→ 14/08/2012 @3:35

Piratas, maminhas justiceiras e orgasmos geniais

O tra­ba­lho de Mirco Pagano e Moreno De Turco é ab­so­lu­ta­mente ex­tra­or­di­ná­rio: usando ape­nas CD’s, aque­les dois «de­se­nha­ram» Jimi Hendrix, Bob Marley, Freddie Mercury, Jim Morrison, Elvis Presley e Michael Jackson. Para tor­nar a ta­refa ainda mais di­fí­cil, fi­ze­ram cor­res­pon­der os ál­buns de cada ar­tista na recriação.

Jimi Hendrix: «I Don’t Live Today»

Bob Marley: «Is This Love?»

Freddie Mercury: «Too Much Love Will Kill You»

James Brown: «Can´t Stand Your Love»

6500 CD’s fo­ram usa­dos nesta brin­ca­deira. Pagano e De Turco de­mo­ra­ram 200 ho­ras a atin­gir este re­sul­tado, gas­ta­ram mais seis para as ses­sões fo­to­grá­fi­cas, cri­a­ram uma ins­ta­la­ção e um ví­deo – tudo isto em nome de um pro­jeto cha­mado Piracy.

É numa se­gunda ob­ser­va­ção que esta exe­cu­ção ge­nial, vi­su­al­mente as­som­brosa, re­vela as suas ver­da­dei­ras in­ten­ções. As es­cul­tu­ras em CD não são uma evo­ca­ção ou ho­me­na­gem aos mé­ri­tos ar­tís­ti­cos de cada um de­les, mas o re­trato de ar­tis­tas mor­tos. Por que ra­zão Pagano e De Turco se de­ram a tanto tra­ba­lho para os mos­trar como cadáveres?

Pagano e De Turco são cri­a­ti­vos de uma agên­cia de pu­bli­ci­dade ame­ri­cana cha­mada TBWA e a ideia sub­ja­cente a esta ins­ta­la­ção – o pro­jeto chama-se «Piracy», lembrem-se – é usar es­tes mú­si­cos como sím­bo­los do efeito de­vas­ta­dor que a pi­ra­ta­ria na Internet tem so­bre a in­dús­tria do entretenimento.

Se acham que a mi­nha in­ter­pre­ta­ção é de­ma­si­ado ten­den­ci­osa, en­tão ve­jam este te­a­ser di­vul­gado pela pró­pria agên­cia. A men­sa­gem so­bres­sai como o re­flexo de um CD, sem qual­quer subtileza.

Eis as­sim uma ins­ta­la­ção me­ti­cu­losa ao ser­viço de uma men­tira ma­ni­pu­la­dora e es­sen­ci­al­mente des­res­pei­ta­dora da me­mó­ria da­que­les ar­tis­tas: to­dos eles já mor­re­ram, de facto, mor­re­ram pe­los vá­rios ex­ces­sos que co­me­te­ram, mas nunca cons­tou em qual­quer re­la­tó­rio médico-legal que a causa das mor­tes ti­vesse sido por ex­cesso de pirataria.

E é ma­ni­pu­la­dora por­que não existe um único es­tudo in­de­pen­dente que con­firme a vi­são ca­tas­tro­fista des­tas in­dús­trias; pelo con­trá­rio, há es­tu­dos que afir­mam que não existe se­quer uma re­ces­são. Continua a fa­tu­rar mi­lhões… Veja-se, por exem­plo, este ar­tigo men­ci­o­nando o re­la­tó­rio da Computer & Communications Industry Association.

 

A es­cri­tora vai nua

Vanessa de Oliveira

Criar um acon­te­ci­mento a pro­pó­sito da pi­ra­ta­ria tam­bém foi a in­ten­ção de uma es­cri­tora bra­si­leira da qual nunca ou­vira fa­lar até hoje, Vanessa de Oliveira.

Vanessa, de 37 anos, foi uma acom­pa­nhante de luxo, teve uma vida di­fí­cil, um ma­rido «psi­co­pata» e es­creve li­vros de auto-ajuda onde par­ti­lha as suas ex­pe­ri­ên­cias de vida: «Ele te Traiu? Problema Dele! Como Superar a Traição Ontem Mesmo», «100 Segredos de uma Garota de Programa» e «Seduzir Clientes, (Dicas de Marketing)» são al­guns dos li­vros que já publicou.

Este do­mingo apresentou-se nua, com o corpo pin­tado, na li­vra­ria Martins Fontes da Avenida Paulista, em São Paulo, para pro­tes­tar con­tra a pi­ra­ta­ria e pro­mo­ver o seu úl­timo li­vro, «Psicopatas do Coração». Ao lado, um car­taz onde se po­dia ler «Leia Mais, Somente Livros Originais», o que me dei­xou a pen­sar se a se­nhora Vanessa não terá com os li­vros a mesma re­la­ção que uma tia-avó tem com pe­ças de por­ce­lana chinesa.

É o ve­lho con­flito en­tre o di­reito à par­ti­lha e o di­nheiro acima de tudo, mas Vanessa tem ra­zão por não gos­tar de ver os seus li­vros ven­di­dos ile­gal­mente em fei­ras: co­piar as­sim é cri­mi­noso. Copiar para par­ti­lhar li­vre­mente, em nome do co­nhe­ci­mento e da cul­tura, é já um as­sunto de­ma­si­ado sen­sí­vel e com­plexo para ser de­ci­dido pelo ati­vismo ao es­tilo FEMA da es­cri­tora, por me­ros ad­vo­ga­dos e muito me­nos pe­los cães de caça ao ser­viço das indústrias.

Muitos es­cri­to­res – mais re­co­nhe­ci­dos pe­las pa­la­vras do que pe­las ações pro­mo­ci­o­nais – acre­di­tam mesmo que o di­reito à par­ti­lha é mais im­por­tante que Sua Santidade o lucro.

Veja-se este caso, tam­bém no Brasil: o blo­gue Livros de Humanas par­ti­lhava PDFs de li­vros ado­ta­dos nos cur­sos de Ciências Humanas. Embora mui­tos au­to­res te­nham ex­pe­ri­men­tado um au­mento de ven­das dos seus pró­prios li­vros em re­sul­tado des­sas par­ti­lhas, a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) en­trou com uma ação ju­di­cial para for­çar o blo­gue a re­ti­rar todo o material.

Acontece que os au­to­res dos li­vros pi­ra­te­a­dos de­cla­ra­ram apoio ao es­tu­dante que man­tém o blo­gue, insurgindo-se con­tra as ações de uma as­so­ci­a­ção que se apre­sen­tava como a de­fen­sora dos seus in­te­res­ses. Outro es­cri­tor que subs­cre­veu a causa foi o fa­moso Paulo Coelho, o mesmo que há uns me­ses in­cen­ti­vou o Pirate Bay a pi­ra­tear os seus livros.

Este é um caso exem­plar que de­mons­tra como a pi­ra­ta­ria nunca po­derá ser um ró­tulo que se cola na testa das pes­soas como se fosse um có­digo de barras.

 

Paroxismo his­té­rico, pa­ta­reca intelectual

Outra mu­lher teve com as pa­la­vras uma re­la­ção me­nos con­ven­ci­o­nal: uma mão se­gu­rava um vi­bra­dor, a ou­tra fo­lhe­ava um livro.

Foi esta a pro­posta que o fo­tó­grafo Clayton Cubitt fez a uma es­trela por­no­grá­fica de 26 anos cha­mada Stoya: par­ti­ci­par numa sé­rie a que cha­mou «Literatura Histérica» e que con­siste em fil­mar mu­lhe­res a ler um li­vro en­quanto se masturbam.

E ela aguen­tou o or­gasmo en­quanto pôde, «em nome da arte».

Clayton Cubitt não es­co­lheu o nome «li­te­ra­tura his­té­rica» ino­cen­te­mente.

O pri­meiro vi­bra­dor ele­tro­me­câ­nico com uma forma fá­lica foi in­ven­tado em 1880 pelo dou­tor Joseph Mortimer Granville.

O Doutor Granville an­dava can­sado de mas­tur­bar ma­nu­al­mente as suas pa­ci­en­tes e criou o apa­re­lho para o ali­viar dos seus do­lo­ro­sos de­ve­res mé­di­cos. Se pen­sam que es­tou no gozo, tal­vez des­co­nhe­çam que no sé­culo XIX a mas­sa­gem no cli­tó­ris era con­si­de­rada o tra­ta­mento mais ade­quado con­tra a histeria.

Como con­sequên­cia disto, cen­te­nas de mu­lhe­res dirigiam-se ao mé­dico para que a zona fosse mas­sa­jada e o «pa­ro­xismo his­té­rico», como en­tão se de­sig­nava o or­gasmo, fosse fi­nal­mente atin­gido. Tal era a frequên­cia des­tes tra­ta­men­tos que os mé­di­cos co­me­ça­ram a so­frer as cha­ma­das Lesões Por Esforço Repetitivo. Talvez um dia a his­tó­ria da me­di­cina ve­nha a co­lo­car o vi­bra­dor na tri­buna de honra dos ins­tru­men­tos que fa­ci­li­ta­ram a vida aos mé­di­cos, mesmo ao lado do estetoscópio.

Esta his­te­ria já era co­nhe­cida há muito tempo. Os gre­gos chamavam-lhe a do­ença do útero ar­dente e era vista como um mal tão in­con­ve­ni­ente como uma praga de ga­fa­nho­tos. Qualquer com­por­ta­mento fe­mi­nino con­si­de­rado es­tra­nho pela so­ci­e­dade pa­tri­arca – an­si­e­da­des, ir­ri­ta­bi­li­da­des, fan­ta­sias se­xu­ais –  era con­si­de­rado um sin­toma de his­te­rismo e a única so­lu­ção mé­dica co­nhe­cida era a mas­sa­gem relaxante.

E as­sim te­mos uma atriz por­no­grá­fica e um fo­tó­grafo de moda a trans­for­mar o his­te­rismo ar­caico do sé­culo XIX num or­gasmo do sé­culo XXI — atin­gido, desta vez, com o au­xí­lio dos de­dos de um es­cri­tor. Stoya es­co­lheu Necrophilia Variations, de al­guém que as­sina ape­nas como Supervert, um li­vro bi­zarro so­bre ob­ses­sões se­xu­ais com ca­dá­ve­res. Grande pan­cada, não é?

Os ca­dá­ve­res de Necrophilia Variations de­vem ser subs­tan­ci­al­mente di­fe­ren­tes dos ca­dá­ve­res em CD ima­gi­na­dos por Pagano e De Turco, mas não deixo de sen­tir que tam­bém es­tes se dei­xam con­du­zir por si­nis­tras obsessões…