→ 11/03/2010 @17:31

O fotógrafo meteu os pés pelas mãos

A fotografia enviada por Stepan RudikA fotografia original de Stepan Rudik

Notam as di­fe­ren­ças en­tre es­tas duas fo­tos? A da es­querda é a foto sub­me­tida ao con­curso World Press Photo; a do lado di­reito é a ori­gi­nal, em­bora o au­tor a te­nha cor­tado para lhe dar o en­qua­dra­mento que que­ria. A foto que re­al­mente cap­tou é esta.

Quando falo em di­fe­ren­ças, não me re­firo aos fil­tros usa­dos na foto da es­querda, mas, se re­pa­ra­rem bem, ao de­sa­pa­re­ci­mento de um pé junto à mão do atleta fe­rido. O fo­tó­grafo, o russo Stepan Rudik, con­si­de­rou que aquele pé cau­sava um ruído des­ne­ces­sá­rio à ima­gem e removeu-o digitalmente.

O júri con­si­de­rou que essa ma­ni­pu­la­ção al­te­rava o con­teúdo da ima­gem e era con­trá­ria às re­gras do con­curso – por isso, Stepan Rudik foi des­qua­li­fi­cado e per­deu o ter­ceiro pré­mio na ca­te­go­ria de even­tos desportivos.

O fo­tó­grafo en­trou em con­tacto com um dos sí­tios que di­vul­gou a no­tí­cia e a par­tir do qual este post foi es­crito – Peta Pixel – e es­cre­veu uma men­sa­gem de­fen­dendo a sua hom­bri­dade profissional.

Stepan re­co­nhe­ceu a jus­teza da de­ci­são do júri, mas cha­mou a aten­ção para o facto de a re­mo­ção do pé não ter im­pli­cado «qual­quer al­te­ra­ção sig­ni­fi­ca­tiva da in­for­ma­ção, até por­que esse pé não era o as­sunto da ima­gem sub­me­tida a con­curso». Que acham, foi bem des­qua­li­fi­cado ou con­si­de­ram a de­ci­são injusta?

 

25 comentários

  1. NePPer — 11/03/2010 @17:58 (13 comentários)

    Apesar de ser um tema que leva sem­pre a gran­des dis­cus­sões onde os dois la­dos tem ar­gu­men­tos de peso, pes­so­al­mente acho a de­ci­são ri­dí­cula, pois con­cordo to­tal­mente com o ar­gu­mento do autor.

    O ho­mem não in­ven­tou nada na foto, ape­nas lhe ten­tou dar um maior impacto.

    Hoje em dia to­das (ou quase to­das as fo­tos) le­vam edi­ção, aliás an­ti­ga­mente isso tam­bém acon­te­cia aquando da revelação.

    Já agora gos­ta­ria de sa­ber se as res­tan­tes fo­tos a con­curso não so­fre­ram qual­quer tipo de edição.

    Saudações
    NePPer

    PS. —  Depois de ter ido ao Peta Pixel mudo de opi­nião e con­cordo com a des­clas­si­fi­ca­ção pois os re­gu­la­men­tos são claros:

    “The con­tent of the image must not be al­te­red. Only re­tou­ching which con­forms to the cur­ren­tly ac­cep­ted stan­dards in the in­dus­try is allowed.”

  2. pol — 11/03/2010 @19:10 (106 comentários)

    se as re­gras es­ti­pu­lam que o con­teúdo não pode ser al­te­rado… foi bem desclassificado.

    8)

  3. nuno — 11/03/2010 @20:14 (145 comentários)

    Bem des­clas­si­fi­cado, sem dú­vida, tendo em conta o tipo de con­curso. Se fosse uma com­pe­ti­ção de ar­tes di­gi­tais se­ria di­fe­rente. Na mi­nha opi­nião, mesmo cor­tes e fil­tros nas ima­gens de­viam ser muito bem re­gu­la­men­ta­dos. Vejamos a foto ori­gi­nal: nada tem que jus­ti­fi­que, se­quer, a par­ti­ci­pa­ção num con­curso. Tudo é ba­nal, desde o tema, a com­po­si­ção e a ima­gem em si. Após o corte e os fil­tros, o con­cor­rente con­se­guiu uma ima­gem bem mais in­te­res­sante, mas o que está em causa? As ca­pa­ci­da­des dele en­quanto fo­to­grafo (téc­nica e ar­tís­tica) ou o do­mí­nio do pho­toshop? Será re­al­mente ne­ces­sá­rio cap­tar ima­gens para um evento como o WPP ou basta ir a um banco de fo­to­gra­fias, com­prar os di­rei­tos e editá-la o su­fi­ci­ente para ser outra?

    Antes que ve­nham os trolls dar por­rada aqui ao pu­rista, digo já que apre­cio muito, e va­lo­rizo, a com­po­si­ção di­gi­tal. Só me pa­rece que um con­curso se fo­to­gra­fia se de­via con­cen­trar mais no con­ceito da mesma.

  4. Mestre Slip — 11/03/2010 @22:37 (250 comentários)

    Sinceramente acho que não foi justo. Um júri existe mesmo para es­tas si­tu­a­ções, onde o bom senso hu­mano é ne­ces­sá­rio para re­sol­ver o que apa­rece. Se as­sim não fosse, criava-se uma qual­quer má­quina ope­rante sob al­gum al­go­ritmo de de­ci­são, fria e cega. E o júri, comportou-se como tal, lendo, à le­tra, o regulamento.

  5. Penso que é mais in­te­res­sante uma pin­tura, feita com o tempo, traço por traço, do que um sim­ples ca­rimbo com as mes­mas for­mas e co­res. Estas al­te­ra­ções di­gi­tais, são como ca­rim­bos pré-definidos di­gi­tal­mente, que si­mu­lam um tra­ba­lho que ape­nas o acaso/sorte tempo e téc­nica cos­tu­ma­vam dar. Os tra­ba­lhos são se­me­lhan­tes no re­sul­tado pre­ten­dido, mas não vejo o mesmo sig­ni­fi­cado ne­les, pelo me­nos neste tipo de pré­mios, que ten­tam des­ta­car o que se passa no mundo e não aquilo que se passa na ca­beça de quem tira a foto. Por isso, não, não con­cordo com a ma­ni­pu­la­ção de fo­to­gra­fias neste tipo de concurso.

  6. Nuno Vale — 11/03/2010 @23:00 (17 comentários)

    Pessoalmente con­cordo com o júri, re­gras são re­gras, e de­vem ser cum­pri­das. E claro que acho muito bem que o fo­tó­grafo em ques­tão te­nha aca­tado a de­ci­são mas se te­nha dado ao tra­ba­lho de ex­pli­car o “mal” que fez, pois é a sua re­pu­ta­ção que está em causa.

    Há vá­rios ti­pos de con­curso e acho que ele não deve dei­xar abater-se com esta “der­rota”. Levantar a ca­beça e con­ti­nuar a fa­zer aquilo do que gosta :) . Já di­ria al­guém: Quem es­pera, sem­pre alcança.

    Vestrum, Nuno Vale.

  7. Miguel Bettencourt — 12/03/2010 @0:23 (36 comentários)

    Penso que foi bem des­clas­si­fi­cado, em­bora o fo­tó­grafo apre­sente um ar­gu­mento bem fun­da­men­tado e com sentido.

    Contudo muito do mé­rito e do re­co­nhe­ci­mento in­ter­na­ci­o­nal que o con­curso World Press Photo al­can­çou está li­gado não ape­nas à fo­to­gra­fia, en­quanto con­ceito e/ou arte, mas tam­bém (tal­vez so­bre­tudo) aos mo­men­tos cap­ta­dos. Momentos no ver­da­deiro sen­tido do termo.

  8. O ar­gu­mento do au­tor é vá­lido. Mas, sin­ce­ra­mente, o que é o “con­tent” e o que é “retouching”?

    Mudar uma coisa de ver­me­lho para preto é um “re­to­que” ou al­te­rar o “con­teúdo”? Desuniformizar o chão é um “re­to­que” ou uma al­te­ra­ção de “con­teúdo”? Remover algo aces­só­rio à foto como o pé é um “re­to­que” ou uma al­te­ra­ção de “conteúdo”?

    A subs­tân­cia (que se iden­ti­fi­cará muito mais com o termo con­teúdo) de uma foto será muito mais al­te­rada atra­vés de tudo aquilo a que apa­ren­te­mente o juri con­si­dera “re­to­ques” do que pela alteração/remoção de algo tão inócuo.

    Dizem que foi bem des­clas­si­fi­cado por­que as re­gras di­zem isso? Talvez. Mas levem-nas à le­tra e a fo­to­gra­fia (e ima­gino que mui­tas ou­tras) nem se­ria ad­mi­tida, pois ja­mais tal al­te­ra­ção da foto po­de­ria ser con­si­de­rada um retoque.

  9. Tiago V — 12/03/2010 @11:03 (43 comentários)

    Bom, a foto a con­curso tam­bém foi al­te­rada, pois esta a p/b, o pé da dis­cór­dia mal se vê.

  10. Nelson Faria — 12/03/2010 @13:16 (3 comentários)

    Foi bem desclassificado.

    Contudo era con­ve­ni­ente sa­ber se to­das as par­ti­ci­pa­ções es­ti­ve­ram su­jei­tas ao mesmo critério.

  11. afonso — 12/03/2010 @15:02 (25 comentários)

    A Arte não pode es­tar li­mi­tada por re­gras. O Artista tem que acom­pa­nhar a evo­lu­ção dos meios e téc­ni­cas. Se exis­tem no­vas for­mas de fa­zer as coi­sas tem que as ex­plo­rar. Só dessa forma pode ser cri­a­tivo e é isso que o faz um ver­da­deiro Artista. É isso que é a Arte, evo­lu­ção. Nesta caso julgo que as re­gras es­tão, como em mui­tos ou­tros ca­sos na ac­tual so­ci­e­dade, ul­tra­pas­sa­das pela realidade.

  12. Marco,

    sin­ce­ra­mente es­tou farto do Photoshop e de to­das as ma­ni­pu­la­ções di­gi­tais que exis­tem ac­tu­al­mente nas fo­tos. Manipulou, foi des­qua­li­fi­cado, de­ci­são correcta

  13. Bem des­clas­si­fi­cado, ob­vi­a­mente. Já o enorme crop e o e o preto e branco “dra­má­tico” foi abu­sar da sorte.

  14. Gingerbread Girl — 12/03/2010 @17:59 (15 comentários)

    Bem… aquilo com o pé não fi­cava nada bem.

    Mas as­sim olha… lixou-se. 8O

  15. cjt — 12/03/2010 @18:32 (18 comentários)

    as re­gras do wpf di­zem que a fo­to­gra­fia jor­na­lís­tica não pode so­frer mais ma­ni­pu­la­ção do que o tra­ta­mento de con­tor­nos ge­ral­mente ad­mi­tido como ra­zoá­vel (?), tendo, no en­tanto, uma po­lí­tica mais per­mis­siva quanto ao retrato.

    em­bora não saiba o que é ra­zoá­vel, sou abri­gado a pen­sar que o au­tor da fo­to­gra­fia es­tava ao cor­rente das re­gras e que, como tal, não terá di­reito a contestá-las — como, de resto, acon­tece, pelo que se lê.

    mas a ques­tão por de­trás disto é muito mais com­plexa: até que ponto é que uma fo­to­gra­fia tem pos­si­bi­li­da­des de não ser ma­ni­pu­lada? é pos­sí­vel pu­bli­car uma foto sem ma­ni­pu­la­ção — mais di­fí­cil: é pos­sí­vel tirá-la sem, nesse pre­ciso mo­mento, es­tar a manipulá-la?

    es­tas re­fle­xões se­mi­o­ló­gi­cas an­dam a ser dis­cu­ti­das há muito… e eu te­nho um fra­qui­nho por elas (coi­sas de nerd). creio que pu­bli­ca­rei um texto acerca do as­sunto, par­tindo da­qui deste post.

    mas, en­quanto não sai essa obra prima, deixo aqui uma provocação:

    ro­land barthes, “câ­mara clara” — um li­vro obri­ga­tó­rio. existe um bom ar­tigo para ponto de par­tida cujo link vos deixo aqui numa ten­ta­tiva de api­men­tar a dis­cus­são. aviso: al­ta­mente nerd.
    http://www.faap.br/revista_faap/revista_facom/fac
    hasta. de­pois digo al­guma coisa.



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