O trabalho de Mirco Pagano e Moreno De Turco é absolutamente extraordinário: usando apenas CD’s, aqueles dois «desenharam» Jimi Hendrix, Bob Marley, Freddie Mercury, Jim Morrison, Elvis Presley e Michael Jackson. Para tornar a tarefa ainda mais difícil, fizeram corresponder os álbuns de cada artista na recriação.
6500 CD’s foram usados nesta brincadeira. Pagano e De Turco demoraram 200 horas a atingir este resultado, gastaram mais seis para as sessões fotográficas, criaram uma instalação e um vídeo – tudo isto em nome de um projeto chamado Piracy.
É numa segunda observação que esta execução genial, visualmente assombrosa, revela as suas verdadeiras intenções. As esculturas em CD não são uma evocação ou homenagem aos méritos artísticos de cada um deles, mas o retrato de artistas mortos. Por que razão Pagano e De Turco se deram a tanto trabalho para os mostrar como cadáveres?
Pagano e De Turco são criativos de uma agência de publicidade americana chamada TBWA e a ideia subjacente a esta instalação – o projeto chama-se «Piracy», lembrem-se – é usar estes músicos como símbolos do efeito devastador que a pirataria na Internet tem sobre a indústria do entretenimento.
Se acham que a minha interpretação é demasiado tendenciosa, então vejam este teaser divulgado pela própria agência. A mensagem sobressai como o reflexo de um CD, sem qualquer subtileza.
Eis assim uma instalação meticulosa ao serviço de uma mentira manipuladora e essencialmente desrespeitadora da memória daqueles artistas: todos eles já morreram, de facto, morreram pelos vários excessos que cometeram, mas nunca constou em qualquer relatório médico-legal que a causa das mortes tivesse sido por excesso de pirataria.
E é manipuladora porque não existe um único estudo independente que confirme a visão catastrofista destas indústrias; pelo contrário, há estudos que afirmam que não existe sequer uma recessão. Continua a faturar milhões… Veja-se, por exemplo, este artigo mencionando o relatório da Computer & Communications Industry Association.
A escritora vai nua
Criar um acontecimento a propósito da pirataria também foi a intenção de uma escritora brasileira da qual nunca ouvira falar até hoje, Vanessa de Oliveira.
Vanessa, de 37 anos, foi uma acompanhante de luxo, teve uma vida difícil, um marido «psicopata» e escreve livros de auto-ajuda onde partilha as suas experiências de vida: «Ele te Traiu? Problema Dele! Como Superar a Traição Ontem Mesmo», «100 Segredos de uma Garota de Programa» e «Seduzir Clientes, (Dicas de Marketing)» são alguns dos livros que já publicou.
Este domingo apresentou-se nua, com o corpo pintado, na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, em São Paulo, para protestar contra a pirataria e promover o seu último livro, «Psicopatas do Coração». Ao lado, um cartaz onde se podia ler «Leia Mais, Somente Livros Originais», o que me deixou a pensar se a senhora Vanessa não terá com os livros a mesma relação que uma tia-avó tem com peças de porcelana chinesa.
É o velho conflito entre o direito à partilha e o dinheiro acima de tudo, mas Vanessa tem razão por não gostar de ver os seus livros vendidos ilegalmente em feiras: copiar assim é criminoso. Copiar para partilhar livremente, em nome do conhecimento e da cultura, é já um assunto demasiado sensível e complexo para ser decidido pelo ativismo ao estilo FEMA da escritora, por meros advogados e muito menos pelos cães de caça ao serviço das indústrias.
Muitos escritores – mais reconhecidos pelas palavras do que pelas ações promocionais – acreditam mesmo que o direito à partilha é mais importante que Sua Santidade o lucro.
Veja-se este caso, também no Brasil: o blogue Livros de Humanas partilhava PDFs de livros adotados nos cursos de Ciências Humanas. Embora muitos autores tenham experimentado um aumento de vendas dos seus próprios livros em resultado dessas partilhas, a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) entrou com uma ação judicial para forçar o blogue a retirar todo o material.
Acontece que os autores dos livros pirateados declararam apoio ao estudante que mantém o blogue, insurgindo-se contra as ações de uma associação que se apresentava como a defensora dos seus interesses. Outro escritor que subscreveu a causa foi o famoso Paulo Coelho, o mesmo que há uns meses incentivou o Pirate Bay a piratear os seus livros.
Este é um caso exemplar que demonstra como a pirataria nunca poderá ser um rótulo que se cola na testa das pessoas como se fosse um código de barras.
Paroxismo histérico, patareca intelectual
Outra mulher teve com as palavras uma relação menos convencional: uma mão segurava um vibrador, a outra folheava um livro.
Foi esta a proposta que o fotógrafo Clayton Cubitt fez a uma estrela pornográfica de 26 anos chamada Stoya: participar numa série a que chamou «Literatura Histérica» e que consiste em filmar mulheres a ler um livro enquanto se masturbam.
E ela aguentou o orgasmo enquanto pôde, «em nome da arte».
Clayton Cubitt não escolheu o nome «literatura histérica» inocentemente.
O primeiro vibrador eletromecânico com uma forma fálica foi inventado em 1880 pelo doutor Joseph Mortimer Granville.
O Doutor Granville andava cansado de masturbar manualmente as suas pacientes e criou o aparelho para o aliviar dos seus dolorosos deveres médicos. Se pensam que estou no gozo, talvez desconheçam que no século XIX a massagem no clitóris era considerada o tratamento mais adequado contra a histeria.
Como consequência disto, centenas de mulheres dirigiam-se ao médico para que a zona fosse massajada e o «paroxismo histérico», como então se designava o orgasmo, fosse finalmente atingido. Tal era a frequência destes tratamentos que os médicos começaram a sofrer as chamadas Lesões Por Esforço Repetitivo. Talvez um dia a história da medicina venha a colocar o vibrador na tribuna de honra dos instrumentos que facilitaram a vida aos médicos, mesmo ao lado do estetoscópio.
Esta histeria já era conhecida há muito tempo. Os gregos chamavam-lhe a doença do útero ardente e era vista como um mal tão inconveniente como uma praga de gafanhotos. Qualquer comportamento feminino considerado estranho pela sociedade patriarca – ansiedades, irritabilidades, fantasias sexuais – era considerado um sintoma de histerismo e a única solução médica conhecida era a massagem relaxante.
E assim temos uma atriz pornográfica e um fotógrafo de moda a transformar o histerismo arcaico do século XIX num orgasmo do século XXI — atingido, desta vez, com o auxílio dos dedos de um escritor. Stoya escolheu Necrophilia Variations, de alguém que assina apenas como Supervert, um livro bizarro sobre obsessões sexuais com cadáveres. Grande pancada, não é?
Os cadáveres de Necrophilia Variations devem ser substancialmente diferentes dos cadáveres em CD imaginados por Pagano e De Turco, mas não deixo de sentir que também estes se deixam conduzir por sinistras obsessões…















