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→ 22/01/2012 @19:00

Abelha Maya

Eu já devia ter aprendido que quando me chega aos ouvidos um disparate anti-científico divulgado na televisão o melhor é desligar e seguir em frente.

Para quê chatear-me? O Universo continuará a ser regido por leis físicas, independentemente das tretalogias medievais que nos dizem o contrário; o Universo permanecerá indiferente à nossa presença, sejam quais forem as convicções egocêntricas sobre a importância central da nossa espécie.

Eu já devia ter aprendido, mas não aprendo. Fico furioso. Passo-me da cabeça.

A última irresponsabilidade televisiva teve como protagonista uma astróloga, Maya. Também é uma «tárologa» – chamam-na assim por ser uma especialista em cartas Tarot, mas eu prefiro definir uma tárologa como uma pessoa que é tarada, tarada por astrologia.

Tarada no sentido Alcina Lameiras do termo: não sei se lembram (eu não – e tive de corrigir o post), Alcina é uma espécie de astróloga que durante demasiado tempo surgiu num spot televisivo a dizer-nos «não negue à partida uma ciência que não conhece».

Infelizmente, a especialista em calos cósmicos Maya não seguiu o conselho da guru Alcina e decidiu, em direto na televisão, negar à partida uma ciência que não conhece: a medicina.
 

O calo da questão

Depois de receber um telefonema de uma mulher que estava acamada por ter fraturado a bacia, Maya aconselhou-a a ir a uma clínica, pois precisava de «ser operada para ser tratada convenientemente.

A sua situação tem solução, mas não está ser bem conduzida, de todo».

Depois sugeriu à mulher que contrariasse as ordens do médico e saísse da cama: «O repouso absoluto não está a pôr as coisas no lugar. E agora como é que o osso cola? É estando deitadinha? E se o osso ganha calo no sítio errado?»

Ilustração: Nelson Santos

Eu não estou obviamente qualificado para explicar seja o que for na área da ortopedia, mas parece-me que Maya brincou demasiado aos médicos quando era pequenina e está agora a aplicar tudo o que aprendeu.

Se uma boneca se partia e fazia dói-dói, a doutora Maya curava com cola UHU; tantos anos depois, o método não variou: se um osso se parte, é preciso colá-lo.

 

Não negue à partida um joanete que não conhece

Esqueçam o papel dos osteoclastos, células de «limpeza» dos ossos fraturados, ponham de parte os angioblastos, células de reparação responsáveis pela formação de novos vasos sanguíneos dentro do osso; nem sequer se atrevam a pensar nos osteoblastos, as células que dão origem a novo tecido ósseo e que levam à formação de calo ósseo nas zonas afetadas, em suma, não se informem.

Esqueçam essas trapalhadas medicinais e confiem no doutor Júpiter que tirou um diploma na Universidade de Kuiper: para Maya, uma fratura não passa de um joanete mais complicadinho. Dito por outras palavras: cara fratura, não negue à partida um joanete que não conhece.

 

Ser livre é um aborrecimento

Enfim, para quê chatear-me? Deveria ficar surpreendido por ver astrólogos na televisão e raramente ver astrónomos?

Maya é uma astróloga, ou seja, partilha da irracional convicção de que corpos celestes localizados a milhares ou milhões de quilómetros de distância têm uma misteriosa e determinante influência sobre o nosso destino, a nossa personalidade e as nossas escolhas. E sendo a especialista em interpretar esses sinais, é ela quem acaba por influenciar o destino, a personalidade e as escolhas de quem acredita em Astrologia.

Terão essas pessoas assim tanto medo de fazer as suas próprias escolhas ou de serem livres que até preferem deixar as suas decisões nas mãos de astrólogos, cartomantes e outros pseudos?

Enfim, da próxima vez que alguém tiver partido a perna e te disser «Ui, até vi estrelas», não penses que é apenas uma força de expressão: também pode ser um diagnóstico diferencial da Maya.

→ 21/01/2012 @17:18

Criaturas em Vénus, ceticismo na Terra

Se ainda não deram com a notícia, deixem estar, a notícia irá dar convosco.

E a notícia é a seguinte: cientista russo encontrou seres vivos nas fotos do planeta Vénus. O cientista chama-se Leonid Ksanfomaliti, é Doutor em Ciências Físicas e Matemática, escreveu já mais de 300 artigos científicos e trabalha no Instituto de Estudos Espaciais da Academia Russa de Ciências.

O artigo no qual defende esta hipótese publicou-o numa revista de Astronomia russa, Astronomicheskiy Vestnik.

Não sei se Ksanfomaliti descobriu criaturas venusianas. O que se conhece são excertos do artigo divulgados nos media. O cientista afirma – depois de ter analisado fotografias panorâmicas da sonda Venera 13 – ter descoberto «objetos de um tamanho entre 10 a 50 centímetros que apareciam, desapareciam ou sofriam mutações».

«A presença desses objetos nas imagens», conclui Ksanfomaliti, «dificilmente pode ser explicado por interferências».

Se esses «objetos» não podem ser explicados por interferências, então só podem ser criaturas extraterrestres – certo?

O escorpião venusiano

Ksanfomaliti está convencido que sim. Nos nove panoramas transmitidos pela Venera em março de 1982, vislumbrou um objeto semelhante a um «disco», outro parecia «uma mancha preta» e um terceiro fazia lembrar um «escorpião».

«Pondo de parte os conceitos atuais de que não pode existir vida nas condições de Vénus, vamos audaciosamente sugerir que as características morfológicas desses objetos nos permitem dizer que estão vivos», escreve Ksanfomaliti.

 

Fantástico, só falta verificar e provar tudo

O artigo de Ksanfomaliti pode bem vir a ser a descoberta ou o engano do século; em última análise, poderá ser um bom princípio de discussão sobre os nossos velhos preconceitos biológicos quando reduzimos as possibilidades de vida extraterrestre à «vida tal como a conhecemos» – não é, de forma nenhuma, o anúncio de uma descoberta de seres vivos em Vénus.

Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias, dizia Sagan; da mesma forma, títulos extraordinários exigem factos extraordinários. Até ver, as únicas criaturas venusianas que conheço são os oucher-poucher.

→ 09/12/2011 @11:06

Ai Jazus que descobriram um ET

Esperem, esperem, esperem. Estou tão excitado com esta revelação que os dedinhos até me tremem no teclado. É melhor respirar fundo e proceder de imediato à contextualização desta história.

Já ouviram falar do caso Roswell? No dia 7 de Julho de 1947, um disco voador despenhou-se numa zona desértica perto da pequena localidade de Roswell, no Novo México. Os destroços da nave e os corpos dos seus ocupantes extraterrestres foram recuperados por elementos da Força Aérea dos Estados Unidos, que os esconderam numa base situada na fatídica Área 51.

(Os livros policiais têm sempre um mordomo, as histórias de ET’s têm sempre uma Área 51.)

Nunca ouviram falar? Caramba, até se «descobriu» um filme da autópsia realizada aos extraterrestres, revelado ao mundo por um aldrabão de falinhas mansas chamado Ray Santilli.

Pronto. Agora que respirei fundo, regresso a esta foto. Está-se mesmo a ver que este ET todo tostadinho é um dos que se despenharam em Roswell. Os sítios da tretatologia estão a fervilhar de entusiasmo por causa desta imagem – os  misteriosos números verde-matrix ainda a tornam mais plausível e os círculos vermelhos desenhados em redor fazem-na parecer um cacho de segredos.

Portanto aqui há gato – e não é o do Schrödinger.

Os tais sítios da tretalogia cósmica – especialistas na plantação de rabanetes nos canais de Marte e nas filosofias tântricas dos esquentadores a gás – dizem que um homem chamado Leonard Dobson descobriu que usando um processo designado como «Digital Pictogram Scan» é possível tornar visível o invisível em todas as fotografias – e assim se chegou à espantosa descoberta!

O Bitaites também descobriu que se usarmos um processo chamado «é humanamente impossível serem tão idiotas», em combinação com outro, «ao menos googlem essa merda e não escrevam disparates», é possível descobrir que a foto do ET queimado em Roswell…

… faz parte do portefólio de um cavalheiro chamado Norman J. Cabrera. O Norman é um artista de efeitos especiais especializado em criar monstrinhos e outras coisas tenebrosas para filmes de terror e de ficção científica, e até criou uma empresa, a Shadowmill Productions.

Digital Pictogram Scan? Uau.

→ 09/12/2011 @9:56

Pseudos e aeróbicas quânticas

(Texto originalmente escrito para os nossos amigos do AstroPT e agora roubado para aqui)

Eu sou jornalista e vou aproveitar a minha posição privilegiada como observador social – desculpem, deixem-me aclarar a garganta – para explicar algumas ideias sobre pseudos, botelhos e aeróbicas quânticas.

Também tenho o hábito de arranjar sempre um pretexto para mencionar a Scarlett Johansson nos posts que escrevo para o AstroPT e quero aproveitar a oportunidade para revelar que não são referências gratuitas, mas insistências do «astrólogo do Texas».

Também eu tenho bons motivos. Considerem o fator distância e a rapariga em questão. Um cartógrafo leitor da revista Caras poderá dizer-me, com ar cético, «tu com a Scarlett? A mansão dela na Califórnia encontra-se a mais de 9 mil quilómetros, pá». Um geólogo encolherá os ombros, com ar enfadado: «a Scarlett? Duas placas tectónicas até lhe pores as mãozinhas em cima!»

Contudo, se eu perguntar a um astrónomo, é provável que este sugira observar as estrelas através de um telescópio e anuncie: «9 mil quilómetros? Isso não é nada! Olha para isto. À escala cósmica, é como se tu e a Scarlett estivessem enroscadinhos no bem-bom. Parabéns!»

Portanto aproveito este momento no AstroPT para agradecer à Astronomia tudo o que tem feito pela qualidade da minha vida sexual imaginária.

 

Física Quântica para tolinhos

Ainda não consegui largar as larachas porque me preparo para meter a Física Quântica ao barulho e isso deixa-me sempre à rasca porque percebo tanto de Física Quântica como a Laura Botelho.

Ao escrever aqui sinto-me como se fosse o gato de Schrödinger e o AstroPT a própria caixinha: tanto posso escrever disparates, escrever coisas acertadas ou fazer ambas em simultâneo – depende da pessoa que estiver a ler.

A Física Quântica faz parte da nossa vida, isso até a mim parece óbvio. Os conceitos da Mecânica Quântica são a base de sustentação deste mundo tecnológico que nos rodeia. De certa forma, descobrimos que Deus não é o único que está em todo o lado.

Os cientistas conseguiram compreender uma área que, tal como um polvo, tem agora os seus braços estendidos em muitas outras aplicações do conhecimento, desde lasers, passando pela estrutura das proteínas, e acabando em transístores (a eletrónica, como computadores ou microscópios, beneficiou imenso com esta área científica).

Mas é uma área de estudo e investigação tramada, desconcertante e desafiadora até para os próprios físicos. Aos leigos curiosos mas sem bases matemáticas, resta interpretar as palavras que os cientistas conseguem arranjar para transmitir uma ideia, o mais aproximada possível, de fenómenos que só podem ser descritos através da linguagem matemática. Recorrem a alegorias, metáforas, analogias, a tudo o que lhes permita evitar um pelotão de números e fórmulas.

Também vou recorrer a uma analogia para explicar-vos, físicos e matemáticos, a forma como o leigo se relaciona com que lhe é dito sobre Física Quântica.

Esse relacionamento não é diferente do que temos com a música: podemos adorar o que estamos a ouvir, podem fazer sentido notas e harmonias, mas não sabendo cantar, tocar um instrumento e não conhecendo as notas, ser-nos-á impossível reproduzi-la com exatidão.

Podemos cantarolar a música, tal como podemos «cantarolar» a Física Quântica, conseguindo algumas aproximações ao material original, mas só uma plateia de surdos se deixará convencer de que temos «unhas» para tocar um instrumento e reproduzir uma sinfonia quando só aprendemos dois acordes.

É assim que vejo pessoas como a Laura Botelho: leigos que se transformaram em «especialistas» e que por vaidade, dinheiro, desejo de poder ou mera insanidade de inspiração divino-reptilínea, procuram convencer uma plateia de surdos de que são capazes de reproduzir uma sinfonia de Mahler ou uma «oração» de Coltrane com dois acordes de guitarra.

Especialistas que tiram «cursos científicos» instantâneos e se predispõem a dar «workshops» de Física Quântica relacionam-na, sem qualquer pudor, com acontecimentos que aquela jamais descreveu ou se debruçou. Têm sucesso porque, quando o lago é pequeno, é muito mais fácil parecer um peixe graúdo. E o lago do conhecimento científico, infelizmente, é mesmo pequeno.

 

Mundos alternativos

O que faz uma pessoa razoavelmente inteligente noutros aspetos da sua vida a procurar orientação nestes «especialistas» em vez de procurar informar-se com cientistas? Talvez por a Ciência se recusar a responder às perguntas erradas. Dito de outra forma, por não ter em conta a religiosidade do ser humano e a sua propensão para a fantasia, e por ser muito cautelosa nas divagações.

A minha criança, sempre muito curiosa em relação à Astronomia, perguntou-me uma vez durante um daqueles documentários do National Geographic: «Pai, o que havia antes do Big Bang?» Este parece-me um exemplo de uma dessas perguntas que a Física não pode responder porque, filhota, o Tempo surgiu com o Big Bang e portanto, não havendo Tempo, não faz sentido mencionar um «antes» ou um «depois».

Parece-me compreensível que as pessoas procurem dar sentido ao que está para além do horizonte – e é aí normalmente que as imaginações costumam descobrir deuses a tomar um chazinho sentados numa nuvem piroclástica.

Os pseudos-cientistas apropriam-se da Ciência e fazem-se passar por autoridades em buracos negros e anãs castanhas disfarçados de cometas, anjos ou demónios tecnológicos a que chamam extraterrestres, misteriosos alinhamentos galácticos que por sua vez são alinhados com misteriosas profecias do passado, por aí fora – aceitam todas as premissas erradas e são especialistas em respondê-las. Oferecem o bolo existencial completo e regam-no com o doce e inebriante vinho da conspiração.

O que de outra forma seria incompreensível sem estudo torna-se de fácil e rápido entendimento. E, assim, este mundo cheio de mistérios e contradições começa a fazer sentido outra vez. Não admira por isso que teorias fantasistas, sempre fáceis e acessíveis e luminosas, sejam encaradas como «reais» e a realidade, complicada e trabalhosa e muitas vezes dececionante, seja olhada com desconfiança.

Conspiradores sem credibilidade como a Laura Botelho só me merecem desprezo, mas sinto pena das pessoas que se deixam levar por palestras de Aeróbica Quântica.

 

Partículas de Deus e outras ansiedades

Uma das características que mais me toca no pouco que consegui entender de Física Quântica é pensar que um eletrão se pode comportar como uma partícula ou uma onda, ou como ambas em simultâneo – mas só podermos determinar o seu estado quando o observamos.

É difícil para um leigo evitar cair na tentação de estabelecer uma associação livre e direta entre a consciência do observador (o cientista) e este fenómeno, sem cair em extrapolações metafísicas. É como se estas implicações da Física Quântica o levassem a pensar que, a nível sub-atómico, as partículas estão todas coladas umas às outras com a saliva de Deus.

Devido à sua importância e ao carácter «fantasmagórico» e primordial dos fenómenos que estuda, o leigo pode procurar na Física Quântica respostas às suas dúvidas e ansiedades religiosas.

A quântica não tem culpa nenhuma de que lhe sejam colocadas tantas expectativas metafísicas.

Mesmo quando o físico Leon Lederman chamou ao bosão de Higgs «a partícula de Deus» não o fez com o objetivo de dar uma dimensão religiosa à Física, mas para transmitir aos leigos a importância de uma eventual descoberta dessa partícula (Lederman também é conhecido pelo sentido de humor e o jeito em cunhar expressões excelentes para títulos de jornal).

 

Flutuações quânticas

Uma vez que a dimensão «religiosa» das revelações esteja estabelecida, é muito difícil abrir os olhos às pessoas e apontar-lhes as contradições do seu «guru».

Por exemplo, a Laura Botelho parte das peculiaridades da Física Quântica já referidas para concluir que «não se pode prever nada nesta vida» (o que é o total oposto da realidade). No entanto, apesar de anunciar que não se pode prever nada, ela pouco mais faz do que sustentar profecias.

Tudo é permitido quando o sentido crítico se desvanece. Eu até posso sustentar que o meu cabelo, ao levantar-me de manhã, é um bom exemplo de «flutuação quântica» – mas no dia em que vos disser que estou mesmo a falar a sério estão à vontade para me internar, desde que não me coloquem na mesma sala que a Botelho.

Não sei portanto qual é a solução para esta batalha que se trava entre os que defendem o conhecimento e os que o atacam – nem sei, sequer, se deve ser imputada ao cientista a responsabilidade de não conseguir chegar a mais pessoas (embora esforços como o que se faz no AstroPT já provoquem os seus efeitos).

Se vivêssemos num mundo perfeito essa responsabilidade deveria ser assumida também pelos jornalistas, os principais responsáveis em filtrar a informação científica e transformá-la em material que o grande público possa entender.

Infelizmente, os media estão mais preocupados com a Astrologia do que com a Astronomia, com o Espiritualismo do que com a Física; e quando se interessam por Ciência é para anunciar, com pomposa ignorância, que a estrela Betelgeuse vai explodir em 2012 ou que foram anunciadas «provas irrefutáveis» da existência do Abominável Homem das Neves…

→ 10/10/2011 @22:59

O abominável jornalismo e o gajo das Neves

Se tivesse uma nota de 500 euros por cada vez que «cientistas» descobrem «provas irrefutáveis» da existência do Abominável Homem das Neves – Yéti, na Rússia; Big Foot, nos EUA – já seria um multimilionário. Mas a notícia foi avançada pelo Público, um «jornal de referência», por isso deve ser levada a sério – certo?

Enquanto aqueles «cientistas» estão entretidos a estudar as «pegadas» do Yéti, eu vou tentar seguir as pegadas da notícia.

 

Não foi tão difícil como pensava: teve origem num comunicado lançado pela Interfax às 20:07 do dia 9 de Outubro. A Interfax é uma agência de notícias focada em fornecer informação sobre a Rússia, a China e os mercados emergentes da Eurásia.

O comunicado original foi escrito em russo – e foram os media russos a pegar primeiro na história. O Pravda, por exemplo, colocou-a na secção «Ciência» e titulou: «Provada em 95 por cento a existência do Yéti na Rússia». Os 5 por cento que faltam, como se irá ver, são as provas científicas.

A redação deste comunicado original baseou-se em informações fornecidas por autoridades administrativas da região de Kemerovo, no sul da Sibéria, local onde a «equipa internacional de cientistas» se juntou para participar numa «Conferência Internacional Yéti» que fora anunciada a 23 de Setembro.

Depois de lançada pela Interfax e nos media russos, a notícia foi traduzida e publicada pela Agência France-Press (AFP) sem acrescentar mais nada; da AFP espalhou-se pelos media ocidentais e uma enorme série de websites.

Entre o comunicado original e a notícia do Público, não existe qualquer sinal de que a história tenha sido minimamente contextualizada, interpretada ou posta em causa. O Semanário Sol, por exemplo, apresenta o seguinte título: «Cidade russa diz ter provas inquestionáveis da existência do Abominável Homem das Neves». Desta vez não há cientistas, mas uma cidade cheia deles.

Isto leva-me a concluir que é mais fácil descobrir um Yéti escondido na Rússia do que um pensamento crítico numa notícia de jornal.

 

Uma história cheia de sumo, abdominável

Foram as autoridades locais a propor a conferência internacional e a sugerir que se convidassem investigadores internacionais para uma expedição à gruta Azasskaya, local onde se acredita que o monstro costuma pernoitar.

O vice-governador da região, Dmitri Islamov, é citado de forma indireta pelo Público, mas quem o citou realmente foi o jornalista Rick Dewsbury, do Daily Mail: «Não interessa que os Yétis não tenham sido encontrados» – afirmou Islamov. – «O que interessa é que as pessoas venham às montanhas Shoria e vejam como aqui a Natureza é única».

Declarações pouco entusiasmadas para quem acabou de ver uma equipa de cientistas apresentar «provas irrefutáveis» da existência do Yéti, não acham?

Esperem, afinal o Público fez confusão nas datas e referências: Islamov referia-se a uma expedição anterior, liderada pelo ex-campeão de pesos pesados, o pugilista Nikolai Valuyev, e que nada encontrara.

«Vi muitos jornalistas», declarou então Valuyev, «mas não vi nenhum Yéti

Mais tarde, um porta-voz do pugilista acrescentou que a expedição encontrara «vestígios» da presença da criatura: ramos partidos.

Escreve ainda o Daily Mail que a aventura do pugilista foi vista pelos habitantes locais como uma fantástica promoção turística da região.

Ramos partidos é uma evidência importante (quem mais os poderia partir?), portanto não admira que a expedição que se seguiu – e cujas descobertas são agora o foco destas notícias –  tenha também encontrado galhos e ramos partidos nas árvores, juntando-os à lista de «provas irrefutáveis».

Nada que possa causar muita surpresa. A conferência internacional que deu origem à expedição foi organizada pelo «doutor» Igor Burtsaev, diretor do International Hominology Centre de Moscovo. Não sabem o que é este centro? Eu também não, mas aposto que fica mesmo ao lado do edifício do Centro de Estudos Criptozoológicos dos Gambozinos.

Este «doutor» tem opiniões muito vincadas sobre o Yéti:

«Concluímos que estes seres são, em princípio, seres humanos porque eles até podem falar e comunicar com pessoas. São de uma espécie diferente da nossa, claro. Os Yétis estão bem adaptados à Natureza. O seu estilo de vida é semelhante ao dos animais. Não usam  ferramentas, roupas ou fogo mas são bastante inteligentes.

Possuem as suas próprias armas – capacidades paranormais que os ajudaram a sobreviver e competir com outros animais. Eles mudaram-se para outra dimensão – vida crepuscular e vida em locais dificilmente acessíveis».

Possuem linguagem, mas não têm ferramentas. Têm capacidades paranormais e saltitam entre dimensões, mas não dominam o fogo. E vivem no crepúsculo, como aquele vampiro que deixa as meninas doidas.

É notável o que se pode deduzir a partir de ramos partidos, pegadas por identificar e «cabelos» por analisar.

Sim, porque os ramos partidos não são as únicas provas que a expedição encontrou. Os «cientistas» também descobriram pelos e pegadas. Os pelos ainda não foram analisados em laboratório, portanto tenho alguma dificuldade em entender que possam ser apresentados como «provas irrefutáveis» antes sequer de termos a certeza a quem pertencem.

Para o incremento turístico da região até um pintelho do Abominável seria suficiente, mas do ponto de vista científico é tão válido dizer-se que os pelos pertencem ao gajo das Neves como afirmar-se que pertencem ao pugilista Nikolai Valuyev – o único ser vivo deste planeta capaz de pregar um cagaço a qualquer Yéti.

(ver outro post no AstroPT)

→ 20/09/2011 @18:22

A incrível história da múmia extraterrestre

Esqueçam os extraterrestres que se despenharam em Roswell e o filme da autópsia de Ray Santilli: esta é a múmia de um ET, descoberta no Peru.

Reza a história – apresentada ainda em muitos sítios de «investigação» como uma das provas para a existência de OVNIs  – que a foto foi tirada em 1972 por um membro de uma equipa da Universidade do Illinois numa visita feita a um museu privado em Arequipa.

Do Illinois? Terá sido o bandido do clister a fazer mais uma das suas?

Seja como for, a equipa foi «convidada» a conhecer uma sala «especial» e de acesso mais reservado onde a múmia estava em exibição.

Segundo os registos do museu, a múmia foi descoberta por um grupo de locais que exploravam uma cave «quase inacessível» situada numas montanhas perto de «Tree Cruces». Esperavam encontrar túmulos incas mas, em vez disso, depararam-se com o ET. A cave estava decorada com «estranhos símbolos de serpentes voadoras que explodiam no ar e depois caíam num rio».

«Infelizmente», quando a equipa de arqueólogos regressou ao museu, em 1996, descobriu que o edifício tinha ardido completamente e que «ladrões» haviam roubado «todos os artefatos».

E é bem feita, digo eu. Descobrem o corpo de um ET num museu em 1972, fotografam-no e depois demoram 24 anos a retomar a investigação? Os incompetentes só tiveram o que mereceram.

Como resultado, a localização atual da múmia permanece um mistério até hoje.

 

A tramoia

Felizmente para nós, o mistério da localização da múmia pode ser resolvido observando com atenção esta foto tirada no Museu Saffron Walden, em Essex, na Grã-Bretanha, a uma múmia egípcia com 1700 anos.

Localizámos a múmia perdida, mas o mistério adensa-se: como é possível que uma múmia extraterrestre surgida em 1972 no Peru, dada como desaparecida 24 anos depois, reapareça num museu britânico disfarçada de múmia egípcia? Quem foi o responsável pela operação plástica destinada a encobrir toda a verdade?

E por que raio nunca conseguimos encontrar o agente Mulder quando precisamos dele?

 

UFORNICATION

Existe outra teoria – um bocadinho rebuscada, é certo. Esta teoria sustenta que a múmia ali em cima pertence a uma criança de sexo não determinado que terá vivido 350 anos antes de Cristo. Quando os investigadores tentavam descobrir se a múmia era um rapaz ou uma rapariga, notaram sinais perturbadores de que a criança «morrera de forma violenta».

O que começou como uma investigação destinada a determinar o sexo de uma múmia acabou por tornar-se a descoberta de um crime ocorrido há mais de 1700 anos. Um caso demasiado horrível (e humano) para se discutir em românticas vigílias aos céus noturnos da Área 51.

Bem, então como explicar a múmia extraterrestre do Peru? A razão é simples: «eles» usaram um programa de edição de imagem do tipo Photoshop para disfarçar as feições extraterrestres da múmia, torná-la mais humana e levar-nos a acreditar que no Egipto, há 1700 anos, era habitual mumificar as pessoas. Quem no seu perfeito juízo acreditará em semelhante disparate?

E a prova de que a múmia peruana foi alterada para parecer uma múmia egípcia pode ser vista nesta montagem. «Eles» fazem tudo para encobrir a verdade.

→ 28/08/2011 @19:06

Deus em debate: Richard Dawkins e John Lennox

Este é um debate imprescindível para todos os que se preocupam com questões essenciais da nossa existência: quem somos, de onde vimos, para onde vamos, Deus existe?

Durante uma hora, dois cientistas que representam duas visões antagónicas do mundo, a ateísta e a cristã, debatem estas questões e, sobretudo, os temas principais contidos no livro The God Delusion (O Delírio de Deus, traduzido em Portugal para A Desilusão de Deus)

O representante do Ateísmo é, obviamente, o autor desse livro: o biólogo Richard Dawkins, fervoroso darwinista; o representante do Cristianismo é outro homem notável: John Lennox, professor de Matemática da Universidade de Oxford.

O objetivo do debate é saber quais destas duas visões – ateísta e cristã – é, na verdade, um delírio. Vale a pena perder uma hora e picos da nossa vida para assistir a este debate – e está (bem) legendado em português do Brasil.

Dizer NÃO à taxa