21 de fevereiro: membros do grupo Pussy Riot invadem a catedral ortodoxa de Moscovo e cantam uma canção de protesto contra Putin.
Duas delas — Maria Alyokhina (à esquerda na foto) e Nadezhda Tolokonnikova (à direita) — são detidas a 3 de março. A terceira, Ekaterina Samoutsevitch (ao centro), treze dias depois.
4 de agosto: Putin pede «clemência» para as Pussy Riot — no que lhe diz diretamente respeito não há nada a condenar. Qualquer significado político do protesto das Pussy Riot é tornado irrelevante pelo gesto magnânimo.
16 de agosto: o chefe da Igreja Ortodoxa russa, que considera os doze anos de poder de Vladimir Putin «um milagre de Deus», encontra-se com o presidente da Rússia e rejeita as críticas sobre uma suposta aproximação entre Estado e Igreja: estão meramente unidos por «uma agenda comum», garante.
17 de agosto: as três raparigas detidas pela invasão da Igreja são condenadas a dois anos de prisão por «crimes de vandalismo e incitação ao ódio religioso».
A Igreja ortodoxa russa também pede clemência: «Sem colocar em dúvida a legitimidade da decisão da justiça, pedimos às autoridades do Estado para mostrar clemência (…) na esperança que [as condenadas] renunciem a qualquer repetição deste género de sacrilégio», segundo o comunicado do Conselho Superior da Igreja.
Outras músicas
As Pussy Riot até podem fazer música de merda, mas a música da hipocrisia soa ainda pior. Pedir clemência aos tribunais quando se discute na Rússia a legitimidade do poder de Putin e a aproximação da Igreja ao Estado é forçar o tribunal a excluir essa possibilidade.
As raparigas podem ter feito uma partida de mau gosto ao ofender desnecessariamente os fiéis, mas invadir uma igreja para cantar uma reza punk pela destituição de Putin (pedindo à Virgem Maria que seja feminista e o afaste), à luz dos factos referidos, não é o mesmo que um grupo de talibãs fazendo explodir estátuas de Buda.
Dois anos para cumprir na prisão? A sentença é mais criminosa e preocupante do que o «sacrilégio». Com bom senso e sem os pedidos de clemência, o tribunal poderia ter condenado as Pussy Riot a cumprir trabalho comunitário em benefício dos fiéis que ofenderam.














Marco, peço desculpa, mas a data da “invasão” da Catedral não foi 21 de Fevereiro?
Tens toda a razão, Diogo, escrevi a data depois de ver as idades delas — uma tem 24; fiquei com esse número na cabeça e meti 24 de fevereiro, deu asneira.
Obrigado pela retificação.
De nada… Lembrei-me de isso também porque postei um artigo no Blog e fui verificar e a minha fonte dizia 21 de Fevereiro
Abraço
Acho que o que elas queriam foi largamente ultrapassado.
Não sei se em condições normais alguém olhasse para elas o que significa que existe uma grande “máquina” por trás a alimentar-se do evento.
Tudo é um logro sem lenha e que arde. Tudo treta, que por ter a igreja, Pussys, Putin e gajas garante o sucesso das cadeias televisivas.
Importância zero, interesse zero.
Já aqui comentei e recomentei o episódio com o Rui Eduardo Paes. É claro que a condenação é completamente abstrusa, é claro que elas deviam ser castigadas apenas na justa medida daquilo que fizeram e daquilo que são, um grupelho de meninas armadas ao ativismo, que devia no fim de contas ser condenado a qualquer outra coisa (não sou juiz) que não estes dois (abusivos) anos de prisão. Trabalho comunitário, dinheiro, etc.
Mas elas estavam a pedi-las.
Ao misturarem religião e governo estavam a bater numa colmeia com um pau, e o enxame que de lá se soltou não tem controlo. Toda a gente sabe como a religião gosta de bater nos infiéis. E toda a gente sabe o que a religião com o apoio do Estado pode fazer.
Quando me insurgi aqui contra o ato delas, era para desmascarar o modo como este caso estava a ser usado para mostrar que na Rússia não havia liberdade de expressão. Eu não acho que seja liberdade de expressão ir para uma igreja protestar contra o Putin, tal como eu também não vou para Wall Street protestar contra o Goldman Sachs, o para o Parlamento Português protestar contra a democracia.
Se eu hoje for para a igreja da Sé em Lisboa, protestar nos mesmo termos com um capuz na cabeça contra o Passos Coelho, o que acham que me acontece? (Atenção, eu não tenho dinheiro nenhum para recursos no tribunal, portanto não posso fazer como o Isaltino e adiar a sentença até ela perscrever.) E imaginem que isto acontecia em Israel… imaginem o que acontecia às Pussy Riot se elas invadissem uma sinagoga em Jerusalém a protestar contra o primeiro-ministro israelita, o que acham que acontecia? Dois anos de prisão ou seriam pura e simplesmente linchadas? Eu não sei, mas suspeito que havia mais hipóteses de ser a segunda.
Isto para dizer que o acontecimento não pode ser visto um exercício da liberdade de expressão, isso seria se elas cantassem a canção num concerto e fossem presas por isso. A própria (hipócrita) Madonna quando é vilipendiada pelo Papa não vai para a Praça de S. Paulo em cuecas fazer coreografias eróticas. Será que seria presa se fizesse isso? Eu acho que sim. Cumpriria a sentença? Aí já não sei, ela tem muito dinheiro…
Fazer deste caso um exemplo da falta de liberdade na Rússia é falacioso e só serve para se ter audiências no telejornal e se poder dizer ainda que os comunistas AINDA comem criancinhas ao pequeno-almoço.
Bom, neste caso, pussys… eu não me importava…
Eu já acho hipócrita a repercussão da prisão e nem significa que eu seja favorável a ela (à prisão) mas é que gesto como o das moiçolas é passível de prisão em praticamente todo o mundo civilizado Ocidental, não acho que deveria ser, mas é: no Brasil em que dou azar de seguir vivendo, por exemplo, o código penal atual diz
“5.1. Dos crimes contra o sentimento religioso:
Ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo.
Art. 208. Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:
Pena – detenção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa.”
Tá, é certo que não é comunmente aplicada a prisão, e há pessoas julgadas e condenadas com base nessa lei: recentemente a Playboy brasileira teve que retirar todos os exemplares de uma revista que já estava nas bancas (resultando em prejuízo operacional significativo) além de pagar uma multa severa porque a moçoila da edição estava segurando um crucifixo (ou um amuleto destes qualquer)… um pouco antes.
Em outro episódio um pastor daquela multinacional protestante brasileira que aí eu acho que atende pela alcunha mentirosa de “Pare de Sofrer” e que aqui se chama “Igreja Universal” foi condenado à 2 anos e meio de prisão por ter chutado uma imagem de Maria Mulambo (digo, de Maria, mãe de deus, confundi)
Opa, foi mal, cliquei por acidente em enviar então continuando…
O bispo não foi preso efetivamente porque no Brasil as coisas em justiça demoram inacreditavelmente e o processo acabou correndo pelos 4 níveis da justiça brasileira por anos, parte prescreveu e parte foi convertida em multa . Mas enfim, a condenação inicial foi por prisão e não fossem as coisas no Brasil tão enroladas o cara tinha “rodado”, como dizemos por aqui.
Então não acho que a repercussão do caso das russas feministóides se deva ao sentimento de pesar coletivo pela afronta à “liberdade de expressão” mas apenas porque as baboseiras (não acho igualdade de gênero uma baboseira, acho o feminismo uma baboseira) que elas pregam estão na moda e porque (de modo até curioso) boa parte do mundo ainda as vê como coitadinhas meigas e indefesas (exatamente por serem mulheres).
Acho que liberdade de expressão deva ser um instituto para garantir a expressão de qualquer idéia (inclusive racistas, misândricas, xenófobas, homofóbicas, misóginas…) ou então perde o sentido. Liberdade só para dizer coisas bonitas e que não ofendem ninguém não precisa estar inscrita em lei. Acho que a pena por invadir um espaço religioso não deveria diferir da pena por invadir qualquer outro espaço.
Mas me soa falsa esta comoção geral pela prisão das “meninas” quando no mundo todo leis e sentenças semelhantes são praticadas sem nenhuma comoção.
As Pussy Riot são mais um caso de um tipo de ativismo que tem na internet o grande meio de divulgação de seus atos. Tal como o FEMEN, esse tipo de ação não teria o impacto que teve se não contasse com a divulgação massiva no YouTube e nas redes sociais. Sem a internet, elas seriam, provavelmente, solenemente ignoradas ou sofreriam uma cobrança bem mais forte por conteúdo em seus protestos. Bandeiras como oposição ao conhecido autoritarismo russo e á igreja são óbvias demais e destituídas de sentido até mesmo na Rússia. Afinal, o que elas propõem além de serem contra pura e simplesmente? O único lugar em que o simples fato de ser contra ou a favor de algo, sem proposta nem justificativa alguma para isso encontra eco, divulgação e respaldo é na internet.
Só a internet dá voz, por exemplo, ao FEMEN — “Brazil” (Com Z mesmo, nos banners do movimento), cuja autodenominada “líder” se diz de direita e nacionalista, além de fazer críticas a tudo pelo qual as feministas lutaram até hoje. Esse tipo de fenômeno, que tem como protagonista uma juventude que cresceu fazendo flash-mobs e cosplay, não vai além do desejo, atualmente universal, de protagonizar um viral, criar um meme, “acontecer” na rede. Ao fazer isso dentro de uma igreja ortodoxa em um país sabidamente autoritário (e onde governo e igreja não demonstram a menor intenção de mudar esse estado de coisas), elas foram direto ao ponto, como é próprio dessa mesma juventude.Uma juventude que sabe exatamente *o que dizer. Mas não sabe nem como, nem por que. Isso o Google não ensina.
A pussy a direita é bem gostosa, não é não?