(Discurso final do filme The Great Dictator, de 1940)
Charlie Chaplin: uma mensagem do passado
Finalmente, vi «A Ãrvore da Vida»
Costuma dizer-se que quando uma criança começa a fazer muitas perguntas é por estar «na idade dos porquês».
O que está obviamente errado nesta frase é presumir que existe uma idade especÃfica para pensarmos no «porquê» das coisas. O que distingue a inteligência humana da inteligência animal não é tanto a capacidade de saber «como», «quando» ou «onde», mas a de saber «porquê».
O «porquê» acompanha-nos a vida toda – às vezes como uma bênção, outras como uma maldição.
Ao chegar à idade adulta muitos passam a ignorá-lo deliberadamente, a guardá-lo só para si ou a sussurrá-lo como os pais em sofrimento de «A Ãrvore da Vida».
Por não saberem a resposta a essa pergunta quando lidam com a morte de um filho ou mesmo com os problemas de relacionamento na famÃlia, o «porquê» sussurrado por pais e filhos no filme de Terrence Malick é dirigido a alguém que conhece todas as respostas, mas cuja voz é inaudÃvel.
Podemos chamar a esse «alguém» Deus ou Nada, mas não podemos escapar à pergunta. O «porquê» está para o nosso cérebro como o Espaço-Tempo para o Universo.
Este «porquê» toca a todos – incluindo os que acharam o filme uma monumental e pretensiosa seca. Por que razão morremos, se o nosso desejo é viver? Por que razão sofremos, se procuramos ser bons e justos? Por que razão temos necessidade de amar e ser amados? Por que razão somos compelidos a questionar-nos sobre questões para as quais não temos resposta?
O filme «A Ãrvore da Vida» é simultaneamente simples e grandioso: a história é uma sucessão de jornadas individuais à procura de uma resposta para a mais primordial das questões, mas filmada de forma visualmente arrebatadora, eloquente e devastadora na incessante tentativa de identificar criação divina em tudo o que a câmara capta.
Memórias
Quando a mãe questiona como Jó, não o faz com a intenção de nos pôr a pensar sobre a existência de Deus. Todo o filme – do princÃpio ao fim – é um convite à oração.
A jornada dos três personagens principais de «A Ãrvore da Vida» – pai, mãe, o filho mais velho – é tão Ãntima e fragmentada que não pode ser contada de forma linear. Por isso o filme não tem uma narrativa semelhante ao que estamos habituados: o que Malick tem para nos mostrar são memórias e sonhos.
Pesquisem nas vossas próprias memórias e vejam se conseguem recordar acontecimentos marcantes da vossa vida de uma forma linear.
As nossas memórias são escolhas subjetivas e fragmentadas, não obedecem à lógica da passagem do tempo do ponto A para o ponto B. Não têm cenas nem histórias com princÃpio, meio e fim definidos em papel timbrado, mas fluxos de acontecimentos que se entrelaçam subjetivamente uns nos outros. Queixar-se de que a história é estragada devido à ausência de linearidade narrativa parece-me um disparate. Por que razão esta liberdade criativa incomoda tanto?
Luzes
(Parte da sequência «National Geographic» do filme. Música: Lacrimosa, Zbigniew Preisner)
A inclusão dos célebres «20 minutos à National Geographic» mostra que Malick tem um grande par de tomates, não receando desafiar as pessoas e as suas expectativas em relação à forma como uma história deve ser contada.
É uma longa e belÃssima sequência: começa com o Big Bang, depois a criação das galáxias, do Sistema Solar, da Terra, dos oceanos, dos primeiros seres, por aà fora, até chegar aos dinossauros e ao asteroide que os aniquilou. A música é celestial, claro.
A cena cai do céu – literalmente. É a representação visual da resposta de Deus contida no Livro de Jó.
Jó também perguntou «porquê» e questionou Deus sobre a justiça dos sofrimentos que lhe foram infligidos.
A citação no inÃcio do filme é uma reprodução parcial da resposta inicial de Deus: «Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faz-mo saber, se tens inteligência. Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina, Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?»
Quando a mãe sofre com a perda do filho, questiona Deus nos mesmos termos: «Onde estavas tu?»
Malick mostra-nos a sua visão do que Deus andou e tem andado a fazer. Procurou que a sequência fosse cientificamente correta porque, para um crente inteligente e não contaminado pelo vÃrus da estupidez fanática, as descobertas da Ciência são outra forma de descobrir a obra de Deus.
Malick só abandona a Ciência quando cria sÃmbolos. A cena em que o dinossauro «escolhe» não matar outro mais pequenino é obviamente simbólica: a «Graça» vence uma pequena batalha contra a «Natureza».
É tão simbólica como as Torres de Babel em que o personagem de Sean Penn se passeia ou as portas que precisa de atravessar – a sequência final do filme. As portas representam uma passagem para a vida (nascimento do irmão) ou para a morte (o reencontro da famÃlia), mas também «etapas» ou desafios na aceitação do divino.
Portas
No fim, atravessadas todas as «portas», o angustiado Sean Penn sorri; a sofredora mãe sussurra em nova oração: «Podes ficar com o meu filho». Os personagens estão em «estado de graça».
As pessoas que conhecem o meu ceticismo em relação a Deus e à religião deverão estar admiradas por eu ter gostado de um filme impregnado de tanta religiosidade.
A razão é simples: primeiro, porque é Cinema – tão arrebatador e emocionante quanto o cinema consegue ser. Segundo, porque embora a citação do Livro de Jó seja reveladora do Cristianismo do realizador e a ação se passe numa comunidade católica, o Deus de «A Ãrvore da Vida» não é um deus dividido pelas religiões. Não precisa de porta-vozes ou intermediários. E não está «contra» ninguém. Terceiro, porque é um filme visceralmente honesto. Quarto, por ser tão dolorosamente humano.
Notas adicionais
Não deve ser fácil transmitir tanto com tão pouco diálogo, mas os atores conseguem-no. Entrar num filme do Terrence Malick requer um elevado grau de humildade, pois os atores são apenas peças de um todo muito maior que jamais lhes pertencerá.
Não consigo encontrar qualquer semelhança mais profunda entre o «2001: Odisseia no Espaço» e «A Ãrvore da Vida» nem tão-pouco entre o estilo de Malick e o de Kubrick, como tem sido escrito em muitos sÃtios: o primeiro é um perfecionista que filma com o coração nas mãos; o segundo é um perfecionista que filma com alma de documentarista.
Fazer-nos refletir sobre a posição da Humanidade no Cosmos é um tema transversal aos dois filmes e os efeitos especiais foram feitos pela mesma pessoa – Douglas Trumbull. De resto, não vejo afinidades nenhumas: Malick propõe uma reflexão existencial através do prisma religioso, Kubrick propõe a reflexão existencial como um enigma cientÃfico. Talvez tenha de pensar melhor sobre o assunto. Uma coisa é verdade: ambos fizeram filmes com uma ambição sem precedentes.
E já que estou a comparar um e outro, há pelo menos uma relação que não a vou buscar a «2001» mas à forma como Kubrick filma à luz das velas em «Barry Lyndon». Acho que em certas cenas Malick procurou conseguir o mesmo efeito, ou seja, como se estivéssemos a ver pintura e não fotografia. Cada um à sua maneira, mestres.
Orgulho Zombie
O que se segue é um fantástico desfile – uma espécie de marcha do orgulho zombie. Infelizmente, o autor do post de onde retirei estas imagens não nos diz onde, quando e por quem estas fotos foram tiradas – se alguém souber, faça o favor de me informar. (Adenda: ver comentários – obrigado!)
Estes eventos são raros, assim como são escassas as ocasiões em que podemos ver zombies desfrutando, à luz do dia, de momentos mais descontraÃdos. Até piqueniques puderam fazer, sem serem perturbados pelos chatos do costume.
Os chatos do costume somos nós. A maior parte dos humanos não tem os zombies em grande consideração. Não sei porquê. Talvez a culpa seja do cinema, constantemente a minar a reputação destas criaturas e a tratá-las como cidadãos de segunda.
(Adaptado do arquivo: 05/03/2009) – Depois de ver um filme de terror com zombies fiquei a pensar se não estaremos a ser demasiado duros com estas nobres criaturas que há muitos anos nos acompanham e tanto têm contribuÃdo para a riqueza de Hollywood.
Os zombies têm hábitos de higiene deploráveis, graves distúrbios alimentares e alguns problemas de comunicação – mas será que a nossa reação quando os vemos tem sempre de ser a mesma, berrar que nem uns doidos, correr para longe, desatar aos tiros, atacá-los à machadada, partir-lhes o pescoço ou esmagar-lhes o crânio?
Ainda estou para ver um filme que contribua com uma visão mais equilibrada da relação entre zombies e humanos. Em todos os filmes, sempre que um zombie corre de braços abertos em direção a um ser humano é por desejar apertar-lhe o pescoço, não por querer abraçá-lo fraternalmente – os filmes de terror estão cheios de equÃvocos e preconceitos deste tipo, como se um zombie também não sentisse necessidade de calor humano. Acho esta merda escandalosa.
Em nenhum momento os filmes nos mostram como deve ser difÃcil e dura a vida de um zombie. O tom amarelado da pele revela problemas de fÃgado e de rins que podem ser fatais mesmo para um morto-vivo, como referiu um artigo da Super Interessante que já li há uns tempos; muitos deles estão mais mortos que vivos. Mais morto que vivo pode ser apenas uma maneira de dizer para os seres humanos, mas é uma autêntica navalhada no orgulho zombie.
Outro exemplo: quando são atingidos a tiro, não sangram quase nada – isto dever-se-á ao facto de o coração já não ter força suficiente para bombear o sangue. Em vez de engendrarmos um plano qualquer para recuperar a saúde destes pobres diabos, disparamos ainda mais tiros até que os desgraçados, exaustos, desistam de nos querer abraçar.
Não admira portanto que a narrativa desses filmes se baseie exclusivamente nesta visão uni-dimensional e insensÃvel do zombie.
Um zombie existe apenas para perseguir, morder e comer-nos – não tem sonhos, aspirações, planos, não lê jornais, não vê televisão, não aderiu ao Twitter, não sabe o que são os likes do Facebook e o máximo que conseguiu foi entrar num teledisco do Michael Jackson – é uma pena que estas maravilhosas e bonitas criaturas (qualquer trapo lhes fica bem) nos sejam sempre apresentadas sem qualquer densidade psicológica, mesmo quando nos comem o cérebro.
Os diálogos entre seres humanos e zombies acabam, sem grande surpresa, por se revelar demasiado pobres. Das gargantas putrefactas das injustiçadas criaturas o máximo que sai é um «aaarrrghhhhhh» ou um «craaaiiiphffff» – embora muito expressivos, todos sabemos que seriam capazes de ser mais eloquentes se lhes dessem mais oportunidades.
É sempre o ponto de vista do ser humano que prevalece. Nos filmes de terror todos os zombies são carnÃvoros – mais um cliché que ignora todos os mortos-vivos que, com grande sacrifÃcio pessoal e profissional, se tornaram vegetarianos e nunca mais na suas mortas-vidas tocaram num bitoque mal passado com batata frita e ovo estrelado (já estou a ficar com fome).
Limitados ao eterno ato de perseguir, gritar, abrir os braços, morder, comer, desaparecer e reaparecer, os zombies são meros escravos do desejo humano de ser continuamente perseguido, mordido e, se possÃvel, comido.
Os realizadores dos filmes de terror são uns tarados sexuais sem qualquer possibilidade de remissão.
A árvore da discórdia
(Pequena parte da sequência «National Geographic» do filme «A Ãrvore da Vida». Música: Lacrimosa, Zbigniew Preisner)
O objetivo é conhecer a vossa opinião. Espero poder escrever um post quando finalmente vir este filme no cinema. Ainda vou a tempo. O filme é «A Ãrvore da Vida», de Terrence Malick.
Malick é um realizador tremendo. Se fizesse uma lista dos meus filmes preferidos de sempre, The Thin Red Line (A Barreira InvisÃvel, de 1998) ocuparia um dos lugares de topo.
As reações ao filme têm sido tão dÃspares e extremas que o facto de ser de Malick já não é a única razão para ter uma enorme vontade de o ver. Espero que não sejam sequências como esta aqui em cima que afastaram ou aborreceram as pessoas, pois acho-a deslumbrante.
Mas que sei eu, que infelizmente ainda não vi o filme? O que eu quero é saber a vossa opinião.
Há pessoas que saem do filme em lágrimas; outras abandonam a sala por não aguentarem os célebres 22 minutos «que fazem lembrar um documentário do National Geographic» com «imagens bonitinhas». Muitas fazem-no ao intervalo.
Há quem tenha aplaudido no final; há quem se ria, com desdém. Há quem diga que foi o «pior filme que já viu na vida»; há quem garanta que foi «o melhor filme que já viu na vida». Ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mas dividiu crÃtica e público.
Já vi pessoas à bulha em fóruns de discussão por causa de «A Ãrvore da Vida», como se estivesse em causa uma relÃquia sagrada e não um filme.
Algumas garantem que «nunca apanharam uma seca tão grande numa sala de cinema». Outras asseguram que «o filme mudou a forma como encaro a vida e o Cosmos».
É raro ler-se uma crÃtica mais desapaixonada, excetuando estas «impressões breves» do Victor Afonso. As pessoas parecem divididas em trincheiras: de um lado, os que amam o filme; do outro, os que o odeiam.
Estes últimos dizem que é «indulgente, pretensioso, com um espÃrito evangelizador cristão que se torna excessivo e insuportável»; os segundos dizem que só não gosta do filme quem é «burro, ignorante e sem sensibilidade para a arte»; os que estão contra sentem-se ofendidos e dizem que o filme só é bom para «pseudo-intelectuais e gente que gosta de se mostrar mais inteligente do que é». Os que estão a favor respondem com um «Idiotas, vão ver os Transformers, isso é que é um grande filme para vocês».
Esta batalha verbal online já dura há vários dias. Que filme é este? Alguém já o viu? O que tem assim de tão extraordinário que suscita reações tão extremas?
(discussão lançada em simultâneo no AstroPT)
A montanha mágica, e a Via Láctea
Há momentos em alguns filmes de ficção cientÃfica que dificilmente vou esquecer.
O deslumbramento nos olhos de Jodie Foster perante a imensidão das galáxias em Contacto: «Deveriam ter enviado um poeta, não um cientista, porque me sinto incapaz de descrever as maravilhas que estou a ver»; a nave de 2001 dirigindo-se a Júpiter ao som do adágio da Gayne Ballet Suite, de Aram Khachaturian; a canção de HAL; o monolito; Ligeti; o sorriso de Kevin Spacey em K-Pax; o plano final de Solaris e do seu oceano inteligente; o monólogo do replicant moribundo Roy Batty em Blade Runner: «E todos esses momentos estarão perdidos no tempo como lágrimas perdidas na chuva». Até mesmo a nave da imaginação de Carl Sagan, sem a qual filmes assim não são possÃveis.
E é também por este sentimento de deslumbramento em relação ao Cosmos que este pequeno vÃdeo – filmado entre 4 e 11 de Abril deste ano na montanha mais alta de Espanha – faz tanto sentido para mim.
Presidente Darth Vader
Imaginem criar uma capa de jornal em tudo semelhante, tanto na forma como em conteúdo, à do New York Times; imaginem que nesse jornal as manchetes da nossa atualidade são reconvertidas para o imaginário dos filmes de George Lucas.
Completamente doido. Deliciosamente nerd.
É isso que faz o The Galactic Empire Times, e com grandes doses de loucura e brilhantismo, como podemos ver no exemplo aqui em cima: «Obi-Wan Kenobi, o cérebro por trás de alguns dos mais devastadores ataques ao Império Galáctico e um dos homens mais procurados na galáxia, foi morto durante um tiroteiro com as forças Imperiais perto de Alderaan, anunciou Darth Vader este domingo».
A escrita é toda assim: sóbria, jornalÃstica, diretamente decalcada do artigo original do New York Times no qual se noticiava a revelação da morte de Bin Laden pelo presidente Obama. Um gozo. Só é pena que não tenham levado a ideia mais longe.
E um link, para vosso gozo também.
Nos bastidores de ‘The Shining’
Quando estava a filmar The Shining, Stanley Kubrick deixou a filha Vivian, então com 17 anos, vaguear pelo local de filmagens com uma câmara de filmar.
Deste home movie simples e despretensioso resultou um mini-documentário delicioso para os fãs de cinema, de Nicholson e de Kubrick.
É muito bom podermos observar o mestre em ação e comprovar uma velha suspeita: a de que Jack Nicholson nunca foi muito diferente de Jack Torrance…
O documentário (35 minutos) pode ser visto aqui. Existem duas versões: uma, comentada pela própria Vivian Kubrick; a segunda, sem qualquer comentário. E caso nunca tenham visto o The Shining (a sério, ainda não…?), podem conhecê-lo na sua totalidade seguindo este link (áudio original, legendas em francês).
O meu grande agradecimento ao Eduardo pela dica!








































