→ 20/04/2009 @18:59

Mesmo que morras, serás sempre o mais forte de todos

Actualização (21/Abril) O mesmo porta-voz da Universidade de Cambridge que anunciou ontem o «internamento urgente» de Stephen Hawking revelou hoje que o físico se encontra em observação mas «não corre perigo de vida».

«Ele encontra-se num estado de saúde confortável e a família está confiante de que recuperará completamente».

 

As últimas notícias conhecidas dão conta de que Stephen Hawking, «gravemente doente», foi internado de urgência no hospital Addenbrookes, perto de Cambridge. «Está a ser sujeito a exames médicos», acrescentou um porta-voz da Universidade. «Sentia-se mal há várias semanas».

Não é a primeira vez que Hawking está em apuros – aos 21 anos, os médicos diagnosticaram-lhe esclerose amiotrófica lateral e deram-lhe, no máximo, «dois ou três anos de vida».

Todos os que se interessam por Ciência sabem muito bem como Hawking sobreviveu admiravelmente ao diagnóstico. Espero que este grande cientista se consiga ainda safar a tempo de concretizar o sonho de se tornar astronauta a bordo da nave turística da Virgin. O custo do bilhete é astronómico – mais de 150 mil Euros – mas o patrão da Virgin, Richard Branson, ofereceu-se para lhe pagar a viagem. Já este ano, livrou-se do corpo e desfrutou de alguns minutos em gravidade zero a bordo de um Boing 727 modificado, um presente oferecido pela Zero Gravity. «Foi incrível, maravilhoso. Poderia ter continuado e continuado», afirmou depois o cientista.

Espero que sobreviva. Eis alguém que merecia ser astronauta.

 

Stephen Hawking em gravidade zero

Tentar perceber os mistérios da física quântica é como caçar pulgas com luvas de boxe: exige uma paciência infinita e é bem capaz de vir a revelar-se uma caçada infrutífera.

Stephen Hawking, o maior físico teórico da actualidade, tão brilhante como Einstein ou Newton, segundo se afirma, terá sentido as mesmas dificuldades quando a sua deficiente formação em Matemática não lhe permitiu avançar muito na compreensão da Teoria da Relatividade Geral. Tinha ainda 21 anos e estava no seu primeiro ano em Cambridge.

Os três anos passados em Oxford tinham sido de muito divertimento e pouco trabalho no curso de Física. Hawking era daquele tipo de alunos que não precisava de estudar muito para obter excelentes notas. O estereótipo do génio encerrado no seu canto nunca encaixou no feitio de Hawking: era de trato simples, alegre, brincalhão e sociável, um tipo muito popular entre os colegas.

A popularidade acentuou-se quando se tornou timoneiro da equipa de remo de Oxford – o remo era uma actividade física dura e esgotante, mas ajudava a manter o status quo universitário e criava laços de camaradagem entre os alunos. As noites do jovem Hawking eram muitas vezes passadas em jantaradas organizadas pelo clube de Remo no Salão Nobre da faculdade. Essas festas costumavam durar até altas horas da noite. É possível imaginá-lo a participar nas batalhas de guardanapos de linho ensopados em vinho – assim acabavam os jantares.

As deficiências na Matemática eram o menos – todos os alunos a sentiam. Outro problema estava a surgir. No terceiro ano em Oxford, Hawking caíra uma ou duas vezes sem perceber muito bem porquê. No ano seguinte, já em Cambridge, começou a sentir dificuldades em fazer os nós nos atacadores dos sapatos. De vez em quanto tinha problemas na fala. Quando regressou a casa para passar as férias de Natal, o pai, que era médico, reparou nesses problemas físicos e levou-o ao médico de família. Este enviou-o a um especialista.

Em Janeiro de 1963, pouco depois de fazer 21 anos, Hawking foi internado num hospital para realizar testes. Duas semanas depois, os médicos deram-lhe alta e mandaram-no regressar a Cambridge e prosseguir os estudos – não era esclerose múltipla, afirmaram, mas também não era um caso «típico». Conclusão: Hawking sofria de esclerose amiotrófica lateral ou doença de Lou Gehrig (Gehrig foi uma lenda do basebol norte-americano a quem foi diagnosticada esta patologia em 1939).

Esta doença provoca a desintegração gradual das células nervosas da espinal medula e do cérebro que regulam a actividade dos músculos voluntários. À medida que as células se desintegram, os músculos atrofiam-se, acabando por acontecer o mesmo a todos os músculos do corpo. Torna-se impossível qualquer movimentação – até a capacidade de falar se perde. Quando finalmente os músculos respiratórios enfraquecem, a pessoa afectada pela doença pode morrer em resultado de uma pneumonia ou simplesmente asfixiar por não conseguir respirar.

Outra característica desta doença é o facto de o cérebro se manter lúcido até ao fim: muitas vezes os médicos administravam morfina não para combater a dor (ausente neste caso), mas para suprimir o pânico ou a depressão.

Aos 21 anos, enquanto tentava prosseguir a sua investigação de mestrado na Universidade de Cambridge, Hawking foi então confrontado pelos médicos com um duro prognóstico: dado que a doença não estabilizara, pelo contrário, parecera progredir rapidamente, só teria mais dois ou três anos de vida.

A doença e a dificuldade em concluir o mestrado deitaram-no abaixo. Refugiou-se no quarto da Universidade. Sentia-se uma personagem trágica, ouvia a música de Wagner o dia todo. A ópera mais conhecida do compositor alemão, Tristão e Isolda, conta a história de um amor proibido – trágico como o de Romeu e Julieta, de Shakespeare. A música que Wagner compôs para os amantes condenados à tragédia presta-se bem ao estado melancólico que Hawking deve ter sentido nesses dias.

«Antes de a doença me ter sido diagnosticada, sentia que a vida era um grande aborrecimento. Parecia não existir nada por que valesse a pena lutar. Pouco depois de sair do hospital, sonhei que estava prestes a ser executado. De súbito, percebi que existiam muitas coisas que poderia fazer se a minha execução fosse suspensa», afirmou o cientista no livro biográfico «Stephen Hawking – Em Busca de uma Teoria do Tudo», de Kitty Ferguson.

Stephen Hawking e Jane Wilde, a primeira mulher

Dois anos depois, a sentença parecia ter sido, de facto, suspensa. Andava com o auxílio de uma bengala, mas estava vivo.

O primeiro encontro com uma rapariga, Jane Wilde, ainda em 1963, nas vésperas de dar entrada no hospital, o namoro e o noivado que se seguiram, deram novo alento a Hawking: «Ela deu-me uma razão para viver. Deu-me determinação para viver.»

A mulher acabou por tomar uma decisão que, na prática, lhe salvou a vida. Em 1984, ano em que o livro «Breve História do Mundo» estava ainda em processo de revisão, Jane recebeu uma mensagem urgente de um hospital de Genebra. Hawking estava na Suíça para uma conferência e tinha contraído uma pneumonia – a doença que, em 1963, os médicos já suspeitavam que o haveria de matar.

Quando ela chegou ao hospital, encontrou o cientista ligado a uma máquina que o mantinha vivo. A única forma de salvar o marido, comunicaram então os médicos, era autorizar uma operação em que a traqueia lhe seria removida. Salvava-lhe a vida, mas ele nunca mais seria capaz de falar ou, sequer, de produzir qualquer som vocal. Jane autorizou.

A progressiva degeneração física de Hawking é bem conhecida de todos – incluindo os que não se interessam por assuntos como gravidade quântica ou cosmologia teórica.

A imagem do «génio em cadeira de rodas» e o inesperado sucesso popular do livro «Breve História do Tempo» transformaram-no numa celebridade. O seu brilhantismo intelectual tornou-o uma lenda. É professor lucasiano de Matemática em Cambridge – a mesma cadeira outrora ocupada por Sir Isaac Newton.

Hawking já não consegue falar. Actualmente nem os músculos do pescoço funcionam: não é capaz sequer de levantar a cabeça sozinho. Até há pouco tempo usava um teclado acoplado a um computador através do qual podia digitar e controlar um sintetizador de voz. Nem isso é possível, pois os dedos perderam a capacidade de digitar.

Experimentou um dispositivo que utiliza raios infravermelhos e se encontra acoplado na armação dos óculos. Através da movimentação dos músculos da face, Hawking pode desviar a direcção dos raios e controlar quais as letras que surgirão no ecrã do computador.

Aos 67 anos, a par da investigação teórica e das palestras que dá em todo o mundo, queria continuar a escrever livros para o grande público.

Em 2005 lançou uma revisão de «Uma Breve História do Tempo», escrita a meias com Leonard Mlodinow. Mlodinow é físico e um dos argumentistas da série Star Trek: The Next Generation, e MacGyver.

Stephen Hawking e a filha Lucy

Em 2007 também escreveu com a filha – a jornalista Lucy Hawking – um livro infantil de divulgação científica chamado George’s Secret Key to the Universe e que o próprio já descreveu como «um Harry Potter sem a magia». Já este ano, publicou novamente em conjunto com a filha o livro George and the Cosmic Treasure Hunt. Apesar de tudo, morra ou não nos próximos dias, a sentença de morte foi adiada durante muito tempo.

16 comentários

  • 1
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    20 de Abril de 2009 - 19:51 | Link permamente

    Marco, Mais um grande post.

    Esperemos que ele se safe (mais uma vez) :roll:

  • 2
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Fedora 10 Fedora 10
    20 de Abril de 2009 - 20:27 | Link permamente

    Com sua presumível morte, acrescida um muito ligeiro processo de mitificação (ele não precisa disto, já é mito por natureza) e alguns muitos anos, numa época em que a matriz da CGD, em ruínas, já seja vista como um monumento a deuses de papel, talvez consigamos transforma-lo também numa espécie de Deus.

    Talvez um Cristo, deixado a deriva em nossa companhia, pelo seu pai divino Deus da alquimia Isaac Newton, pagando com seu sacrifício físico o preço de carregar sobre o débil pescoço, uma mente distante de nossa compreensão. Um ator e personagem que nunca deveria ter saído dos céus, que foi de onde certamente veio para esta visita fortuita ao reino humanos só para nos explicar o que é o cosmo. Daqueles que se compreendêssemos em toda a sua plenitude, creríamos que era mesmo um Deus.

  • 3
    com Firefox 3.0.7 Firefox 3.0.7 em Mandriva 2009.0 Mandriva 2009.0
    20 de Abril de 2009 - 20:33 | Link permamente

    O Hawking é um génio, posso não concordar com a maioria das teorias que ele suporta, mas isso não quer dizer que não seja um gajo a admirar. Ele é rijo, em primeiro caso safa-se porreiramente, espero eu.

  • 4
    Pat
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    20 de Abril de 2009 - 20:55 | Link permamente

    Boa noite
    Não conhecia o caso em pormenor, tinha apenas ouvido falar do senhor uma vez ou duas. Mas conheço a doença, ou melhor, conheci alguém que teve Esclerose Lateral amiotrófica. Apesar do senhor em questão não ser familia directa, acompanhei o inicio, desenvolvimento e fim da doença. Imaginar alguém que vive há 40 anos com esta doença deixa-me completamente estarrecida. Imagino a força de vontade, a esperança, a capacidada de sofrimento e de sobreviver a isso.
    A ele desejo toda a sorte do mundo e que os desejos dele se possam cumprir… sejam eles quais forem.
    Pat

  • 5
    Tiago
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    20 de Abril de 2009 - 21:55 | Link permamente

    Excelente artigo.
    Grande senhor!

  • 6
    Treza
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    20 de Abril de 2009 - 23:12 | Link permamente

    Às vezes, quando as coisinhas outrora miúdas mas que se vão multiplicando incansavelmente se tornam tão grandes que asfixiam, desejar que continuem a crescer, é querer prolongar o (eventual) sofrimento.

    Fica a impotência aos gritos. Que merda. Porque é que tem de ser assim.

  • 7
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    21 de Abril de 2009 - 10:54 | Link permamente

    Homenagem lhe seja feita, não por pena, mas pela força que demonstra.
    Muito bom artigo Marco.

  • 8
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    21 de Abril de 2009 - 11:07 | Link permamente

    Belo post, uma excelente homenagem.
    Sem dúvida que foi, é e sempre será uma mais valia entre nós..

  • 9
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    21 de Abril de 2009 - 12:14 | Link permamente

    Ainda me lembro perfeitamente do primeiro livro que li e das minhas exclamações do tipo – pôrra o que é que este anda para aqui a inventar!?

    Um pouco mais tarde, seguiram-se mais dois livros onde comecei a perceber melhor as teorias deste “Mestre”. Claro que foi necessário recorrer a uma nova leitura do primeiro…
    No fundo já li e reli e penso que continuarei a fazê-lo já que de cada vez que o faço apercebo-me/compreendo de uma coisa nova.

    Leituras:
    1º – Breve história do tempo;
    2º – O Universo numa casca de noz;
    3º – Brevíssima história do tempo.

    Se soubesse o que sei hoje teria começado pela ordem inversa, do 3º para o 1º. :-)

    @braço.

  • 10
    com Safari 4.0 Safari 4.0 em Mac OS X 10.5.6 Mac OS X 10.5.6
    21 de Abril de 2009 - 12:16 | Link permamente

    Interessante artigo sobre o Stephen Hawkins.
    Eu interessei-me por ele, precisamente pela suposta voz dele. Suposta voz porque ele falava apenas através de um computador que lhe sintetizava as frases que escrevia.
    E a curiosidade por ele nasceu pelo tema dos Pink Floyd, “Keep Talking” no álbum The Divison Bell.

    Fiz-lhe um artigo há uns tempos atrás sobre esse facto.
    http://armpauloferreira.blogspot.com/2009/03/musica-da-semana-stephen-hawking-em.html

    Quem diria… alguém que não podia falar… chegou a “cantar” com os Pink Floyd!
    Stephen Hawkin é grande!!!

  • 11
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    21 de Abril de 2009 - 16:08 | Link permamente

    Uma mente a todos os títulos brilhante (acredite-se ou não nas teorias que defende, é inegável a sua influência na ciência, podendo perfeitamente falar-se num período pré e pós Hawking), uma alma preserverante e um exemplo de vida.
    A ironia de, apesar de todos o julgarem reduzido a um mero sobrevivente inanimado, dar passos de gigante para a elaboração de uma “Teoria do Tudo” não deixa de ser uma bela e fantástica ironia.
    Um homem como estes não morre…

  • 12
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    21 de Abril de 2009 - 17:08 | Link permamente

    Excelente post !
    Espero muito que o notável físico, cujo reconhecimento na medida certa acredito só ser possível anos após a sua morte, viva muitos anos ainda entre nós e consiga fazer a viagem espacial tão sonhada e merecida.
    Li há alguns anos o seu “Uma Breve História do Tempo”, mas confesso que não entendi nem a metade. É um daqueles livros que se tem que ler mais de uma vez.
    Sobre a imortalidade, fiz dia 18 um post no ZEducando, com o título “Viver para sempre (who wants to live forever ?)”:

    Lendo a Superinteressante de Abril (2009), me deparei com este artigo e logo me lembrei da música cantada pelo falecido Freddie Mercury do Queen, “Who wants to live forever”, e, claro, do filme Highlander, o guerreiro imortal.

    Este texto nos deixa encucados, será que chegaremos lá ? O estudo da Turritopsis dohrnii , animal que consegue “driblar o tempo”, é um caminho. Mas será que deveremos chegar mesmo lá ? Na imortalidade ?

    Quem quiser conferir, visite:

    http://joserosafilho.wordpress.com/2009/04/18/viver-para-sempre-who-wants-to-leave-forever-2/

  • 13
    com Firefox 3.0.8 Firefox 3.0.8 em Windows Vista Windows Vista
    23 de Abril de 2009 - 13:36 | Link permamente

    isto dava jeito a este senhor… http://www.youtube.com/watch?v=uaRhveP4goU

  • 14
    Edmir
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    24 de Abril de 2009 - 12:21 | Link permamente

    Muito legal o post, espero que ele se recupere. Mas…

    Ele é um físico notável, mas não chega nem na unha de Newton, Galileu e Einstein. Estes três são os maiores nesta ordem. É difícil também falar que ele é o maior físico teórico da atualidade porque a Física tem muitas áreas e é impossível compará-las. Porém, se tomarmos o prêmio Nobel como parâmetro, ele não é nem de longe o maior, já que ele nunca ganhou este prêmio. Não por injustiça, porque ele não descobriu nada de tão relevante para a Física como um todo, e sim, descobriu coisas muito importantes para a cosmologia. Sim, ele trabalha (ou trabalhou) com cosmologia e não mecânica quântica. E isto ele mesmo conta no documentário sobre a sua vida “Uma breve história do tempo”.

    Hawking é sem dúvida o físico mais famoso desde Einstein. Porém sua fama se deve a um trabalho genial de divulgação científica (falar de ciência para quem não é da área). Um trabalho tão importante quanto a própria pesquisa em si. E, ao contrário do que alguém escreveu nos comentários, tais livros não divulgam suas teorias. Divulgam os paradigmas da Física. As teorias que a comunidade científica acredita serem verdadeiras (até alguém fazer outras). São séculos de pesquisas feitas por vários físicos, famosos ou não, que consolidaram essas teorias. O que ele, Hawking, faz com maestria, é traduzir de forma simples (e não simplificada) as teorias mais complexas da Física.

    De qualquer forma, Stephen Hawking é foda!

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