→ 02/06/2008 @9:35

As minhas recordações da tropa

Quando vejo um tipo far­dado na te­le­vi­são lembro-me dos meus vinte anos, des­per­di­ça­dos num som­brio quar­tel na Ajuda, em Belém, Lisboa, vi­vendo os dias en­tre ca­ma­ra­tas cin­zen­tas, suor, es­pin­gar­das e merda de cavalo.

Sim, ainda sou do tempo em que o ser­viço mi­li­tar era obri­ga­tó­rio. Por isso, vo­cês, os pu­tos da ge­ra­ção SMS, nem sa­bem a sorte que têm.

Estive nos ope­ra­ci­o­nais da Polícia do Exército (PE) – cuja prin­ci­pal mis­são era fis­ca­li­zar sol­da­dos (os fei­jões ver­des) que se atre­ves­sem a an­dar na rua sem li­cença de saída, des­fral­da­dos, com a barba por fa­zer ou, de uma forma ge­ral, pouco polidos.

Patrulhávamos es­ta­ções de com­boio (Santa Apolónia, prin­ci­pal­mente) com as mãos atrás das cos­tas, ca­mi­nhando de­va­gar, de­va­ga­ri­nho, cheios de ca­gança, ar­ma­dos de bas­tão e pis­tola, cal­cando o as­falto com as bo­tas, que eram pre­tas, re­lu­zen­tes e de ata­ca­do­res bran­cos, os ros­tos es­con­di­dos sob enor­mes e des­con­for­tá­veis ca­pa­ce­tes cor de giz, sem­pre à cata de ví­ti­mas – nor­mal­mente po­bres des­gra­ça­dos que su­por­ta­vam oito, dez, doze ho­ras de vi­a­gem em com­boios ve­lhos e sobre-lotados para dar um beijo à fa­mí­lia e vol­tar logo a se­guir para novo cas­tigo de com­boio e tropa.

Eu de­tes­tava aquela merda.

Se o chefe de pa­tru­lha fosse um nazi es­tá­va­mos bem fo­di­dos: tí­nha­mos de pa­tru­lhar as ruas e fa­zer de bó­fia da sol­da­desca. Mas quando o chefe da pa­tru­lha era um ba­cano, não que­ria li­xar nin­guém e se es­tava a ca­gar para aquela merda, as nos­sas mis­sões fis­ca­li­za­do­ras co­me­ça­vam e aca­ba­vam na mi­nha casa, a be­ber uns co­pos, fu­mar uns char­ros, ou­vir mú­sica, ver fil­mes – por­que eu vivo no Estoril, perto do quar­tel, e dava para fa­zer isso.

Essa coisa do ha­xixe tem muito que se lhe diga. Aquele quar­tel era um pa­raíso para quem ali­nhava nas gan­zas. O fumo nunca era pro­vo­cado pela pól­vora, era só pe­los char­ros. Espingardas? Foda-se! Só se nos obri­gas­sem. Não vi­go­rava a má­xima Make Love, Not War por­que aquela merda era só ga­jos. E isso é que nos li­xava. Mulheres, ali, só mesmo al­gu­mas co­zi­nhei­ras – e to­das com mais de 100 qui­los em cada perna. Mas, acre­di­tem, de­pois de quinze dias se­gui­dos a vi­ver ro­de­ado de ga­jos mais pe­lu­dos do que eu, cada co­zi­nheira era uma Marisa Cruz em po­tên­cia. Depois de 360 ho­ras em com­pleta re­clu­são se­xual, até as ma­ça­ne­tas das por­tas nos fa­ziam lem­brar as ma­mi­nhas da na­mo­rada. Claro que nunca vi nin­guém ajo­e­lhado aos bei­ji­nhos e apal­pões às ma­ça­ne­tas – mas, se ti­vesse visto, não te­ria achado as­sim tão es­tra­nho: se ca­lhar olhava para o lado, em­ba­ra­çado por per­tur­bar um mo­mento tão íntimo.

Estou a go­zar, claro, mas ali a malta char­rava ou en­lou­que­cia. Pior: po­dia até fi­car a gos­tar da­quela merda.

Aprendi al­guma coisa na tropa? Com cer­teza! Por exem­plo, es­tão a ver aquele es­te­reó­tipo do ofi­cial que tem a ma­nia que é o maior mas que, na re­a­li­dade, não passa de um grande im­be­cil? Pois ele existe. Era o co­man­dante do meu ba­ta­lhão, um ca­pi­tão qual­quer coisa — não me lem­bro do nome, da voz ou se­quer da cara. A única coisa que re­cordo é um bi­gode — enorme, des­pro­por­ci­o­nal e far­fa­lhudo; como o se­nhor ca­pi­tão era alto, ma­gri­nho e an­dava sem­pre todo di­reito, lem­brava uma esfregona.

Uma vez ia-me li­xando: o gajo es­tava a fa­zer uma da­que­las ins­pec­ções so­le­nes à ca­ma­rata, eu es­tava com uma moca ina­cre­di­tá­vel, todo es­ti­cado para cima, em sen­tido, num si­lên­cio enorme; olhava para ele e só me lem­brava era da es­fre­gona da mi­nha avó. Comecei a imaginá-lo como se fosse re­al­mente uma es­fre­gona e ia acon­te­cendo um de­sas­tre por­que quase re­ben­tava a rir.

Ele gos­tava de inspecções-surpresa. Desconfiava que os ve­lha­cos se an­da­vam a dro­gar nas ca­ma­ra­tas, ve­jam lá. Mas ti­nha tanta pon­ta­ria que, nas noi­tes em que flu­tuá­va­mos em fumo, nunca se lem­brava de apa­re­cer; quando es­tá­va­mos to­dos lim­pi­nhos e are­ja­dos, ir­rom­pia pela ca­ma­rata com um sor­riso triun­fante e di­zia: “Então? Temos cho­co­lati, é?”

Justiça lhe seja feita, o tipo era pa­té­tico mas não era ne­nhum fi­lho da puta. Estes não ti­nham graça ne­nhuma, mas ao me­nos ajudaram-me a cres­cer. O que me leva ao se­gundo en­si­na­mento re­ce­bido na tropa, sin­te­ti­zá­vel numa sim­ples frase: se que­res co­nhe­cer al­guém, dá-lhe poder.

Outra coisa in­te­res­sante que des­co­bri: os ga­jos do Norte são in­fi­ni­ta­mente mais por­rei­ros que os ga­jos de Lisboa — pelo me­nos em cer­tas e de­ter­mi­na­das coi­sas que con­si­dero es­sen­ci­ais. Por exem­plo: se es­tás à rasca para fu­mar e vais pe­dir um ci­garro, um gajo do Norte es­tri­lha logo: “Foda-se, ca­ra­lho, mas que merda é esta? Eu não sus­tento ví­cios!” O tipo de Lisboa passa-te um ci­gar­rito para a mão sem fa­zer gran­des co­men­tá­rios – ou en­tão, se não qui­ser dar, manda a tanga do cos­tume, diz que é o úl­timo, que não tem mais nenhum.

Se o mesmo gajo do Norte que te re­cu­sou o ta­baco chega car­re­gado de co­mida ca­seira, tra­zida lá da ter­ri­nha, nem é pre­ciso pedir-lhe nada: não fica des­can­sado en­quanto não nos vir sa­tis­fei­tos, de bar­riga cheia. Se o gajo de Lisboa trou­xer a co­mi­di­nha feita pela mamã, refunde-se logo. Esconde-a. Não par­ti­lha. Come quase às escondidas.

Terceiro en­si­na­mento: quando va­mos à tropa es­ta­mos a ser­vir o país? A mi­nha ex­pe­ri­ên­cia diz-me que não. Os sol­da­dos es­tão lá para ser­vir ofi­ci­ais inú­teis e oci­o­sos, in­ca­pa­zes de fa­zer a pró­pria cama, e sar­gen­tos bar­ri­gu­dos e cris­ta­li­za­dos no tempo. No má­ximo, ser­vi­mos um Portugal com o qual não nos iden­ti­fi­ca­mos. Não ad­mira, por isso, que uma das fra­ses mais di­tas na tropa seja esta: “Uns são fi­lhos da mãe, ou­tros são fi­lhos da puta”.

Talvez por con­cor­dar com a jus­tiça desta ob­ser­va­ção, de­cidi que iria fa­zer o ju­ra­mento de ban­deira sem can­tar o hino na­ci­o­nal. Não can­tar o hino na­ci­o­nal no dia em que fui ofi­ci­al­mente in­cor­po­rado na tropa deve ter sido dos ac­tos mais pa­trió­ti­cos que fiz na vida. Bem, fiz pior que isso: às sete da ma­nhã do grande dia, já far­dado a ri­gor, ainda an­tes do pequeno-almoço, fu­mei um Bob Marley (es­pé­cie de charro-charuto) e fui para a pa­rada a ver tudo em câmara-lenta. Foi o úl­timo charro que fu­mei na vida. Teve um va­lor simbólico.

Estava um ca­lor ter­rí­vel: fo­ram ho­ras de­baixo de Sol, qui­e­tos, ten­tando não des­maiar, pro­cu­rando um rosto amado na mul­ti­dão dos ci­vis, ou­vindo dis­cur­sos sem sen­tido. Um sar­gento — ou seja, um pro­fis­si­o­nal do ofí­cio de ser­vir a Pátria — for­çado pelo pro­to­colo mi­li­tar a su­por­tar o mesmo mar­tí­rio que os re­cru­tas, só di­zia, en­tre­den­tes: “Mas que merda, mas que seca, anda um gajo a tra­ba­lhar que nem um cão para le­var com esta merda”. Só o vol­tei a ou­vir quando co­me­çou a can­tar, cheio de ful­gor pa­trió­tico, os pri­mei­ros ver­sos de A Portuguesa:
“Heróis do mar, no­bre povo, na­ção va­lente e imortal…”

A mi­nha tropa foi uma co­mé­dia re­che­ada de pro­ta­go­nis­tas que se le­va­vam de­ma­si­ado a sério.

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