Os binóculos anarquistas têm-se imiscuído em todos os ramos da atividade humana. Nem por isso podemos dizer que a Anarquia é um sistema pensante, uma narrativa fechada sobre si mesma. O melhor amigo que o voyeurístico olhar libertário encontrou foi a pós-modernidade explicada por Lyotard às criancinhas.
Se a produção intelectual dos últimos 40 anos, nesta área, tem sido a mais rica de sempre (é a minha opinião, e muitos não hesitarão em contestá-la), contrariando a crescente ineficácia da luta no terreno – são mais visíveis as influências anarcas nos presentes movimentos sociais do que a própria ação como tal identificada – é porque, precisamente, os grandes paradigmas que constituíram o modernismo caíram por terra e se começou a lidar com o entulho produzido por essa implosão.
O que os cogitadores anarquistas têm escrito sobre questões de sociedade, trabalho, tecnologia, lazer, sexo, amor, violência, condição humana, espiritualidade e criatividade abarcam tudo o que é possível imaginar, mas não com o propósito de construir uma gigantesca teia de aranha.
Fê-lo o marxismo com os desfechos que se sabe, na ilusão metonímica de que a Parte configura o Todo.
O chamado Pós-Anarquismo (porque pós-moderno) gere a coisa ao contrário – observa as ruínas vindas dos edifícios que tombaram. Nesse processo de análise não tem havido preocupações de uniformização, ou pelo menos de transversalidade, das lógicas extraídas, mesmo quando se procura a transdisciplinaridade analítica.
Algo aconteceu em consequência: um festival de incoerência que, se para uns é um mal, para outros (o autor destas linhas incluído) é o que a actual Anarquia tem de mais excitante e, até, divertido.
Neste quadro, aquele que é talvez o melhor contributo do anarquismo contemporâneo para o nosso colectivo avanço intelectual está a ter incidência na área da investigação e da formulação científica, com uma avaliação crítica das lógicas e dos processos daquilo a que se chama Ciência.
Também a uma sua reformulação e ao lento derrube do Muro de Berlim que a separa da mitologia religiosa, da sabedoria popular e, inclusive, da experimentação artística – como mais adiante se verá.
Não sem uma enorme polémica, pois estamos perante a última vaca sagrada, o derradeiro tabu, da civilização ocidental.
Pouco mais do que uma ideologia

Paul Feyerabend
Um filósofo com formação em Física que nem sequer era anarquista (as suas preferências político-económicas iam para a social-democracia, ou seja, para uma sociedade de mercado com Estado social) acabaria por constituir uma visão anarquista da ciência e do saber.
No seu seminal ensaio «Contra o Método», o austríaco Paul Feyerabend arrasou os fundamentos científicos de «verdade», «realidade» e «objetividade» como sendo preconceitos (pré-conceitos) vagos e sem sustentação, tão imprecisos que, no seu entender, conduziram a que a ciência não se distinguisse do mito tanto quanto se julga.
Acusado de ser «irracional» por aqueles que assim se sentiram atacados, Feyerabend argumentou que o conceito de Razão não só não é científico como não tem conteúdo definido, sendo este preenchido pelo que alguém entende subjetivamente como a racionalidade.
E assim como criticou a produção de leis científicas universais quando as próprias metodologias utilizadas não são universais, referiu que a tendência para a Ciência (maiúscula auto-concedida) se apresentar como um monólito do conhecimento é um truque de ilusionismo, dado que as várias ciências estão desunidas, por vezes chegando a «conclusões» distintas e exclusivistas sobre as mesmas matérias, e são sempre incompletas.
Isto é, a dita Ciência pouco mais é do que uma ideologia.

Um exemplo: valham o que valerem, as recentes descobertas da Física Quântica vieram desmentir uma série de noções adquiridas, colocando mesmo em causa o que se considerava minimamente plausível. E no entanto, continuam a ser transmitidas enquanto versão «oficial» e ensinadas nas escolas e nas universidades.
O «pior inimigo da ciência», segundo os seus detratores, chegou a contrariar a ideia geral de que primeiro vêm os factos, só depois se desenvolvendo a teoria. Feyerabend considerava que a interpretação factual depende sempre da grelha cultural em que o cientista se encontra, o que à partida deturpa os resultados.
E chamou a atenção para um comportamento não propriamente raro: o encaixamento dos factos num corpo teórico previamente estabelecido, para satisfação dos patrocinadores de um determinado estudo científico. Afinal, as ciências estão ao serviço do poder económico, do poder militar e do poder político.
Relativismo cognoscente

Tendo em conta a dificilmente comprovável superioridade cognoscente da ciência face à religião, ao folclore e à arte, bem como verificando a tendência do aparelho científico para a tirania, Feyerabend propôs o relativismo como princípio condutor das operações do conhecimento.
Não há verdades absolutas, apenas leituras do que se acha que é a verdade, todas elas admissíveis (atenção: não escrevi «aceitáveis»).
O que é verdade para os outros tem igual peso do que é verdade para mim. O que quer dizer que, se posso achar um disparate a crença dos Criacionistas de que a vida na Terra foi formada em seis laboriosos dias divinos, com descanso do Senhor ao sétimo dia, eles têm tanto direito a defendê-la quanto eu tenho de aderir à tese do “big bang”, que até pode ser outro absurdo…
Assim se lançaram as bases do chamado Anarquismo Epistemológico, a mais fértil expressão libertária que podemos encontrar por estes dias. O que afirma é: «Se queremos entender a natureza, temos de utilizar todas as ideias e todos os métodos, e não apenas uma pequena seleção deles.»
A máxima extra scientiam nulla salus revela-se, por conseguinte, como um equívoco. A medicina ocidental não é mais válida do que, por exemplo, a medicina tradicional chinesa, algo que nunca uma ordem dos médicos admite na nossa parte do planeta.
E o que interessa isto às artes, e designadamente à música, que é o que me motiva nesta reflexão? Nenhuma prática artística tem como horizonte a obtenção de conhecimento, a não ser ao nível das metodologias a aplicar, constituindo técnica e estética duas dimensões distintas, muito embora a primeira esteja ao serviço da segunda.
O certo, e isto não é ciência de foguetões, mas senso-comum, é que deriva invariavelmente de um enquadramento conceptual alimentado pelo que se julga ser conhecimento adquirido ou por uma questionação realizada nesse âmbito. De resto, é cada vez mais habitual criarem-se obras de arte (e especificamente de música) com pressupostos «científicos».
Com uma particularidade: à intervenção artística interessa mais explorar a «exceção que confirma a regra», bastas vezes se demonstrando que essa exceção, afinal, desmente a regra estudada.
Ora, se a ciência é incapaz de chegar a certezas, ficando-se pela teoria, e se a argumentação científica recorre a metáforas e analogias porque, simplesmente, a mente humana não atinge (nem pode atingir) a essência da tão abstrata «realidade», abre-se todo um mundo de possibilidades para a arte.
A produção metafórica e a capacidade de exprimir o indizível são específicas da arte, pelo que o discurso científico que as integra já está em processo de conversão.
Dada é Anti-dada
O próprio Feyerabend referiu que o anarquista epistemológico, o cientista desdogmatizado, tem semelhanças com o artista Dada, no sentido em que este «não só não tem programa como está contra todos os programas».
Pode ser «tanto o mais vociferante defensor do status quo como da sua oposição, pois um dadaísta autêntico tem de ser também um antidadaísta».
A comparação justifica-se. O movimento Dada foi, no início do século XX, profundamente marcado pelas ideias anarquistas, à semelhança de outros como o Futurismo (não eram todos fascistas em Itália, a começar por Renzo Novatore), o Surrealismo (André Bréton trocou o vermelho do comunismo de Estado pelo negro do anarco-comunismo), o Expressionismo de Mark Rothko e Jackson Pollock, o Situacionismo de Guy Débord (ainda que de origem marxista) ou o Fluxus de George Maciunas e Henry Flynt, o mais esganiçado dos violinistas.

Leo Tolstoy
No texto «The Anarchist Aesthetic», Michael Scrivener postula que nessas e noutras frentes artísticas dos últimos 100 anos o fator experimental «é anarquista pelo menos em tendência, quando não mesmo conscientemente».
Em termos históricos, a verificação não é pacífica: o ensaísta assinala que, se Mikhail Bakunine, Max Stirner e William Godwin eram «libertários estéticos», já Pierre-Joseph Proudhon, Piotr Kropotkine e Leo Tolstoy consideravam essas manifestações decadentes, burguesas ou individualistas.
Esse fator tem sido entendido de maneiras diferentes pelos próprios artistas e nem sempre a favor, subsistindo a impressão de que o que é experimental não é suficientemente sério, num resquício dos velhos juízos positivistas.
Aquela que parece, no entanto, mais partilhada toma a «experiência» como algo de similar ao experimentalismo que nas ciências, apesar de tudo, tem sido valorizado.
Muito em particular, os experimentalistas musicais falam em «pesquisa» e em «laboratório». Esta terminologia está patente, de resto, na documentação escrita da associação portuguesa de músicos Granular, que tem como propósito estatutário, precisamente, promover a experimentação.
Na sua prosa, Scrivener identifica experimentalismo com vanguarda, sem se aperceber que está a dar ao anarquismo artístico a mesma categorização que o comunismo estatal deu à vanguarda proletária, quando o que distingue a Anarquia é não se reivindicar como uma vanguarda. Se não considerarmos este lapso, a sua perspetiva tem claros paralelismos com o Anarquismo Epistemológico, que Feyerabend insistia em distinguir da história do libertarismo político:
«A vanguarda, que trabalha nos limites e nos extremos da consciência, torna possíveis as ruturas libertárias com a realidade estabelecida. Para entender a experiência, que muitas vezes é formatada e determinada por factores que escapam ao nosso controlo, precisamos de ir além do entretenimento de consumo servido pela indústria cultural. E necessitamos igualmente de ir para além das teorias anarquistas e marxistas formuladas no século XIX com base em assunções que já não são adequadas.»
Partir pedra
O experimentalismo na arte deu e dá forma à chamada «anti-arte», surgida da rejeição de universalismos definitórios quanto ao que é ou deve ser a arte e mesmo do estatuto que lhe foi consagrado. As anti-artes que se sucederam no tempo (as acima referidas: Dada, Futurismo, Surrealismo, etc.) foram recuperadas pelo sistema mercantil e colocadas no museu, mas permitiram que outras abordagens em contracorrente tivessem lugar.
Seria de esperar que o equivalente experimental da ciência tivesse conduzido a uma «anti-ciência», mas tal não se verificou – está cuidadosamente resguardada numa fortaleza.
Não surpreende: a maior obra científica até à data foi a bomba atómica. Mesmo a ida à Lua teve como motivo o despique americano-soviético da Guerra Fria.
É esta, agora, a tarefa anarquista: desenvolver uma anti-ciência que surja como uma transfiguração da ciência em arte.
E porque a mitologia e a sabedoria do povo (camponeses e pescadores leem os sinais da natureza melhor do que ninguém) são outros materiais artísticos habitualmente utilizados, além de outras fontes legítimas de conhecimento, os artistas encontram nestes âmbitos muito com que fazer.
Façam, pois, o favor de partir pedra. E de gravar, já agora, os sons produzidos, para inclusão e tratamento nas composições musicais do futuro…