
Jon Wozencroft
O que realmente fascinava Roland Barthes e Julia Kristeva não eram os símbolos e os signos por si mesmos, mas as curto-circuitagens que advinham de certas relacionações entre eles. Essas derrapagens de sentido levaram o fotógrafo e designer gráfico Jon Wozencroft, um dos responsáveis da editora discográfica Touch Music, a «vestir» os CDs de música eletrónica da etiqueta britânica com capas em que encontramos paisagens naturais e aparentemente intocadas pelo homem.
A conteúdos regra geral digitais, computadorizados, com recurso a sons sintéticos e de criação artificial, correspondem imagens de um mundo sem cultura e sem tecnologia. Um mundo desabitado em que os únicos seres verticalmente erguidos são as árvores.

Foto: Jon Wozencroft
Outra combinação simbólica de efeito disruptivo com semelhantes implicações é aquela que podemos fazer entre o «A» maiúsculo com círculo à volta que identifica a Anarquia e o «a» minúsculo também com círculo à volta dos endereços internéticos de comunicação, sendo a World Wide Web talvez a mais importante ferramenta cibernética do presente estádio do capitalismo global.
Esta maiúscula e esta minúscula não podiam representar domínios mais diversos da atividade humana, mas transferir para o símbolo tecnológico as características do símbolo político é como derrubar um ninho de vespas com um pau.
Porque pensar na possibilidade de existência de uma tecnologia anarquista é algo que coloca às avessas tudo o que se entende hoje sobre as máquinas que temos ao nosso serviço e a Máquina que todas juntas compõem e que nos coloca a nós ao seu dispor, e também porque alguns libertários entendem que para haver Anarquia é preciso destruir a tecnologia.
Toda a tecnologia, dos relógios de ponto nas fábricas e nos escritórios aos iPhones com que falamos nos transportes e nos restaurantes como se não houvesse gente à volta. Passando, claro está, pelos sistemas informáticos sem os quais julgamos já não saber viver.
Laptops e aves

John Zerzan
No imaginário da Touch os laptops e as aves da floresta parecem coexistir pacificamente, mas a força combinada das imagens e do áudio funciona apenas porque há um conflito inerente.
Sem qualquer tipo de panfletarismo, subtilmente, é este o «statement moral», a «visão do mundo», que Wozencroft criou para este projeto que entende a tecnologia musical de forma não conformista, oferecendo aos interessados obras realizadas pelos seus autores com processos, técnicas e conceitos que subvertem as próprias ferramentas utilizadas.
Mika Vainio, Christian Fennesz, Chris Watson, Biosphere, Hafler Trio, Ryoji Ikeda e Philip Jeck são alguns dos artistas sonoros associados a este propósito.
No que aos usos presentes da tecnologia diz respeito, Wozencroft insurge-se contra o facto de não se fomentar uma atitude de «edição» quando as pessoas adquirem, por exemplo, uma câmara de vídeo, sendo pelo contrário encorajadas a «imitar»: «O computador conduziu a uma cultura de karaoke.»
Mas não é propriamente uma utilização criativa generalizada dos meios digitais que o mentor da Touch preconiza. Wozencroft desconfia das amplas «democratizações» prometidas pela tecnologia capitalista:
«Porque tudo pode ser feito com uma workstation, desde composição musical a imagem em movimento, há a suposição de que todos o podem e devem realizar. Isso seria um problema ecológico de primeira ordem. Muitos designers gráficos querem fazer filmes e CDs e não há como demovê-los disso. Os designers querem ser os canalizadores do século XXI, arranjando as fugas dos defeituosos canos da comunicação corporativa e cobrando fortunas pelo privilégio.»
O pastoralismo fotográfico da editora tem tudo para fazer as delícias dos Primitivistas deste estranho início do século XXI, mas o objetivo é apenas constituir uma linguagem de oposição «ao que é meta-isto e tecno-aquilo». As paisagens da Touch Music são «gravações atmosféricas» e também «indícios forênsicos».
Nunca o Unabomber haveria de apreciar as pulsações mecanizadas e repetitivas de Ikeda ou os processamentos eletrónicos de Geir Jenssen (Biosphere) sobre sons recolhidos no Tibete. Nem sequer a inquietude musical destes artistas convenceria o matemático tornado terrorista Ted Kaczynski.
Agora a cumprir pena de prisão, depois de ter assassinado três pessoas e ferido cerca de 30 com as suas pequenas bombas enviadas por correio.
Mau selvagem

A cabana onde o Unabomber viveu é o principal artefacto da exposição «G-Men and Journalists», em Washington (Foto: Tim Sloan)
Ao contrário do bloco anarco-primitivista, o Unabomber deseja um regresso ao período antes da Revolução Agrícola (pois: antes da Revolução Industrial já havia tecnologia!) não porque tem dele uma visão hedonista e de concórdia, mas porque era um tempo de luta sem tréguas e de sangue.
Se o regresso à natureza de John Zerzan, um engenheiro arrependido, e seus seguidores pode parecer idiótico, pois implicaria a necessidade de uma diminuição em 98% da população mundial, o proposto pelo manifesto de Kaczynski é ainda mais perigoso.
Qual a diferença? Os zerzanistas acreditam que o próprio colapso do sistema capitalista levará à extinção da maior parte da humanidade, enquanto o negativo de Thoreau (tal como este, recolhia-se numa cabana na montanha) gostaria, com certeza, de ajudar na carnificina.
Há outro fator distintivo: Kaczynski não é anarquista – não tem como princípio da sua crítica do industrialismo e da “civilização” uma objeção relativa à existência de governos e de Estados – e critica mesmo o Primitivismo de bandeira verde e negra por ser «esquerdista».
O seu ódio aos computadores só tem rival no desdém que dedica à generalidade das esquerdas e à própria noção de «esquerda».
Os stills naturalistas de Jon Wozencroft não são os captados pelas retinas do Unabomber e de Zerzan. «Falam», isso sim, de uma conversão libertadora da tecnologia.
Uma conversão que teria de passar tanto pela adaptação dos maquinismos e dos seus propósitos como por uma redução dos aparatos e até das velocidades processuais.
Por mais difícil que esta se anuncie: afinal, o poder da cibernética atingiu tal grau de complexidade e omnipresença que o neoliberalismo vigente em quase todo o globo, a «Máquina Abstrata» de Tiqqun, é ainda mais totalitário do que foram a Alemanha nazi, o estalinismo soviético e a China da Revolução Cultural.
Uma sociedade dominada por máquinas é uma sociedade em que faltam postos de trabalho, apelando esta vertente a uma intervenção dos fundamentos socialistas da Anarquia e à capacidade de esta transformar os circunstancialismos do desemprego nas condições do lazer. Sobre tal muito escreveu já Bob Black, ainda que numa perspetiva de «pós-esquerda» não muito alheia aos preconceitos do Unabomber.
É, igualmente, uma sociedade em que as ditas máquinas servem para conformar e reprimir, e tal característica convida a uma revivificação de todo o historial anti-autoritário do anarquismo e à formação de novas aplicações. Alexander Brener e Barbara Schurz designam-nas como «antitecnologias de resistência».
Estas abrangem o campo das artes e têm várias propriedades, cuidadosamente enumeradas pelos dois pensadores.
Nem, nem, nem
Devem surgir em contextos locais específicos, para um desempenho mais eficaz. Devem contemplar a ação do corpo, pela circunstância de os corpos serem o contrário das máquinas («não são máquinas de desejo, nem máquinas de guerra, nem máquinas de poder»), tendo como condição «destruírem as suas funções, saírem dos seus contornos e entrarem em contradição consigo mesmos»).
Devem proporcionar atividades «selvagens», introduzindo o acaso na ordem estabelecida. Devem aspirar à não-produtividade e à descontinuidade, dado que o oposto temporal desta resultou na «história dos vencedores» a que se referia Walter Benjamin.
Devem ainda contrariar a satisfação ética e estética, entendida como uma porta de entrada para o fascismo. Devem escapar a qualquer tentativa de documentação normativa. Devem buscar a não-originalidade, de modo a recusar o triunfo «original» de uns e a consequente obediência de outros ao seu «vanguardismo».
Em suma, devem ser as antitecnologias de uma anti-arte, como que «um peido numa vernissage».
Ora, há máquinas que não são necessárias e podem ser descartadas e há máquinas que ainda não existem e é preciso inventar, sendo que, em grande parte, as já existentes servem aos bolos de PM e às federações de Proudhon, dependendo do modo como são utilizadas.
E o certo é que todas elas são passíveis de funcionamentos outros que não os originalmente intencionados. O hacking de hardware e software (ou dito de outra maneira: o esventramento de mecanismos e programas para sua correção e otimização criativas) é o pilar da Anarquia cibernética já em curso, em prol de uma realidade em que lagos cristalinos e circuitos integrados não são dois planos opostos da realidade.
No âmbito da invenção as possibilidades são imensas, seja por tentativa e erro, à descoberta, como fazem os chamados benders (os entusiastas do circuit bending, por exemplo), como por conhecimento de causa, com os cada vez mais numerosos sábios sem diploma, aderentes ao militante princípio do Do It Yourself, que roubam à classe dos tecnólogos e cientistas a especialização que a tornou num novo baluarte do Poder.
A Máquina Abstrata pode prever o que escapa ao seu controlo, neutralizando essa perda, e pode até recuperar o que à partida a contradiz. Existe melhor exemplo do que o punk anarquista tornado num bem comercial do capitalismo, tal como, de resto, previa o muitíssimo esperto Malcolm McLaren?
Por acaso sim: a Internet, que começou por ser um dispositivo militar para se tornar numa plataforma nómada de ideias, com um aparente grande potencial subversivo, mas que o sistema gere para circunscrição dos circuitos comunicantes, para domesticação dos conteúdos e para vigilância das ameaças e dos “desvios” em maior evidência.
O exemplo da Internet comprova, inclusive, que na cibernética capitalista nada há que por si só possa servir a liberdade. A governação tecnológica só se serve a si mesma.
É um bom sinal que existam netlabels independentes de música criativa, mas isso só não chega. É bom que se possa descarregar gratuitamente da Web a bibliografia básica do anarquismo, mas de que vale verdadeiramente isso? Pouco.
Entropia
O que importa é sabotar a Máquina com as suas disfuncionalidades, que é o que distingue a eletrónica glitch, exploradora das falhas operacionais, divulgada pela Touch, mas também pelas editoras Raster-Noton e Mego. O que importa é provocar situações de panne, de avaria, de loucura maquinal. Situações de entropia, sejam elas quais forem e em que domínio forem.
É assim que os hackers (não os infopiratas que trabalham para proveito próprio, mas os aficionados da costumização que dedicam as suas inovações a todos os demais) constroem máquinas selvagens e muito concretas.
Por isso se desenha e coloca em circulação software que substitui o fabricado nos laboratórios das multinacionais monopolistas, como é o caso de Julien Ottavi. É com tal objectivo que se abrem as guitarras para as pôr a fazer sons diferentes e que se ensinam os outros a fazê-lo, que é o que caracteriza John Hegre.
Também este tipo de intervenções é entrópico. E tal como escreveu Tiqqun, «a lei natural que tem o nome de entropia é o inferno da cibernética».

Nicolas Collins
Na música, o hacking tem um equivalente ao «Anarchist Cookbook» que substitui os relógios detonadores por ferros de soldar. Intitula-se «Handmade Electronic Music» e foi escrito por Nicolas Collins.
Não se trata de uma tese filosófica ou de uma cartilha de intenções, mas de um manual de procedimentos práticos. Não é um «livro vermelho», mas um guia de ativismo musical-tecnológico. Um convite à «transformação criativa da eletrónica de consumo para usos alternativos».
Não há teoria, mas indicações passo-a-passo sobre como montar um microfone de contacto, um oscilador manipulável por luz, um controlo remoto que dispara feedbacks ou uma cabeça de leitura magnética capaz de “tocar” um cartão de crédito, entre muitas outras possibilidades.

Rafael Toral
Collins é uma das mais importantes figuras da segunda geração de inventores/compositores surgidos nos Estados Unidos, depois daquela representada por um David Behrman, que não por acaso assina o prefácio da obra.
É um homem de objetivos, como manter as coisas simples, baratas e «estúpidas», no sentido de que o que interessa é soar bem aos ouvidos, não propriamente estabelecer um novo paradigma para a engenharia sonora.
Graças a pioneiros como Nicolas Collins há hoje quem faça música com dispositivos de criação própria (em Portugal temos os casos de Rafael Toral, André Gonçalves, Gustavo Costa, João Martins e outros tantos), não raro coincidindo essa particularidade com uma completa autogestão da atividade musical que inclui auto-edição e auto-agenciamento.
Em lado nenhum do livro se refere a causa anarquista, mas isto é anarquismo vivenciado.
Bem que Wozencroft podia incluir Collins numa das suas fotos de planícies e vales, mas por estranho que pareça a Touch nunca lançou um CD do músico. Há equações simbólicas cuja ocorrência se torna não só necessária como urgente – esperemos que ele se aperceba disso.