A máscara estilizada do rosto de Guy Fawkes está em todo o lado – vemo-la nos «cartazes» do grupo de «hackers» e ativistas Anonymous e em manifestantes do Occupy Wall Street, o movimento que protesta contra a tirania do grupo dos 1 por cento.


Agora vamos recuar 406 anos para conhecer o verdadeiro Guy Fawkes, o homem por detrás da máscara, de todas aquelas máscaras: também ele deverá ter visto o seu papel como o de alguém que procurava libertar o seu paÃs da opressão.
O grupo de conspiradores católicos do qual fez parte era liderado por um nobre chamado Robert Catesby, que perdera a esperança de obter do rei maior tolerância para a religião católica na Inglaterra.
O grupo considerava que a única forma de libertar o reino inglês do jugo protestante seria fazer explodir o edifÃcio do Parlamento, o próprio rei, Jaime I, o seu filho, prÃncipe Henrique, e todos os membros das Câmaras.
Feito o «atentado» e consumada a matança, Catesby seguiria para o norte do paÃs, onde fomentaria uma sublevação católica, organizando um exército capaz de marchar sobre Londres.
Este episódio da história ficou conhecido como a conspiração da pólvora.
Fawkes era um soldado mercenário inglês especialista em explosivos – assim se explica a importância crucial do seu papel na preparação e execução do golpe. Era também um devoto da causa católica, o que ajudou a conquistar a confiança do nobre Catesby e dos restantes conspiradores.
Fawkes lutara ao lado dos católicos espanhóis contra os protestantes holandeses com a vã esperança de que a Inglaterra seria também «libertada» pelos espanhóis. Nada disto acontecera. Frustrado mas nunca vencido, regressara ao seu paÃs após dez anos de lutas e combates.
Um dos conspiradores alugou uma casa diante do edifÃcio do Parlamento. Esta casa tinha uma enorme adega que se estendia até debaixo do edifÃcio. O plano consistia em encher a adega com 36 barris de pólvora para que Guy Fawkes, o técnico de explosivos do grupo, a fizesse explodir de manhã e mandar o edifÃcio abaixo, quando o rei lá estivesse dentro a iniciar os trabalhos do Parlamento.
A data estabelecida para a «revolução» foi a de 5 de Novembro de 1605. Há mais de 400 anos o senhor da máscara estaria a comemorar o sucesso de uma operação que a nossa sociedade atual classificaria como «terrorista».
O triste fim de Guy Fawkes
Infelizmente para Guy Fawkes e companheiros, um dos elementos do grupo conspirador temeu pelo destino da minoria de parlamentares católicos que inevitavelmente seria aniquilada.
Enviou então uma carta anónima a um cunhado, avisando-o do golpe. Este fez chegar a missiva às mãos do rei. E dizem as crónicas que o rei terá comentado: «Isto cheira-me a pólvora».
À meia-noite do dia 4 de Novembro, os serviços de segurança reais entraram de rompante na adega e apanharam Fawkes com a mão no rastilho. Preso e torturado, confessou todos os crimes. Os conspiradores foram mortos (o nobre Catesby foi um deles) ou capturados (sofrendo o mesmo destino de Fawkes).
A 31 de Janeiro de 1606, começou o espetáculo. Guy Fawkese e os conspiradores que restavam, foram arrastados pelas ruas em trenós até serem colocados na forca – mas não mortos.
Seguir-se-ia o castigo que a Inglaterra daqueles tempos reservava aos «traidores»: seriam deitados num estrado de madeira para serem cortados às postas e, enquanto resistissem, forçados a observar os seus membros decepados sendo lançados em enormes caldeirões de água a ferver.
Fawkes escapou a este destino, pois apesar de estar fraco por causa das sessões de tortura ainda arranjou forças para se lançar da forca, partindo o pescoço e, à sua maneira, libertando-se do horror.
O corpo foi esquartejado à mesma; a cabeça, espetada numa lança e exibida aos londrinos, para que nenhum súbdito de Sua Majestade se esquecesse do tratamento reservado aos traidores da Coroa.
Depois do golpe falhado de 5 de Novembro, o rei passou (até hoje) a abrir a sessão parlamentar apenas uma vez por ano; e ainda se mantém, nos tempos atuais, a tradição de revistar os subterrâneos do edifÃcio antes dessa sessão anual.
A Noite das Fogueiras é celebrada a 5 de Novembro com a queima de esfinges de Guy Fawkes e o lançamento de fogo de artifÃcio.
E ainda hoje se declama nessa noite o falhanço da conspiração da pólvora: Remember, remember, the 5th of November/The gunpowder, treason and plot;/I know of no reason, why the gunpowder treason/Should ever be forgot. (Lembrai, lembrai, o 5 de novembro/A pólvora, traição e conspiração;/Não vejo razão para que a traição da pólvora/Seja alguma vez esquecida)
O alegre reinÃcio de Guy Fawkes

Não sei até que ponto os que se manifestam com a máscara de Fawkes têm ideia de quem foi o homem que a inspirou e qual o seu terrÃvel destino, mas de qualquer modo essa identificação não é importante para quem protesta. Fawkes é agora um sÃmbolo, uma ideia, uma representação.
A máscara esconde a identidade do indivÃduo e transforma-o num ator com algo de muito importante para dizer. A aldeia global é o seu palco e o que lhe importa é representar uma ideia. Uma ideia de si próprio e do mundo.
O tipo da máscara é o libertário que luta contra a opressão e a injustiça, aquele que carrega um sÃmbolo de união universal e do poder dos povos, o revolucionário, a célula anarquista.
É também mais influenciado pelo «super-herói» Guy Fawkes do filme «V de Vendetta» – e a máscara faz parte do franchising desse filme – do que propriamente pela figura histórica.
E não deixa de ser uma ironia do destino que os manifestantes que protestam contra «o poder das grandes corporações» o façam comprando máscaras à Warner Brothers, distribuidora do filme e subsidiária da Time Warner, uma das maiores corporações da indústria dos media e do entretenimento…
Fontes: Guy Fawkes and Bonfire Night | Occupy Wall Street: Vendetta Masks Become Symbol Of The Movement | Wikipédia