
Deep Web. A web das profundezas. A web escondida. A web de todos os perigos. A misteriosa web que nem motores de busca como o Google conseguem mostrar. Quando é mencionada em alguns sítios, parece ter saído de um pesadelo de Edgar Allan Poe.
Dizem as histórias que aceder à Deep Web é como estarmos na sala onde a verdadeira natureza da Matrix é revelada pela primeira vez a Neo.
O líder Morpheus, o hacker, o carismático fora da lei, mostra dois comprimidos e avisa o novato dos perigos da escolha:
«Tomas o comprimido azul – a história acaba, acordas na cama e acreditas no que quiseres acreditar; tomas o vermelho – permaneces no País das Maravilhas e mostro-te quão profunda é a toca do coelho.»
A toca do coelho existe e é, de facto, profunda: um estudo da BrightPlanet, empresa de software especializada na análise inteligente do fluxo de dados na Web, estimava que a informação contida na Deep Web era 400 a 500 vezes maior do que a existente na World Wide Web.
Mike Bergman, fundador da empresa e autor desse estudo, comparou o trabalho dos motores de busca tradicionais ao de um navio arrastando uma rede de pesca ao longo do mar: muitos peixes são capturados pelo arrastamento da rede através da superfície da água, mas os que vivem nas profundezas, muito mais numerosos, permanecem fora do alcance.
Não há nada de misterioso nisto, a não ser a constatação de que mecanismos de busca do tipo Google, por maior que seja o volume de informação que disponibilizam, têm limitações.
O que é realmente a Deep Web

A analogia do icebergue A Internet pesquisável pelo Google é a ponta do icebergue; a parte submersa, muito maior e longe da nossa vista, é a Deep Web. A analogia é tão comum como as histórias fantásticas de quem julgou explorá-la mas, tal como aquelas, não conta tudo.
Grande parte da Deep Web não é mais do que conteúdo armazenado em bases de dados pesquisáveis, cujos resultados são servidos em tempo real, em páginas dinâmicas, mas apenas quando solicitados. Sem um pedido direto, as bases de dados não publicam os resultados e o conteúdo mantém-se «invisível».
Motores de pesquisa como o Google, por outro lado, usam programas de rastreamento – crawls ou spiders – que seguem hiperligações, uma após outra, propagando-se como ondas num lago quando lhe lançamos uma pedra, ampliando os limites da sua indexação, link após link, a partir de um qualquer ponto de partida. O conteúdo só pode ser descoberto se for estático e as páginas estiverem hiperligadas a outras.
O próprio webmaster pode também editar o ficheiro robot.txt e escrever «disallow» para impedir que os motores de busca indexem uma determinada página — ou um conjunto delas. Por exemplo, se formos ao Google e escrevermos no campo de busca
“robots.txt” “disallow:” filetype:txt
é-nos devolvida uma série de resultados. Em certos casos, podemos determinar a morada que o webmaster não pretende ver indexada, como nos explica esta página.
A Internet «invisível» pode não ser tão invisível como parece. E há buscas que podem ser feitas com o sentido de orientação de um pirata experiente em alto mar.
Tão-pouco é necessário qualquer programa em especial para pesquisar conteúdo na Deep Web, basta usar as dezenas motores de busca especializados já existentes.
Benjamim Júnior, cofundador do Obvious, membro da Direção de Tecnologia do SAPO e professor de tecnologias dinâmicas para a Internet na Universidade de Aveiro:
«As pessoas assumem erradamente que se a informação que procuram não for localizada pelo Google é porque não existe. Como é óbvio, isso é falso; existe muita, muita informação espalhada nos diversos serviços e sistemas da Web.
Obviamente que haverá sempre espaço para as teorias da obscuridade relativamente à existência de locais fantásticos da Web, mas esses locais são uma consequência da sua vastidão e não da conjunção de variáveis místicas que criam uma passagem digna de Júlio Verne.»
O comprimido vermelho

O que as pessoas percecionam como uma «passagem de Júlio Verne» – o comprimido vermelho, diria Morpheus – nada tem a ver com o conceito de Deep Web, mas com a mistura de vários tipos de realidades: por um lado, o que não é pesquisável pelo Google; por outro, as várias redes criadas para descentralizar a informação e proteger a nossa privacidade na Internet.
Ameaças como os projetos ACTA (ver o post ACTA e nós, primeira e segunda partes) ou SOPA (consultar Sopa? Não, obrigado. Libertem o Justin Bieber) têm justificado a proliferação de redes de partilha protegidas.
Tais redes e programas sustentam-se em ligações encriptadas e permitem partilhar e comunicar de forma mais ou menos anónima. Por exemplo:
GnuNet — framework para ligações peer-to-peer seguras que não depende de qualquer serviço centralizado, permitindo a partilha de ficheiros de uma forma anónima, e sem censura;
OneSwarm — cliente de partilha de ficheiros compatível com BitTorrent criado por um grupo de investigadores no Departamento de Informática da Universidade de Washington. Permite criar redes sociais privadas, longe dos olhares indiscretos de representantes dos direitos de autor, numa infra-estrutura de rede descentralizada e encriptada;
RetroShare – através deste programa, também se pode partilhar ficheiros e comunicar com amigos em relativa segurança. Uma implementação de código aberto dos protocolos SSL e TLS, o OpenSSL, é usada para criptografar toda a comunicação;
Freenet – de Free Network, o que por si só revela as motivações ideológicas e políticas de Ian Clarke, o autor. Tal como outros programas semelhantes, permite a partilha de ficheiros de forma anónima e a criação de «sites livres», ou seja, sites só acessíveis pela rede Freenet;
I2P – outra rede do tipo «darknet», focada no anonimato, onde é possível comunicar e partilhar de forma segura. Todos os dados são encriptados e é possível usá-la para correio eletrónico, peer-to-peer, o velhinho IRC e outros protocolos.
E depois temos o Tor – acrónimo de The Onion Router, origem de muitas histórias e alguns mitos.
O Tor é o software usado por aqueles que falam dos horrores da Deep Net. Talvez por isso seja o mais conhecido e visto como a porta de entrada para esse mítico mundo das trevas. De uma forma simplificada, é uma rede de túneis HTTP (com TLS — Transport Layer Security). Os roteadores são os próprios computadores dos utilizadores.
Eduardo Pinto, do SAPO, um dos mentores do projeto CloudPT:
«Uma coisa é o que está acessível mediante pesquisa; outra, bem diferente, são as redes de partilha; outra, ainda mais diferente, é o Tor. A partilha anónima de ficheiros nada tem a ver com o conteúdo acessível ou não. As redes P2P permitem a partilha anónima, independentemente da natureza dos conteúdos.»
O Tor começou por ser desenvolvido no Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos; de 2004 e 2006 passou a receber o apoio da Electronic Frontier Foundation. Desde então tem sido mantido pelo The Tor Project, uma organização sem fins lucrativos.
A ideia é também garantir o anonimato de quem navega. À semelhança da Freenet, é possível criar sites que apenas são visíveis a quem se encontra nesta rede – os chamados sites Onion. Contudo, não é por usar o Tor que se passa a ter capacidades mágicas para pesquisar o que o Google não alcança.
Eduardo Pinto: «O Tor é uma forma anónima de navegar. Nada tem a ver com conteúdos. Quer se esteja ou não atrás de um proxy do Tor, o conteúdo que se vê é sempre o mesmo.»
Aceder à Deep Web em três simples passos

1. Descarregar o pacote Firefox com o Tor.
2. Correr o executável para extrair o ficheiro. Escolha um «sítio» para guardar a pasta que contém o programa – qualquer diretório serve. Clique no executável Start Tor Browser.exe – é uma versão artilhada do Firefox, preparada para aceder à rede Tor.
3. Abre-se a janela do Painel de Controlo. Depois a do Firefox. Uma página com um link para o projeto Tor e nenhuma indicação sobre o que fazer a seguir. Parabéns. Chegou à mítica Deep Web.
A página mais frequente da rede Tor

Se acredita que navegar na rede Tor será como descobrir um País das Maravilhas (e dos Terrores), desengane-se: o mais provável é acabar por achar a navegação tão lenta que desistirá, aborrecido e dececionado.
Em grande parte dos casos, os links não funcionam – porque os sítios mudaram de endereço ou simplesmente saíram do ar. O screen aqui em cima mostra a página que um novato encontra mais vezes nessa rede. Claro, o conteúdo existe e é possível encontrá-lo – se o recém-aventureiro das profundezas não se importar de esperar pelo descarregamento das páginas como se ainda usasse um modem por linha telefónica.
Um bom sítio para iniciar as buscas é usando o que ali mais se assemelha a um motor de busca tradicional – à data em que escrevo isto, podem ser encontrados nestes endereços, por exemplo: Deep Search e Onion Links. Mas nunca se sabe se daqui a uma semana o endereço terá mudado…
O pequeno circo dos horrores

A rede Tor
Em certa medida, tudo isto poderá parecer um admirável mundo novo – mas não é um mundo misterioso dotado de características transcendentais, muito menos «escondido»: as ferramentas que permitem o acesso às redes encontram-se à distância de um clique e de qualquer computador, e muitas têm versões para Windows.
O que existe então nessa mítica Deep Web que leva tantas pessoas a referir-se ao seu conteúdo como nojento, assustador, perturbador e doentio? O mesmo que no mundo offline e à superfície da Web: trolls, gente má, gente perversa, gente doente.
A diferença numa rede como a do Tor é o anonimato, a inexistência de qualquer tipo de moderação e muito menos auto-censura. Uma espécie de 4chan em modo extremo.
Quem se aventura na rede Tor e clica inadvertidamente nos links pode deparar-se, sem qualquer aviso, com sítios de pornografia infantil, violadores, tráfico humano, todo o género de taras sexuais, imagens do gore mais escabroso que se possa imaginar, cultos satânicos, canibalismo, vídeos de gente matando outras pessoas, vídeos de maus tratos a animais, mercados de compra e venda de armas, compra e venda de drogas, fóruns de utilizadores portadores do vírus da SIDA que trocam histórias de como infetaram outras pessoas (chamam a isso «dar o presente»)
enfim, tudo o que a espécie humana produz de mais vil e bizarro e doentio encontra-se à distância de um clique num dos diretórios mais conhecidos da rede Tor, The Hidden Wiki. Um exemplo:

Diretório The Hidden Wiki
A lição que todos acabamos por aprender na Web – se não queres ver, então cuidado com o que procuras e não cliques sem pensar – deve estar bem presente quando, por curiosidade, queremos explorar estes sítios. É um espaço amoral, na medida em que não existe uma entidade a filtrar o lixo por nós, como faz o Google, e a escolha é inteiramente do cibernauta. Se imagens de crianças sexualmente exploradas te fazem vomitar a refeição de ontem e a que farás amanhã, ignora as entradas Hard Candy ou Jailbait. Uma escolha saudável.
Mesmo tendo em conta este lixo, a verdade é que grande parte dos sítios desta rede são legais e estão repletos de informação útil, sobretudo ao nível da segurança de redes. Os famosos ficheiros do Wikileaks também estão disponíveis para quem quiser descarregá-los.
Afinal quem tem medo do bicho-papão?
O conceito Deep Web puxa pela imaginação, sobretudo quando páginas escabrosas são apontadas como o único exemplo de conteúdo. Cria-se o desejo de ver o que mais ninguém viu, a vontade de mostrar que se foi capaz de provar o fruto proibido – mitos.
Especula-se sobre camadas, cada uma mais profunda que a anterior, menos acessível e mais misteriosa, como se a organização de uma rede de computadores seja feita à maneira do filme Inception.
Cheguei a ler que, na última camada, a últíssima de todas, aquela à qual só uma elite anónima consegue aceder, seria possível descobrir informação vital sobre OVNI ou os Illuminati. Soltem os violinos, já! Se estivesse a ouvir uma daquelas sinfonias do Krzysztof Penderecki que o Kubrick usou no Shining estava aqui a borrar-me de medo.
A sério, não há limites para a profundidade dos disparates que se podem ler na Web. O 9Gag até gozou com essa malta e criou a sua própria Internet em camadas.
Mesmo a distinção entre uma Web e outra poderá não fazer sentido para quem tem a noção de que nenhuma porta pode estar fechada quando nos são fornecidas chaves para as abrir.
«Há com certeza servidores não indexados, recheados de informações – benignas e malignas – a que apenas alguns têm acesso. Haverá serviços organizados, servidores underground mas, na minha opinião, é uma consequência e não um propósito» — diz Benjamim Júnior. — «Eu próprio tenho um servidor em casa, não catalogado, cheio de coisas fantásticas e que apenas alguns privilegiados tem acesso. Farei parte da Deep Web? Na minha ótica estou e estarei na Web.»

Não admira que muitos encarem com ceticismo outra característica muito famosa desta Deep Web: as páginas na rede Tor em que assassinos (hitmans) oferecem os seus serviços para despachar alguém. O negócio faz-se mediante o pagamento de metade do valor, à cabeça, e a restante metade quando o serviço está concluído.
Não consigo imaginar melhor maneira de enganar um otário do que colocar-me na pele de um típico troll do 4chan, disfarçar-me de assassino, receber metade do dinheiro (neste caso: a moeda virtual bitcoin), não fazer mais nada e desaparecer no anonimato.
Não é de esperar que o burlado arrisque contratar outro assassino para matar aquele que o enganou — para todos os efeitos, até poderia estar a contratar a mesma pessoa. Também não é credível imaginá-lo a queixar-se à polícia do aldrabão que não lhe matou a sogra, como prometera.
Eduardo Pinto nega mesmo a relevância desse conceito de uma alternet alojada nas profundezas do inferno:
«Não existe nenhuma Deep Web. Só se fala disso porque 98 por cento das pessoas usam o Google para pesquisar. Podemos fazer o paralelo com os livros: o facto de a maioria dos livros alguma vez publicados não estarem disponíveis na livraria não faz com que o seu conteúdo seja negro. Claro que haverá nichos, mas não são representativos.»
Benjamim Júnior: «Para mim Deep Web é um nome sexy que serve vários propósitos e alimenta egos. É ‘cool’ conhecer o desconhecido, explorar o inexplorável. Faz-me lembrar a juventude em que necessitamos de nos afirmar catalogando e sub-dividindo, mostrando que, afinal, temos conhecimentos e poder.»
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