→ 08/06/2013 @15:46

O fantasma é o teu DJ

A ideia de criar uma play­list que re­pro­duz mú­si­cas de acordo com o nosso es­tado de es­pí­rito não é nova, mas aqui é exe­cu­tada de uma forma vi­su­al­mente ori­gi­nal. E os fan­tas­mas co­lo­ri­dos – Ghostly Discoveries, é o nome da pá­gina — fazem-me lem­brar os bi­chi­nhos que o ve­lhi­nho ar­cade Pac-man ti­nha de co­mer (ou fugir).

Neste caso, o nome vem de Ghostly International: pla­ta­forma multi-cultural que «cum­pre as fun­ções de ga­le­ria de arte, casa de de­sign, de­sign de rou­pas, tec­no­lo­gia ino­va­dora e edi­tora de mú­sica». E é pre­ci­sa­mente o ca­tá­logo desta edi­tora que so­mos con­vi­da­dos a ex­plo­rar de forma gra­tuita, sem restrições.

Ghostly Discovery

Ghostly Discovery

A cada um dos sete es­ta­dos de es­pí­rito dis­po­ní­veis – triste, in­tros­pe­tivo, des­con­traído, neu­tro, ener­gé­tico, fre­né­tico e agres­sivo – cor­res­ponde uma das sete co­res do es­pec­tro vi­sí­vel. E ainda po­de­mos afi­nar a es­co­lha es­co­lhendo en­tre mú­sica mais di­gi­tal ou or­gâ­nica, mais rá­pida ou lenta. Depois é par­tir à des­co­berta de no­vas ban­das a co­nhe­cer (ou a evi­tar). Também há app gra­tuita para iPhone ou iPod. Experimentem!

 

Por ou­tro lado…

Se o gé­nero mais ele­tró­nico da su­ges­tão an­te­rior não vos agrada e es­tão mais vi­ra­dos para o jazz e o blues, en­tão oi­çam esta rá­dio: de­ze­nas de ca­nais di­fe­ren­tes, di­vi­di­dos por gé­ne­ros, épo­cas, for­ma­ções e até ins­tru­men­tos — do swing ao jazz mais avant­garde, das big bands aos trios, do cla­ri­nete à gui­tarra. Uma rá­dio para ou­vir inin­ter­rup­ta­mente. Aqui.

→ 04/06/2013 @23:24

Because the night is dark and full of (t)errors

Red Wedding


E quem sois vós, disse o or­gu­lhoso se­nhor, para me obri­gar a vé­nia tão pro­funda? / Só um gato com um manto di­fe­rente, essa é a ver­dade que eu co­nheço. / Manto de ouro ou manto ver­me­lho, um leão man­tém as suas gar­ras. / E as mi­nhas são lon­gas e afi­a­das, meu se­nhor, tão lon­gas e afi­a­das como as vos­sas.
E as­sim fa­lou, e as­sim fa­lou, esse se­nhor de Castamere. / Mas agora a chuva chora no seu sa­lão e nin­guém está lá para ou­vir. Sim, agora a chuva chora no seu sa­lão e nem uma alma para ou­vir.

 

 

The night is dark and full of SPOILERS.

Inocentes te­les­pec­ta­do­res, que ainda não ti­nham per­ce­bido o sig­ni­fi­cado da can­ção «Rains of Castamere», a mú­sica que re­corda a oca­sião em que uma Casa foi mas­sa­crada na sequên­cia de uma re­volta con­tra os Lannister. Agora tal­vez já per­ce­bam por que ra­zão o pa­tri­arca dos Lannister es­cre­via tan­tas car­tas nos pri­mei­ros epi­só­dios desta tem­po­rada — e a quem as enviava.

Há três anos que aque­les que le­ram o ter­ceiro li­vro da saga «As Crónicas de Gelo e Fogo» es­pe­ra­vam por este mo­mento: con­tem­plar as re­a­ções de pasmo e hor­ror dos fãs da sé­rie de te­le­vi­são pe­rante o evento que fi­cou para sem­pre co­nhe­cido como The Red Wedding.

 

Rei do Desnorte

Muitos pa­ra­ram de ler para re­cu­pe­rar ânimo an­tes de re­en­trar no mundo cruel de Game of Thrones; há quem te­nha vol­tado ao prin­cí­pio do ca­pí­tulo desse ca­sa­mento ver­me­lho, na es­pe­rança de que à se­gunda lei­tura os acon­te­ci­men­tos já fos­sem di­fe­ren­tes; ou­tros, fu­ri­o­sos e in­cré­du­los, ati­ra­ram o li­vro con­tra a pa­rede; os mais emo­ti­vos lançaram-no pela ja­nela fora ou abandonaram-no na rua amal­di­ço­ando o sa­dismo do au­tor George R. R. Martin e ju­rando, pela sua honra como Starks, nunca mais vol­tar a pegar-lhe. Algumas se­ma­nas de­pois, der­ro­ta­dos e roí­dos de cu­ri­o­si­dade, com­pra­vam o li­vro ou­tra vez.

Até o George, esse grande troll da li­te­ra­tura fan­tás­tica, ten­tou sal­var a face con­fes­sando ter dei­xado o mal­fa­dado ca­pí­tulo para o fim por lhe ser «de­ma­si­ado do­lo­roso» escrevê-lo. Bem po­des ar­ran­jar as des­cul­pas que qui­se­res, George, mas um facto per­ma­nece: The North Remembers.

George Martin

Com tan­tos anos a car­re­gar amar­gu­ras – e a deste epi­só­dio não foi a úl­tima –, a pri­meira opor­tu­ni­dade de vin­gança sur­giu quando foi para o ar o epi­só­dio 9 da pri­meira tem­po­rada. Os lei­to­res pu­de­ram en­tão a es­fre­gar as mãos de con­ten­ta­mento, an­te­ci­pando o ma­re­moto de lá­gri­mas nas re­des sociais.

Agora sim, os «ima­cu­la­dos» que nunca le­ram uma pá­gina dos li­vros e só co­nhe­ciam a his­tó­ria pela adap­ta­ção da HBO ha­ve­riam de sa­ber o que é cho­rar que nem uma Madalena por causa das des­ven­tu­ras de um po­bre D. Quixote per­se­guindo moi­nhos de honra.

 

Vingança, vin­gança!

Os mais pre­ve­ni­dos con­vi­da­ram os ami­gos «ima­cu­la­dos» para uma grande ses­são de vi­si­o­na­mento do epi­só­dio, co­lo­cando es­tra­te­gi­ca­mente câ­ma­ras e te­le­mó­veis para fil­mar à so­capa as re­a­ções e colocá-las no YouTube. Procurem por Ned Stark’s de­ath re­ac­ti­ons e des­co­bri­rão o so­fri­mento dos ino­cen­tes, a in­cre­du­li­dade de quem nunca jul­gara ser pos­sí­vel um he­rói mor­rer e a fú­ria de quem ju­rou que nunca mais na vida as­sis­ti­ria a um epi­só­dio de Game of Thrones.

Mas os ve­te­ra­nos do trono de ferro sa­biam que aquele fora ape­nas o pri­meiro cho­que: o pior es­tava para vir, quando o fi­lho de Ned, Robb Stark – des­ti­nado por anos e anos de cli­chés a ser um jus­ti­ceiro triun­fante, em nome do fa­le­cido pai e da in­fle­xí­vel e in­gé­nua honra dos Stark – se apre­sen­tasse a um certo ca­sa­mento para ex­piar os seus erros…

Finalmente acon­te­ceu – epi­só­dio 9, ter­ceira tem­po­rada, 2 de Junho, a noite em que o Twitter ex­plo­diu de in­dig­na­ção e de ame­a­ças de boi­cote à sé­rie ao re­a­gir ao mas­sa­cre dos he­róis e dos ino­cen­tes, tão bru­tal e vi­o­lento como imprevisível.

E o circo das re­a­ções veio logo a se­guir, no YouTube — al­gu­mas cre­dí­veis, outras…


As nos­sas es­co­lhas e ações têm con­sequên­cias – o que é uma ób­via ver­dade neste mundo tam­bém o é na­que­las ter­ras. E ali tam­bém triun­fam os po­lí­ti­cos e os es­tra­te­gas e os am­bi­ci­o­sos sem es­crú­pu­los. «Se achas que isto tem um fi­nal fe­liz, en­tão não tens an­dado a pres­tar muita aten­ção», diz o tor­tu­ra­dor à sua ví­tima em ou­tro epi­só­dio desta temporada.

Em Game of Thrones — e ao con­trá­rio de qual­quer ro­mance ou sé­rie do gé­nero que já li — são os «maus» que têm algo para nos en­si­nar, mesmo que no fim use­mos es­ses en­si­na­men­tos para os com­ba­ter, como faz Daenerys Targaryen, ou­tra pre­ten­dente ao trono, mãe de dra­gões e li­ber­ta­dora de es­cra­vos.

«O caos é uma es­cada», ex­plica o cons­pi­ra­dor Petyr Baelish, um dos me­lho­res pra­ti­can­tes deste jogo de po­der. «A al­guns é dada a opor­tu­ni­dade de tre­par, mas re­cu­sam. Agarram-se ao reino, aos deu­ses, ao amor. Ilusões. Só a es­cada é real. Trepá-la é tudo o que existe.» É fá­cil deixarmo-nos ilu­dir di­ante da TV. Até que uma fan­ta­sia de ca­va­lei­ros e dra­gões, reis e ma­gia, nos de­volva à realidade.

→ 25/05/2013 @18:18

Deep Web — Submundo. Horror. Exagero. Mito.

Edgar Allan Poe

Deep Web. A web das pro­fun­de­zas. A web es­con­dida. A web de to­dos os pe­ri­gos. A mis­te­ri­osa web que nem mo­to­res de busca como o Google con­se­guem mos­trar. Quando é men­ci­o­nada em al­guns sí­tios, pa­rece ter saído de um pe­sa­delo de Edgar Allan Poe.

Dizem as his­tó­rias que ace­der à Deep Web é como es­tar­mos na sala onde a ver­da­deira na­tu­reza da Matrix é re­ve­lada pela pri­meira vez a Neo.

O lí­der Morpheus, o hac­ker, o ca­ris­má­tico fora da lei, mos­tra dois com­pri­mi­dos e avisa o no­vato dos pe­ri­gos da escolha:

«Tomas o com­pri­mido azul – a his­tó­ria acaba, acor­das na cama e acre­di­tas no que qui­se­res acre­di­tar; to­mas o ver­me­lho – per­ma­ne­ces no País das Maravilhas e mostro-te quão pro­funda é a toca do co­e­lho.»

A toca do co­e­lho existe e é, de facto, pro­funda: um es­tudo da BrightPlanet, em­presa de soft­ware es­pe­ci­a­li­zada na aná­lise in­te­li­gente do fluxo de da­dos na Web, es­ti­mava que a in­for­ma­ção con­tida na Deep Web era 400 a 500 ve­zes maior do que a exis­tente na World Wide Web.

Mike Bergman, fun­da­dor da em­presa e au­tor desse es­tudo, com­pa­rou o tra­ba­lho dos mo­to­res de busca tra­di­ci­o­nais ao de um na­vio ar­ras­tando uma rede de pesca ao longo do mar: mui­tos pei­xes são cap­tu­ra­dos pelo ar­ras­ta­mento da rede atra­vés da su­per­fí­cie da água, mas os que vi­vem nas pro­fun­de­zas, muito mais nu­me­ro­sos, per­ma­ne­cem fora do alcance.

Não há nada de mis­te­ri­oso nisto, a não ser a cons­ta­ta­ção de que me­ca­nis­mos de busca do tipo Google, por maior que seja o vo­lume de in­for­ma­ção que dis­po­ni­bi­li­zam, têm limitações.

 

O que é re­al­mente a Deep Web

Deep Web: analogia do icebergue

A ana­lo­gia do ice­ber­gue A Internet pes­qui­sá­vel pelo Google é a ponta do ice­ber­gue; a parte sub­mersa, muito maior e longe da nossa vista, é a Deep Web. A ana­lo­gia é tão co­mum como as his­tó­rias fan­tás­ti­cas de quem jul­gou explorá-la mas, tal como aque­las, não conta tudo.

 

Grande parte da Deep Web não é mais do que con­teúdo ar­ma­ze­nado em ba­ses de da­dos pes­qui­sá­veis, cu­jos re­sul­ta­dos são ser­vi­dos em tempo real, em pá­gi­nas di­nâ­mi­cas, mas ape­nas quando so­li­ci­ta­dos. Sem um pe­dido di­reto, as ba­ses de da­dos não pu­bli­cam os re­sul­ta­dos e o con­teúdo mantém-se «invisível».

Motores de pes­quisa como o Google, por ou­tro lado, usam pro­gra­mas de ras­tre­a­mento – cra­wls ou spi­ders – que se­guem hi­per­li­ga­ções, uma após ou­tra, propagando-se como on­das num lago quando lhe lan­ça­mos uma pe­dra, am­pli­ando os li­mi­tes da sua in­de­xa­ção, link após link, a par­tir de um qual­quer ponto de par­tida. O con­teúdo só pode ser des­co­berto se for es­tá­tico e as pá­gi­nas es­ti­ve­rem hi­per­li­ga­das a outras.

O pró­prio web­mas­ter pode tam­bém edi­tar o fi­cheiro robot.txt e es­cre­ver «di­sal­low» para im­pe­dir que os mo­to­res de busca in­de­xem uma de­ter­mi­nada pá­gina — ou um con­junto de­las. Por exem­plo, se for­mos ao Google e es­cre­ver­mos no campo de busca

“robots.txt” “disallow:” filetype:txt

é-nos de­vol­vida uma sé­rie de re­sul­ta­dos. Em cer­tos ca­sos, po­de­mos de­ter­mi­nar a mo­rada que o web­mas­ter não pre­tende ver in­de­xada, como nos ex­plica esta pá­gina.

A Internet «in­vi­sí­vel» pode não ser tão in­vi­sí­vel como pa­rece. E há bus­cas que po­dem ser fei­tas com o sen­tido de ori­en­ta­ção de um pi­rata ex­pe­ri­ente em alto mar.

Tão-pouco é ne­ces­sá­rio qual­quer pro­grama em es­pe­cial para pes­qui­sar con­teúdo na Deep Web, basta usar as de­ze­nas mo­to­res de busca es­pe­ci­a­li­za­dos já existentes.

Benjamim Júnior, co­fun­da­dor do Obvious, mem­bro da Direção de Tecnologia do SAPO e pro­fes­sor de tec­no­lo­gias di­nâ­mi­cas para a Internet na Universidade de Aveiro:

«As pes­soas as­su­mem er­ra­da­mente que se a in­for­ma­ção que pro­cu­ram não for lo­ca­li­zada pelo Google é por­que não existe. Como é ób­vio, isso é falso; existe muita, muita in­for­ma­ção es­pa­lhada nos di­ver­sos ser­vi­ços e sis­te­mas da Web.

Obviamente que ha­verá sem­pre es­paço para as te­o­rias da obs­cu­ri­dade re­la­ti­va­mente à exis­tên­cia de lo­cais fan­tás­ti­cos da Web, mas es­ses lo­cais são uma con­sequên­cia da sua vas­ti­dão e não da con­jun­ção de va­riá­veis mís­ti­cas que criam uma pas­sa­gem digna de Júlio Verne.»

 

O com­pri­mido vermelho

O comprimido vermelho

O que as pes­soas per­ce­ci­o­nam como uma «pas­sa­gem de Júlio Verne» – o com­pri­mido ver­me­lho, di­ria Morpheus – nada tem a ver com o con­ceito de Deep Web, mas com a mis­tura de vá­rios ti­pos de re­a­li­da­des: por um lado, o que não é pes­qui­sá­vel pelo Google; por ou­tro, as vá­rias re­des cri­a­das para des­cen­tra­li­zar a in­for­ma­ção e pro­te­ger a nossa pri­va­ci­dade na Internet.

Ameaças como os pro­je­tos ACTA (ver o post ACTA e nós, pri­meirase­gunda par­tes) ou SOPA (con­sul­tar Sopa? Não, obri­gado. Libertem o Justin Bieber) têm jus­ti­fi­cado a pro­li­fe­ra­ção de re­des de par­ti­lha protegidas.

Tais re­des e pro­gra­mas sustentam-se em li­ga­ções en­crip­ta­das e per­mi­tem par­ti­lhar e co­mu­ni­car de forma mais ou me­nos anó­nima. Por exemplo:

GnuNet — fra­mework para li­ga­ções peer-to-peer se­gu­ras que não de­pende de qual­quer ser­viço cen­tra­li­zado, per­mi­tindo a par­ti­lha de fi­chei­ros de uma forma anó­nima, e sem censura;

OneSwarm — cli­ente de par­ti­lha de fi­chei­ros com­pa­tí­vel com BitTorrent cri­ado por um grupo de in­ves­ti­ga­do­res no Departamento de Informática da Universidade de Washington. Permite criar re­des so­ci­ais pri­va­das, longe dos olha­res in­dis­cre­tos de re­pre­sen­tan­tes dos di­rei­tos de au­tor, numa infra-estrutura de rede des­cen­tra­li­zada e encriptada;

RetroShare – atra­vés deste pro­grama, tam­bém se pode par­ti­lhar fi­chei­ros e co­mu­ni­car com ami­gos em re­la­tiva se­gu­rança. Uma im­ple­men­ta­ção de có­digo aberto dos pro­to­co­los SSL e TLS, o OpenSSL, é usada para crip­to­gra­far toda a comunicação;

Freenet – de Free Network, o que por si só re­vela as mo­ti­va­ções ide­o­ló­gi­cas e po­lí­ti­cas de Ian Clarke, o au­tor. Tal como ou­tros pro­gra­mas se­me­lhan­tes, per­mite a par­ti­lha de fi­chei­ros de forma anó­nima e a cri­a­ção de «si­tes li­vres», ou seja, si­tes só aces­sí­veis pela rede Freenet;

I2P – ou­tra rede do tipo «dark­net», fo­cada no ano­ni­mato, onde é pos­sí­vel co­mu­ni­car e par­ti­lhar de forma se­gura. Todos os da­dos são en­crip­ta­dos e é pos­sí­vel usá-la para cor­reio ele­tró­nico, peer-to-peer, o ve­lhi­nho IRC e ou­tros protocolos.

E de­pois te­mos o Tor – acró­nimo de The Onion Router, ori­gem de mui­tas his­tó­rias e al­guns mitos.

O Tor é o soft­ware usado por aque­les que fa­lam dos hor­ro­res da Deep Net. Talvez por isso seja o mais co­nhe­cido e visto como a porta de en­trada para esse mí­tico mundo das tre­vas. De uma forma sim­pli­fi­cada, é uma rede de tú­neis HTTP (com TLS — Transport Layer Security). Os ro­te­a­do­res são os pró­prios com­pu­ta­do­res dos utilizadores.

Eduardo Pinto, do SAPO, um dos men­to­res do pro­jeto CloudPT:

«Uma coisa é o que está aces­sí­vel me­di­ante pes­quisa; ou­tra, bem di­fe­rente, são as re­des de par­ti­lha; ou­tra, ainda mais di­fe­rente, é o Tor. A par­ti­lha anó­nima de fi­chei­ros nada tem a ver com o con­teúdo aces­sí­vel ou não. As re­des P2P per­mi­tem a par­ti­lha anó­nima, in­de­pen­den­te­mente da na­tu­reza dos con­teú­dos.»

O Tor co­me­çou por ser de­sen­vol­vido no Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos; de 2004 e 2006 pas­sou a re­ce­ber o apoio da Electronic Frontier Foundation. Desde en­tão tem sido man­tido pelo The Tor Project, uma or­ga­ni­za­ção sem fins lucrativos.

A ideia é tam­bém ga­ran­tir o ano­ni­mato de quem na­vega. À se­me­lhança da Freenet, é pos­sí­vel criar si­tes que ape­nas são vi­sí­veis a quem se en­con­tra nesta rede – os cha­ma­dos si­tes Onion. Contudo, não é por usar o Tor que se passa a ter ca­pa­ci­da­des má­gi­cas para pes­qui­sar o que o Google não alcança.

Eduardo Pinto: «O Tor é uma forma anó­nima de na­ve­gar. Nada tem a ver com con­teú­dos. Quer se es­teja ou não atrás de um proxy do Tor, o con­teúdo que se vê é sem­pre o mesmo.»

 

Aceder à Deep Web em três sim­ples passos

Tor Browser

1. Descarregar o pa­cote Firefox com o Tor.
2. Correr o exe­cu­tá­vel para ex­trair o fi­cheiro. Escolha um «sí­tio» para guar­dar a pasta que con­tém o pro­grama – qual­quer di­re­tó­rio serve. Clique no exe­cu­tá­vel Start Tor Browser.exe – é uma ver­são ar­ti­lhada do Firefox, pre­pa­rada para ace­der à rede Tor.
3. Abre-se a ja­nela do Painel de Controlo. Depois a do Firefox. Uma pá­gina com um link para o pro­jeto Tor e ne­nhuma in­di­ca­ção so­bre o que fa­zer a se­guir. Parabéns. Chegou à mí­tica Deep Web.

 

A pá­gina mais fre­quente da rede Tor

404

Se acre­dita que na­ve­gar na rede Tor será como des­co­brir um País das Maravilhas (e dos Terrores), desengane-se: o mais pro­vá­vel é aca­bar por achar a na­ve­ga­ção tão lenta que de­sis­tirá, abor­re­cido e dececionado.

Em grande parte dos ca­sos, os links não fun­ci­o­nam – por­que os sí­tios mu­da­ram de en­de­reço ou sim­ples­mente saí­ram do ar. O screen aqui em cima mos­tra a pá­gina que um no­vato en­con­tra mais ve­zes nessa rede. Claro, o con­teúdo existe e é pos­sí­vel encontrá-lo – se o recém-aventureiro das pro­fun­de­zas não se im­por­tar de es­pe­rar pelo des­car­re­ga­mento das pá­gi­nas como se ainda usasse um mo­dem por li­nha telefónica.

Um bom sí­tio para ini­ciar as bus­cas é usando o que ali mais se as­se­me­lha a um mo­tor de busca tra­di­ci­o­nal – à data em que es­crevo isto, po­dem ser en­con­tra­dos nes­tes en­de­re­ços, por exem­plo: Deep SearchOnion Links. Mas nunca se sabe se da­qui a uma se­mana o en­de­reço terá mudado…

 

O pe­queno circo dos horrores

A rede Tor

A rede Tor

Em certa me­dida, tudo isto po­derá pa­re­cer um ad­mi­rá­vel mundo novo – mas não é um mundo mis­te­ri­oso do­tado de ca­rac­te­rís­ti­cas trans­cen­den­tais, muito me­nos «es­con­dido»: as fer­ra­men­tas que per­mi­tem o acesso às re­des encontram-se à dis­tân­cia de um cli­que e de qual­quer com­pu­ta­dor, e mui­tas têm ver­sões para Windows.

O que existe en­tão nessa mí­tica Deep Web que leva tan­tas pes­soas a referir-se ao seu con­teúdo como no­jento, as­sus­ta­dor, per­tur­ba­dor e do­en­tio? O mesmo que no mundo of­fline e à su­per­fí­cie da Web: trolls, gente má, gente per­versa, gente doente.

A di­fe­rença numa rede como a do Tor é o ano­ni­mato, a ine­xis­tên­cia de qual­quer tipo de mo­de­ra­ção e muito me­nos auto-censura. Uma es­pé­cie de 4chan em modo extremo.

Quem se aven­tura na rede Tor e clica inad­ver­ti­da­mente nos links pode deparar-se, sem qual­quer aviso, com sí­tios de por­no­gra­fia in­fan­til, vi­o­la­do­res, trá­fico hu­mano, todo o gé­nero de ta­ras se­xu­ais, ima­gens do gore mais es­ca­broso que se possa ima­gi­nar, cul­tos sa­tâ­ni­cos, ca­ni­ba­lismo, ví­deos de gente ma­tando ou­tras pes­soas, ví­deos de maus tra­tos a ani­mais, mer­ca­dos de com­pra e venda de ar­mas, com­pra e venda de dro­gas, fó­runs de uti­li­za­do­res por­ta­do­res do ví­rus da SIDA que tro­cam his­tó­rias de como in­fe­ta­ram ou­tras pes­soas (cha­mam a isso «dar o pre­sente»)

en­fim, tudo o que a es­pé­cie hu­mana pro­duz de mais vil e bi­zarro e do­en­tio encontra-se à dis­tân­cia de um cli­que num dos di­re­tó­rios mais co­nhe­ci­dos da rede Tor, The Hidden Wiki. Um exemplo:

The Hidden Wiki

Diretório The Hidden Wiki

A li­ção que to­dos aca­ba­mos por apren­der na Web – se não que­res ver, en­tão cui­dado com o que pro­cu­ras e não cli­ques sem pen­sar – deve es­tar bem pre­sente quando, por cu­ri­o­si­dade, que­re­mos ex­plo­rar es­tes sí­tios. É um es­paço amo­ral, na me­dida em que não existe uma en­ti­dade a fil­trar o lixo por nós, como faz o Google, e a es­co­lha é in­tei­ra­mente do ci­ber­nauta. Se ima­gens de cri­an­ças se­xu­al­mente ex­plo­ra­das te fa­zem vo­mi­tar a re­fei­ção de on­tem e a que fa­rás ama­nhã, ig­nora as en­tra­das Hard Candy ou Jailbait. Uma es­co­lha saudável.

Mesmo tendo em conta este lixo, a ver­dade é que grande parte dos sí­tios desta rede são le­gais e es­tão re­ple­tos de in­for­ma­ção útil, so­bre­tudo ao ní­vel da se­gu­rança de re­des. Os fa­mo­sos fi­chei­ros do Wikileaks tam­bém es­tão dis­po­ní­veis para quem qui­ser descarregá-los.

 

Afinal quem tem medo do bicho-papão?

Bicho-papãoO con­ceito Deep Web puxa pela ima­gi­na­ção, so­bre­tudo quando pá­gi­nas es­ca­bro­sas são apon­ta­das como o único exem­plo de con­teúdo. Cria-se o de­sejo de ver o que mais nin­guém viu, a von­tade de mos­trar que se foi ca­paz de pro­var o fruto proi­bido – mitos.

Especula-se so­bre ca­ma­das, cada uma mais pro­funda que a an­te­rior, me­nos aces­sí­vel e mais mis­te­ri­osa, como se a or­ga­ni­za­ção de uma rede de com­pu­ta­do­res seja feita à ma­neira do filme Inception.

Cheguei a ler que, na úl­tima ca­mada, a úl­tís­sima de to­das, aquela à qual só uma elite anó­nima con­se­gue ace­der, se­ria pos­sí­vel des­co­brir in­for­ma­ção vi­tal so­bre OVNI ou os Illuminati. Soltem os vi­o­li­nos, já! Se es­ti­vesse a ou­vir uma da­que­las sin­fo­nias do Krzysztof Penderecki que o Kubrick usou no Shining es­tava aqui a borrar-me de medo.

A sé­rio, não há li­mi­tes para a pro­fun­di­dade dos dis­pa­ra­tes que se po­dem ler na Web. O 9Gag até go­zou com essa malta e criou a sua pró­pria Internet em ca­ma­das.

Mesmo a dis­tin­ção en­tre uma Web e ou­tra po­derá não fa­zer sen­tido para quem tem a no­ção de que ne­nhuma porta pode es­tar fe­chada quando nos são for­ne­ci­das cha­ves para as abrir.

«Há com cer­teza ser­vi­do­res não in­de­xa­dos, re­che­a­dos de in­for­ma­ções – be­nig­nas e ma­lig­nas – a que ape­nas al­guns têm acesso. Haverá ser­vi­ços or­ga­ni­za­dos, ser­vi­do­res un­der­ground mas, na mi­nha opi­nião, é uma con­sequên­cia e não um pro­pó­sito» — diz Benjamim Júnior. — «Eu pró­prio te­nho um ser­vi­dor em casa, não ca­ta­lo­gado, cheio de coi­sas fan­tás­ti­cas e que ape­nas al­guns pri­vi­le­gi­a­dos tem acesso. Farei parte da Deep Web? Na mi­nha ótica es­tou e es­ta­rei na Web.»

Hitman

Não ad­mira que mui­tos en­ca­rem com ce­ti­cismo ou­tra ca­rac­te­rís­tica muito fa­mosa desta Deep Web: as pá­gi­nas na rede Tor em que as­sas­si­nos (hit­mans) ofe­re­cem os seus ser­vi­ços para des­pa­char al­guém. O ne­gó­cio faz-se me­di­ante o pa­ga­mento de me­tade do va­lor, à ca­beça, e a res­tante me­tade quando o ser­viço está concluído.

Não con­sigo ima­gi­nar me­lhor ma­neira de en­ga­nar um otá­rio do que colocar-me na pele de um tí­pico troll do 4chan, disfarçar-me de as­sas­sino, re­ce­ber me­tade do di­nheiro (neste caso: a mo­eda vir­tual bit­coin), não fa­zer mais nada e de­sa­pa­re­cer no anonimato.

Não é de es­pe­rar que o bur­lado ar­ris­que con­tra­tar ou­tro as­sas­sino para ma­tar aquele que o en­ga­nou — para to­dos os efei­tos, até po­de­ria es­tar a con­tra­tar a mesma pes­soa. Também não é cre­dí­vel imaginá-lo a queixar-se à po­lí­cia do al­dra­bão que não lhe ma­tou a so­gra, como prometera.

Eduardo Pinto nega mesmo a re­le­vân­cia desse con­ceito de uma al­ter­net alo­jada nas pro­fun­de­zas do inferno:

«Não existe ne­nhuma Deep Web. Só se fala disso por­que 98 por cento das pes­soas usam o Google para pes­qui­sar. Podemos fa­zer o pa­ra­lelo com os li­vros: o facto de a mai­o­ria dos li­vros al­guma vez pu­bli­ca­dos não es­ta­rem dis­po­ní­veis na li­vra­ria não faz com que o seu con­teúdo seja ne­gro. Claro que ha­verá ni­chos, mas não são re­pre­sen­ta­ti­vos.»

Benjamim Júnior: «Para mim Deep Web é um nome sexy que serve vá­rios pro­pó­si­tos e ali­menta egos. É ‘cool’ co­nhe­cer o des­co­nhe­cido, ex­plo­rar o inex­plo­rá­vel. Faz-me lem­brar a ju­ven­tude em que ne­ces­si­ta­mos de nos afir­mar ca­ta­lo­gando e sub-dividindo, mos­trando que, afi­nal, te­mos co­nhe­ci­men­tos e po­der.»

 

Sobre este blogue
Novo por aqui? O Bitaites é um blo­gue so­bre tudo e mais al­guma coisa — e o que faz, pro­cura fazê-lo bem. Como di­zia o fi­ló­sofo Zappa: «Qualquer coisa, a qual­quer mo­mento, em qual­quer lado — por ne­nhuma ra­zão em es­pe­cial.» Se de­se­jar subs­cre­ver as nos­sas atu­a­li­za­ções, cli­que aqui.
→ 23/05/2013 @16:46

Detesto feeds. Alternativas ao Google Reader?

Design

Quem acom­pa­nha este blo­gue há mais tempo já co­nhece de gin­jeira a mi­nha can­tiga de es­cár­nio e mal di­zer em re­la­ção aos fe­eds.

Embirro. Irrito-me. Como se acom­pa­nhar uma pá­gina dessa forma só me per­mi­tisse co­nhe­cer parte da his­tó­ria. Porque falta o de­sign. E torno-me chato. Repetitivo.

Diria mais: torno-me chato. Repetitivo.

Este post é a prova disso. Considerem-no uma cor­rida de obs­tá­cu­los, te­rão de pu­lar de pa­rá­grafo em pa­rá­grafo até che­gar à meta.

Olhem, mais um. Saltem!

Tenho esta ma­nia de pen­sar que a es­co­lha de um de­sign, seja ori­gi­nal ou pré-fabricado, é um in­di­ca­dor da per­so­na­li­dade, es­tilo e qua­li­dade que o au­tor pre­tende dar à pá­gina. Quem já teve o azar de ater­rar num blo­gue eso­té­rico sabe bem como, por ve­zes, o de­sign é su­fi­ci­ente para uma pes­soa se pôr a me­xer dali o mais de­pressa pos­sí­vel (an­tes que a mú­sica reiki co­mece).

Estão a ver o es­te­reó­tipo mais que visto nos fil­mes — o tipo in­com­pre­en­dido a be­ber uns co­pos e a de­sa­ba­far com o bar­man? Se fi­ze­rem o fa­vor de ima­gi­nar al­guém a queixar-se

«anda uma pes­soa a per­der noi­tes com as ma­ri­qui­ces do de­sign e nin­guém liga ne­nhuma, acom­pa­nham pe­los mal­di­tos fe­eds»

te­rão uma re­pre­sen­ta­ção per­feita da mi­nha em­bir­ra­ção com os fe­eds.

Uma vez que esta pe­quena con­versa é pro­duto da ima­gi­na­ção, o bar­man da his­tó­ria tam­bém tem um blo­gue nas ho­ras va­gas, tam­bém faz parte do mesmo grupo de pi­cui­nhas de merda a que eu per­tenço e, como é ób­vio, mostrar-se-á com­pre­en­sivo e so­li­dá­rio com as mi­nhas do­res de alma:

«Isso é o mesmo que ava­liar o sa­bor de um cock­tail vendo uma fo­to­gra­fia!»

Tem toda a ra­zão, o tipo. Venha daí um brinde à morte dos fe­eds e ao glo­ri­oso triunfo do de­sign como meio de comunicação.

Bem, é al­tura de poi­sar o copo, di­zer adeus ao bar­man e re­gres­sar ao pla­neta Terra por­que, como é na­tu­ral, tam­bém eu já che­guei à con­clu­são de que se­ria muito di­fí­cil acom­pa­nhar tudo o que pre­ciso de acom­pa­nhar sem os fe­eds.

Não gosto, mas não os posso ven­cer; sento-me no mesmo sí­tio, mas não me junto a eles.

Tal como se cos­tuma di­zer no Facebook em re­la­ção às re­la­ções, «é complicado».

Como sou igual­mente um dos mui­tos ór­fãos do mo­ri­bundo Google Reader, aca­bei por ter de pro­cu­rar uma al­ter­na­tiva – sem grande von­tade ou en­tu­si­asmo, ad­mito, as­sim como quem cum­pre uma obri­ga­ção, mas lá go­o­glei uns mi­nu­tos até fi­nal­mente che­gar ao Feedly. Uso-o como um plu­gin do Firefox e está tão or­ga­ni­zado e bo­ni­ti­nho que nem eu fui ca­paz de o detestar.

Que fi­que re­gis­tado, po­rém, que o de­testo à mesma.

Quais são as de­tes­tá­veis al­ter­na­ti­vas ao Google Reader que vo­cês, seus gran­des in­gra­tos, têm an­dado a usar para acom­pa­nhar as atu­a­li­za­ções do Bitaites? Há me­lhor que o Feedly?

→ 22/02/2013 @9:33

A origem do meme Harlem Shake

The Sunny Coast Skate, de Queensland, Austrália

The Sunny Coast Skate, de Queensland, Austrália

Nem é pre­ciso ex­pli­car: o meme veio ocu­par o lu­gar de Gangnam Style no trono do reino das par­voí­ces di­ver­ti­das e alas­trou a todo o lado: 40 mil uplo­ads no YouTube, mais de 135 mi­lhões de vi­su­a­li­za­ções até agora.

A de­sig­na­ção Harlem Shake vem do nome da «can­ção» ao som da qual se dança. Foi feita por um tal de Baauer, nome ar­tís­tico de Harry Rodrigues, pro­du­tor latino-americano de Brooklyn, que na sua pá­gina pes­soal mos­tra uma ex­ten­são co­le­ção de ví­deos do meme e um link para com­prar­mos o tema no iTunes.

Aquela coisa mu­si­cal de Baauer te­ria pas­sado jus­ta­mente des­per­ce­bida se um vblog­ger e co­me­di­ante cha­mado Filthy Frank – co­nhe­cido por per­cor­rer as ruas num fato de li­cra cor-de-rosa para cap­tar as re­a­ções dos tran­seun­tes – não ti­vesse pe­gado nos pri­mei­ros trinta se­gun­dos da can­ção para fa­zer a sua pró­pria ver­são de um Harlem Shake.

Filthy Frank foi o pri­meiro a pe­gar na can­ção e dar-lhe vi­si­bi­li­dade, mas não in­ven­tou o meme.

Se que­rem mesmo sa­ber quem é o prin­ci­pal res­pon­sá­vel pela dis­se­mi­na­ção do Harlem Shake, en­tão ve­jam este ví­deo de uma trupe de aus­tra­li­a­nos cha­mada The Sunny Coast Skate. O grupo pe­gou na ideia e acrescentou-lhe o en­redo que já co­nhe­ce­mos: al­guém co­meça a dan­çar en­quanto to­dos os ou­tros se com­por­tam de uma forma nor­mal; re­pen­ti­na­mente en­tra toda a gente na brin­ca­deira ao ritmo do beat da mú­sica, rom­pendo essa nor­ma­li­dade com as im­pro­vi­sa­ções mais lou­cas e es­ta­pa­fúr­dias que se pos­sam ima­gi­nar. Tudo co­me­çou aí.

Não quero in­te­lec­tu­a­li­zar um fe­nó­meno pas­sa­geiro de dança e di­ver­ti­mento, mas parece-me que a ra­zão do su­cesso deste meme tem a ver com a nossa ne­ces­si­dade de nos li­vrar­mos – nem que seja por trinta se­gun­dos – do es­par­ti­lho dos pa­péis so­ci­ais que nos são atribuídos.

A so­ci­e­dade es­pera de nós o mesmo tipo de com­por­ta­mento «nor­mal», in­de­pen­dente de como nos es­ti­ver­mos a sen­tir: fa­zer coi­sas par­vas ao som de uma mú­sica parva é uma ma­neira di­ver­tida e ino­fen­siva de li­ber­tar corpo e mente des­sas amarras.

Não ad­mira por­tanto que este aba­nar de ca­pa­cete es­teja a ser mi­me­ti­zado não ape­nas por ado­les­cen­tes e you­tu­bers mas tam­bém por fun­ci­o­ná­rios em es­cri­tó­rios, ele­men­tos de uma or­ques­tra sin­fó­nica ou sol­da­dos a for­mar um pe­lo­tão para exer­cí­cios de or­dem unida. Quanto mais ra­di­cal é o «rom­pi­mento», mais sig­ni­fi­ca­tivo (e en­gra­çado) se torna.

Quando esta Harlem Shake se tor­nar um pa­drão de com­por­ta­mento tão es­tan­dar­di­zado e aceite como o pa­pel so­cial do qual tem­po­ra­ri­a­mente nos li­berta, aca­bará por pas­sar de moda, mor­rer e dar lu­gar à pró­xima. Até lá, divirtam-se!

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