
E foi então que mais de 2700 inocentes perderam a vida.
E foi então que nos apercebemos: fanáticos religiosos tornaram-se argumentistas de Hollywood e produziram um filme-catástrofe exibido em todas as televisões do mundo.
E foi então que a América se apercebeu: as fundações de aço e poder e segurança que sustentavam as torres gémeas do World Trade Center podiam ser derretidas e vergadas e destruÃdas pela louca determinação dos fanáticos e dos humilhados.
E nenhum Die Hard Bruce Willis se encontrava naqueles arranha-céus correndo descalço sobre tapetes de vidro, matando terroristas e salvando inocentes entre monólogos espirituosos.
E nenhum Governador Schwarzenegger comandava helicópteros de salvamento para retirar as centenas que se refugiaram, indefesos, nos telhados do World Trade Center.
O Super-Homem esteve ausente em planeta incerto e só regressou cinco anos depois.
Pobre América. Porque continuas tu convencida de que os teus milhares de mortos mudaram o mundo? O mundo mudou com a primeira bomba atómica lançada sobre os civis de Hiroshima. O mundo mudou com o Holocausto. O mundo mudou quando se teceram tapetes de bombas para arrasar cidades inteiras – lembras-te de Dresden, na Alemanha? Ignorante e teimosa América. Porque razão depois destes anos todos ainda não paraste um momento para pensar e perguntar: Meu Deus. Porque fizeram eles isto? Porque razão eles nos odeiam tanto? Que temos andado nós a fazer? Será possÃvel que tenhamos gerado um monstro? Vários monstros?
América de memória curta. Não criaste tu o assassino Osama bin Laden quando te convinha teres carne para canhão contra os comunas no Afeganistão? Não deste tu palmadinhas nos ombros ao defunto sanguinário Saddam Hussein quando ele fazia o favor de destruir o Irão por ti? Não foste tu que fizeste orelhas moucas ao genocÃdio dos curdos?
Diz-me, América: quantos inocentes foram queimados pela tocha da Estátua da Liberdade? Será que não percebes que entre aqueles que morreram nas torres e no Iraque existe apenas uma estrada? Um caminho poeirento e cinzento e gasto por milhares de pés sujos, descalços e abandonados – o caminho que a tua Cavalaria percorre quando quer salvar o dia? Que Sol ilumina esse dia que vais salvar, América? Que tipo de Sol é o teu? É feito de compreensão e calor humano ou é o mesmo Sol de napalm do filme de Copolla?
Aprendeste alguma coisa com a tragédia – a tua e as que provocaste? Sentiste o mundo a teu lado quando chorou, disposto a perdoar tantos anos de danos colaterais em nome de todos os teus inocentes que morreram? Que fizeste das nossas lágrimas e do nosso consentimento?
Elegeste o mesmo imbecil. O protector dos falcões que voaram sob os escombros do World Trade Center. Cega pela dor e desejo de vingança, não notaste que as cinzas dos charutos dos poderosos e dos ricos eram feitas dos corpos dos teus mortos.
E, já agora, América, bela e grandiosa nação, paÃs da Liberdade e do Jazz, se não levas a mal a pergunta: que é feito das tuas armas de destruição massiva? Não nos mintas!

Foto: AP/Bilal Hussein
E desculpa lá estragar-te o aniversário, América, mas o calendário no Iraque marca 11 de Setembro todos os dias.































12 comentários
Muito bom texto, os meus parabens.
Concordo por completo. Existe muita hipocrisia neste mundo…
Brutal!!! Muito bem escrito, concordo completamente.
Do melhor que li na blogosfera. Parabéns!
Melhor comentário sobre o 11 de Setembro que alguma vez vi.
«Diz-me, América: quantos inocentes foram queimados pela tocha da Estátua da Liberdade?»
Os 2700 da primeira linha do post também contam? É que dá ideia, ao ler o texto, que esses fazem parte dos sanguinários… A América não é Bush, Rei-Sol só houve um na história!
Abraço.
Foscasse, ó Marco. Curiosa esta tua frase – tanto na ordem como na quantidade de palavras que dedicas a cada evento.
O primeiro evento que despoletou os outros dois – Holocausto – e aquele que tem mais vÃtimas aparece no meio da frase (tu, jornalista, sabes a importância que se dá a isso) e resumido a uma palavra.
Enquanto se desperdiçarem palavras com Dresden e se resumirem milhares de mortos numa palavra, só tenho uma coisa a dizer à América.
OBRIGADO
A América hoje em dia é o paÃs que mais acções de terrorismo perpetua pelo mundo. Lembramo-nos dos 2700 que morreram no WTC, mas ninguém sabe o número de vietnamitas mortos, nem o número de palestianianos que caÃram pelo apêndice da América que é Israel, nunca ninguém ouviu falar do terrorismo que foi a invasão a El Salvador e á Nicarágua onde existiu um genocidio, nunca ninguém se lembra dos mortos em Cuba; Coreia do Norte e no Haiti que morreram de fome devido aos embargos ( ilegais, diga-se de passagem ). Quantos foram estes mortos? Ninguém sabe porque não interessa, ningué se dá ao trabalho de os contar porque são apenas números, os nossos nunca. Morreram mais do que os 2700 no WTC? Morreram, sem dúvida, e continuam a morrer a cada dia que passa.
Hoje a América é o estado que mais actos de terrorismo tem, não se pode comparar os actos horriveis que os E.U.A. têm com o WTC. Este último foi de facto uma atrocidade, mas foi “apenas” a destruição de um sÃmbolo, estamos a comparar poucos milhares com muitos milhões. Temos que nos perguntar o porquê destes ataques, a resposta é fácil: durante anos nós ocidentais destruimos e arrasamos os seus paÃses, pior que terrorismo isto foi agressão armada a um paÃs, muito pior do que qualquer acto terrorista.
Excelente reflexão.
Que cada um de nós faça também uma…
Se me permites Marco, faço minhas as tuas palavras, com pena de que a visão egocêntrica dos americanos não lhes permita ver que, apesar de não ser algo que eu desejasse, o que eles sentiram foi, se calhar, apenas uma consequência das decisões polÃticas e militares feitas pelo seu paÃs. Infelizmente creio que o povo americano não aprendeu e continua a culpar os outros pelos seus erros. Acredito que a vida no Iraque antes da intervenção americana não se pautava pela liberdade, mas também acredito que não foi isso que os americanos foram lá fazer. Acredito que foram razões sejam meramente economÃcas que motivaram esta guerra… Existem paÃses com situações humanitárias bem piores e aqui, os americanos preferem não intervir.
Parabéns pelos tuas palavras, as quais partilho.
Os pecados da América são muitos e podem não ter perdão, mas é um lugar comum fazer dela o motivo e o pretexto de todos os ódios. Pelo contrário, raramente se exaltam as suas virtudes. É o preço da Liberdade de uma grande nação multi-racial, cultural e religiosa. Fosse ela uma China, uma União Soviética ou outro qualquer império hermético e manipulador e há muito estaria perdoada e redimida
O ódio que a molestou no 11 de Setembro nem será fundamentado nos seus pecados mas tão somente no mal pelo mal. Este mal fere-se a si próprio, não tem motivos nem pretextos. Vive do mal para o mal. Esse deve ser condenado, sem meias palavras ou justificações históricas.
E ainda não é feriado a 11 de Setembro