→ 18/03/2013 @19:05

Criador de planetas

Emanuel Dimas de Melo PimentaNa obra do luso-brasileiro Emanuel Dimas de Melo Pimenta a mú­sica e a ar­qui­te­tura confundem-se mui­tas ve­zes. Algumas das suas par­ti­tu­ras grá­fi­cas, ge­ra­das com­pu­ta­ci­o­nal­mente, assemelham-se às cons­tru­ções de ar­qui­te­tura vir­tual que tam­bém o têm notabilizado.

Seja numa dis­ci­plina como na ou­tra, é com o es­paço que lida e com a sua ha­bi­ta­bi­li­dade. Por isso mesmo, po­de­mos di­zer que en­tende a ar­qui­te­tura como mú­sica e esta é sem­pre imersiva.

É «quente» e pro­por­ci­ona o «êx­tase», para uti­li­zar as pa­la­vras que o com­po­si­tor John Cage lhe de­di­cou pouco an­tes de morrer.

 

Antes de Second Life

Na de­fi­ni­ção do mé­todo de «ar­qui­te­tura vir­tual» que Pimenta es­ta­be­le­ceu em 1982 vem esta má­xima: «Um es­paço deve ser fa­cil­mente des­pro­gra­má­vel e re­pro­gra­má­vel, pois as pes­soas mu­dam em cada ins­tante

No re­forço desta ideia, afir­mou igual­mente o que se­gue: «Se há pa­ra­dig­mas na ar­qui­te­tura tra­di­ci­o­nal – pa­re­des, ja­ne­las, co­ber­tu­ras –, na ar­qui­te­tura vir­tual tudo está em per­ma­nen­tes mu­ta­ção, tur­bu­lên­cia e flui­dez, em con­cei­tos de luz, de fluxo, de pre­sença.»

Daí vem re­sul­tando, por exem­plo, a cri­a­ção de um me­ga­pro­jecto, ainda em curso, que an­te­ci­pou o pró­prio Second Life. O Woiksed é um pla­neta vir­tual, com as suas pró­prias ci­da­des e pai­sa­gens «naturais».

No fu­turo (quando o de­sen­vol­vi­mento tec­no­ló­gico o per­mi­tir, pois por en­quanto é de­ma­si­ado pe­sado para ser ace­dido – ou co­lo­cado – na Net por um sim­ples lap­top ou desk­top) pretende-se aberto a quem o queira vi­si­tar ou nele pre­tenda instalar-se. Será uti­li­zá­vel como um jogo in­te­ra­tivo, en­vol­vendo os sen­ti­dos vi­sual, au­di­tivo e tác­til, e para já tem tido a con­tri­bui­ção de al­guns ar­tis­tas, como o es­cul­tor suíço Francesco Mariotti.

Mais co­la­bo­ra­tivo, mas en­tron­cando com o work-in-pro­gress Woiksed, é o seu The End of the World – A Planetary Project, cujo ar­ran­que coin­ci­diu com o dia em que o mundo aca­bou, 21 de Dezembro de 2012. Abrigado pelo Streaming Museum de Nova Iorque, de que é an­fi­triã Nina Colosi, en­volve 70 ar­tis­tas, po­e­tas e fi­ló­so­fos de 11 países.

Alguns de­les por­tu­gue­ses, como António Cerveira Pinto, Carlos “Zíngaro”, Estela Guedes, João Castro Pinto, Leonel Moura e Nuno Júdice.

De re­fe­rir ainda o edi­fí­cio or­bi­tal Kairos, uma ho­me­na­gem ao cos­mo­nauta Yuri Gagarin com ins­pi­ra­ção em fi­gu­ras como Buckminster Fuller e Marshall McLuhan. Pretende ser um ob­ser­va­tó­rio da Terra, ge­rido pela so­ci­e­dade civil.

O pro­jeto tem sido apre­sen­tado em ex­po­si­ções e exis­tem um li­vro e um filme so­bre o mesmo, o úl­timo tendo como sound­track a peça «Seti», de Pimenta, com­posta e to­cada a par­tir de sons extraterrestres.

Para am­bos os do­mí­nios (mú­sica e ar­qui­te­tura) este fi­lho de emi­gran­tes da Mealhada nas­cido em S. Paulo es­ta­be­le­ceu um mesmo pro­cesso de «for­ma­ção plás­tica de pa­drões si­náp­ti­cos» a que chama «de­sign sen­so­rial», des­ti­nado a es­ta­be­le­cer «ar­ma­di­lhas ló­gi­cas».

No iní­cio, as suas par­ti­tu­ras eram bi­di­men­si­o­nais, pla­ni­mé­tri­cas, mas hoje as com­po­si­ções que de­se­nha, por­que já não se trata sim­ples­mente de uma es­crita, são sis­te­mas com qua­tro dimensões.

Este tra­ba­lho foi re­co­nhe­cido pela Merce Cunningham Dance Company, que o con­vi­dou a criar pe­ças des­ti­na­das a se­rem co­re­o­gra­fa­das, e cha­mou a aten­ção da an­tiga men­tora do ar­tista vi­sual Joseph Beuys, a ba­ro­nesa Durini, que desde en­tão tem apoi­ado a car­reira de Emanuel Pimenta.

Um ponto alto desta foi, re­cen­te­mente, a ópera elec­tró­nica «Dante», ba­se­ada na «Divina Comédia» de Dante Aligheri, de cujo li­breto foi tam­bém o autor.

Aqui fi­cam al­guns frag­men­tos das três par­tes deste ou­tro feito de di­men­sões cosmo-metafísicas, «Hell», «Purgatory» e «Paradise»…

→ 08/02/2013 @18:43

Estamos todos a ficar Hikikomori

Primeiro veio o aviso de Alvin Toffler, em «The Third Wave» (1980): o de­sen­vol­vi­mento da tec­no­lo­gia no sen­tido da por­ta­bi­li­dade e da sua uti­li­za­ção do­més­tica ia per­mi­tir que o tra­ba­lho pu­desse ser feito em casa e não, ne­ces­sa­ri­a­mente, num open space empresarial.

No des­pon­tar da dé­cada se­guinte, esta já era uma re­a­li­dade so­cial e eco­nó­mica. Com um com­pu­ta­dor, li­ga­ção à Internet, um en­de­reço de email e um te­le­fone fixo ou um te­le­mó­vel, mui­tos de nós fo­ram man­da­dos dos es­cri­tó­rios para os seus apartamentos.

Hikikomori

Depois, impôs-se a pre­ca­ri­e­dade como forma de la­bo­ra­ção: em vez de em­pre­gar os seus «co­la­bo­ra­do­res» (uma in­fe­liz de­sig­na­ção para re­fe­rir que o as­sa­la­ri­ado ape­nas co­la­bora, es­tando o nú­cleo das em­pre­sas nos seus ser­vi­ços ad­mi­nis­tra­ti­vos e de ges­tão), o sis­tema cor­po­ra­tivo pas­sou a en­co­men­dar ser­vi­ços externos.

Surgia o es­ta­tuto de «tra­ba­lha­dor in­de­pen­dente», pre­cá­rio, sem re­mu­ne­ra­ções men­sais fi­xas e sem di­reito a sub­sí­dio de de­sem­prego no caso de os «cli­en­tes» se mu­da­rem para a Tunísia ou para a China.

Finalmente, com a crise glo­bal dos sis­te­mas mo­ne­tá­rios e dos mer­ca­dos, veio a vul­ga­ri­za­ção do de­sem­prego. Quem tra­ba­lhava em casa, fi­cou em casa sem o que fa­zer. A sua, se ainda a con­se­gue man­ter, a casa dos pais, se nela ha­via um can­ti­nho para onde pu­desse vol­tar, ou ape­nas um quarto alu­gado na flo­resta de cimento.

 

Enclausuramento

Hikikomori

Este pro­cesso que já leva três dé­ca­das con­du­ziu não só a uma re­for­mu­la­ção das no­ções de mi­gra­ção e de es­paço em meio ur­bano, com a fí­sica e prá­tica de­li­mi­ta­ção dos mes­mos em ter­mos de qui­ló­me­tros e até me­tros, como tam­bém a um fe­nó­meno de enclausuramento.

Se um tu­ba­rão obri­gado a pa­rar (preso numa rede, por exem­plo) morre, no ser hu­mano a clau­sura, seja por tra­ba­lhar no pró­prio lo­cal onde dorme e come, seja por­que não tem tra­ba­lho nem di­nheiro que lhe per­mita sair além da om­breira da porta, tem sido um fac­tor de as­so­ci­a­bi­li­dade e, no li­mite, de loucura.

E de lou­cura por­que o pró­prio fe­cha­mento min­gua. Começa pelo quarto e acaba den­tro da ca­beça. São mui­tos já os que vi­vem no in­te­rior das suas men­tes, jul­gando vo­gar sem fato de as­tro­nauta em imen­sos cosmos.

Não ter es­paço equivale-se, as­sim, a ter todo o es­paço do universo…

Acresce que, a es­tes fa­to­res de pro­pi­ci­a­ção do en­co­lhi­mento hu­mano, e por­que há quem não aguente a vi­o­lên­cia e o stress de vi­ver em so­ci­e­dade e de se man­ter «útil» no en­qua­dra­mento de uma eco­no­mia re­gu­lada pela com­pe­ti­ção, são cada vez mais aque­les que de­sis­tem de mover-se mesmo po­dendo fazê-lo.

Preferem fechar-se no seu abrigo a sete cha­ves, tornando-o numa pri­são voluntária.

Se no Ocidente ainda não se re­co­nhece a ago­ra­fo­bia como uma do­ença ca­pi­ta­lista, no Japão identificou-se esta nova pa­to­lo­gia com a de­sig­na­ção Hikikomori, dando-lhe um maior sig­ni­fi­cado: a pa­la­vra é tra­du­zí­vel por Retirada, o que quer di­zer tudo.

Retirarmo-nos é, hoje, o mais ra­di­cal, o mais re­vo­lu­ci­o­ná­rio (ou tal­vez o mais re­a­ci­o­ná­rio) gesto que pode ha­ver. É um «não» ro­tundo, ainda que, na maior parte dos ca­sos, te­nha sido in­du­zido e não seja pro­pri­a­mente um ato de liberdade.

Há cada vez mais pes­soas re­ti­ra­das no mundo, Portugal in­cluído. Pessoas que ra­ra­mente saem de casa, que pro­cu­ram não distanciar-se de­ma­si­ado. Porque se sen­tem in­se­gu­ras, alvo de um pos­sí­vel ata­que ou de um de­sa­li­nha­mento en­tró­pico do nor­mal fun­ci­o­na­mento das coisas.

É claro que há vá­rios ti­pos de Hikikomori. Os Retirados mais gra­ves são aque­les que se re­cu­sam a sair da cama ou que le­vam ho­ras de­baixo do chu­veiro. Os que, ape­sar de tudo, ainda não cor­ta­ram la­ços com o ex­te­rior «ligam-se» atra­vés da World Wide Web e das cha­ma­das re­des sociais.

Mas fazem-no por­que se trata de uma abs­tra­ção. Na re­a­li­dade vir­tual, não há nin­guém nem nada do ou­tro lado. As pes­soas a quem se pos­sam di­ri­gir não têm rosto, não exis­tem. Não são ape­nas os Retirados que se en­con­tram nessa si­tu­a­ção: to­dos nós con­ver­sa­mos con­nosco mes­mos, den­tro do te­a­tro alu­ci­na­tó­rio da Rede neuronal.

Estes Hikikomori são voyeu­rís­ti­cos, vêem o que está lá fora como um peep show. As exis­tên­cias, as ro­ti­nas e até as in­ti­mi­da­des caughtbus­ted dos ou­tros, aque­les que ainda «fun­ci­o­nam», são ce­nas de um filme. Com o es­pe­ta­dor de fora, afas­tado e resguardado.

E não são re­ais mesmo que uma rés­tia de ra­zão tente con­fir­mar a sua efe­ti­vi­dade – trata-se, isso sim, de pro­je­ções ima­gi­ná­rias, re­a­li­za­das numa in­ter­zone, uma zona de transição.

 

Micronacionalismo e es­paço interior

Simon Sellars

Simon Sellars

A es­tes pe­que­ni­nos ter­ri­tó­rios psico-arquitectónicos chama o en­saísta Simon Sellars «mi­cro­na­ções». Cada Retirado que se bar­rica na sala-de-estar é uma nação.

Para a sua ar­gu­men­ta­ção, Sellars debruçou-se so­bre os ro­man­ces do es­cri­tor que pre­viu isto tudo an­tes que qual­quer ou­tro o fi­zesse, o que acon­te­ceu desde a dé­cada de 1960: J.G. Ballard.

Esse mesmo, o au­tor de fic­ção ci­en­tí­fica (de facto, muito mais do que desse gé­nero li­te­rá­rio) que David Cronenberg («Crash») e Steven Spielberg («Empire of the Sun») trans­pu­se­ram para o ci­nema. O me­nino in­glês de Xangai que Hirohito me­teu num campo de con­cen­tra­ção e que, já adulto, ex­pe­ri­men­ta­ria ma­jes­to­sas ere­ções ao ob­ser­var os cor­pos es­tro­pi­a­dos que emer­giam das cha­pas re­tor­ci­das de bru­tais aci­den­tes de automóvel.

Tinha mesmo de ser um fic­ci­o­nista a fazê-lo, e não um so­ció­logo, um psi­có­logo, um neu­ro­lo­gista, um eco­no­mista, um fi­ló­sofo ou um pen­sa­dor po­lí­tico. Só vê quem olha para mais longe, quem fantasia.

J.G. Ballard

J.G. Ballard

Em pro­sas como «Thirteen to Centaurus», «The Ultimate City», «Running Wild», «Rushing to Paradise», «Kingdom Come» e ou­tras tan­tas, Ballard foi cons­truindo o que Marc Augé de­sig­nou por «an­tro­po­lo­gia da pro­xi­mi­dade». Não-espaços sub­me­ti­dos à in­di­vi­du­a­li­dade solitária…

O certo é que mesmo os es­tu­di­o­sos da obra de Ballard não com­pre­en­de­ram as im­pli­ca­ções da con­di­ção Hikikomori tanto quanto o pró­prio. A chave para en­ten­der o mi­cro­na­ci­o­na­lismo bal­lar­di­ano está no seu con­ceito de «es­paço in­te­rior», um lu­gar que es­capa a to­das as ló­gi­cas que a te­o­ria da re­la­ti­vi­dade de Einstein pro­cu­rou explicar.

Uma casa fe­chada não é mais do que a an­te­câ­mara de um ca­sulo men­tal. Este mudo en­lou­que­ci­mento Cronenberg e Spielberg nunca po­de­riam fil­mar. O que há a ver só pode ser visto por dentro.

Nesse «uni­verso pa­ra­do­xal, o so­nho e a re­a­li­dade fundem-se um no ou­tro, e se cada um re­tém a sua qua­li­dade dis­tin­tiva, de al­gum modo as­sume o pa­pel do seu oposto, de modo que o ne­gro é si­mul­ta­ne­a­mente branco», es­cre­veu J.G. Ballard, o vi­si­o­ná­rio da catástrofe.

 

Nota fi­nal

Como não po­dia dei­xar de ser, há uma mú­sica Ballard e até uma mú­sica Hikikomori. Na área da pop e do rock encontram-na no «Closer» dos de­pres­si­vos Joy Division, em «High Rise» dos pe­dra­dís­si­mos Hawkwind,  em «Miss the Girl» dos Creatures de Siouxsie Sioux, em «Video Killed the Radio Star» e «Vermillion Sands» de The Buggles e em «Down in the Park» de Gary Numan, en­tre ou­tros ca­sos que vão de John Foxx até Madonna.

E a par­tir de 21 de Fevereiro te­re­mos mais duas obras bal­lar­di­a­nas, desta feita nos do­mí­nios do ex­pe­ri­men­ta­lismo ele­tro­a­cús­tico. São lan­ça­dos, numa edi­ção con­junta Soopa/Fundação de Serralves, o CD «Irregular Characters» de Marc Behrens e o DVD «Mundo de Cristal, Máquina da Selva», de Jonathan UIiel Saldanha. Em am­bos os ca­sos re­sul­tando de par­ti­ci­pa­ções num ci­clo de­di­cado por Serralves, em 2010, ao escritor.

Refugiem-se nos vos­sos la­res, se não têm ou­tra hi­pó­tese, mas oi­çam e ve­jam o que aqui vai. O disco do mú­sico ale­mão re­si­dente no Porto in­clui um bo­o­klet com uma sé­rie de boas his­tó­rias de sua au­to­ria, com per­so­na­gens à Ballard.

→ 06/01/2013 @21:05

Hacking e antitecnologias de resistência

Jon Wozencroft

Jon Wozencroft

O que re­al­mente fas­ci­nava Roland Barthes e Julia Kristeva não eram os sím­bo­los e os sig­nos por si mes­mos, mas as curto-circuitagens que ad­vi­nham de cer­tas re­la­ci­o­na­ções en­tre eles. Essas der­ra­pa­gens de sen­tido le­va­ram o fo­tó­grafo e de­sig­ner grá­fico Jon Wozencroft, um dos res­pon­sá­veis da edi­tora dis­co­grá­fica Touch Music, a «ves­tir» os CDs de mú­sica ele­tró­nica da eti­queta bri­tâ­nica com ca­pas em que en­con­tra­mos pai­sa­gens na­tu­rais e apa­ren­te­mente in­to­ca­das pelo homem.

A con­teú­dos re­gra ge­ral di­gi­tais, com­pu­ta­do­ri­za­dos, com re­curso a sons sin­té­ti­cos e de cri­a­ção ar­ti­fi­cial, cor­res­pon­dem ima­gens de um mundo sem cul­tura e sem tec­no­lo­gia. Um mundo de­sa­bi­tado em que os úni­cos se­res ver­ti­cal­mente er­gui­dos são as árvores.

Jon Wozencroft

Foto: Jon Wozencroft

Outra com­bi­na­ção sim­bó­lica de efeito dis­rup­tivo com se­me­lhan­tes im­pli­ca­ções é aquela que po­de­mos fa­zer en­tre o «A» maiús­culo com cír­culo à volta que iden­ti­fica a Anarquia e o «a» mi­nús­culo tam­bém com cír­culo à volta dos en­de­re­ços in­ter­né­ti­cos de co­mu­ni­ca­ção, sendo a World Wide Web tal­vez a mais im­por­tante fer­ra­menta ci­ber­né­tica do pre­sente es­tá­dio do ca­pi­ta­lismo global.

Esta maiús­cula e esta mi­nús­cula não po­diam re­pre­sen­tar do­mí­nios mais di­ver­sos da ati­vi­dade hu­mana, mas trans­fe­rir para o sím­bolo tec­no­ló­gico as ca­rac­te­rís­ti­cas do sím­bolo po­lí­tico é como der­ru­bar um ni­nho de ves­pas com um pau.

Porque pen­sar na pos­si­bi­li­dade de exis­tên­cia de uma tec­no­lo­gia anar­quista é algo que co­loca às aves­sas tudo o que se en­tende hoje so­bre as má­qui­nas que te­mos ao nosso ser­viço e a Máquina que to­das jun­tas com­põem e que nos co­loca a nós ao seu dis­por, e tam­bém por­que al­guns li­ber­tá­rios en­ten­dem que para ha­ver Anarquia é pre­ciso des­truir a tecnologia.

Toda a tec­no­lo­gia, dos re­ló­gios de ponto nas fá­bri­cas e nos es­cri­tó­rios aos iPho­nes com que fa­la­mos nos trans­por­tes e nos res­tau­ran­tes como se não hou­vesse gente à volta. Passando, claro está, pe­los sis­te­mas in­for­má­ti­cos sem os quais jul­ga­mos já não sa­ber viver.

 

Laptops e aves

John Zerzan

John Zerzan

No ima­gi­ná­rio da Touch os lap­tops e as aves da flo­resta pa­re­cem co­e­xis­tir pa­ci­fi­ca­mente, mas a força com­bi­nada das ima­gens e do áu­dio fun­ci­ona ape­nas por­que há um con­flito inerente.

Sem qual­quer tipo de pan­fle­ta­rismo, sub­til­mente, é este o «sta­te­ment mo­ral»,  a «vi­são do mundo», que Wozencroft criou para este pro­jeto que en­tende a tec­no­lo­gia mu­si­cal de forma não con­for­mista, ofe­re­cendo aos in­te­res­sa­dos obras re­a­li­za­das pe­los seus au­to­res com pro­ces­sos, téc­ni­cas e con­cei­tos que sub­ver­tem as pró­prias fer­ra­men­tas utilizadas.

Mika Vainio, Christian Fennesz, Chris Watson, Biosphere, Hafler Trio, Ryoji Ikeda e Philip Jeck são al­guns dos ar­tis­tas so­no­ros as­so­ci­a­dos a este propósito.

No que aos usos pre­sen­tes da tec­no­lo­gia diz res­peito, Wozencroft insurge-se con­tra o facto de não se fo­men­tar uma ati­tude de «edi­ção» quando as pes­soas ad­qui­rem, por exem­plo, uma câ­mara de ví­deo, sendo pelo con­trá­rio en­co­ra­ja­das a «imi­tar»: «O com­pu­ta­dor con­du­ziu a uma cul­tura de ka­ra­oke.»

Mas não é pro­pri­a­mente uma uti­li­za­ção cri­a­tiva ge­ne­ra­li­zada dos meios di­gi­tais que o men­tor da Touch pre­co­niza. Wozencroft des­con­fia das am­plas «de­mo­cra­ti­za­ções» pro­me­ti­das pela tec­no­lo­gia capitalista:

«Porque tudo pode ser feito com uma works­ta­tion, desde com­po­si­ção mu­si­cal a ima­gem em mo­vi­mento, há a su­po­si­ção de que to­dos o po­dem e de­vem re­a­li­zar. Isso se­ria um pro­blema eco­ló­gico de pri­meira or­dem. Muitos de­sig­ners grá­fi­cos que­rem fa­zer fil­mes e CDs e não há como demovê-los disso. Os de­sig­ners que­rem ser os ca­na­li­za­do­res do sé­culo XXI, ar­ran­jando as fu­gas dos de­fei­tu­o­sos ca­nos da co­mu­ni­ca­ção cor­po­ra­tiva e co­brando for­tu­nas pelo pri­vi­lé­gio.»

O pas­to­ra­lismo fo­to­grá­fico da edi­tora tem tudo para fa­zer as de­lí­cias dos Primitivistas deste es­tra­nho iní­cio do sé­culo XXI, mas o ob­je­tivo é ape­nas cons­ti­tuir uma lin­gua­gem de opo­si­ção «ao que é meta-isto e tecno-aquilo». As pai­sa­gens da Touch Music são «gra­va­ções at­mos­fé­ri­cas» e tam­bém «in­dí­cios fo­rên­si­cos».

Nunca o Unabomber ha­ve­ria de apre­ciar as pul­sa­ções me­ca­ni­za­das e re­pe­ti­ti­vas de Ikeda ou os pro­ces­sa­men­tos ele­tró­ni­cos de Geir Jenssen (Biosphere) so­bre sons re­co­lhi­dos no Tibete. Nem se­quer a in­qui­e­tude mu­si­cal des­tes ar­tis­tas con­ven­ce­ria o ma­te­má­tico tor­nado ter­ro­rista Ted Kaczynski.

Agora a cum­prir pena de pri­são, de­pois de ter as­sas­si­nado três pes­soas e fe­rido cerca de 30 com as suas pe­que­nas bom­bas en­vi­a­das por correio.

 

Mau sel­va­gem

Tim Sloan

A ca­bana onde o Unabomber vi­veu é o prin­ci­pal ar­te­facto da ex­po­si­ção «G-Men and Journalists», em Washington (Foto: Tim Sloan)

Ao con­trá­rio do bloco anarco-primitivista, o Unabomber de­seja um re­gresso ao pe­ríodo an­tes da Revolução Agrícola (pois: an­tes da Revolução Industrial já ha­via tec­no­lo­gia!) não por­que tem dele uma vi­são he­do­nista e de con­cór­dia, mas por­que era um tempo de luta sem tré­guas e de sangue.

Se o re­gresso à na­tu­reza de John Zerzan, um en­ge­nheiro ar­re­pen­dido, e seus se­gui­do­res pode pa­re­cer idió­tico, pois im­pli­ca­ria a ne­ces­si­dade de uma di­mi­nui­ção em 98% da po­pu­la­ção mun­dial, o pro­posto pelo ma­ni­festo de Kaczynski é ainda mais perigoso.

Qual a di­fe­rença? Os zer­za­nis­tas acre­di­tam que o pró­prio co­lapso do sis­tema ca­pi­ta­lista le­vará à ex­tin­ção da maior parte da hu­ma­ni­dade, en­quanto o ne­ga­tivo de Thoreau (tal como este, recolhia-se numa ca­bana na mon­ta­nha) gos­ta­ria, com cer­teza, de aju­dar na carnificina.

David KaczynskiHá ou­tro fa­tor dis­tin­tivo: Kaczynski não é anar­quista – não tem como prin­cí­pio da sua crí­tica do in­dus­tri­a­lismo e da “ci­vi­li­za­ção” uma ob­je­ção re­la­tiva à exis­tên­cia de go­ver­nos e de Estados – e cri­tica mesmo o Primitivismo de ban­deira verde e ne­gra por ser «esquerdista».

O seu ódio aos com­pu­ta­do­res só tem ri­val no des­dém que de­dica à ge­ne­ra­li­dade das es­quer­das e à pró­pria no­ção de «esquerda».

Os stills na­tu­ra­lis­tas de Jon Wozencroft não são os cap­ta­dos pe­las re­ti­nas do Unabomber e de Zerzan. «Falam», isso sim, de uma con­ver­são li­ber­ta­dora da tecnologia.

Uma con­ver­são que te­ria de pas­sar tanto pela adap­ta­ção dos ma­qui­nis­mos e dos seus pro­pó­si­tos como por uma re­du­ção dos apa­ra­tos e até das ve­lo­ci­da­des processuais.

Por mais di­fí­cil que esta se anun­cie: afi­nal, o po­der da ci­ber­né­tica atin­giu tal grau de com­ple­xi­dade e om­ni­pre­sença que o ne­o­li­be­ra­lismo vi­gente em quase todo o globo, a «Máquina Abstrata» de Tiqqun, é ainda mais to­ta­li­tá­rio do que fo­ram a Alemanha nazi, o es­ta­li­nismo so­vié­tico e a China da Revolução Cultural.

Uma so­ci­e­dade do­mi­nada por má­qui­nas é uma so­ci­e­dade em que fal­tam pos­tos de tra­ba­lho, ape­lando esta ver­tente a uma in­ter­ven­ção dos fun­da­men­tos so­ci­a­lis­tas da Anarquia e à ca­pa­ci­dade de esta trans­for­mar os cir­cuns­tan­ci­a­lis­mos do de­sem­prego nas con­di­ções do la­zer. Sobre tal muito es­cre­veu já Bob Black, ainda que numa pers­pe­tiva de «pós-esquerda» não muito alheia aos pre­con­cei­tos do Unabomber.

É, igual­mente, uma so­ci­e­dade em que as di­tas má­qui­nas ser­vem para con­for­mar e re­pri­mir, e tal ca­rac­te­rís­tica con­vida a uma re­vi­vi­fi­ca­ção de todo o his­to­rial anti-autoritário do anar­quismo e à for­ma­ção de no­vas apli­ca­ções. Alexander Brener e Barbara Schurz designam-nas como «an­ti­tec­no­lo­gias de resistência».

Estas abran­gem o campo das ar­tes e têm vá­rias pro­pri­e­da­des, cui­da­do­sa­mente enu­me­ra­das pe­los dois pensadores.

 

Nem, nem, nem

Devem sur­gir em con­tex­tos lo­cais es­pe­cí­fi­cos, para um de­sem­pe­nho mais efi­caz. Devem con­tem­plar a ação do corpo, pela cir­cuns­tân­cia de os cor­pos se­rem o con­trá­rio das má­qui­nas («não são má­qui­nas de de­sejo, nem má­qui­nas de guerra, nem má­qui­nas de po­der»), tendo como con­di­ção «des­truí­rem as suas fun­ções, saí­rem dos seus con­tor­nos e en­tra­rem em con­tra­di­ção con­sigo mes­mos»).

Devem pro­por­ci­o­nar ati­vi­da­des «sel­va­gens», in­tro­du­zindo o acaso na or­dem es­ta­be­le­cida. Devem as­pi­rar à não-produtividade e à des­con­ti­nui­dade, dado que o oposto tem­po­ral desta re­sul­tou na «his­tó­ria dos ven­ce­do­res» a que se re­fe­ria Walter Benjamin.

Devem ainda con­tra­riar a sa­tis­fa­ção ética e es­té­tica, en­ten­dida como uma porta de en­trada para o fas­cismo. Devem es­ca­par a qual­quer ten­ta­tiva de do­cu­men­ta­ção nor­ma­tiva. Devem bus­car a não-originalidade, de modo a re­cu­sar o triunfo «ori­gi­nal» de uns e a con­se­quente obe­di­ên­cia de ou­tros ao seu «vanguardismo».

Em suma, de­vem ser as an­ti­tec­no­lo­gias de uma anti-arte, como que «um peido numa ver­nis­sage».

Ora, há má­qui­nas que não são ne­ces­sá­rias e po­dem ser des­car­ta­das e há má­qui­nas que ainda não exis­tem e é pre­ciso in­ven­tar, sendo que, em grande parte, as já exis­ten­tes ser­vem aos bo­los de PM e às fe­de­ra­ções de Proudhon, de­pen­dendo do modo como são utilizadas.

E o certo é que to­das elas são pas­sí­veis de fun­ci­o­na­men­tos ou­tros que não os ori­gi­nal­mente in­ten­ci­o­na­dos. O hac­king de hard­waresoft­ware (ou dito de ou­tra ma­neira: o es­ven­tra­mento de me­ca­nis­mos e pro­gra­mas para sua cor­re­ção e oti­mi­za­ção cri­a­ti­vas) é o pi­lar da Anarquia ci­ber­né­tica já em curso, em prol de uma re­a­li­dade em que la­gos cris­ta­li­nos e cir­cui­tos in­te­gra­dos não são dois pla­nos opos­tos da realidade.

No âm­bito da in­ven­ção as pos­si­bi­li­da­des são imen­sas, seja por ten­ta­tiva e erro, à des­co­berta, como fa­zem os cha­ma­dos ben­ders (os en­tu­si­as­tas do cir­cuit ben­ding, por exem­plo), como por co­nhe­ci­mento de causa, com os cada vez mais nu­me­ro­sos sá­bios sem di­ploma, ade­ren­tes ao mi­li­tante prin­cí­pio do Do It Yourself, que rou­bam à classe dos tec­nó­lo­gos e ci­en­tis­tas a es­pe­ci­a­li­za­ção que a tor­nou num novo ba­lu­arte do Poder.

A Máquina Abstrata pode pre­ver o que es­capa ao seu con­trolo, neu­tra­li­zando essa perda, e pode até re­cu­pe­rar o que à par­tida a con­tra­diz. Existe me­lhor exem­plo do que o punk anar­quista tor­nado num bem co­mer­cial do ca­pi­ta­lismo, tal como, de resto, pre­via o mui­tís­simo es­perto Malcolm McLaren?

Por acaso sim: a Internet, que co­me­çou por ser um dis­po­si­tivo mi­li­tar para se tor­nar numa pla­ta­forma nó­mada de ideias, com um apa­rente grande po­ten­cial sub­ver­sivo, mas que o sis­tema gere para cir­cuns­cri­ção dos cir­cui­tos co­mu­ni­can­tes, para do­mes­ti­ca­ção dos con­teú­dos e para vi­gi­lân­cia das ame­a­ças e dos “des­vios” em maior evidência.

O exem­plo da Internet com­prova, in­clu­sive, que na ci­ber­né­tica ca­pi­ta­lista nada há que por si só possa ser­vir a li­ber­dade. A go­ver­na­ção tec­no­ló­gica só se serve a si mesma.

É um bom si­nal que exis­tam ne­tla­bels in­de­pen­den­tes de mú­sica cri­a­tiva, mas isso só não chega. É bom que se possa des­car­re­gar gra­tui­ta­mente da Web a bi­bli­o­gra­fia bá­sica do anar­quismo, mas de que vale ver­da­dei­ra­mente isso? Pouco.

 

Entropia

O que im­porta é sa­bo­tar a Máquina com as suas dis­fun­ci­o­na­li­da­des, que é o que dis­tin­gue a ele­tró­nica glitch, ex­plo­ra­dora das fa­lhas ope­ra­ci­o­nais, di­vul­gada pela Touch, mas tam­bém pe­las edi­to­ras Raster-Noton e Mego. O que im­porta é pro­vo­car si­tu­a­ções de panne, de ava­ria, de lou­cura ma­qui­nal. Situações de en­tro­pia, se­jam elas quais fo­rem e em que do­mí­nio forem.

É as­sim que os hac­kers (não os in­fo­pi­ra­tas que tra­ba­lham para pro­veito pró­prio, mas os afi­ci­o­na­dos da cos­tu­mi­za­ção que de­di­cam as suas ino­va­ções a to­dos os de­mais) cons­troem má­qui­nas sel­va­gens e muito concretas.

Por isso se de­se­nha e co­loca em cir­cu­la­ção soft­ware que subs­ti­tui o fa­bri­cado nos la­bo­ra­tó­rios das mul­ti­na­ci­o­nais mo­no­po­lis­tas, como é o caso de Julien Ottavi. É com tal ob­jec­tivo que se abrem as gui­tar­ras para as pôr a fa­zer sons di­fe­ren­tes e que se en­si­nam os ou­tros a fazê-lo, que é o que ca­rac­te­riza John Hegre.

Também este tipo de in­ter­ven­ções é en­tró­pico. E tal como es­cre­veu Tiqqun, «a lei na­tu­ral que tem o nome de en­tro­pia é o in­ferno da ci­ber­né­tica».

Nicolas Collins

Nicolas Collins

Na mú­sica, o hac­king tem um equi­va­lente ao «Anarchist Cookbook» que subs­ti­tui os re­ló­gios de­to­na­do­res por fer­ros de sol­dar. Intitula-se «Handmade Electronic Music» e foi es­crito por Nicolas Collins.

Não se trata de uma tese fi­lo­só­fica ou de uma car­ti­lha de in­ten­ções, mas de um ma­nual de pro­ce­di­men­tos prá­ti­cos. Não é um «li­vro ver­me­lho», mas um guia de ati­vismo musical-tecnológico. Um con­vite à «trans­for­ma­ção cri­a­tiva da ele­tró­nica de con­sumo para usos al­ter­na­ti­vos».

Não há te­o­ria, mas in­di­ca­ções passo-a-passo so­bre como mon­tar um mi­cro­fone de con­tacto, um os­ci­la­dor ma­ni­pu­lá­vel por luz, um con­trolo re­moto que dis­para fe­ed­backs ou uma ca­beça de lei­tura mag­né­tica ca­paz de “to­car” um car­tão de cré­dito, en­tre mui­tas ou­tras possibilidades.

Rafael Toral

Rafael Toral

Collins é uma das mais im­por­tan­tes fi­gu­ras da se­gunda ge­ra­ção de inventores/compositores sur­gi­dos nos Estados Unidos, de­pois da­quela re­pre­sen­tada por um David Behrman, que não por acaso as­sina o pre­fá­cio da obra.

É um ho­mem de ob­je­ti­vos, como man­ter as coi­sas sim­ples, ba­ra­tas e «es­tú­pi­das», no sen­tido de que o que in­te­ressa é soar bem aos ou­vi­dos, não pro­pri­a­mente es­ta­be­le­cer um novo pa­ra­digma para a en­ge­nha­ria sonora.

Graças a pi­o­nei­ros como Nicolas Collins há hoje quem faça mú­sica com dis­po­si­ti­vos de cri­a­ção pró­pria (em Portugal te­mos os ca­sos de Rafael Toral, André Gonçalves, Gustavo Costa, João Martins e ou­tros tan­tos), não raro coin­ci­dindo essa par­ti­cu­la­ri­dade com uma com­pleta au­to­ges­tão da ati­vi­dade mu­si­cal que in­clui auto-edição e auto-agenciamento.

Em lado ne­nhum do li­vro se re­fere a causa anar­quista, mas isto é anar­quismo vivenciado.

Bem que Wozencroft po­dia in­cluir Collins numa das suas fo­tos de pla­ní­cies e va­les, mas por es­tra­nho que pa­reça a Touch nunca lan­çou um CD do mú­sico. Há equa­ções sim­bó­li­cas cuja ocor­rên­cia se torna não só ne­ces­sá­ria como ur­gente – es­pe­re­mos que ele se aper­ceba disso.

→ 13/12/2012 @0:37

Google dos anos 60

Estão a ver como eram os com­pu­ta­do­res no prin­cí­pio da dé­cada de 60?

Máquinas enor­mes com me­nos ca­pa­ci­dade de me­mó­ria e de pro­ces­sa­mento que os atu­ais no­te­bo­oks? De como o ar­ma­ze­na­mento de in­for­ma­ção em dis­cos mag­né­ti­cos era uma no­vi­dade? De como em mui­tos ca­sos eram ainda ne­ces­sá­rias as ve­lhas uni­da­des de fita mag­né­tica para ar­ma­ze­nar in­for­ma­ções? E os sis­te­mas de car­tões per­fu­ra­dos para pas­sar in­for­ma­ção para o com­pu­ta­dor, mais len­tos que uma tar­ta­ruga sonolenta?

Google dos anos 60

Agora a parte re­al­mente di­ver­tida: como se­ria tra­ba­lhar com o Google nes­sas con­di­ções? Que as­peto te­ria, que in­for­ma­ções sur­gi­riam no ecrã, o que te­ría­mos de fa­zer para ob­ter os resultados?

Estas res­pos­tas são-nos da­das pelo tra­ba­lho da em­presa de web­de­sign, pro­gra­ma­ção e con­sul­ta­do­ria mass:werk com o «Google60: um pro­jeto ar­tís­tico que ex­plora dis­tân­cias e o he­roísmo dos in­ter­fa­ces do uti­li­za­dor» –  e um fa­bu­loso exer­cí­cio de cri­a­ti­vi­dade geek. Link

→ 11/10/2012 @13:31

Caça-fantasmas

Jim Jupp e Julian House (do ar­tigo Ghost Box: Music haun­ted by me­mo­ries)

Já cha­ma­ram de music-hall con­crète ao ca­tá­logo da Ghost Box, edi­tora fun­dada por Julian House (o de­sig­ner das ca­pas dos Primal Scream e dos Stereolab), e muito es­pe­ci­al­mente ao tra­ba­lho apre­sen­tado pelo Focus Group.

E isso por­que trans­forma o con­cre­tismo, no que este tem de mais dis­tin­tivo, a des­con­tex­tu­a­li­za­ção dos sons, numa prá­tica de ín­dole popular.

Sendo ex­pe­ri­men­tal, a mú­sica con­tida em «Sketches and Spells» e «Hey Let Loose Your Love» (no player) tem a di­men­são do easy lis­te­ning.

Numa pri­meira au­di­ção, po­de­ría­mos pen­sar neste pro­jeto como um pa­rente do pla­gi­a­rismo dos Tape-Beatles ou de John Oswald, e mais ainda do de People Like Us, o he­te­ró­nimo com que Vicki Bennett re­vi­sita au­di­o­vi­su­al­mente a dé­cada do baby boom ame­ri­cano, pois tal como es­tes procede-se à co­la­gem de mú­si­cas já existentes…

Não só os pro­pó­si­tos são ou­tros (o acento não está no ato da pi­lha­gem e na re­con­ver­são de re­ady ma­des mu­si­cais em ou­tros ob­je­tos), como os pro­ce­di­men­tos prá­ti­cos se cen­tram nos pró­prios sons, para só de­pois in­ci­di­rem na forma não-linear e até frag­men­tá­ria como são organizados.

O que re­sulta é ao mesmo tempo fa­mi­liar e es­tra­nho. Há aqui algo da so­no­ri­dade tí­pica da ele­tró­nica uni­ver­si­tá­ria de há 30 anos, o que tem mais que ver com a forma do que com o con­teúdo, ou seja, trata-se de um clin d’oreille.

Do mesmo modo vão-se so­mando rít­mi­cas e am­bi­ên­cias do jazz, mas mais como ele­men­tos es­po­rá­di­cos de fi­gu­ra­ção do que ou­tra coisa, en­tre mui­tos pu­xões de ore­lhas e pis­ca­de­las de olho.

 

Trabalho de arqueologia

Eric ZannJá se disse que o Focus Group (além de House, uns tais de Belbury Poly e Eric Zann, con­sis­tindo es­tes, afi­nal, em ape­nas uma pes­soa, Jim Jupp) lida com sen­ti­men­tos de nos­tal­gia, dado uti­li­zar como ma­te­ri­ais res­tos des­car­ta­dos do pas­sado, mas será mais ver­da­deiro di­zer que este é um tra­ba­lho de arqueologia.

Ainda que não se trate de DJing, nem se­quer de sam­pling mu­sic en­quanto es­tilo à parte, es­tes dois EPs se­guem a mesma lógica.

A base de da­dos de Bennett são os anos 1950 e os me­dia yan­kees.

A do Focus Group são os 70 e seus equi­va­len­tes bri­tâ­ni­cos, com um gosto muito es­pe­cial pe­los se­ri­a­dos te­le­vi­si­vos da BBC e suas ban­das so­no­ras, a mú­sica aci­den­tal pas­sada nos dra­mas ra­di­o­fó­ni­cos, os li­brary re­cords e ainda os dis­cos de apren­di­za­gem para crianças.

Talvez haja por aqui uma ati­tude re­tro, mas mesmo que o com­pu­ta­dor seja a fer­ra­menta uti­li­zada, House não gosta do ca­rá­ter clean dos sam­ples di­gi­tais, pre­fe­rindo o bad lo­o­pingde ou­tros tempos.

A Ghost Box lembra-nos tam­bém que o uso da ele­tri­ci­dade e da tec­no­lo­gia na mú­sica tem um lado pol­ter­geist.

Desde a in­ven­ção dos ci­lin­dros, dos gra­mo­fo­nes, dos gra­va­do­res de bo­bi­nas, da rá­dio e da te­le­vi­são que se fala em men­sa­gens vin­das do Além, e é isso o que os ar­tis­tas desta edi­tora in­glesa pro­cu­ram fa­zer pas­sar, o mais não seja metaforicamente.

Ora, um dos uten­sí­lios de Eric Zann (nome que H.P. Lovecraft deu à per­so­na­gem de uma das suas his­tó­rias, um vi­o­le­tista com do­tes tão do ou­tro mundo que acaba por en­trar nele) é pre­ci­sa­mente a rá­dio, a que junta os­ci­la­do­res, gra­va­ções de vá­rias pro­ve­ni­ên­cias e muito tra­ba­lho de processamento.

«Ouroborindra» é o me­nos sam­pla­dé­lico dos lan­ça­men­tos deste ca­tá­logo, aproximando-se mais da mú­sica con­creta «eru­dita» do que do easy lis­te­ning das res­tan­tes edições.

Muitos dos ma­te­ri­ais po­dem ser os mes­mos do Focus Group, como por exem­plo a so­no­ri­dade dos sin­te­ti­za­do­res vin­tage das dé­ca­das de 1960 e 70, mas se nas mon­ta­gens da­quele as brus­cas mu­dan­ças de con­teúdo e o lo­o­ping es­tru­tu­rante são ca­rac­te­rís­ti­cas ha­bi­tu­ais, em Eric Zann procura-se que as si­tu­a­ções se­di­men­tem e dei­xem las­tro; oiça-se, aliás, o que Jupp faz com as amos­tras so­no­ras de um sitar.

 

Muzak

O pró­prio tempo é ge­rido de ou­tra forma, com de­sen­vol­vi­men­tos mais len­tos, sendo este CD até o mais longo de to­dos os referidos.

Jim Jupp adota uma pos­tura to­tal­mente dis­tinta sob o pseu­dó­nimo Belbury Poly – «The Willows» é synth mu­sic de pas­ti­lha elás­tica feita com co­mer­ci­ais e ge­né­ri­cos ra­di­o­fó­ni­cos e te­le­vi­si­vos, uma mu­zak fal­sa­mente ins­tru­men­tal (por­que não há pro­pri­a­mente ins­tru­men­tos, mas ma­ni­pu­la­ção de re­gis­tos mag­né­ti­cos) e fal­sa­mente Seventies, pois tem um es­tilo e uma pa­tine to­tal­mente for­ja­dos, mais mu­zak e mais Seventies do que o gé­nero e aquele pe­ríodo mu­si­cal pre­ten­de­ram al­guma vez sê-lo.

Tal e qual como um tran­se­xual é mais mu­lher do que qual­quer mu­lher nas­cida com uma fenda em vez de um penduricalho.

Continua a pa­re­cer a banda so­nora de um filme de fic­ção ci­en­tí­fica, mas esta po­de­ria ter o nome de Raymond Scott como au­tor, en­quanto «Ouroborindra» nos re­mete para a cena dos ma­ca­cos em «2001 Odisseia no Espaço».

Mini do pro­jeto The Advisory Circle, no qual é de su­por que Jupp tam­bém es­teja en­vol­vido (não há in­for­ma­ção con­creta so­bre tal), «Mind How You Go» tem mais do mesmo, ainda que com ou­tro grau de sub­ti­leza, referenciando-se di­re­ta­mente nas «for­ças in­vi­sí­veis» da ele­tri­ci­dade que nos ro­deiam e atravessam.

E é as­sim que, em obras que se pre­ten­dem aces­sí­veis, se re­tém um dos mais dis­tin­ti­vos fa­to­res que de­fi­nem a mú­sica: o mistério…

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