→ 16/05/2013 @15:13

Horizontes longínquos

Lua

Lua

O que não po­de­mos ex­pe­ri­men­tar com­pen­sa­mos com ima­gi­na­ção – neste caso, com a de Ron Miller, fa­moso ilus­tra­dor de pai­sa­gens es­pa­ci­ais, re­ais e fic­tí­cias, «es­pe­ci­a­li­zado em Astronomia, Ciência, Ficção Científica e Fantasia», como ex­plica o pró­prio na sua pá­gina.

Miller par­tiu do prin­cí­pio de que, afi­nal de con­tas, a mon­ta­nha sem­pre vem a Maomé, ilus­trando a mesma pai­sa­gem ter­res­tre para res­pon­der à per­gunta: e se os pla­ne­tas do Sistema Solar fos­sem co­lo­ca­dos no lu­gar da nossa lua, como apa­re­ce­riam no ho­ri­zonte? Que ta­ma­nho teriam?

E res­pon­deu da se­guinte forma:

Vénus

Vénus

Marte

Marte

Neptuno

Neptuno

Úrano

Úrano

Saturno

Saturno

Júpiter

Júpiter

Ora está aí algo que da­ria muito que pen­sar aos nos­sos mú­si­cos e po­e­tas – gi­gan­tes­cas, bri­lhan­tes luas no céu. Com Vénus à mesma dis­tân­cia que a Lua, mui­tas das noi­tes es­ta­riam mais ilu­mi­na­das do que os nos­sos dias som­brios de in­verno. E no caso de Júpiter se­ría­mos nós a lua, para começar.

A pre­sença do maior pla­neta do Sistema Solar so­bre as nos­sas ca­be­ças im­pres­si­ona. Teria sido muito pouco pro­vá­vel a so­bre­vi­vên­cia de po­e­tas ou mú­si­cos num mundo as­sim, a não ser que ti­vés­se­mos ga­nho re­sis­tên­cias à in­tensa ra­di­a­ção do pla­neta ou uma ci­vi­li­za­ção pu­desse edificar-se à re­ve­lia da força gra­vi­ta­ci­o­nal exer­cida pelo gi­gante – neste caso, con­tudo, já não se­ría­mos se­res hu­ma­nos, mas ou­tra coisa qualquer.

E a pai­sa­gem não se­ria tão tran­quila como uma noite de ve­rão: aque­les mon­tes pa­cí­fi­cos se­riam vul­cões em erup­ção e a es­trada di­fi­cil­mente se man­te­ria tão lisa, de­vido à gra­vi­dade do gi­gante ga­soso. E os oce­a­nos? Nem con­sigo ima­gi­nar a in­ten­si­dade das nos­sas ma­rés al­tas com aquele mons­tro nos céus a «pu­xar» por elas.

→ 18/02/2013 @10:35

A noite em que julgámos ter descoberto ET’s

O sinal Uau

Quem es­cre­ver QWERTY sabe que esta su­ces­são de ca­rac­te­res, em­bora não te­nha ne­nhum sig­ni­fi­cado nem se­quer seja uma pa­la­vra, é  muito fa­mi­liar e fá­cil de reconhecer.

QWERTY re­pre­senta as pri­mei­ras seis le­tras da pri­meira li­nha do te­clado, um layout  uti­li­zado nos nos­sos com­pu­ta­do­res e que está con­nosco há mais de um sé­culo: desde 1873 é usado nas má­qui­nas de escrever.

Agora es­cre­vam 6EQUJ5.

Nada? É nor­mal. Esta su­ces­são de nú­me­ros e le­tras tam­bém não pos­suía ne­nhum sig­ni­fi­cado até à noite de 15 de agosto de 1977, mas desde que foi vista pas­sou a re­pre­sen­tar um si­nal da exis­tên­cia de uma ci­vi­li­za­ção ali­e­ní­gena ou, pelo me­nos, um mis­té­rio da Natureza por de­ci­frar. Um pos­sí­vel layout de um te­clado cós­mico que não éra­mos ainda ca­pa­zes de identificar.

6EQUJ5. Quem diria?

Quando o pro­fes­sor e as­tró­nomo Jerry Ehman, vo­lun­tá­rio do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), no­tou essa sequên­cia nos da­dos re­co­lhi­dos pelo te­les­có­pio Big Ear da Universidade Estatal de Ohio — só os viu vá­rios dias de­pois de te­rem sido re­ce­bi­dos — fi­cou tão im­pres­si­o­nado que tra­çou uma li­nha ver­me­lha à volta dos nú­me­ros e, ao lado, es­cre­veu: «Uau!» (Wow!)

Ehman de­te­tara um si­nal fo­cado, in­ter­mi­tente e de enorme po­tên­cia pro­ve­ni­ente da cons­te­la­ção de Sagitário na frequên­cia de 1.42GHz. A es­trela mais pró­xima dessa cons­te­la­ção encontra-se a 220 anos-luz.

1.42 GHz já está den­tro do es­pec­tro de frequên­cia (até 1.7GHz) onde não existe ruído de fundo. Se ci­vi­li­za­ções ex­tra­ter­res­tres es­ti­ve­rem em co­mu­ni­ca­ção umas com as ou­tras, é pos­sí­vel que apro­vei­tem esse «si­lên­cio» para se fa­zer ou­vir. A Radioastronomia chama-lhe «ja­nela de água» por cor­res­pon­der à frequên­cia do hidrogénio.

Peter GriffinDaí em di­ante, a ex­tra­or­di­ná­ria ob­ser­va­ção pas­sou a ser co­nhe­cida como Sinal Uau (The Wow Signal).

Desde 1963 que os ra­di­o­te­les­có­pios ao ser­viço do pro­jeto SETI var­riam os céus, mo­ni­to­ri­zando a ra­di­a­ção ele­tro­mag­né­tica em busca de si­nais de trans­mis­sões de ci­vi­li­za­ções ex­tra­ter­res­tres. A ten­ta­tiva de des­co­brir uma agu­lha no pa­lheiro cós­mico não dera resultados.

 

Só pode ser pi­ada, certo?

Mais de 35 anos de­pois, olho para aquele Wow! ra­bis­cado por Ehman e fico a pen­sar se Seth MacFarlane, cri­a­dor de Family Guy e amante de Astronomia, não terá de­se­nhado o queixo de Peter Griffin ins­pi­rado na forma da­quele W – ho­me­na­gem ao evento que po­de­ria ter mu­dado a nossa po­si­ção so­li­tá­ria no Cosmos.

Mas o Cosmos pode ser mais cruel nas pi­a­das que Seth MacFarlane. Este Cosmos zom­be­teiro já an­tes trans­for­mara es­pe­cu­la­ções em me­ras ane­do­tas, pelo que o pru­dente Ehman op­tou pelo mé­todo cau­tela e caldo de ga­li­nha nunca fi­ze­ram mal a nin­guém.

Tinha boas ra­zões para evi­tar con­clu­sões apres­sa­das. Em 1967, a as­tro­fí­sica Jocelyn Bell Burnell (en­tão es­tu­dante de gra­du­a­ção) des­co­briu uma fonte de rá­dio ex­tre­ma­mente po­tente e re­gu­lar que não po­dia ser atri­buída a ne­nhum tipo de de­tur­pa­ção de ruído.

Nikolai Semenovich Kardashev, as­tro­fí­sico russo e per­cur­sor de in­ves­ti­ga­ções do tipo SETI, propôs que o si­nal vi­nha de uma ci­vi­li­za­ção ex­tra­ter­res­tre mi­lha­res de mi­lhões de anos mais avan­çada que a nossa. Os ali­e­ní­ge­nas, disse Kardashev, co­mu­ni­ca­vam atra­vés de uma es­pé­cie de fa­rol ga­lác­tico. Entusiasmado e com sen­tido de hu­mor, ba­ti­zou a ob­ser­va­ção as­tro­nó­mica de Burnell com a si­gla LGM-1 (Little Green Man, alu­são aos ali­e­ní­ge­nas da fic­ção científica).

Dick Arnold, Bob Dixon, Jerry Ehman (o descobridor do Sinal Uau!), Ed Teiga e John Kraus

Da es­querda para a di­reita: os as­tró­no­mos Dick Arnold, Bob Dixon, Jerry Ehman (o des­co­bri­dor do Sinal Uau!), Ed Teiga e John Kraus exa­mi­nando os da­dos ob­ti­dos pelo te­les­có­pio Big Ear.


Surpresa! Kardashev es­tava en­ga­nado. Jocelyn Bell Burnell não des­co­brira ho­men­zi­nhos ver­des, mas a ra­di­a­ção emi­tida por uma es­trela de neu­trões in­cri­vel­mente densa e pe­quena cuja exis­tên­cia até en­tão des­co­nhe­cía­mos: uma es­trela do tipo pul­sar, as­sim ba­ti­zada de­vido ao facto de a sua ra­di­a­ção nos che­gar numa sé­rie re­gu­lar de pul­sa­ções eletromagnéticas.

Mas… 6EQUJ5? Uau! Aquilo era uma sequên­cia fan­tás­tica. No sis­tema usado en­tão no ob­ser­va­tó­rio Big Ear, cada nú­mero — de 1 a 9 — re­pre­sen­tava o ní­vel de si­nal acima do ruído de fundo. Uns e dois dis­tri­buí­dos de uma forma ho­mo­gé­nea? Teria sig­ni­fi­cado o ron­ro­nar de ga­lá­xias e sa­té­li­tes, pura es­tá­tica sem in­te­resse, uma noite de café com rotina.

Agora.. um seis e um sete? Uma in­ten­si­dade im­pres­si­o­nante para um es­paço de tempo de ob­ser­va­ção tão curto: 72 se­gun­dos. Depois ha­via le­tras, além de nú­me­ros, o que sig­ni­fi­cava in­ten­si­da­des ainda mai­o­res. A le­tra U, por exem­plo, va­lia 30. Incrível!

6EQUJ5? Aquilo era como ou­vir um dos Noturnos de Chopin e ser brus­ca­mente in­ter­rom­pido por uma fan­farra de me­tais to­cando a cé­le­bre sequên­cia de cinco tons que John Williams criou para co­lo­car se­res hu­ma­nos e ETs a co­mu­ni­car em «Encontros Imediatos de 3º Grau» (por coin­ci­dên­cia, o filme es­treou no mesmo ano).

Teria Ehman des­co­berto o fa­rol ga­lác­tico que Kardashev su­ge­rira dez anos an­tes? Um novo ob­jeto bi­zarro no Cosmos? Fosse o que fosse, ali ha­via gato — e o «gato» po­dia vir a tornar-se tão fa­moso como o de Schrödinger.

 

Uma fan­farra cós­mica por decifrar

Encontros Imediatos do 3º Grau

Dois as­pe­tos deste si­nal cha­ma­ram a aten­ção de Ehman: em pri­meiro lu­gar, 72 se­gun­dos era o tempo que o feixe de­mo­rava a var­rer um de­ter­mi­nado ponto do céu. Por isso, qual­quer si­nal vindo do es­paço te­ria de au­men­tar e di­mi­nuir de in­ten­si­dade em 72 se­gun­dos – exa­ta­mente o que acon­te­ceu no Sinal Uau.

Esta cons­ta­ta­ção eli­mi­nou a pos­si­bi­li­dade de o ruído ser in­ter­fe­rên­cia rá­dio com ori­gem na Terra.

Em se­gundo lu­gar, o si­nal não era con­tí­nuo mas in­ter­mi­tente. O Big Ear pos­suía dois fei­xes que ras­tre­a­vam a mesma área do céu, se­pa­ra­dos por um in­ter­valo de três mi­nu­tos. Dado que o si­nal apa­re­cera num feixe e não no ou­tro, tal­vez o Uau se ti­vesse «des­li­gado» en­tre um e ou­tro ras­tre­a­mento. Poderia a trans­mis­são ali­e­ní­gena ter sido in­ter­rom­pida du­rante os três mi­nu­tos que se­pa­ra­vam os fei­xes? Haveria al­gum ET a me­xer no interruptor?

Bem, se o si­nal era pe­rió­dico — por exem­plo, a ci­vi­li­za­ção ali­e­ní­gena es­ti­vesse a usar um feixe ro­ta­tivo de rá­dio que var­resse a nossa ga­lá­xia a cada cinco mi­nu­tos ou a cada cinco ho­ras — tal­vez pu­dés­se­mos vol­tar a encontrá-lo. Bastava procurar.

Nem Ehman nem a equipa do ob­ser­va­tó­rio Big Ear fo­ram ca­pa­zes de vol­tar a de­te­tar o Uau. «Talvez te­nha sido mesmo uma emis­são ter­res­tre re­fle­tida por de­trito es­pa­cial», afir­mou Ehman, dei­xando cair o assunto.

Outro in­ves­ti­ga­dor SETI, Robert Gray, re­to­mou a ta­refa e vol­tou à qui­mera cós­mica do Uau. Gray pro­cu­rou e pro­cu­rou. Nos anos que se se­gui­ram – 1987 e 1989 – usou o sis­tema META SETI de Harvard e o Very Large Array (VLA) a ver se des­co­bria o raio do si­nal. Nada.

Estava visto que aquele Uau ha­ve­ria de ser o bo­são de Higgs da Astronomia, pelo me­nos na sua ca­pa­ci­dade de per­ma­ne­cer «es­con­dido» e tes­tar a per­se­ve­rança dos investigadores.

Três brilhantes nebulosas na constelação de Sagitário

Três bri­lhan­tes ne­bu­lo­sas na cons­te­la­ção de Sagitário


Em ob­ser­va­ções fei­tas en­tre 1995 e 1998, Gray tes­tou mais três cenários:

Primeiro – e se fosse uma trans­mis­são fraca, mas es­tá­vel, cujo si­nal ti­vesse sur­gido mo­men­ta­ne­a­mente mais forte de­vido ao fe­nó­meno da cin­ti­la­ção es­te­lar? Grey não en­con­trou ne­nhuma trans­mis­são desse tipo.

Segundo – te­ria sido o Sinal Uau con­ce­bido ape­nas para atrair a aten­ção para um si­nal muito mais fraco, mas con­tí­nuo, es­tra­té­gia ób­via de uma ci­vi­li­za­ção in­te­li­gente para pou­par ener­gia e usá-la de forma mais efi­ci­ente? Mais uma vez, Grey não des­co­briu nada.

Terceiro – tal­vez o pro­blema fosse falta de pa­ci­ên­cia, pen­sou o obs­ti­nado (e pa­ci­ente) Robert Gray. E se o feixe ali­e­ní­gena en­vi­asse um si­nal com uma frequên­cia me­nor? E se o trans­mis­sor es­ti­vesse fixo num pla­neta, emi­tando um si­nal a cada 20 ou 30 horas?

Em 1998, Grey fez seis ob­ser­va­ções, ras­tre­ando a cons­te­la­ção de Sagitário por pe­río­dos de 14 ho­ras com um ra­di­o­te­les­có­pio de 26 me­tros. Nada.

O Sinal Uau nunca mais re­a­pa­re­ceu. Extraterrestres? Fenómeno na­tu­ral por ex­pli­car? A Glitch in the Matrix? Não se sabe. Ao con­trá­rio do que su­ce­deu com a des­co­berta do pul­sar, os in­ves­ti­ga­do­res não pu­de­ram be­ne­fi­ciar da re­pe­ti­ção cons­tante do fe­nó­meno de forma a estudá-lo e compreendê-lo. O Sinal Uau foi um es­pe­tá­culo de uma só noite, 72 se­gun­dos que não mais se repetiram.

Não ad­mira por isso que Seth Shostak, as­tró­nomo do pro­jeto SETI e um rosto fa­mi­liar em pro­gra­mas de di­vul­ga­ção ci­en­tí­fica, te­nha es­crito a pro­pó­sito deste epi­só­dio: «A não ser que vol­te­mos a en­con­trar o si­nal cap­tado pelo Big Ear, o Sinal Wow per­ma­ne­cerá sem­pre o Sinal What.»

→ 12/01/2013 @13:03

Ciência, arte e experimentação

Os bi­nó­cu­los anar­quis­tas têm-se imis­cuído em to­dos os ra­mos da ati­vi­dade hu­mana. Nem por isso po­de­mos di­zer que a Anarquia é um sis­tema pen­sante, uma nar­ra­tiva fe­chada so­bre si mesma. O me­lhor amigo que o voyeu­rís­tico olhar li­ber­tá­rio en­con­trou foi a pós-modernidade ex­pli­cada por Lyotard às criancinhas.

Se a pro­du­ção in­te­lec­tual dos úl­ti­mos 40 anos, nesta área, tem sido a mais rica de sem­pre (é a mi­nha opi­nião, e mui­tos não he­si­ta­rão em contestá-la), con­tra­ri­ando a cres­cente ine­fi­cá­cia da luta no ter­reno – são mais vi­sí­veis as in­fluên­cias anar­cas nos pre­sen­tes mo­vi­men­tos so­ci­ais do que a pró­pria ação como tal iden­ti­fi­cada – é por­que, pre­ci­sa­mente, os gran­des pa­ra­dig­mas que cons­ti­tuí­ram o mo­der­nismo caí­ram por terra e se co­me­çou a li­dar com o en­tu­lho pro­du­zido por essa implosão.

O que os co­gi­ta­do­res anar­quis­tas têm es­crito so­bre ques­tões de so­ci­e­dade, tra­ba­lho, tec­no­lo­gia, la­zer, sexo, amor, vi­o­lên­cia, con­di­ção hu­mana, es­pi­ri­tu­a­li­dade e cri­a­ti­vi­dade abar­cam tudo o que é pos­sí­vel ima­gi­nar, mas não com o pro­pó­sito de cons­truir uma gi­gan­tesca teia de aranha.

Fê-lo o mar­xismo com os des­fe­chos que se sabe, na ilu­são me­to­ní­mica de que a Parte con­fi­gura o Todo.

O cha­mado Pós-Anarquismo (por­que pós-moderno) gere a coisa ao con­trá­rio – ob­serva as ruí­nas vin­das dos edi­fí­cios que tom­ba­ram. Nesse pro­cesso de aná­lise não tem ha­vido pre­o­cu­pa­ções de uni­for­mi­za­ção, ou pelo me­nos de trans­ver­sa­li­dade, das ló­gi­cas ex­traí­das, mesmo quando se pro­cura a trans­dis­ci­pli­na­ri­dade analítica.

Algo acon­te­ceu em con­sequên­cia: um fes­ti­val de in­co­e­rên­cia que, se para uns é um mal, para ou­tros (o au­tor des­tas li­nhas in­cluído) é o que a ac­tual Anarquia tem de mais ex­ci­tante e, até, divertido.

Neste qua­dro, aquele que é tal­vez o me­lhor con­tri­buto do anar­quismo con­tem­po­râ­neo para o nosso co­lec­tivo avanço in­te­lec­tual está a ter in­ci­dên­cia na área da in­ves­ti­ga­ção e da for­mu­la­ção ci­en­tí­fica, com uma ava­li­a­ção crí­tica das ló­gi­cas e dos pro­ces­sos da­quilo a que se chama Ciência.

Também a uma sua re­for­mu­la­ção e ao lento der­rube do Muro de Berlim que a se­para da mi­to­lo­gia re­li­gi­osa, da sa­be­do­ria po­pu­lar e, in­clu­sive, da ex­pe­ri­men­ta­ção ar­tís­tica – como mais adi­ante se verá.

Não sem uma enorme po­lé­mica, pois es­ta­mos pe­rante a úl­tima vaca sa­grada, o der­ra­deiro tabu, da ci­vi­li­za­ção ocidental.

 

Pouco mais do que uma ideologia

Paul Feyerabend

Paul Feyerabend

Um fi­ló­sofo com for­ma­ção em Física que nem se­quer era anar­quista (as suas pre­fe­rên­cias político-económicas iam para a social-democracia, ou seja, para uma so­ci­e­dade de mer­cado com Estado so­cial) aca­ba­ria por cons­ti­tuir uma vi­são anar­quista da ci­ên­cia e do saber.

No seu se­mi­nal en­saio «Contra o Método», o aus­tríaco Paul Feyerabend ar­ra­sou os fun­da­men­tos ci­en­tí­fi­cos de «ver­dade», «re­a­li­dade» e «ob­je­ti­vi­dade» como sendo pre­con­cei­tos (pré-conceitos) va­gos e sem sus­ten­ta­ção, tão im­pre­ci­sos que, no seu en­ten­der, con­du­zi­ram a que a ci­ên­cia não se dis­tin­guisse do mito tanto quanto se julga.

Acusado de ser «ir­ra­ci­o­nal» por aque­les que as­sim se sen­ti­ram ata­ca­dos, Feyerabend ar­gu­men­tou que o con­ceito de Razão não só não é ci­en­tí­fico como não tem con­teúdo de­fi­nido, sendo este pre­en­chido pelo que al­guém en­tende sub­je­ti­va­mente como a racionalidade.

E as­sim como cri­ti­cou a pro­du­ção de leis ci­en­tí­fi­cas uni­ver­sais quando as pró­prias me­to­do­lo­gias uti­li­za­das não são uni­ver­sais, re­fe­riu que a ten­dên­cia para a Ciência (maiús­cula auto-concedida) se apre­sen­tar como um mo­nó­lito do co­nhe­ci­mento é um tru­que de ilu­si­o­nismo, dado que as vá­rias ci­ên­cias es­tão de­su­ni­das, por ve­zes che­gando a «con­clu­sões» dis­tin­tas e ex­clu­si­vis­tas so­bre as mes­mas ma­té­rias, e são sem­pre incompletas.

Isto é, a dita Ciência pouco mais é do que uma ideologia.

O gato de Schrödinger

Um exem­plo: va­lham o que va­le­rem, as re­cen­tes des­co­ber­tas da Física Quântica vi­e­ram des­men­tir uma sé­rie de no­ções ad­qui­ri­das, co­lo­cando mesmo em causa o que se con­si­de­rava mi­ni­ma­mente plau­sí­vel. E no en­tanto, con­ti­nuam a ser trans­mi­ti­das en­quanto ver­são «ofi­cial» e en­si­na­das nas es­co­las e nas universidades.

O «pior ini­migo da ci­ên­cia», se­gundo os seus de­tra­to­res, che­gou a con­tra­riar a ideia ge­ral de que pri­meiro vêm os fac­tos, só de­pois se de­sen­vol­vendo a te­o­ria. Feyerabend con­si­de­rava que a in­ter­pre­ta­ção fac­tual de­pende sem­pre da gre­lha cul­tu­ral em que o ci­en­tista se en­con­tra, o que à par­tida de­turpa os resultados.

E cha­mou a aten­ção para um com­por­ta­mento não pro­pri­a­mente raro: o en­cai­xa­mento dos fac­tos num corpo teó­rico pre­vi­a­mente es­ta­be­le­cido, para sa­tis­fa­ção dos pa­tro­ci­na­do­res de um de­ter­mi­nado es­tudo ci­en­tí­fico. Afinal, as ci­ên­cias es­tão ao ser­viço do po­der eco­nó­mico, do po­der mi­li­tar e do po­der político.

 

Relativismo cog­nos­cente

Acupunctura

Tendo em conta a di­fi­cil­mente com­pro­vá­vel su­pe­ri­o­ri­dade cog­nos­cente da ci­ên­cia face à re­li­gião, ao fol­clore e à arte, bem como ve­ri­fi­cando a ten­dên­cia do apa­re­lho ci­en­tí­fico para a ti­ra­nia, Feyerabend propôs o re­la­ti­vismo como prin­cí­pio con­du­tor das ope­ra­ções do conhecimento.

Não há ver­da­des ab­so­lu­tas, ape­nas lei­tu­ras do que se acha que é a ver­dade, to­das elas ad­mis­sí­veis (aten­ção: não es­crevi «aceitáveis»).

O que é ver­dade para os ou­tros tem igual peso do que é ver­dade para mim. O que quer di­zer que, se posso achar um dis­pa­rate a crença dos Criacionistas de que a vida na Terra foi for­mada em seis la­bo­ri­o­sos dias di­vi­nos, com des­canso do Senhor ao sé­timo dia, eles têm tanto di­reito a defendê-la quanto eu te­nho de ade­rir à tese do “big bang”, que até pode ser ou­tro absurdo…

Assim se lan­ça­ram as ba­ses do cha­mado Anarquismo Epistemológico, a mais fér­til ex­pres­são li­ber­tá­ria que po­de­mos en­con­trar por es­tes dias. O que afirma é: «Se que­re­mos en­ten­der a na­tu­reza, te­mos de uti­li­zar to­das as ideias e to­dos os mé­to­dos, e não ape­nas uma pe­quena se­le­ção de­les.»

A má­xima ex­tra sci­en­tiam nulla sa­lus revela-se, por con­se­guinte, como um equí­voco. A me­di­cina oci­den­tal não é mais vá­lida do que, por exem­plo, a me­di­cina tra­di­ci­o­nal chi­nesa, algo que nunca uma or­dem dos mé­di­cos ad­mite na nossa parte do planeta.

E o que in­te­ressa isto às ar­tes, e de­sig­na­da­mente à mú­sica, que é o que me mo­tiva nesta re­fle­xão? Nenhuma prá­tica ar­tís­tica tem como ho­ri­zonte a ob­ten­ção de co­nhe­ci­mento, a não ser ao ní­vel das me­to­do­lo­gias a apli­car, cons­ti­tuindo téc­nica e es­té­tica duas di­men­sões dis­tin­tas, muito em­bora a pri­meira es­teja ao ser­viço da segunda.

O certo, e isto não é ci­ên­cia de fo­gue­tões, mas senso-comum, é que de­riva in­va­ri­a­vel­mente de um en­qua­dra­mento con­cep­tual ali­men­tado pelo que se julga ser co­nhe­ci­mento ad­qui­rido ou por uma ques­ti­o­na­ção re­a­li­zada nesse âm­bito. De resto, é cada vez mais ha­bi­tual criarem-se obras de arte (e es­pe­ci­fi­ca­mente de mú­sica) com pres­su­pos­tos «científicos».

Com uma par­ti­cu­la­ri­dade: à in­ter­ven­ção ar­tís­tica in­te­ressa mais ex­plo­rar a «ex­ce­ção que con­firma a re­gra», bas­tas ve­zes se de­mons­trando que essa ex­ce­ção, afi­nal, des­mente a re­gra estudada.

Ora, se a ci­ên­cia é in­ca­paz de che­gar a cer­te­zas, ficando-se pela te­o­ria, e se a ar­gu­men­ta­ção ci­en­tí­fica re­corre a me­tá­fo­ras e ana­lo­gias por­que, sim­ples­mente, a mente hu­mana não atinge (nem pode atin­gir) a es­sên­cia da tão abs­trata «re­a­li­dade», abre-se todo um mundo de pos­si­bi­li­da­des para a arte.

A pro­du­ção me­ta­fó­rica e a ca­pa­ci­dade de ex­pri­mir o in­di­zí­vel são es­pe­cí­fi­cas da arte, pelo que o dis­curso ci­en­tí­fico que as in­te­gra já está em pro­cesso de conversão.

 

Dada é Anti-dada

O pró­prio Feyerabend re­fe­riu que o anar­quista epis­te­mo­ló­gico, o ci­en­tista des­dog­ma­ti­zado, tem se­me­lhan­ças com o ar­tista Dada, no sen­tido em que este «não só não tem pro­grama como está con­tra to­dos os pro­gra­mas».

Pode ser «tanto o mais vo­ci­fe­rante de­fen­sor do sta­tus quo como da sua opo­si­ção, pois um da­daísta au­tên­tico tem de ser tam­bém um an­ti­da­daísta».

A com­pa­ra­ção justifica-se. O mo­vi­mento Dada foi, no iní­cio do sé­culo XX, pro­fun­da­mente mar­cado pe­las ideias anar­quis­tas, à se­me­lhança de ou­tros como o Futurismo (não eram to­dos fas­cis­tas em Itália, a co­me­çar por Renzo Novatore), o Surrealismo (André Bréton tro­cou o ver­me­lho do co­mu­nismo de Estado pelo ne­gro do anarco-comunismo), o Expressionismo de Mark Rothko e Jackson Pollock, o Situacionismo de Guy Débord (ainda que de ori­gem mar­xista) ou o Fluxus de George Maciunas e Henry Flynt, o mais es­ga­ni­çado dos violinistas.

Leo Tolstoy

Leo Tolstoy

No texto «The Anarchist Aesthetic», Michael Scrivener pos­tula que nes­sas e nou­tras fren­tes ar­tís­ti­cas dos úl­ti­mos 100 anos o fa­tor ex­pe­ri­men­tal «é anar­quista pelo me­nos em ten­dên­cia, quando não mesmo cons­ci­en­te­mente».

Em ter­mos his­tó­ri­cos, a ve­ri­fi­ca­ção não é pa­cí­fica: o en­saísta as­si­nala que, se Mikhail Bakunine, Max Stirner e William Godwin eram «li­ber­tá­rios es­té­ti­cos», já Pierre-Joseph Proudhon, Piotr Kropotkine e Leo Tolstoy con­si­de­ra­vam es­sas ma­ni­fes­ta­ções de­ca­den­tes, bur­gue­sas ou individualistas.

Esse fa­tor tem sido en­ten­dido de ma­nei­ras di­fe­ren­tes pe­los pró­prios ar­tis­tas e nem sem­pre a fa­vor, sub­sis­tindo a im­pres­são de que o que é ex­pe­ri­men­tal não é su­fi­ci­en­te­mente sé­rio, num resquí­cio dos ve­lhos juí­zos positivistas.

Aquela que pa­rece, no en­tanto, mais par­ti­lhada toma a «ex­pe­ri­ên­cia» como algo de si­mi­lar ao ex­pe­ri­men­ta­lismo que nas ci­ên­cias, ape­sar de tudo, tem sido valorizado.

Muito em par­ti­cu­lar, os ex­pe­ri­men­ta­lis­tas mu­si­cais fa­lam em «pes­quisa» e em «la­bo­ra­tó­rio». Esta ter­mi­no­lo­gia está pa­tente, de resto, na do­cu­men­ta­ção es­crita da as­so­ci­a­ção por­tu­guesa de mú­si­cos Granular, que tem como pro­pó­sito es­ta­tu­tá­rio, pre­ci­sa­mente, pro­mo­ver a experimentação.

Na sua prosa, Scrivener iden­ti­fica ex­pe­ri­men­ta­lismo com van­guarda, sem se aper­ce­ber que está a dar ao anar­quismo ar­tís­tico a mesma ca­te­go­ri­za­ção que o co­mu­nismo es­ta­tal deu à van­guarda pro­le­tá­ria, quando o que dis­tin­gue a Anarquia é não se rei­vin­di­car como uma van­guarda. Se não con­si­de­rar­mos este lapso, a sua pers­pe­tiva tem cla­ros pa­ra­le­lis­mos com o Anarquismo Epistemológico, que Feyerabend in­sis­tia em dis­tin­guir da his­tó­ria do li­ber­ta­rismo político:

«A van­guarda, que tra­ba­lha nos li­mi­tes e nos ex­tre­mos da cons­ci­ên­cia, torna pos­sí­veis as ru­tu­ras li­ber­tá­rias com a re­a­li­dade es­ta­be­le­cida. Para en­ten­der a ex­pe­ri­ên­cia, que mui­tas ve­zes é for­ma­tada e de­ter­mi­nada por fac­to­res que es­ca­pam ao nosso con­trolo, pre­ci­sa­mos de ir além do en­tre­te­ni­mento de con­sumo ser­vido pela in­dús­tria cul­tu­ral. E ne­ces­si­ta­mos igual­mente de ir para além das te­o­rias anar­quis­tas e mar­xis­tas for­mu­la­das no sé­culo XIX com base em as­sun­ções que já não são ade­qua­das.»

 

Partir pe­dra

Anti-arteO ex­pe­ri­men­ta­lismo na arte deu e dá forma à cha­mada «anti-arte», sur­gida da re­jei­ção de uni­ver­sa­lis­mos de­fi­ni­tó­rios quanto ao que é ou deve ser a arte e mesmo do es­ta­tuto que lhe foi con­sa­grado. As anti-artes que se su­ce­de­ram no tempo (as acima re­fe­ri­das: Dada, Futurismo, Surrealismo, etc.) fo­ram re­cu­pe­ra­das pelo sis­tema mer­can­til e co­lo­ca­das no mu­seu, mas per­mi­ti­ram que ou­tras abor­da­gens em con­tra­cor­rente ti­ves­sem lugar.

Seria de es­pe­rar que o equi­va­lente ex­pe­ri­men­tal da ci­ên­cia ti­vesse con­du­zido a uma «anti-ciência», mas tal não se ve­ri­fi­cou – está cui­da­do­sa­mente res­guar­dada numa fortaleza.

Não sur­pre­ende: a maior obra ci­en­tí­fica até à data foi a bomba ató­mica. Mesmo a ida à Lua teve como mo­tivo o des­pi­que americano-soviético da Guerra Fria.

É esta, agora, a ta­refa anar­quista: de­sen­vol­ver uma anti-ciência que surja como uma trans­fi­gu­ra­ção da ci­ên­cia em arte.

E por­que a mi­to­lo­gia e a sa­be­do­ria do povo (cam­po­ne­ses e pes­ca­do­res leem os si­nais da na­tu­reza me­lhor do que nin­guém) são ou­tros ma­te­ri­ais ar­tís­ti­cos ha­bi­tu­al­mente uti­li­za­dos, além de ou­tras fon­tes le­gí­ti­mas de co­nhe­ci­mento, os ar­tis­tas en­con­tram nes­tes âm­bi­tos muito com que fazer.

Façam, pois, o fa­vor de par­tir pe­dra. E de gra­var, já agora, os sons pro­du­zi­dos, para in­clu­são e tra­ta­mento nas com­po­si­ções mu­si­cais do futuro…

→ 04/01/2013 @2:28

O espírito desaparecido

O local de repouso do Spirit

Ilustração: o lo­cal de re­pouso do Spirit na cra­tera Gusev (NASA/JPL/Cornell/Glen Nagle)

Faz hoje nove anos que um veí­culo ro­bó­tico com me­tro e meio de al­tura, 2.3 me­tros de lar­gura e 1.6 me­tros de pro­fun­di­dade poi­sou em se­gu­rança numa gi­gan­tesca cra­tera do pla­neta Marte cha­mada Gusev. Percorrera 487 mi­lhões de qui­ló­me­tros em sete me­ses e preparava-se para in­ves­ti­gar um lo­cal onde se acre­di­tava ter já exis­tido um enorme lago de água em es­tado líquido.

Tanto o Spirit como o ir­mão gé­meo Opportunity – este che­gou três se­ma­nas de­pois – fo­ram ba­ti­za­dos a par­tir de um po­ema de uma órfã de nove anos, es­co­lhido en­tre 10 mil candidaturas.

«Costumava vi­ver num or­fa­nato» – es­cre­veu Sofi, a cri­ança de ori­gem russa ado­tada aos dois anos pelo ca­sal Collis num or­fa­nato na Sibéria. – «Era es­curo e frio e so­li­tá­rio. À noite, olhava para o céu cin­ti­lante e sentia-me me­lhor. Sonhava em po­der voar até lá. Na América, posso fa­zer com que os meus so­nhos se tor­nem re­a­li­dade… Obrigado pelo Espírito e Oportunidade.»

Sofi com o administrador da NASA, Sean O'Keefe

Sofi com o ad­mi­nis­tra­dor da NASA, Sean O’Keefe

Sofi Collis, órfã de sor­riso fá­cil e com uma fé ina­ba­lá­vel no fu­turo da terra dos so­nhos e das opor­tu­ni­da­des, tornou-se uma ce­le­bri­dade de um dia para o outro.

Esteve a 8 de ju­nho de 2003 nas ins­ta­la­ções do Kennedy Space Center ao lado do ad­mi­nis­tra­dor da NASA, Sean O’Keefe, para re­ve­lar ao mundo o nome dos ro­vers e ler o texto a par­tir do qual ti­nham sido ba­ti­za­dos; ti­rou fo­to­gra­fias ao lado de uma ré­plica dos veí­cu­los, co­nhe­ceu muita gente e as­sis­tiu dois dias de­pois ao lan­ça­mento do fo­gue­tão Delta II que ele­vou aos céus o Mars Exploration Rover-A (MER-A), co­nhe­cido daí em di­ante pelo nome Spirit.

«Ela car­rega em he­rança e pa­tri­mó­nio a alma de duas gran­des na­ções ex­plo­ra­do­ras do Espaço», afir­mou en­tão O’Keefe. «E gra­ças a ela, te­mos agora dois no­mes à al­tura da ou­sada mis­são que se está pres­tes a ini­ciar». Sofi disse que que­ria ser as­tro­nauta quando fosse grande. Depois re­gres­sou à es­cola já como uma es­pe­ci­a­lista em Marte, ga­ran­tindo aos co­le­gui­nhas que no pla­neta não só ha­via água como mar­ci­a­nos microscópicos.

Por do Sol na cratera Gusev (NASA / JPL / Cornell / Texas A&M)

Pôr-do-sol na cra­tera Gusev (wall­pa­per) (NASA / JPL / Cornell / Texas A&M)

O mundo dei­xou de ter no­tí­cias da pe­quena Sofi, mas o ro­ver aca­bou por ser uma das mis­sões de ex­plo­ra­ção in­ter­pla­ne­tá­ria mais bem-sucedida de sempre.

Era para ter du­rado três me­ses, mas manteve-se em ati­vi­dade até 22 de março de 2010, dia em que co­mu­ni­cou com a Terra pela úl­tima vez – mais de seis anos após a data em que te­ria pas­sado de prazo.

O Spirit per­cor­reu 7,73 qui­ló­me­tros, 12 ve­zes a dis­tân­cia que os res­pon­sá­veis da mis­são ha­viam pre­visto. Enviou para a Terra mais de 124 mil ima­gens, in­cluindo aquela que é a mais fa­mosa das fo­tos ti­ra­das em Marte: o pôr-do-sol na cra­tera Gusev, cap­tado a 19 de maio de 2005.

Sem o sa­ber, um pe­queno robô dava ra­zão às pa­la­vras em Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, he­te­ró­nimo de Fernando Pessoa, es­cri­tas 91 anos an­tes du­rante uma noite de in­só­nia: «Da mi­nha al­deia vejo quanto da terra se pode ver o uni­verso… Por isso a mi­nha al­deia é tão grande como ou­tra terra qual­quer. Porque eu sou do ta­ma­nho do que vejo e não do ta­ma­nho da mi­nha al­tura».

 

Planeta ver­me­lho, pla­neta branco

O maior achado do Spirit acon­te­ceu por acaso – o acaso, de resto, é o pai de mui­tas des­co­ber­tas ci­en­tí­fi­cas. Desde 2006 que o ro­ver es­tava «coxo»: uma roda di­an­teira dei­xara de fun­ci­o­nar, pelo que o veí­culo ainda che­gou a per­cor­rer um qui­ló­me­tro com essa roda a arrastar-se pelo solo.

Numa oca­sião em que fa­zia in­ver­são de mar­cha, o ar­ras­ta­mento da roda «coxa» es­ca­vou um tipo de solo branco e bri­lhante. Que raio se­ria aquilo? Os es­pec­tró­me­tros do Spirit de­ram a res­posta: «aquilo» era sí­lica quase em es­tado puro.

A pre­sença de sí­lica mos­trava que no pas­sado ti­nham exis­tido fon­tes ter­mais ou saí­das de va­po­res na­quele lo­cal – con­di­ções pro­pí­cias à exis­tên­cia de vida mi­cro­bi­ana. A Spirit mostrou-nos tam­bém que este Marte seco, frio e de­sér­tico que hoje ob­ser­va­mos já ti­nha sido um pla­neta onde água e ro­cha in­te­ra­giam em gran­di­o­sas ex­plo­sões vulcânicas.

Os da­dos re­co­lhi­dos pelo es­pec­tró­me­tro no monte Husband re­ve­la­ram que numa ro­cha ex­posta (os geó­lo­gos chamam-lhe aflo­ra­mento) exis­tiam al­tas con­cen­tra­ções de car­bo­na­tos – um ma­te­rial muito co­mum na Terra e cuja pre­sença im­plica a exis­tên­cia, no pas­sado do pla­neta, de um am­bi­ente mo­lhado, sem for­ma­ção de ácido, fa­vo­rá­vel ao sur­gi­mento de mi­cró­bios marcianos.

O mi­nús­culo Spirit su­pe­rara to­das as ex­pec­ta­ti­vas e já po­dia des­can­sar em paz.

Em abril de 2009, fi­cou ato­lado em areia e in­ca­paz de se mo­ver; uma ten­ta­tiva para o li­ber­tar, feita a 26 de de­zem­bro desse ano, aca­bou por afundá-lo ainda mais. Finalmente, a 22 de março de 2010, dei­xou de co­mu­ni­car. A úl­tima ten­ta­tiva de ob­ter con­trolo do ro­ver foi feita a 24 de maio de 2011 – nada aconteceu.

Fez-se uma festa de des­pe­dida na sede da NASA. Nada ha­via a la­men­tar: muito fi­zera e re­sis­tira um pe­queno veí­culo que de­ve­ria ter du­rado ape­nas três me­ses sob as inós­pi­tas con­di­ções mar­ci­a­nas. Mais do que uma América mi­nada pela crise eco­nó­mica, o dis­tante Marte revelara-se a terra de so­nhos e opor­tu­ni­da­des em que a pe­quena Sofi acre­di­tara há quase dez anos.

 

Um voo inesperado

Nunca mais se soube o que acon­te­cera à cri­ança que fora re­ce­bida na NASA como uma cam­peã – es­ta­ria ainda a per­se­guir o so­nho de se tor­nar as­tro­nauta, como afir­mara nas ins­ta­la­ções da NASA? Estudaria para se tor­nar uma es­pe­ci­a­lista à pro­cura de vida em Marte ?

Sofi CollisNas vés­pe­ras de Natal do ano pas­sado, os ame­ri­ca­nos fo­ram aler­ta­dos para uma no­tí­cia de úl­tima hora: uma ado­les­cente de 19 anos cha­mada Sofi e re­si­dente em Scottsdale, no Arizona, de­sa­pa­re­cera de casa do ca­sal Collis. Assustados, os pais ti­nham co­mu­ni­cado o de­sa­pa­re­ci­mento à polícia.

Quando os me­dia des­co­bri­ram que aquela Sofi era a mesma que ba­ti­zara as son­das mar­ci­a­nas, a no­tí­cia do de­sa­pa­re­ci­mento transformou-se na grande his­tó­ria do dia. Polícias e vo­lun­tá­rios procuraram-na, em vão. Finalmente, na noite de 25 de de­zem­bro, os pais te­le­fo­na­ram à po­lí­cia afir­mando que a jo­vem re­gres­sara a casa, sã e salva.

Na ver­dade os pais ti­nham en­trado em pâ­nico por­que Sofi, além de re­ve­lar pro­ble­mas de apren­di­za­gem na es­cola, so­fre de epi­lep­sia: ti­nham re­ce­ado que pu­desse vir a ter um ata­que na rua, sem me­di­ca­men­tos para a acudir.

A ra­pa­riga foi en­tre­vis­tada por um jor­na­lista dias de­pois, mas recusou-se a ex­pli­car ao mundo por que ra­zão saíra sem avi­sar. Aceitou ape­nas di­zer que «nunca pensa» so­bre o facto de ter dado os no­mes aos ro­vers: «é his­tó­ria an­tiga».

Sofi, a órfã que pro­cu­rava con­solo nos céus cin­ti­lan­tes, cres­ceu e já não quer ser astronauta.

→ 23/12/2012 @22:06

Anel de Luz

Dani Caxete

O efeito de halo – pro­vo­cado pela luz da Lua e a pre­sença de cris­tais de gelo na at­mos­fera – é cap­tado pela lente da má­quina de Dani Caxete, fo­tó­grafo e pin­tor es­pa­nhol. Este anel de luz à volta da Lua foi fo­to­gra­fado nos ar­re­do­res de Madrid. A ima­gem en­trou a 3 de de­zem­bro na ga­le­ria Astronomy Picture of the Day. Bela foto!

→ 06/12/2012 @21:41

Uma ajuda vossa para mudar o mundo

Eles di­zem que que­rem mu­dar o mundo – e eu acho muito bem ha­ver gente com a lata de di­zer que de­seja mu­dar o mundo.

O mundo que eles que­rem mu­dar é per­ce­tí­vel a toda a gente com li­ga­ção à Internet: é o mundo em que do­mi­nam as cons­pi­ra­ções pseudo-científicas so­bre ca­len­dá­rios Maias, pro­fe­cias, co­me­tas as­sas­si­nos, ali­nha­men­tos ga­lác­ti­cos, pla­ne­tas Niburu e ener­gias tre­to­plas­má­ti­cas no YouTube e em cen­te­nas de sí­tios de de­sign tão ma­nhoso como o conteúdo.

É tam­bém o mundo das bac­té­rias mar­ci­a­nas no Alentejo, das pro­vas da exis­tên­cia do Abominável Homem das Neves en­con­tra­das em tu­fos de pelo que nin­guém ana­li­sou e da exis­tên­cia de ex­tra­ter­res­tres na Antártida a par­tir da mera ob­ser­va­ção de or­ga­nis­mos ex­tre­mó­fi­los. É um mundo gi­gan­tesco de ili­te­ra­cia científica.

Aqueles ma­lu­cos que­rem fa­zer uma re­vista on­line de di­vul­ga­ção e edu­ca­ção ci­en­tí­fica e para isso pre­ci­sam de 2500 eu­ros para fa­zer face às des­pe­sas. Eu co­nheço o meio e sei muito bem que consegui-lo com tão pouco di­nheiro só é pos­sí­vel por­que de­ze­nas de ci­en­tis­tas – os mes­mos que man­tém o blo­gue AstroPT – se com­pro­me­te­ram a es­cre­ver de borla. Tudo em nome da causa.

Pedir di­nheiro em tempo de crise e dar a cara pelo pro­jeto exige al­guma co­ra­gem, muita de­di­ca­ção e uma dose ver­da­dei­ra­mente ga­lác­tica de maluquice.

Eu quero que essa re­vista acon­teça. Não fal­tam exem­plos a demonstrar-nos como fre­quen­te­mente a Comunicação Social não está à al­tura da im­por­tante ta­refa de di­vul­gar a Ciência. Uma re­vista des­tas é necessária.

É uma ba­ta­lha im­pla­cá­vel e di­fí­cil pelo co­nhe­ci­mento con­tra a su­pers­ti­ção, a ig­no­rân­cia e os vi­ga­ris­tas que se apro­vei­tam do medo e da ili­te­ra­cia dos ou­tros para fa­zer di­nheiro e enriquecer.

É dar di­nheiro a quem tem um con­ceito de en­ri­que­ci­mento que não passa for­ço­sa­mente por fa­zer di­nheiro, mas par­ti­lhar conhecimento.

Já con­tri­bui para o pro­jeto – é um bo­cado chato fazê-lo, re­quer ins­cri­ção na pá­gina, mas vale a pena. E é uma tran­sa­ção segura.

No mo­mento em que es­crevo este ar­tigo, a qua­tro dias do fim do pe­ríodo vá­lido de fi­nan­ci­a­mento, fo­ram an­ga­ri­a­dos 1900 eu­ros dos 2500 ne­ces­sá­rios – basta que mais 60 pes­soas con­tri­buam com 10 eu­ros cada para que a re­vista seja pos­sí­vel. Não é as­sim tão caro, tendo em conta o que se re­cebe em troca. Se não têm di­nheiro, ao me­nos di­vul­guem nas re­des so­ci­ais o link do projeto.

E pronto, agora é mu­dar o mundo aqui.

 

Atualização

Objetivo atin­gido. Obrigado a to­dos pela con­tri­bui­ção! Quem qui­ser apoiar, pode con­ti­nuar a fazê-lo: o ex­ce­dente será sem­pre usado para co­brir des­pe­sas com a revista.

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