Quando vejo um tipo fardado na televisão lembro-me dos meus vinte anos, desperdiçados num sombrio quartel na Ajuda, em Belém, Lisboa, vivendo os dias entre camaratas cinzentas, suor, espingardas e merda de cavalo.
Sim, ainda sou do tempo em que o serviço militar era obrigatório. Por isso, vocês, os putos da geração SMS, nem sabem a sorte que têm.
Estive nos operacionais da Polícia do Exército (PE) – cuja principal missão era fiscalizar soldados (os feijões verdes) que se atrevessem a andar na rua sem licença de saída, desfraldados, com a barba por fazer ou, de uma forma geral, pouco polidos.
Patrulhávamos estações de comboio (Santa Apolónia, principalmente) com as mãos atrás das costas, caminhando devagar, devagarinho, cheios de cagança, armados de bastão e pistola, calcando o asfalto com as botas, que eram pretas, reluzentes e de atacadores brancos, os rostos escondidos sob enormes e desconfortáveis capacetes cor de giz, sempre à cata de vítimas – normalmente pobres desgraçados que suportavam oito, dez, doze horas de viagem em comboios velhos e sobre-lotados para dar um beijo à família e voltar logo a seguir para novo castigo de comboio e tropa.
Eu detestava aquela merda.
Se o chefe de patrulha fosse um nazi estávamos bem fodidos: tínhamos de patrulhar as ruas e fazer de bófia da soldadesca. Mas quando o chefe da patrulha era um bacano, não queria lixar ninguém e se estava a cagar para aquela merda, as nossas missões fiscalizadoras começavam e acabavam na minha casa, a beber uns copos, fumar uns charros, ouvir música, ver filmes – porque eu vivo no Estoril, perto do quartel, e dava para fazer isso.
Essa coisa do haxixe tem muito que se lhe diga. Aquele quartel era um paraíso para quem alinhava nas ganzas. O fumo nunca era provocado pela pólvora, era só pelos charros. Espingardas? Foda-se! Só se nos obrigassem. Não vigorava a máxima Make Love, Not War porque aquela merda era só gajos. E isso é que nos lixava. Mulheres, ali, só mesmo algumas cozinheiras – e todas com mais de 100 quilos em cada perna. Mas, acreditem, depois de quinze dias seguidos a viver rodeado de gajos mais peludos do que eu, cada cozinheira era uma Marisa Cruz em potência. Depois de 360 horas em completa reclusão sexual, até as maçanetas das portas nos faziam lembrar as maminhas da namorada. Claro que nunca vi ninguém ajoelhado aos beijinhos e apalpões às maçanetas – mas, se tivesse visto, não teria achado assim tão estranho: se calhar olhava para o lado, embaraçado por perturbar um momento tão íntimo.
Estou a gozar, claro, mas ali a malta charrava ou enlouquecia. Pior: podia até ficar a gostar daquela merda.
Aprendi alguma coisa na tropa? Com certeza! Por exemplo, estão a ver aquele estereótipo do oficial que tem a mania que é o maior mas que, na realidade, não passa de um grande imbecil? Pois ele existe. Era o comandante do meu batalhão, um capitão qualquer coisa – não me lembro do nome, da voz ou sequer da cara. A única coisa que recordo é um bigode – enorme, desproporcional e farfalhudo; como o senhor capitão era alto, magrinho e andava sempre todo direito, lembrava uma esfregona.
Uma vez ia-me lixando: o gajo estava a fazer uma daquelas inspecções solenes à camarata, eu estava com uma moca inacreditável, todo esticado para cima, em sentido, num silêncio enorme; olhava para ele e só me lembrava era da esfregona da minha avó. Comecei a imaginá-lo como se fosse realmente uma esfregona e ia acontecendo um desastre porque quase rebentava a rir.
Ele gostava de inspecções-surpresa. Desconfiava que os velhacos se andavam a drogar nas camaratas, vejam lá. Mas tinha tanta pontaria que, nas noites em que flutuávamos em fumo, nunca se lembrava de aparecer; quando estávamos todos limpinhos e arejados, irrompia pela camarata com um sorriso triunfante e dizia: “Então? Temos chocolati, é?”
Justiça lhe seja feita, o tipo era patético mas não era nenhum filho da puta. Estes não tinham graça nenhuma, mas ao menos ajudaram-me a crescer. O que me leva ao segundo ensinamento recebido na tropa, sintetizável numa simples frase: se queres conhecer alguém, dá-lhe poder.
Outra coisa interessante que descobri: os gajos do Norte são infinitamente mais porreiros que os gajos de Lisboa – pelo menos em certas e determinadas coisas que considero essenciais. Por exemplo: se estás à rasca para fumar e vais pedir um cigarro, um gajo do Norte estrilha logo: “Foda-se, caralho, mas que merda é esta? Eu não sustento vícios!” O tipo de Lisboa passa-te um cigarrito para a mão sem fazer grandes comentários – ou então, se não quiser dar, manda a tanga do costume, diz que é o último, que não tem mais nenhum.
Se o mesmo gajo do Norte que te recusou o tabaco chega carregado de comida caseira, trazida lá da terrinha, nem é preciso pedir-lhe nada: não fica descansado enquanto não nos vir satisfeitos, de barriga cheia. Se o gajo de Lisboa trouxer a comidinha feita pela mamã, refunde-se logo. Esconde-a. Não partilha. Come quase às escondidas.
Terceiro ensinamento: quando vamos à tropa estamos a servir o país? A minha experiência diz-me que não. Os soldados estão lá para servir oficiais inúteis e ociosos, incapazes de fazer a própria cama, e sargentos barrigudos e cristalizados no tempo. No máximo, servimos um Portugal com o qual não nos identificamos. Não admira, por isso, que uma das frases mais ditas na tropa seja esta: “Uns são filhos da mãe, outros são filhos da puta”.
Talvez por concordar com a justiça desta observação, decidi que iria fazer o juramento de bandeira sem cantar o hino nacional. Não cantar o hino nacional no dia em que fui oficialmente incorporado na tropa deve ter sido dos actos mais patrióticos que fiz na vida. Bem, fiz pior que isso: às sete da manhã do grande dia, já fardado a rigor, ainda antes do pequeno-almoço, fumei um Bob Marley (espécie de charro-charuto) e fui para a parada a ver tudo em câmara-lenta. Foi o último charro que fumei na vida. Teve um valor simbólico.
Estava um calor terrível: foram horas debaixo de Sol, quietos, tentando não desmaiar, procurando um rosto amado na multidão dos civis, ouvindo discursos sem sentido. Um sargento – ou seja, um profissional do ofício de servir a Pátria – forçado pelo protocolo militar a suportar o mesmo martírio que os recrutas, só dizia, entredentes: “Mas que merda, mas que seca, anda um gajo a trabalhar que nem um cão para levar com esta merda”. Só o voltei a ouvir quando começou a cantar, cheio de fulgor patriótico, os primeiros versos de A Portuguesa:
“Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal…”
A minha tropa foi uma comédia recheada de protagonistas que se levavam demasiado a sério.
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8 comentários
Achei uma delícia esta sua crónica e fez-me recordar outros tempos.
Acho este texto um misto de qualquer coisa de hilariante e sarcástico. Extremamente bom.
Pá, eu gosto!
Abraço
Muito bom texto, excelente escrita que tu tens! Não é todos os dias que encontro uma crónica na net que uns dias depois me vem à memória juntamente com o desejo de a reler, parabéns e obrigado.
Está na altura de eu tomar a decisão de passar ou não pela tropa, hoje em dia não é obrigatório, mas é uma possibilidade que não ponho de parte.
Não conheço a tropa de hoje em dia, julgo que o pessoal que para lá vai nos dias de hoje é mais ‘mimado’ e bem tratado do que no teu tempo porque como são voluntários e são poucos, o exército deve aproveita-los um pouco melhor de forma a garantir que algum gado novo por lá decida ficar. Já não existe o luxo da abundância, já não se pode ser selectivo, tem de se trabalhar o que se tem…Ou então não. Se calhar poderás elucidar-me sobre isto.
Não procuro na tropa um futuro, uma carreira. Se for para lá, será porque quero de certa forma distanciar-me do meu passado mais recente, dos problemas que me faz lembrar, dos lugares a que está associado e da pessoa a quem pertence. Quero que a tropa seja uma quebra da linha contínua que é a minha vida, uma paragem na evolução da minha personalidade… A analogia perfeita é pensar na tropa como o estado de crisálida que separa a lagarta da borboleta. A crisálida está ali no casulo, imóvel, imutável, como que em meditação, para depois se metamorfosear na borboleta, lindíssima, segura de si, com ares de ter atingido a iluminação…sim a tropa será o meu estado de crisálida.
Como já deves ter percebido, o que me interessa na experiência da tropa é o aspecto psicológico, mas sairei de lá como a borboleta que espero vir a ser (salvo qualquer mariquice que esta analogia possa induzir)? Ou tornar-me-ei numa espécie de vespa?
Gostaria de falar contigo sobre isto, gostava de saber quais as mudanças que a tropa provocou na tua maneira de ser, que coisas interiorizaste e aprendeste, quais as vantagens e desvantagens que a tropa traz para a construção da personalidade de um homem? Se possuir um esboço de resposta para cada uma destas perguntas, sei que tomarei a decisão certa em relação à tropa, se quiseres falar comigo acerca disto manda-me um mail ou adiciona-me no msn, seria muito importante para mim!
Abraço, fica bem e continua a escrever assim!
Eu estive do outro lado.
Fui Alferes Miliciano (contratado) duarante 4 anos, num Regimento de Infantaria. Tenho cerca de 40 anos, há 16 que saí.
Para trabalhar num Banco, onde me mantenho.
Dei sempre recrutas, atrás de recrutas.
Nunca me armei em bom. Mas sempre me dei ao respeito. Nada de avacalhar nem de subverter práticas que tantas gerações quiseram manter. Não temos o direito.
Procurei liderar pelo exemplo.
Ganhar as pessoas, que ali estavam contrariadas, para o desporto, para a saúde, para os valores sadios da amizade, companheirismo, partilha.
Sempre procuei dar o exemplo, sendo humano mas firme e exigente.
Fiz amizades para toda a vida que se mantem.
«Aturaram-me» centenas de soldados. Hoje quando nos encontramos logo me reconhecem, e são abraços inesquecíveis que recebo, conversas sem fim, que incomodam a minha mulher e os meus filhos, porque se prolongam, sobre a partilha, o apoio na exigencia, o exercício físico puxado, as futeboladas, coisas de homens que partilhamos um espaço , a palavra de compreensão, o conselho para o futuro, como se fosse mais velho, mas eramos da mesma idade… os jantares de pelotão com lágrimas de despedida, o orgulho de ter grupos uniformas de putos porreirinhos, que resistiam a tudo, que foram sempre capazes de dizer não à droga, ao alcool, capazes de me seguir, em passo certo, da caserna até à porta do quartel, todas as sextas feiras, enquanto me despedia, um por um, desejando um bom fim de semana com a família.
Perante eles me curvo: foram quem me ensinou a lidar hoje com os meus filhos.
A tropa para mim foi uma excelente experiencia de vida. Como podem ser todas as experiências onde uma pessoa se entrega com pureza, com entusiasmo, sobretudo se formos BOAS PESSOAS e querermos dar o melhor de nós aos outros.
O seu texto é absolutamente brilhante!
Sou militar e consigo imaginar cada um dos momentos aqui descritos!
Parabéns
Boas amigo!
Bom, eu tenho uma duvida e não sei como ei-de resolver a minha vida!
A minha duvida, é se devo entrar na tropa, no exercito, seguir uma carreira militar, ou então, quando acabar o contrato sair para a GNR e seguir por lá a minha vida.
A segunda opção, é seguir como sócio do meu pai, e mais tarde começar sozinho (trabalhar com familia nunca resulta), com uma empresa do meu pai, de Isolamento Térmico, sistema de capotto, no qual ja sastante do ramo. o meu pai ja anda nisto há 18 anos!
O que me aconcelha ? o que dará maior beneficio fiscal e maior qualidade de vida?
Tenho o 12º ano.
Muito obrigado por tudo!
Com os maiores cumprimentos e um abraço,
Cristiano Ribeiro.
Boas pessoal, gostei bue do teu texto sim era maus tempos desse teu passado –’ amigo sabes me dizer como é o tempo de hoje em dia na tropa? é que vou ser chamado dia 11 de fevereiro a tropa, mas se me pedirem pa ficar la vou ficar, sim pk keru esprementar coisas novas pk ja tou farto desta vida, sou um gajo calmo etc keru ver se perco isso i tal. se alguem ke acabou de sair da tropa a pouco tempo ke me diga como é se faz favor agredecia ke me dissesem como é a tropa de hoje. abraços
hoje em dia na tropa… hoje em dia as forças armadas , não são muito diferentes da história do camarada, acrescentando a desorganização , o desleixo e o que já é bastante comum o ridículo. A parvoíce dos superiores ( em particular dos escalões mais superiores) é tão grande . Maior parte dos indivíduos de escalões superiores esquecem-se completamente que estão a lidar com pessoas, concordo plenamente com a máxima que o camarada acima no texto refere : ” se queres conhecer alguém , dá-lhe poder ! ” e é a mais pura das verdades , um bando de bandalhos que não valem um caralho só por terem umas coisas diferentes e maiores em cima dos ombros , sentem – se no direito de humilhar completamente uma pessoa , “tropa é tropa ” certo mas o que se procura nas forças armadas é moralizar e transmitir confiança aos homens , sou um adepto fervoroso da rigidez , da disciplina e do respeito do rigor , mas nunca da humilhação. Já tive a oportunidade de dar formação a recrutas e ao contrário de muita gente não humilhei nem ofendi , fui extremamente exigente e por vezes severo , mas sempre com a atenção de que estava a lidar com pessoas e não com animais.
Se querem vir para a tropa apenas vós aconselho , venham apenas porque sentem vocação para tal, não venham apenas porque o fundo de desemprego vos disse para tal.
Amo o ramo das forças armadas a que pertenço , mas cada vez me desiludo mais com a sua situação . Hoje em dia … nesta nação onde cada um só quer saber do seu nariz … falta – nos o orgulho (já a muito esquecido) de ser Português.