→ 27/04/2012 @18:38

A falsa história do sexo de despedida

Os links cai­ram como bom­bi­nhas de mau cheiro mu­çul­mano nas re­des so­ci­ais, a mai­o­ria dos quais apon­tando para um ar­tigo do Jornal de Notícias:

«O novo par­la­mento do Egito, do­mi­nado pe­los is­la­mis­tas, está a pre­pa­rar um pa­cote le­gis­la­tivo que choca vá­rios se­to­res da so­ci­e­dade do país», es­creve o JN. «Das me­di­das re­ve­la­das, a mais con­tro­versa pre­tende apro­var o ‘sexo de des­pe­dida’, le­ga­li­zando a pos­si­bi­li­dade do ma­rido fa­zer sexo com a mu­lher, até seis ho­ras após a hora da morte da com­pa­nheira».

O ar­tigo com­pleto pode ser lido aqui (nota: en­tre­tanto foi atu­a­li­zado, com 24 ho­ras de atraso).

Legalizar a ne­cro­fi­lia por mo­ti­vos re­li­gi­o­sos? Os me­dia lançaram-se à «no­tí­cia» com um fre­ne­sim se­xual: a re­fe­rên­cia à pro­posta de lei apa­re­ceu pri­meiro no jor­nal de lín­gua in­glesa Al-Arabiya e, em breve, ex­plo­di­ria or­gas­ti­ca­mente em di­ver­sos me­dia e blo­gues oci­den­tais até che­gar ao Jornal de Notícias. Se os ha­bi­tan­tes da al­deia gau­lesa mais fa­mosa do mundo fos­sem as­si­nan­tes do JN, aposto que o as­sunto se­ria ar­ru­mado por Obélix com um «es­tes mu­çul­ma­nos são lou­cos».

Nas auto-estradas da in­for­ma­ção circula-se a grande ve­lo­ci­dade — e de vez em quando al­guém se espatifa.

Os fun­da­men­ta­lis­tas re­li­gi­o­sos são lou­cos var­ri­dos, é ver­dade. Têm um medo que se pe­lam das mu­lhe­res. E quanto mais vi­vas es­tas es­ti­ve­rem, mais ame­a­ça­do­ras se tor­nam. Desta vez, po­rém, a no­tí­cia é falsa.

Tudo co­me­çou com um ar­tigo de opi­nião no jor­nal Al Ahram, es­crito por um tal Amr Abdul Samea, um im­por­tante apoi­ante do pre­si­dente de­posto Mubarak. Nesse ar­tigo, deu a en­ten­der que o par­la­mento egíp­cio se pre­pa­rava para apro­var a lei ne­cró­fila. O facto de ele es­cre­ver que de­ter­mi­nada lei vai ser apro­vada não sig­ni­fica que o seu de­sejo se trans­forme em facto. Era ape­nas po­li­ti­quice ba­rata, des­ti­nada a em­ba­ra­çar e criar di­fi­cul­da­des à mai­o­ria is­la­mita no Parlamento.

A res­pon­sa­bi­li­dade é toda do jor­nal de ex­pres­são in­glesa es­pe­ci­a­lista em no­tí­cias do mundo árabe, o men­ci­o­nado Al-Arabiya. Se fos­sem de facto es­pe­ci­a­lis­tas, nem pre­ci­sa­riam de per­der 10 mi­nu­tos no Google para sa­ber que a ideia da ‘queca de des­pe­dida’ saiu da mente do­en­tia de um clé­rigo mar­ro­quino cha­mado Zamzami Abdul Bari em Maio do ano passado.

E sa­be­riam tam­bém que Zamzami Abdul Bari é visto pe­los pró­prios mu­çul­ma­nos como um ex­cên­trico de­ma­si­ado ra­di­cal a quem pou­cos pres­tam atenção.

Este clé­rigo é um im­be­cil do ca­li­bre do imã ira­ni­ano que em 2010 afir­mou que a ma­neira in­de­cente como as jo­vens mu­lhe­res se ves­tem dá ori­gem a re­la­ções se­xu­ais ilí­ci­tas as quais aca­bam por pro­vo­car terramotos.

Dizer-se que as ideias de Abdul Bari são pas­sí­veis de dis­cus­são par­la­men­tar faz tanto sen­tido como afirmar-se que o Parlamento por­tu­guês vai pro­por a te­le­ci­ne­sia como um meio de trans­porte pú­blico al­ter­na­tivo de­pois de se ver no YouTube o Rei Ghob a mo­ver ob­je­tos com a mente.

O que pode ser ver­dade – e tal­vez esta «bomba» te­nha aju­dado a des­viar as aten­ções – é a se­gunda parte da no­tí­cia, aquela em que se re­vela a in­ten­ção do par­la­mento egíp­cio de re­du­zir para 14 anos a idade mí­nima le­gal para uma mu­lher se ca­sar (neste caso, ser casada).

 

5 comentários

  1. Miguel — 27/04/2012 @18:46 (1 comentário)

    Photoshop!!

    Ah, pera, post er­rado :O

  2. Eu, que nor­mal­mente te­nho faro que es­tas tre­tas, não me aper­cebi desta treta que me es­ta­vam a vender.

    Bem-Haja Marco.

  3. Baixarem a idade mí­nima le­gal para os 14 anos faz sen­tido, é que se preza muito a ideia de­las se ca­sa­rem ainda vir­gens… mas pro­va­vel­mente te­rão de bai­xar a idade mí­nima ainda mais :)

    Por cá, no tempo da mi­nha avó, a idade le­gal para as mu­lhe­res se ca­sa­rem era aos 13 anos. Nas co­mu­ni­da­des ci­ga­nas re­si­den­tes em Portugal há me­nos dis­cri­mi­na­ção en­tre os se­xos: am­bos se po­dem ca­sar aos 13 anos, não só as mulheres.

  4. Igor Pereira — 28/04/2012 @13:39 (4 comentários)

    Ainda on­tem me trans­mi­ti­ram a no­tí­cia, e tive logo a sus­peita que se­ria de­ma­si­ado para ser ver­da­deira, obri­gado pelo esclarecimento.