Na Rússia, anda tudo às ordens do Czar. O nome dele? Putin. Um dos mais tiranos governantes das atuais democracias representativas que, como já toda a gente terá percebido por estes dias, são apenas meias-democracias. A democraticidade chega aos parlamentos e para ali, nas negociatas dos partidos.
Putin só é comparável a um Bush, ou a um Nixon. Quando a Rússia se chamava União Soviética, englobando os territórios que hoje são Estados mais ou menos independentes, ele era um agente do sinistro KGB, a polícia política da ditadura comunista. Não é de um dia para o outro que um Estalinista se torna num democrata…
Ora aconteceu que um coletivo de performance/banda punk chamado Pussy Riot, formado por mulheres de convicções libertárias, fez um videoclip anti-Putin numa igreja ortodoxa. A canção é uma oração à Virgem para tirar o tirano do Poder.
De recordar que as recentes eleições que o reconduziram ao poleiro foram tudo menos limpas, e o tema das Pussy Riot era sobre isso precisamente…
Pois as raparigas foram detidas sob a acusação de «vandalismo movido por ódio religioso» e ontem foram julgadas. O tribunal condenou-as a uma pena de sete anos de prisão. Sete anos de prisão por uma canção que não chega aos três minutos. Um escândalo.
A liberdade de expressão não existe na Rússia «democrática» e ficou claro que os juízes daquele país estão ao serviço de Putin, cujos enlevos transcendentalistas, ao que parece, levaram-no a trocar o Partido Comunista pela Igreja, o que não é tão diferente quanto se poderia imaginar. Religião é religião, mesmo quando tem capa política.
Medvedev, o homem de confiança de Putin no Governo, lá foi mandando uns recados durante as sessões do tribunal. Por exemplo, que «em certos países, este tipo de ações seria tratado com muito mais severidade e mesmo, em determinados contextos políticos, podia terminar de uma forma muito triste para os responsáveis».
Se ele se estava a referir a países fundamentalistas, dá que pensar. Estará a Rússia ainda Estalinista a tornar-se numa nação fundamentalista ortodoxa?
Entretanto, a comunicação social informa que as três Pussy Riot presas entraram em greve de fome. Esta triste história vai ter, com certeza, novos infelizes episódios.
Free Pussy Riot é um slogan que, entretanto, se tem espalhado pelo mundo…














«em certos países, este tipo de ações seria tratado com muito mais severidade e mesmo, em determinados contextos políticos, podia terminar de uma forma muito triste para os responsáveis» estaria a referir-se a Portugal?
Isto é sinistro, medonho, assustador. Nojento.
A democracia na Rússia, é um termo “relativo”. Assim como o “inconstitucional” é aqui no nosso país.
Eu queria ver se um grupo de rock fizesse o mesmo em Portugal, se o resultado não seria pior. Queria ver um grupo de rock a vandalizar uma igreja, a invadir o altar. Queria ver o que a justiça pediria para um caso destes. Queria ver o que diriam os jornais e os blogs portugueses. Queria ver se iam chamar a isso um retorno ao salazarismo.
Por acaso, até queria ver.
E já agora, alguém pode imaginar o que aconteceria a estas miúdas se fizessem a mesma coisa no Afeganistão?
Vandalismo? Nada foi destruído e ninguém foi agredido. Tratou-se de uma acção simbólica de denúncia da actual ligação de um ex-(?) estalinista e agente do KGB com a Igreja Ortodoxa. Uma Igreja, tal como de resto a Católica, que não tem as mãos limpas. De recordar o apoio que deu ao feudalismo dos czares na Rússia. As igrejas, sejam elas quais forem, foram sempre instrumentos do poder, e cometeram os crimes mais hediondos da história da humanidade. É preciso lembrá-los?
Em suma, não concordo absolutamente nada com o que diz…
Sem dúvida, as igrejas são instrumentos do poder, e até poderão ser, neste caso, controladas por Putin. Mas, isso não quer dizer que o ato de vandalismo, insisto no vandalismo, já que foram agredidas na sua consciência várias pessoas que estavam na igreja, isso não quer dizer que aquilo que elas fizeram não seja um ato gratuito que:
1. muito pouco tem de artístico (se é que tem algo).
2. não tem alcance nenhum a não ser na imprensa que adora rebolar nestes escândalos (principalmente se vierem da Rússia, fala-se logo em Stalin e Czar e coisas do género…)
3. é profundamente pueril
A liberdade de expressão que temos não nos permite, nem em Portugal, profanar locais de culto. A nossa liberdade termina onde começa a do Outro.
Caríssima Ruth,
Um acto gratuito? Se fosse, elas não teriam sido condenadas a sete anos de prisão. Foi tão pouco gratuito que o próprio Governo russo manipulou a Justiça para dar uma sentença tão pesada quanto esta. Já há muito que Putin se sentia incomodado com o impacto das críticas das Pussy Riot.
Quanto às suas considerações sobre não haver nada de artístico na canção: é a sua opinião, que é tão boa ou tão má quanto a de qualquer outra pessoa. Não sei que conceito tem de arte, mas fico sempre muito preocupado com as fronteiras que se estabelecem entre o que supostamente é e não é arte — isto porque o “fascismo cultural” está sempre ali mesmo ao lado, à espreita.
O termo “vandalismo” não se aplica aqui, insisto, assim como não se aplica a máxima “a nossa liberdade termina quando começa a dos outros”, que por sinal é da autoria de Bakunine, um pensador da mesma área filosófica das Pussy Riot. E porquê? Porque, precisamente, não há liberdade. Ninguém é realmente livre por aqueles lados: uns porque trocaram o fanatismo político pelo fanatismo religioso (este “misturado” com um nacionalismo que lembra o do nazismo e do fascismo), outros porque foram excluídos ou menorizados pelo capitalismo selvagem vigente, tão selvagem que funciona já num âmbito criminoso, com envolvimento da mafia local, e, entre outros exemplos, porque existe um Presidente que foi reconduzido para esse lugar no Estado graças a umas eleições manipuladas e falsificadas.
Quando a liberdade não acaba e não começa para ninguém porque se foi, não tendo passado naquele país de uma breve ilusão, ainda estranha que acções de protesto ganhem o dramatismo e o radicalismo desta? A mim não me surpreende nada… Chegámos a um ponto, a nível planetário, que é melhor olharmos para as coisas de uma maneira diferente daquela que tinhamos quando as coisas eram, ou pelo menos pareciam, “normais”… Quem não o fizer, arrisca-se a não perceber nada do que se passa.
Só uma correcção ao meu comentário anterior: a frase «a nossa liberdade termina quando começa a dos outros» não é de Bakunine, mas de Herbert Spencer, outro anarquista. As pessoas começaram a utilizá-la sem perceberem de onde vem e o que significa realmente.
Outra coisa: eu nunca teria feito o que as Pussy Riot fizeram, mas isso sou eu e a minha consciência. Posso ficar assombrado com o gesto delas, mas compreendo-o. Pelos motivos que antes expus…
Quer dizer que quando fazemos um ato gratuito ele deixa de ser grave?
O modo como fala da Rússia leva-me a perguntar-lhe: alguma vez esteve na Rússia? Que sabe o senhor daquilo que se passa lá para além da fabricação mediatizada de uma realidade filtrada por órgãos de comunicação do mundo ocidental? Ou tem andado a ler os blogs russos…?
E se tem andado a fazer isso: a liberdade de lá é diferente daquela que vivemos em Portugal?
E eu não disse que estas manifestações eram uma surpresa para mim. O que eu disse é que elas eram pueris, deslocadas e não artísticas. Claro que ao dizer que não são arte, estas afirmações arrancam do suposto pensador da mesma área filosófica das Pussy Riot, uma barreira de defesa encarniçada, apoiada nos althussers e freuds da esquerda moderada.
É sempre difícil discutir estas coisas, porque pode parecer que estou a defender o Putin, ou o sistema vigente na Rússia, ou o capitalismo, ou a máfia, mas aquilo que acho é que esse grupo sofre do mesmo mal que o punk quando surgiu na Inglaterra, foi engolido e manipulado pela esquerda até ser comercializado e higienizado de modo a poder ser consumido pelos “revolucionários”. E é isso que eu acho que aconteceu.
E, caro Rui, saber que a frase é do Bakunine e não a perceber, achar que ela simplesmente não se aplica ao nosso mundo, seja na Rússia, seja aqui, é que é grave, para mim, e significa não entender nada do que se passa.
Olá, de novo, Ruth
A expressão “acto gratuito” é sua, não minha, e eu não quis dizer nada disso que está a supor…
Aliás, nem sei bem como lhe responder, pois parece estarmos os dois a falar de coisas diferentes.
“Realidade filtrada pelos órgãos de comunicação ocidental”: pois, eu da minha parte já não os leio nem vejo, dada a deturpação sistemática da verdade que neles surge. As minhas fontes de informação são outras, felizmente. E não recebo passivamente a informação: procuro-a e comparo-a com outras fontes — mal seria se não o fizesse, sendo eu um jornalista da velha escola. Prefiro nem falar da “nova”…
Se a liberdade é diferente entre cá e lá? Digamos que a não-liberdade é diferente.
“Pueris, deslocadas e não artísticas”? É a sua opinião subjectiva, não é a minha. Uma e a outra valem o que valem, no mundo da subjectividade, mas eu continuo a preferir, de longe, a minha.
Não percebo o que quer dizer com “uma barreira de defesa encarniçada, apoiada nos althussers e freuds da esquerda moderada”, nem me parece que venha ao caso. Freud não era de esquerda e Althusser não era propriamente da esquerda moderada, além de que não tenho especial simpatia por ele.
O punk foi, na verdade, uma invenção do empresário Malcolm McLaren, que estava mais preocupado com fenómenos de moda do que em movimentos sociais. É claro que os punks anarquistas aproveitaram, e a criação ultrapassou o criador.
Não foi a esquerda que engoliu e manipulou o fenómeno punk, mas o próprio sistema capitalista, tal como, de resto, o muito esperto McLaren previra.
Quanto à frase de Spencer, os anarquistas posteriores têm-na contestado muito, e julgo que com toda a razão. A liberdade de um só existe quando o outro é livre, o que quer dizer que não faz sentido que eu largue a mão da minha liberdade para esse outro ser livre — se o fizesse, também ele não o seria. Mas a frase, lembro, é sua, não minha. Eu só disse de onde é que ela provinha (sabia?), não que concordo com ela. Aliás, discordo completamente.
Quando eu falei em “não perceber nada do que se passa” não me estava a referir a si, era uma generalização referente à maneira como observamos hoje as coisas. Vejo que agora personaliza em mim a mesma expressão. Lamento…
No que diz respeito à pena e à liberdade de expressão aplicada neste caso, podemos discutir o assunto. No entanto eu próprio não achei ‘piada’ ao que foi feito na igreja.
Ola’,
Putin e os seus companheiros são os herdeiros do estalinismo: Trotsky denominara’ aqueles que controlavam o sistema de bureocratas e Battheleim que caracterizou a urss como um capitalismo de estado de casta (atenção que ha’ dois Battheleim, um escreveu sobre os contos de fadas)… O conceito é praticamente o mesmo, verificado-se uma vontade pelos burocratas ou dirigentes da antiga casta em manter-se no poder, desrespeitando a democracia.
A participação da antiga casta dominante no mercado internacional foi acompanhada de medidas de divertimento para dar a pensar que a Russia era uma democracia… A liberdade de culto foi concedida, mas em troca de que?
A maior parte da população russa vive numa miséria enorme… Ha’ familias que queimam moveis para se poderem aquecer no inverno… As disparidades sociais são colossais…
Lembro que vivo num pai’s onde o russo pode ser escolhido em Lingua Viva1, LV2 ou LV3. Geralmente, as melhores turmas são aquelas que estudam russo em LV1 (ou alemão);Paralelamente ha’ muitos cotatos com a Russia visto a França também ser uma potencia espacial…
As disparidades sociais não são so’ especificas à Russia… so’ que no caso desta se pode sem cessar remeter para (e com razão) o estalinismo… Durão Barroso é um verdadeiro lusitano que não esta’ longe do luso descendente Putin. Creio que foi ontem que Barroso lembrou indiretamente que a economia deve integrar a democracia … e não o contrario.
Neste contexto existe uma vontade de destruir as conquistas sociais e como tal a condição da mulher… Nunca no apos 2a guerra os monoteismos foram tão radicais contra a emancipação da mulher… E aqui, neste caso, trata-se de mulheres. E para o governo russo é uma agravante… Nos pai’ses do Magreb os laicos e as mulheres sofrem… Uma mulher que anda com os cabelos ao vento, ou uma saia é uma “puta”… como é? Foi o reverso da Primaera Arabe e a situaçao est’ preocupante. Atualmente a pressão é enorme, por exemplo, para que as mulheres Alemãs desde que tenham filhos deixem de trabalhar.
A França vai resistindo porque tem uma prova de filosofia e de historia obrigatoria em todas os ramos (ciencia, tecnologia, letras). Provas que se sarkozy tivesse ganho teriam desaparecido. Uma das medidas de Mussolini que contrariarmente a Salazar e Franco era imensamente culto, foi de suprimir o ensino da Historia e da Filosofia.
A lei da laicidade existe em França desde 1905. A separação da Igreja e do Estado. A republica Portuguesa aplicara’ essa lei em 1911, o que foi fantastico.
Se a liberdade de culto deve ser respeitada, não menos é verdade que os cidadões e cidadãs também o devem ser… Que razoes terão levado as moças a fazerem um filme num templo e com esse tema? Porque é que a Igreja ortodoxa grega não paga impostos, tendo um patrimonio gigantesco e riquissimo e as crianças gregas tem fome? Etc, etc.
Nuno
Que lindo. Depois das meninas se manifestarem numa igreja contra o Putin(!), confundindo tudo, arte, religião, política e ativismo, a Madonna (claro), sai em defesa delas e depois de um discurso “comovente” diz que vai rezar pelas Pussy Riot. Rezar? Só rir.