→ 17/08/2012 @18:22

Dois anos de prisão e alguns factos a considerar

21 de fe­ve­reiro: mem­bros do grupo Pussy Riot in­va­dem a ca­te­dral or­to­doxa de Moscovo e can­tam uma can­ção de pro­testo con­tra Putin.

Duas de­las — Maria Alyokhina (à es­querda na foto) e Nadezhda Tolokonnikova (à di­reita) — são de­ti­das a 3 de março. A ter­ceira, Ekaterina Samoutsevitch (ao cen­tro), treze dias depois.

4 de agosto: Putin pede «cle­mên­cia» para as Pussy Riot — no que lhe diz di­re­ta­mente res­peito não há nada a con­de­nar. Qualquer sig­ni­fi­cado po­lí­tico do pro­testo das Pussy Riot é tor­nado ir­re­le­vante pelo gesto magnânimo.

16 de agosto: o chefe da Igreja Ortodoxa russa, que con­si­dera os doze anos de po­der de Vladimir Putin «um mi­la­gre de Deus», encontra-se com o pre­si­dente da Rússia e re­jeita as crí­ti­cas so­bre uma su­posta apro­xi­ma­ção en­tre Estado e Igreja: es­tão me­ra­mente uni­dos por «uma agenda co­mum», ga­rante.

17 de agosto: as três ra­pa­ri­gas de­ti­das pela in­va­são da Igreja são con­de­na­das a dois anos de pri­são por «cri­mes de van­da­lismo e in­ci­ta­ção ao ódio re­li­gi­oso».

A Igreja or­to­doxa russa tam­bém pede cle­mên­cia: «Sem co­lo­car em dú­vida a le­gi­ti­mi­dade da de­ci­são da jus­tiça, pe­di­mos às au­to­ri­da­des do Estado para mos­trar cle­mên­cia (…) na es­pe­rança que [as con­de­na­das] re­nun­ciem a qual­quer re­pe­ti­ção deste gé­nero de sa­cri­lé­gio», se­gundo o co­mu­ni­cado do Conselho Superior da Igreja.

 

Outras mú­si­cas

As Pussy Riot até po­dem fa­zer mú­sica de merda, mas a mú­sica da hi­po­cri­sia soa ainda pior. Pedir cle­mên­cia aos tri­bu­nais quando se dis­cute na Rússia a le­gi­ti­mi­dade do po­der de Putin e a apro­xi­ma­ção da Igreja ao Estado é for­çar o tri­bu­nal a ex­cluir essa possibilidade.

As ra­pa­ri­gas po­dem ter feito uma par­tida de mau gosto ao ofen­der des­ne­ces­sa­ri­a­mente os fiéis, mas in­va­dir uma igreja para can­tar uma reza punk pela des­ti­tui­ção de Putin (pe­dindo à Virgem Maria que seja fe­mi­nista e o afaste), à luz dos fac­tos re­fe­ri­dos, não é o mesmo que um grupo de ta­li­bãs fa­zendo ex­plo­dir es­tá­tuas de Buda.

Dois anos para cum­prir na pri­são? A sen­tença é mais cri­mi­nosa e pre­o­cu­pante do que o «sa­cri­lé­gio». Com bom senso e sem os pe­di­dos de cle­mên­cia, o tri­bu­nal po­de­ria ter con­de­nado as Pussy Riot a cum­prir tra­ba­lho co­mu­ni­tá­rio em be­ne­fí­cio dos fiéis que ofenderam.

9 comentários

  1. Marco, peço des­culpa, mas a data da “in­va­são” da Catedral não foi 21 de Fevereiro?

    • Tens toda a ra­zão, Diogo, es­crevi a data de­pois de ver as ida­des de­las — uma tem 24; fi­quei com esse nú­mero na ca­beça e meti 24 de fe­ve­reiro, deu as­neira.
      Obrigado pela retificação.

    • De nada… Lembrei-me de isso tam­bém por­que pos­tei um ar­tigo no Blog e fui ve­ri­fi­car e a mi­nha fonte di­zia 21 de Fevereiro ;)

      Abraço

  2. Torres92 — 19/08/2012 @12:42 (37 comentários)

    Acho que o que elas que­riam foi lar­ga­mente ultrapassado.

    Não sei se em con­di­ções nor­mais al­guém olhasse para elas o que sig­ni­fica que existe uma grande “má­quina” por trás a alimentar-se do evento.

    Tudo é um lo­gro sem le­nha e que arde. Tudo treta, que por ter a igreja, Pussys, Putin e ga­jas ga­rante o su­cesso das ca­deias televisivas.

    Importância zero, in­te­resse zero.

  3. ruth — 19/08/2012 @13:00 (74 comentários)

    Já aqui co­men­tei e re­co­men­tei o epi­só­dio com o Rui Eduardo Paes. É claro que a con­de­na­ção é com­ple­ta­mente abs­trusa, é claro que elas de­viam ser cas­ti­ga­das ape­nas na justa me­dida da­quilo que fi­ze­ram e da­quilo que são, um gru­pe­lho de me­ni­nas ar­ma­das ao ati­vismo, que de­via no fim de con­tas ser con­de­nado a qual­quer ou­tra coisa (não sou juiz) que não es­tes dois (abu­si­vos) anos de pri­são. Trabalho co­mu­ni­tá­rio, di­nheiro, etc.

    Mas elas es­ta­vam a pedi-las.

    Ao mis­tu­ra­rem re­li­gião e go­verno es­ta­vam a ba­ter numa col­meia com um pau, e o en­xame que de lá se sol­tou não tem con­trolo. Toda a gente sabe como a re­li­gião gosta de ba­ter nos in­fiéis. E toda a gente sabe o que a re­li­gião com o apoio do Estado pode fazer.

    Quando me in­surgi aqui con­tra o ato de­las, era para des­mas­ca­rar o modo como este caso es­tava a ser usado para mos­trar que na Rússia não ha­via li­ber­dade de ex­pres­são. Eu não acho que seja li­ber­dade de ex­pres­são ir para uma igreja pro­tes­tar con­tra o Putin, tal como eu tam­bém não vou para Wall Street pro­tes­tar con­tra o Goldman Sachs, o para o Parlamento Português pro­tes­tar con­tra a democracia.

    Se eu hoje for para a igreja da Sé em Lisboa, pro­tes­tar nos mesmo ter­mos com um ca­puz na ca­beça con­tra o Passos Coelho, o que acham que me acon­tece? (Atenção, eu não te­nho di­nheiro ne­nhum para re­cur­sos no tri­bu­nal, por­tanto não posso fa­zer como o Isaltino e adiar a sen­tença até ela pers­cre­ver.) E ima­gi­nem que isto acon­te­cia em Israel… ima­gi­nem o que acon­te­cia às Pussy Riot se elas in­va­dis­sem uma si­na­goga em Jerusalém a pro­tes­tar con­tra o primeiro-ministro is­ra­e­lita, o que acham que acon­te­cia? Dois anos de pri­são ou se­riam pura e sim­ples­mente lin­cha­das? Eu não sei, mas sus­peito que ha­via mais hi­pó­te­ses de ser a segunda.

    Isto para di­zer que o acon­te­ci­mento não pode ser visto um exer­cí­cio da li­ber­dade de ex­pres­são, isso se­ria se elas can­tas­sem a can­ção num con­certo e fos­sem pre­sas por isso. A pró­pria (hi­pó­crita) Madonna quando é vi­li­pen­di­ada pelo Papa não vai para a Praça de S. Paulo em cu­e­cas fa­zer co­re­o­gra­fias eró­ti­cas. Será que se­ria presa se fi­zesse isso? Eu acho que sim. Cumpriria a sen­tença? Aí já não sei, ela tem muito dinheiro…

    Fazer deste caso um exem­plo da falta de li­ber­dade na Rússia é fa­la­ci­oso e só serve para se ter au­di­ên­cias no te­le­jor­nal e se po­der di­zer ainda que os co­mu­nis­tas AINDA co­mem cri­an­ci­nhas ao pequeno-almoço.

    Bom, neste caso, pus­sys… eu não me importava…

  4. Daniel — 19/08/2012 @13:26 (10 comentários)

    Eu já acho hi­pó­crita a re­per­cus­são da pri­são e nem sig­ni­fica que eu seja fa­vo­rá­vel a ela (à pri­são) mas é que gesto como o das moi­ço­las é pas­sí­vel de pri­são em pra­ti­ca­mente todo o mundo ci­vi­li­zado Ocidental, não acho que de­ve­ria ser, mas é: no Brasil em que dou azar de se­guir vi­vendo, por exem­plo, o có­digo pe­nal atual diz

    “5.1. Dos cri­mes con­tra o sen­ti­mento religioso:

    Ultraje a culto e im­pe­di­mento ou per­tur­ba­ção de ato a ele relativo.

    Art. 208. Escarnecer de al­guém pu­bli­ca­mente, por mo­tivo de crença ou fun­ção re­li­gi­osa; im­pe­dir ou per­tur­bar ce­rimô­nia ou prá­tica de culto re­li­gi­oso; vi­li­pen­diar pu­bli­ca­mente ato ou ob­jeto de culto religioso:

    Pena – de­ten­ção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa.”

    Tá, é certo que não é co­mun­mente apli­cada a pri­são, e há pes­soas jul­ga­das e con­de­na­das com base nessa lei: re­cen­te­mente a Playboy bra­si­leira teve que re­ti­rar to­dos os exem­pla­res de uma re­vista que já es­tava nas ban­cas (re­sul­tando em pre­juízo ope­ra­ci­o­nal sig­ni­fi­ca­tivo) além de pa­gar uma multa se­vera por­que a mo­çoila da edi­ção es­tava se­gu­rando um cru­ci­fixo (ou um amu­leto des­tes qual­quer)… um pouco antes.

    Em ou­tro epi­só­dio um pas­tor da­quela mul­ti­na­ci­o­nal pro­tes­tante bra­si­leira que aí eu acho que atende pela al­cu­nha men­ti­rosa de “Pare de Sofrer” e que aqui se chama “Igreja Universal” foi con­de­nado à 2 anos e meio de pri­são por ter chu­tado uma ima­gem de Maria Mulambo (digo, de Maria, mãe de deus, confundi)

    • Daniel — 19/08/2012 @13:41 (10 comentários)

      Opa, foi mal, cli­quei por aci­dente em en­viar en­tão continuando…

      O bispo não foi preso efe­ti­va­mente por­que no Brasil as coi­sas em jus­tiça de­mo­ram ina­cre­di­ta­vel­mente e o pro­cesso aca­bou cor­rendo pe­los 4 ní­veis da jus­tiça bra­si­leira por anos, parte pres­cre­veu e parte foi con­ver­tida em multa . Mas en­fim, a con­de­na­ção ini­cial foi por pri­são e não fos­sem as coi­sas no Brasil tão en­ro­la­das o cara ti­nha “ro­dado”, como di­ze­mos por aqui.

      Então não acho que a re­per­cus­são do caso das rus­sas fe­mi­nis­tói­des se deva ao sen­ti­mento de pe­sar co­le­tivo pela afronta à “li­ber­dade de ex­pres­são” mas ape­nas por­que as ba­bo­sei­ras (não acho igual­dade de gê­nero uma ba­bo­seira, acho o fe­mi­nismo uma ba­bo­seira) que elas pre­gam es­tão na moda e por­que (de modo até cu­ri­oso) boa parte do mundo ainda as vê como coi­ta­di­nhas mei­gas e in­de­fe­sas (exa­ta­mente por se­rem mulheres).

      Acho que li­ber­dade de ex­pres­são deva ser um ins­ti­tuto para ga­ran­tir a ex­pres­são de qual­quer idéia (in­clu­sive ra­cis­tas, mi­sân­dri­cas, xe­nó­fo­bas, ho­mo­fó­bi­cas, mi­só­gi­nas…) ou en­tão perde o sen­tido. Liberdade só para di­zer coi­sas bo­ni­tas e que não ofen­dem nin­guém não pre­cisa es­tar ins­crita em lei. Acho que a pena por in­va­dir um es­paço re­li­gi­oso não de­ve­ria di­fe­rir da pena por in­va­dir qual­quer ou­tro espaço.

      Mas me soa falsa esta co­mo­ção ge­ral pela pri­são das “me­ni­nas” quando no mundo todo leis e sen­ten­ças se­me­lhan­tes são pra­ti­ca­das sem ne­nhuma comoção.

  5. As Pussy Riot são mais um caso de um tipo de ati­vismo que tem na in­ter­net o grande meio de di­vul­ga­ção de seus atos. Tal como o FEMEN, esse tipo de ação não te­ria o im­pacto que teve se não con­tasse com a di­vul­ga­ção mas­siva no YouTube e nas re­des so­ci­ais. Sem a in­ter­net, elas se­riam, pro­va­vel­mente, so­le­ne­mente ig­no­ra­das ou so­fre­riam uma co­brança bem mais forte por con­teúdo em seus pro­tes­tos. Bandeiras como opo­si­ção ao co­nhe­cido au­to­ri­ta­rismo russo e á igreja são ób­vias de­mais e des­ti­tuí­das de sen­tido até mesmo na Rússia. Afinal, o que elas pro­põem além de se­rem con­tra pura e sim­ples­mente? O único lu­gar em que o sim­ples fato de ser con­tra ou a fa­vor de algo, sem pro­posta nem jus­ti­fi­ca­tiva al­guma para isso en­con­tra eco, di­vul­ga­ção e res­paldo é na internet.

    Só a in­ter­net dá voz, por exem­plo, ao FEMEN — “Brazil” (Com Z mesmo, nos ban­ners do mo­vi­mento), cuja au­to­de­no­mi­nada “lí­der” se diz de di­reita e na­ci­o­na­lista, além de fa­zer crí­ti­cas a tudo pelo qual as fe­mi­nis­tas lu­ta­ram até hoje. Esse tipo de fenô­meno, que tem como pro­ta­go­nista uma ju­ven­tude que cres­ceu fa­zendo flash-mobs e cos­play, não vai além do de­sejo, atu­al­mente uni­ver­sal, de pro­ta­go­ni­zar um vi­ral, criar um meme, “acon­te­cer” na rede. Ao fa­zer isso den­tro de uma igreja or­to­doxa em um país sa­bi­da­mente au­to­ri­tá­rio (e onde go­verno e igreja não de­mons­tram a me­nor in­ten­ção de mu­dar esse es­tado de coi­sas), elas fo­ram di­reto ao ponto, como é pró­prio dessa mesma juventude.Uma ju­ven­tude que sabe exa­ta­mente *o que di­zer. Mas não sabe nem como, nem por que. Isso o Google não ensina.

  6. C.Oliveira — 20/08/2012 @16:17 (26 comentários)

    A pussy a di­reita é bem gos­tosa, não é não? :)