera só aconteceram porque para os Senhores Doutores é normal chegarem atrasados, e então a Srª enfermeira deve ter ficado na dúvida será que se atrasou a tomar o café ou a fazer greve?
Sem dúvida que é muito chato, mas creio que o problema não é a greve (Não sou nem contra nem a favor da greve, vim trabalhar não por ser contra a greve!) mas sim dos lobbies que existem em certas profissões, essa então …
Abraços
Codedmind, não é a greve que está em causa! É o (preencher com um palavrão) do ortopedista.
As minhas experiências com hospitais também se resumem a ortopedistas (já torci 3 vezes o mesmo pé) e, só mesmo por acaso, com esperas também de 2/3 horas e em dias em que não há greve nenhuma.
Houve um deles que, da última vez, me mandou para casa para andar de muletas 1 semana, usar uma liga durante 2 ou 3 semanas e ainda me mandou uma boca quando eu falei de gesso: “Se pagasses os 30 contos de gesso não falavas assim”. De notar que fui lá no dia seguinte cheio de dores e esperei outras duas horas mas saà de lá com gesso com o qual tive de andar 3 semanas e de muletas para aà umas 5. Usar liga usei uns bons meses e ainda hoje a uso muitas vezes (foi à cerca de 2 anos).
Ou seja: há médicos bons e há médicos filhos de quem todos sabem.
Medicina e Farmacia sao os 2 grandes lobbies de Portugal, fazem o que querem e sobra-lhes sempre o tempo.
Se as coisas estivessem bem não havia greve. Quem deve ser mandado à merda são os que motivaram a greve.
Agora são muitos, mas começou só com um: ESSE É QUE DEVE SER MANDADO À MERDA.
E que vá acompanhado do Ortopedista.
É verdade que o Marco foi um bocado agressivo, mas ele tem razão na diferença que tenta colocar entre o DIREITO à greve e o DEVER ao respeito dos doentes, ou seja, bastava ele ter avisado, mais nada…
Infelizmente compreendo as razões do Marco, ai como compreendo, doente por vezes é tratado abaixo de cão.
Quanto à greve: Não sou empresário, não sou polÃtico, não sou funcionário público, não sou funcionário autárquico, não sou trabalhador duma qualquer empresa de capÃtal publico ou de interesse público, sou sim um simples trabalhador por conta de outrém, “fod*-*e” tive de trabalhar. Pois foi tive de trabalhar não fosse eu chegar lá amanhã e ter a cadeira ocupada. E sou português como os tais trabalhadores que citei e que fazem greves. Mas se eu e outros como eu não trabalharem, onde e a quem é que os sanguessugas do governo vão cobrar impostos para eles (eles = sector público) se alimentarem??
Desculpem os funcionários públicos trabalhadores deste meu desabafo. Aos politicos não peço desculpa porque não se enquadram nem em trabaladores nem em honestos.
Nota: A minha esposa é funcionária publica, foi trabalhar por respeito as doentes e ……
Ta demais este post, pq revejo-me nesta mesma situação.
Como assinante da feed deste blog quero desde ja agradecer o teu treabalho como blogger, diria que talvez seja o melhor blog nacional.
Manifestações, meus amigos, guardem para o dia das eleições e então aÃ, o manifesto conta!
Não tivesse eu já sofrido também várias vezes com essas porcarias. Se já sem greve é o que é … quanto mais com ela …
Já agora as melhoras à miúda …
Antes de mais, as melhoras para a miúda. Quanto ao Sr. Doutor, eu tratava-lhe da saúde quando estivesse com ele… :evil_wp:
Pois as greves acabam por ser um inconveniente, para quem for apanhado sem as fazer. Eu apoio as greves, mas realmente o respeito fica bem a todos e o Sr. Doutor…
Bem existem mais.
As melhoras para a miuda.
Com tanta bordoada na ânfora o gajo é que vai ter de recorrer a um colega…
Belo momento de indignação.
“That’s the point.. Qual o impacto de uma greve que não causa transtorno a terceiros?”
Porque é que não queimam carros, assaltam velhinhas, andam nús na estrada? Aà é que iam transtornar muita gente.
Acham justo um professor saber que tem exame em dia de greve, saber que vai faltar e não dizer nada aos alunos quando no dia anterior passa por eles e inclusivamente os cumprimenta (“Lá vão estes idiotas estudar toda a noite para nada.”)?
Acham justo que médicos façam greve quando à umas semanas fui a um serviço de URGÊNCIAS e a médica que estava de serviço não atendeu ninguém a partir das 16:30 quando só devia terminar às 19h (claro que deu indicação às funcionarias para não preencherem a ficha das pessoas e claro que a funcionária mesmo sabendo o que a médica tinha feito, precisou de 10 minutos e muita insistência dos doentes para lhes dar o livro de reclamações).
E ainda pedem o respeito do governo. Há um ditado popular que diz “Quem quer respeito dá-o”. Se vós não respeitais os outros, porque é que o governo vos há-se respeitar a vós?
So quero lamentar o facto de teres reeditado o post original.
Abraços
Sem dúvida que toda a gente tem direito à greve, contudo quem faz greve deveria apresentar-se no local de trabalho, caso contrário quem é que não garante que ficou foi em casa a dormir??
Assim, é fácil…
Além de quem se lixa é sempre o mesmo, né?