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→ 31/01/2012 @0:26

Deslumbrantes caminhos da Estrada de Santiago

O sítio Space.com publica hoje 43 imagens deslumbrantes da nossa Via Láctea.

Crédito: ESO/José Francisco Salgado

Crédito: ESO/Z. Bardon/ProjectSoft

 

Leite derramado no céu

Zeus e Hera

Há muito tempo que o Homem notara este trilho luminoso nos céus. Os gregos chamaram-lhe kyklos galaktikos, círculo leitoso.

Nesses tempos longínquos, a nossa galáxia ainda não era um aglomerado com 100 mil anos-luz de diâmetro e milhares de milhões de estrelas, mas o leite derramado do peito da deusa Hera.

Zeus concebera o pequeno Hércules com uma mortal e colocara-o junto ao peito de Hera, a sua mulher, para que a criança bebesse do leite divino e se tornasse imortal. Notando que amamentava um desconhecido, Hera empurrou o bebé, enfurecida, o leite jorrou do seu peito e cobriu os céus.

Influenciados pelos gregos, os romanos chamaram-lhe Via Lactea, caminho de leite, equivalente à palavra grega gala, que também significa leite.

 

Pegadas na estrada

O Cristianismo tratou de afastar estas visões pagãs – e é por isso que em Portugal, por exemplo, a Via Láctea é também conhecida como Estrada de Santiago, reminiscência do Caminho de Santiago, alegoria da peregrinação cristã iniciada ainda com os primeiros apóstolos.

A Via Láctea era um caminho que alimentava os nossos sonhos e visões, e nos colocava em diálogo com o divino.

Antes da chegada do Cristianismo, os discípulos de Pitágoras, filósofo e matemático grego, tinham-na visto como um aglomerado de fogos; estes fogos eram as pegadas que o Sol ia deixando pelo caminho.

Só em 1610 a Humanidade começou a ter uma ideia o que era esse leite derramado de Hera, quando Galileu observou um grande número de estrelas de fraco brilho, muito próximas umas das outras. A Natureza ainda mal começara a mostrar-nos a verdadeira dimensão das suas pegadas.

A meio do século XVIII, o filósofo Thomas Wright teve a ideia de sugerir que todas as estrelas que observamos no céu, incluindo as da Via Láctea, faziam parte de um gigantesco conjunto estelar onde também se encontrava o Sol.

Com o trabalho sistemático de observação do William Herschel – um astrónomo que antes de estudar Astronomia e Matemática ganhava a vida como músico e organista – ficámos mais perto de uma descrição correta da Via Láctea.

Herschel notou que o número de estrelas aumentava progressivamente nas áreas mais próximas do caminho de leite, sendo muito mais raras nas mais afastadas. Concluiu que todas as estrelas que observava faziam parte de um gigantesco sistema estelar ao qual, mais tarde, haveríamos de chamar galáxia.

Crédito: Stephane Guisard

E aqui estamos nós, tantas centenas e milhares de anos depois, com as nossas máquinas fotográficas e telescópios captando o leite derramado de Hera, mortais fascinados e vorazes de conhecimento, bebés gatinhando pelo Espaço.

→ 26/01/2012 @15:09

A mais incrível foto em alta definição da Terra

A NASA afirma ser «a mais incrível imagem de alta definição do planeta Terra» e não é difícil de acreditar, sobretudo se abrirem a versão de 8000 por 8000 pixeis que a agência disponibiliza neste link (a imagem é muito pesada – 16,4 MB – e demora tempo a carregar).

A foto foi tirada a partir da mais recente sonda de observação terrestre, Suomi NPP, a 4 de janeiro deste ano. A NASA baptizou-a Blue Marble 2012.

Marble significa mármore, se o traduzirmos à letra, mas neste caso o sentido deve ser o nome com que se designa, em língua inglesa, as bolinhas com que muitos de nós jogávamos em miúdos: berlindes! (Por esta ordem de ideias, Júpiter é o abafador). Berlinde Azul 2012.

→ 20/01/2012 @9:09

Ar puro (no cérebro)

Nebulosa Cabeça de Cavalo, de Luca Argalia

A galáxia de Andrómeda fotografada por Makelessnoise

Miramar, Buenos Aires, de Luis Argerich

Os céus do sul: a Via Láctea, a constelação Cruzeiro do Sul, as estrelas Alfa e Beta Centauri, e as duas nebulosas de Magalhães (Foto: Luis Argerich)

→ 11/01/2012 @22:05

Sistema Solar dos pequeninos

Astrónomos descobriram os três exoplanetas mais pequenos desde que nos lançámos à descoberta de outros sistemas solares. Um deles é do tamanho de Marte.

Da esquerda para a direita: Marte, KOI-961.03, KOI 961.02, KOI-961.01, Kepler-20e, Terra e Kepler-20f. A montagem da NASA compara os diâmetros da Terra e de Marte com os dos exoplanetas mais pequenos descobertos até agora

 

Estes três exoplanetas (0,78, 0,73 e 0,57 vezes o diâmetro da Terra, respetivamente) orbitam uma estrela conhecida pela designação KOI-961, na constelação Cisne, a 120 anos-luz.

É um sistema solar dos pequeninos: a estrela é uma anã vermelha – um sexto do tamanho do nosso sol – e os planetas orbitam a distâncias entre 0,6 e 1,5 por cento da distância a que a Terra está da nossa.

A notícia da descoberta destes exoplanetas seguiu-se à revelação do trabalho de uma outra equipa de astrónomos: num artigo que publicará na Nature, essa equipa demonstrou o que há muito suspeitávamos, ou seja, os planetas podem ser mais numerosos que as próprias estrelas.

A equipa utilizou uma técnica chamada microlente gravitacional e determinou – depois de uma busca de seis anos e observações de milhões de estrelas na Via Láctea – que planetas em torno de estrelas são a regra, não a exceção (ler mais no AstroPT).

A esmagadora maioria dos exoplanetas que temos descoberto são gigantes gasosos – o que não significa que os planetas rochosos, mais pequenos, sejam uma raridade: simplesmente durante muito tempo não tivemos instrumentos suficientemente sofisticados capazes de os detetar.

Os dados coligidos pelo observatório espacial da missão Kepler revolucionaram esta caça científica: desde Março 2009, quando entrou em funcionamento, o Kepler já descobriu um total de 2,326 candidatos, incluindo alguns planetas rochosos… (Fonte: Space.com)

→ 05/10/2011 @3:40

A cama voadora de Ron Miller

Ron Miller observa os anéis a partir da troposfera de Saturno

Quando era puto e sofria das insónias, não me dava para contar carneirinhos – a Matemática nunca foi o meu forte.

Em vez disso, fazia de conta que a minha cama era uma nave espacial e viajava pelo Sistema Solar, flutuando sobre todas aquelas maravilhosas fotografias de luas e planetas que eu via no enorme Atlas do Reader’s Digest que tinha lá em casa dos meus pais.

A cama voava e acelerava sem qualquer sistema de propulsão, é verdade, mas tirando este pequeno pormenor de engenharia mecânica fazia sempre questão de comandar estes sonhos da maneira mais rigorosa possível.

Portanto não havia cá desses milagrosos «saltos quânticos» ou sistemas de teletransporte à Star Trek, tá bem tá

se quisesse levar a minha cama até Júpiter tinha de o fazer à maneira antiga, à custa de trabalho duro, embarcando numa longa e penosa jornada que me levaria a passar primeiro pelo planeta dos marcianos, depois pela cintura dos berlindes até finalmente enfrentar aquela manta negra que ocupa todo o espaço até ao reino do gigante gasoso.

Devo dizer que gigantes gasosos como Júpiter, Saturno ou Neptuno provocavam-me alguns embaraços de natureza astronomico-existencial porque eu mal aprendera a ler, pouco sabia além dos bonecos, e a minha avô ajudara a estabelecer uma associação pavloviana entre o som que o adulto faz quando se solta, desprevenido, e expressões como «Ai que horror estou outra vez cheia de gases»

e eu pensava, genuinamente preocupado, «pobre Júpiter, pobre Saturno, pobre Neptuno, que são ainda maiores e mais velhos e mais gasosos que a minha avó».

Acho que adormecia sempre antes de chegar a Júpiter e verificar a minha secreta teoria da tumultuosa existência dos peidos planetários, pelo que em noites de maior ansiedade tive de ceder cientificamente e aceitar dois factos muito simples

primeiro – uma cama capaz de voar pelo Espaço também é capaz de se teletransportar para o destino cósmico que mais desejar, é escusado fazer-se de esquisita;

segundo – o Atlas do Reader’s Digest fala em distâncias, diâmetros e temperaturas muito detalhadamente, mas nada refere sobre pums jupiterianos.

A minha cama nunca mais voltou a voar e confesso que tenho saudades desses tempos. Recordo-os como preciosos momentos de imaginação primordial, ou seja, quando não nos preocupa a qualidade do que imaginamos e apenas nos interessa a intensidade com que imaginamos. Acho que os artistas mantém essa característica primordial e é por isso que lhes chamamos artistas.

E depois deparo-me com estas ilustrações de Ron Miller que nos levam a lugares distantes do Sistema Solar e até da nossa galáxia, e convenço-me de que a cama dele ainda consegue voar – maravilhosa descoberta, porque até ao fim da minha vida sentirei que faz sentido viajar dessa forma. Carl Sagan chamou à sua cama voadora «a nave da imaginação». Seja qual for o nome do veículo que Ron Miller utiliza, o homem não cessa de viajar…

A grande mancha vermelha de Júpiter

Os gaysers em Encélado, lua de Saturno...

... e em Tritão, a maior lua de Neptuno

O nascer do Sol em Mercúrio

As nuvens de Neptuno

A Super-Terra habitável orbitando a estrela Gliese 370

Podia pendurar duas ou três ilustrações dele no meu quarto e adormeceria em paz, num suave reencontro com a minha infância e os sonhos astronómicos; um quadro de Goya seria incomparavelmente melhor e mais valioso do que qualquer ilustração de Miller, mas deixar-me-ia inquieto.

E hoje eu preciso de paz.

→ 03/10/2011 @16:43

ALMA: mais poderoso do que o Hubble

Esta é a imagem de uma colisão entre duas galáxias: a NGC 4038 e a NGC 4039. Por causa desta colisão, as galáxias Antennae (assim chamadas por lembrarem antenas de inseto) são um «local» muito «fértil» em formação estelar.

Este infantário de estrelas encontra-se a 75 milhões de anos-luz de distância: isto significa que estamos a vê-lo – e com tanto detalhe – como era há 75 milhões de anos. Algumas destas estrelas já devem ser uns «homenzinhos»!

Esta é a primeira imagem a ser divulgada pelo ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array). Tendo em conta a forma como este rádio-telescópio foi concebido, a escolha deste par de galáxias em colisão é muito simbólica. Tem tudo a ver com antenas…

O ALMA é um rádio-telescópio que engloba cerca de 64 antenas transportáveis, sub-milimétricas, de 12 metros de diâmetro cada uma. Todas as antenas são apontadas ao mesmo tempo para um único objeto astronómico; os sinais detetados por todas as antenas são combinados por um processador de sinal digital mais rápido que o Flash Gordon.

Resultado: ALMA é capaz de obter imagens com tal detalhe que, em comparação, o telescópio espacial Hubble parecerá ter tido problemas de miopia enquanto esteve em funcionamento (mesmo depois de arranjado).

→ 30/09/2011 @22:41

Sem o Citador não sei o que seria deste post XXIII

O génio e a natureza fizeram uma aliança eterna: o que o primeiro promete, a segunda certamente realiza.

- Friedrich Von Schiller

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