→ 17/05/2013 @15:11

O rock das docas

The Fall é o punk de de­pois do punk, e tal­vez seja por isso que lhe co­lo­cam o ca­rimbo «pós». Uma sim­pli­fi­ca­ção que ig­nora al­guns fac­tos. Este, por exem­plo: se o punk era uma mú­sica de jo­vens em co­li­são com o sis­tema de en­sino, o punk pós-punk de Mark E. Smith, o vo­ca­lista, au­tor das can­ções e único mem­bro per­ma­nente deste grupo bri­tâ­nico, foi desde o co­meço – e as­sim con­ti­nuou – uma mú­sica de operários.

Mark E. Smith

Smith tra­ba­lhava nas do­cas, mas ti­nha um ape­tite in­te­lec­tual imenso. Devorava os es­cri­to­res exis­ten­ci­a­lis­tas e muito em par­ti­cu­lar Albert Camus (a quem foi bus­car o nome da banda), as­sim como a li­te­ra­tura ne­gra de um Edgar Allan Poe e um H. P. Lovecraft, e ti­nha es­pe­cial de­vo­ção pelo alu­ci­nado Philip K. Dick.

O sur­re­a­lismo nas ar­tes vi­su­ais e o neo-realismo ci­ne­ma­to­grá­fico eram ou­tras suas fon­tes de interesse.

Além disso, ga­nhara uma cons­ci­ên­cia po­lí­tica nas car­gas e des­car­gas dos na­vios: está há muito li­gado ao trots­kista Soci­a­list Workers Party.

Cedo viu no rock uma via para se ex­pres­sar ar­tis­ti­ca­mente, pelo que tro­cou a es­tiva por uma car­reira como mú­sico a par­tir de 1976, nunca es­que­cendo as suas ori­gens. Com uma tal con­vic­ção que che­gou a fa­zer uma tour­née com a ba­cia par­tida, sen­tado numa ca­deira de ro­das, até que as do­res e os efei­tos da me­di­ca­ção o im­pe­di­ram de con­ti­nuar com os concertos.

A sua con­tra­di­tó­ria aten­ção às re­a­li­da­des so­ci­ais e eco­nó­mi­cas e aos uni­ver­sos fan­ta­si­o­sos e de fic­ção ci­en­tí­fica de­ter­mi­nou o con­teúdo dos mi­lha­res de le­tras (ou, mais exa­ta­mente, de po­e­mas, pois têm re­le­vân­cia lí­rica) que já es­cre­veu: tanto canta so­bre os di­rei­tos dos tra­ba­lha­do­res, as con­sequên­cias do abuso de dro­gas e a vi­o­lên­cia dos ho­o­li­gans como so­bre o so­bre­na­tu­ral e as vi­a­gens no tempo.

Sempre de forma críp­tica, com jo­gos de sen­tido, pro­cu­rando mos­trar o ab­surdo dos mo­dos de vida capitalistas.

Tem uma voz e uma ma­neira de can­tar úni­cas, en­tre o de­cla­ma­tó­rio e o per­verso, ora pa­re­cendo cus­pir as pa­la­vras, ora mantendo-as na boca para lhes ava­liar a acidez.

Tornou-se num sím­bolo, sendo cons­tan­te­mente con­vi­dado para ses­sões de spo­ken word, fil­mes, sé­ries te­le­vi­si­vas e gra­va­ções de dis­cos de ou­tros gru­pos, como Mouse on Mars, Gorillaz, Coldcut e Inspiral Carpets. A in­dús­tria da mú­sica e do es­pe­tá­culo gosta às ve­zes de se mos­trar pro­gres­sista, e quando tal foi da con­ve­ni­ên­cia deste mi­li­tante ele apro­vei­tou as cir­cuns­tân­cias para es­pa­lhar a mensagem.

A mú­sica de The Fall, essa, é rit­mi­ca­mente re­pe­ti­tiva, hip­nó­tica, obsessivo-compulsiva. Há algo de funk nas li­nhas de baixo e ba­te­ria, mas a gui­tarra coloca-se de fora das tra­mas, sendo uti­li­zada como um ge­ra­dor de ruído.

Ou ama-se ou odeia-se e eu es­tou en­tre os que a ela ade­ri­ram logo desde a pri­meira au­di­ção. Pelos vis­tos, tam­bém os or­ga­ni­za­do­res do fes­ti­val Out Fest, que to­dos os anos de­corre no Barreiro. Em Outubro te­re­mos por cá Mark Edward Smith, o pro­le­tá­rio do rock, mais os seus parceiros…

→ 13/05/2013 @2:45

Zappapita

→ 10/05/2013 @10:51

Ora tomem e embrulhem

Os Ceramic Dog de Marc Ribot têm novo ál­bum, aca­ba­di­nho de sair: «Your Turn». Os ví­deos que se se­guem são de dois dos te­mas for­tes da co­le­ção: o psi­ca­dé­lico «Lies My Body Told Me»…


…e o muito po­lí­tico e pro­vo­ca­tó­rio «Masters of the Internet», este de­di­cado a to­dos os pi­ra­tas de água doce out there.


Marc Ribot, disse. Não sa­bem quem é? Pois de­viam, já que se trata, muito sim­ples­mente, de um dos me­lho­res gui­tar­ris­tas em ati­vi­dade, seja qual for a área mu­si­cal em que na oca­sião se mo­vi­menta: jazz, rock, funk (a par­tir de com­po­si­ções de John Cage!), im­pro­vi­sa­ção li­vre, ex­pe­ri­men­ta­lismo ma­rado ou ne­nhuma des­sas coi­sas, por­que no que faz há obras que de­sa­fiam qual­quer categorização.

O pró­prio cur­rí­culo do ho­mem de­mons­tra o seu ca­rác­ter mul­ti­fa­ce­tado: es­tu­dou com o mes­tre da gui­tarra ha­vai­ana Frantz Casseus, tra­ba­lhou com Tom Waits e com John Lurie nos em­ble­má­ti­cos Lounge Lizards, gra­vou e su­biu ao palco com gente como Elvis Costello, Robert Plant (sim, sim, o dos Led Zeppelin), Laurie Anderson, Caetano Veloso, Wilson Pickett, Chuck Berry, McCoy Tyner, James Carter, Norah Jones e Elton John.

Quando John Zorn pre­cisa de uma so­lid body, é ele quem vai bus­car, pelo que es­tará pre­sente nos vá­rios gru­pos do sa­xo­fo­nista que vêm à co­me­mo­ra­ção dos 60 anos deste no pró­ximo Jazz em Agosto, ali nos jar­dins da Gulbenkian.

Antes dos Ceramic Dog, Ribot li­de­rou ou­tras ban­das mais in­con­fun­di­vel­mente ro­quei­ras, em ver­são noise-punk-no wave, Rootless Cosmopolitans e Shrek.

Teve ou­tra de mú­sica fal­sa­mente cu­bana, Los Cubanos Postizos, e uma de­di­cada ao free jazz de Albert Ayler, Spiritual Unity, que ti­nha a par­ti­cu­la­ri­dade de in­cluir Henry Grimes, o len­dá­rio con­tra­bai­xista dos gru­pos do de­sa­pa­re­cido te­nor que, se­gundo um crí­tico ame­ri­cano, so­ava como se al­guém gri­tasse «foda-se» em plena missa.

 

Algemado só nos pulsos

Marc Ribot

É pre­ci­sa­mente essa a pos­tura as­su­mida por Marc Ribot: es­tou aqui «e não é para con­for­tar nin­guém», o tí­tulo de uma peça jor­na­lís­tica re­cen­te­mente pu­bli­cada so­bre esta fi­gura em des­ta­que na cena de Nova Iorque.

É, aliás, um ati­vista pe­los di­rei­tos dos ar­tis­tas. Quando se trata de fa­zer ocu­pa­ções, lá está ele. Volta e meia, apa­re­cem na im­prensa fo­tos de Ribot, al­ge­mado e ro­de­ado de po­lí­cias, rumo à es­qua­dra mais próxima.

«Your Turn» sucede-se ao ál­bum de es­treia dos Ceramic Dog, «Party Intellectuals», aquele mesmo em que surge uma obra-prima da can­ção cha­mada «When We Were Young and We Were Freaks”, que me dei­xou de queixo caído quando a ouvi pela pri­meira vez.

A di­fe­rença do novo CD re­la­ti­va­mente a esse pri­meiro está na ob­je­ti­vi­dade: en­quanto na­quele ha­via al­guns de­va­neios «van­guar­dis­tas», neste vai-se di­re­ta­mente à ques­tão, e a ques­tão chama-se rock and roll. Simples e efi­caz como uma pe­dra a rolar…

Ceramic Dog

Ceramic Dog: Marc Ribot, Ches Smith e Shahzad Ismaily

Com Ribot está Ches Smith, ba­te­rista re­par­tido en­tre o jazz e o rock que, neste úl­timo do­mí­nio, per­tence às for­ma­ções Secret Chiefs 3 e Xiu Xiu, jun­tando as duas abor­da­gens nos pro­je­tos These Arches (aten­ção, edi­tado por uma eti­queta por­tu­guesa, a Clean Feed) e Good for Cows.

E está tam­bém o bai­xista e ma­ni­pu­la­dor de sin­te­ti­za­do­res Shahzad Ismaily, um fi­lho de pa­quis­ta­ne­ses emi­gra­dos nos EUA que tem a par­ti­cu­la­ri­dade de ser o único mú­sico, no meu co­nhe­ci­mento, que to­cou tanto com Lou Reed como com Nels Cline, dos Wilco.

→ 08/05/2013 @21:06

A dita cuja de Iggy Pop

Faz este ano 66 de vida e acaba de lan­çar um ál­bum com tí­tulo pro­vo­ca­tó­rio, «Ready to Die».

Recentemente, um jor­na­lista fez-lhe a per­gunta que nin­guém ainda ti­vera a co­ra­gem de di­ri­gir ao ve­te­rano can­tor que é um dos mai­o­res sím­bo­los se­xu­ais do rock, ao lado de Jim Morrison, Lou Reed, David Bowie e Mick Jagger: se a sua re­la­ção com a pila ti­nha mu­dado com a idade…

Fazia todo o sen­tido. Em tem­pos que lá vão, James Osterberg – de seu ver­da­deiro nome – gos­tava de os­ten­tar o seu «grande e belo» (se­gundo Erik Hedegaard, hoje um dos edi­to­res da re­vista Rolling Stone) mem­bro nos pal­cos e di­ante das câ­ma­ras e volta e meia sur­giam no­tí­cias so­bre as suas no­vas na­mo­ra­das. Que fo­ram muitas.

Iggy Pop

Iggy Pop em Memphis, 2007

Além de que muito se es­pe­cu­lou so­bre a sua li­ga­ção a Bowie nos anos (de 1976 a 78) em que tra­ba­lha­ram jun­tos em Berlim. Iggy Pop ne­gou que te­nha ha­vido idas di­re­tas do es­tú­dio para a cama, e se o ex-Ziggy Stardust nunca o ad­mi­tiu, tam­bém nunca disse que não.

Pouca im­porta, na ver­dade. A sua ima­gem se­xual desde os tem­pos dos Stooges é tão car­re­gada que se tor­nou homo-erótica. Se mui­tas ra­pa­ri­gas sus­pi­ra­ram ao vê-lo can­tar de tronco nu, a não me­nos ra­pa­zes ins­pi­rou va­len­tes ereções.

Veja-se, de resto, a per­so­na­gem de Curt Wild no filme “Velvet Goldmine», nele inspirada…

O certo é que Iggy res­pon­deu ao jor­na­lista com esta enig­má­tica (ou nem tanto as­sim) frase: «Se an­tes o meu pé­nis era como todo um par­tido po­lí­tico, hoje di­ria que se pa­rece mais com uma ten­dên­cia or­ga­ni­zada den­tro de um par­tido.»

 

Olhar para os pássaros

O certo é que a sua longa his­tó­ria de amor com Nina Alu, um quarto de sé­culo mais nova do que ele (mas adulta!), o acal­mou. Já não é o mesmo que, aos 20 anos, an­dava atrás de miú­das de 13, 14 e 15, o que, se fosse agora, lhe te­ria va­lido umas pe­nas de pri­são por pedofilia.

Confessou Nina, se­pa­rando o ho­mem pú­blico e o ho­mem pri­vado: «Gosto de Iggy Pop e respeito-o, mas acho que não con­se­gui­ria vi­ver com ele. O Jim já é ou­tra coisa. O Jim é doce, é sos­se­gado e é ro­mân­tico. Quando es­ta­mos a jan­tar ou a fa­zer amor é o Jim que te­nho ali, não o Iggy, e às ve­zes apanho-o a olhar para as ár­vo­res e para os pás­sa­ros.»

De facto, mui­tas coi­sas se al­te­ra­ram na exis­tên­cia de Iggy: a de­pen­dên­cia da he­roína é uma in­fe­li­ci­dade do pas­sado, dei­xou de chei­rar coca e de fu­mar gan­zas, bebe um copo de vi­nho ape­nas ao jan­tar e já não con­some ta­baco. Só man­tém um ví­cio: café forte, cu­bano de preferência.

Continua a ser um re­cluso, mas em vez de se fe­char em casa vai para o campo pra­ti­car Tai Chi.

Não que isso lhe te­nha mu­dado a verve e a re­bel­dia. É o mesmo Iggy Pop, o an­te­ces­sor do punk nos Sixties, que berra para o mi­cro­fone, cheio de ener­gia, fú­ria e escárnio.

Só não se aven­tura mais em stage di­vings, com uma ou ou­tra ex­ce­ção quando a adre­na­lina lhe dis­para, e já não o ve­mos a ro­lar so­bre vi­dro par­tido e a golpear-se com ba­que­tas de ba­te­ria, o san­gue escorrendo-lhe pela cara e pelo peito.

Tem as fei­ções quase tão mar­ca­das pela vida que le­vou quanto as de Keith Richards (como já disse: «O meu look devo-o ao de­bo­che»), mas ainda pos­sui um ven­tre liso e duro que faz in­veja a muito jo­vem roc­ker e con­ti­nua a al­te­rar o ritmo car­díaco a quem não re­siste a tanta te­a­tra­li­za­ção da sua masculinidade…

Iggy Pop pode já ter-se pre­pa­rado para mor­rer, mas os seus fãs ainda não. Aquela pila mar­cou a mú­sica e não vão que­rer deixá-la ir.

→ 22/04/2013 @23:30

Olhem quem esteve cá

Samuel James fotografado por Jon Reece

Samuel James fo­to­gra­fado por Jon Reece

Foram ouvi-lo ao Centro Cultural de Belém no pas­sado fim-de-semana? Esteve in­cluído na pro­gra­ma­ção do Dias da Música, este ano de­di­cado ao tema Romantismo.

Deram um pulo, no sá­bado à noite, à Trem Azul, loja de dis­cos es­pe­ci­a­li­zada em jazz da Rua do Alecrim que se jun­tou às co­me­mo­ra­ções do Record Store Day com a aber­tura do seu pró­prio bar? Era ele o Mr. X do concerto-surpresa agendado…

Viram-no no Sargo Bar, da praia da Parede, quando por lá to­cou há dias o trio de free jazz Saka? Pois era ele quem, de ca­beça ra­pada, bra­ços cheios de ta­tu­a­gens, con­ver­sa­dor, chu­pava o seu ci­garro ele­tró­nico di­ante da avas­sa­la­dora in­ves­tida dos no­ru­e­gue­ses, para não ter de fu­mar um verdadeiro.


Se res­pon­de­ram a tudo afir­ma­ti­va­mente, sorte a vossa.

Se não, não sa­bem o que per­de­ram, mu­si­cal­mente ou ape­nas ouvindo-o fa­lar. Ou por esta al­tura já o per­ce­be­ram, se vi­ram o ví­deo acima.

Samuel James es­teve em Lisboa, com o fu­ra­cão que se esperava.

Trouxe con­sigo uma gui­tarra de caixa pla­ti­nada, um banjo e uma har­mó­nica, e o que nos ofe­re­ceu foi… blues.

Blues de raiz, da­que­les nas­ci­dos no delta do Mississippi, se bem que os usos vo­cais deste jo­vem e no­tá­vel re­cu­pe­ra­dor das tra­di­ções da ne­gri­tude nos Estados Unidos lem­brem por ve­zes um James Brown e até um Tom Waits, indo para des­fe­chos que fo­ram ali­men­ta­dos pe­los blues, mas que já não são blues.

Ou se­rão? O certo é que, se fi­ca­mos en­can­ta­dos com os seus do­tes como gui­tar­rista, às tan­tas esquecemo-nos de que se trata de blues ou se­quer de mú­sica, pois ele é, so­bre­tudo, um con­ta­dor de histórias.

É um story­tel­ler na ve­lha ace­ção da pa­la­vra, remetendo-nos para um tempo em que fa­mí­lias e ami­gos par­ti­lha­vam me­mó­rias e ima­gi­na­ções nas va­ran­das das ca­sas de ma­deira dos cam­pos do Louisiana, do Texas, do Maine, da Califórnia, qual­quer lu­gar onde, do ou­tro lado do Atlântico, se cul­ti­va­vam uns hec­ta­res de mi­lho ou ha­via uma pe­quena pocilga.

Digamos que ele é um rap­per ru­ral, um MC de ou­tros tem­pos que ainda vi­vem, fe­liz­mente, neste tempo de hoje.

Lembrando-nos que o re­ló­gio e o ca­len­dá­rio es­tão em per­ma­nente con­ta­gem, mas o que so­mos to­dos é o que fo­mos an­tes. E o que se­re­mos de­pois. Porque tudo muda me­nos o essencial…

→ 18/04/2013 @19:15

P.J. Harvey, símbolo sexual

P.J. Harvey

Podem ar­gu­men­tar que é coisa de ado­les­cente, mas os íco­nes mu­si­cais com co­no­ta­ção se­xual acompanham-nos por toda a vida… Quem ju­rar que não, mente.

P.J. Harvey é um dos meus sím­bo­los se­xu­ais, e descobri-a já em plena con­di­ção de adulto. Aqui às pa­re­des o confesso.

Bem sei que ela é bai­xota e fran­zina, que os pei­tos, sendo dis­cre­tos, lhe caem com a força da gra­vi­dade, que o na­riz é co­mi­ca­mente pon­ti­a­gudo, que a boca tem-na des­pro­por­ci­o­na­da­mente grande.

Mas oh, que de­li­ci­o­sas pro­mes­sas con­tém uma boca desta lar­gura, que von­tade de lhe mor­dis­car a ponta do na­riz, que pica me dão uns seios a destacarem-se do tronco, como se não fi­zes­sem parte dele.

Nunca me senti atraído por bo­ne­qui­nhas cos­me­ti­za­das e pe­las mu­lhe­res de me­di­das ana­tó­mi­cas per­fei­tas que apa­re­cem nas re­vis­tas. A graça toda da Polly Jean está no facto de, nela, nada ba­ter certo. O corpo como a voz como a mú­sica que toca.

P.J. Harvey é toda ela sexo, mas o sexo da re­a­li­dade real, não a for­jada, ide­a­li­zada, por ci­rur­giões, ar­tis­tas e pu­bli­ci­tá­rios. Enquanto ícone que é, é meio ícone.

Podia vi­ver no pré­dio ao lado do meu, e se as­sim fosse – juro – já eu lhe te­ria ba­tido à porta. Não é inal­can­çá­vel, quero com isto dizer…

Mesmo agora que, mais ve­lha, já não canta so­bre o fogo que se lhe acende no baixo ven­tre e que tro­cou a mor­da­ci­dade do rock pe­los en­le­vos da pop.

 

Ideologia a testosterona


Será inal­can­çá­vel, sim, para a mai­o­ria dos ho­mens que fa­zem da tes­tos­te­rona a base de uma ide­o­lo­gia e de um com­por­ta­mento de ata­que. Não per­tenço a esse grupo de pre­da­do­res, e divirto-me a ima­gi­nar que tal cir­cuns­tân­cia me pro­por­ci­ona uma chance com a can­tora e guitarrista.

Permitam-me que ex­pli­que: P.J. nunca foi ra­pa­riga que se desse à con­fi­ança. Lembro-me de, no iní­cio da car­reira, se in­sur­gir con­tra o gosto que os ho­mens têm de en­gas­gar as suas par­cei­ras, em egoís­tas e in­va­si­vos atos de po­der. Percebem do que ela fa­lava, não?

Ai do ho­mem que se arme em ma­cho com ela. Daí que, ao so­nhar com a sua boca, aceito na mi­nha fan­ta­sia que aque­les lá­bios pin­ta­dos de ver­me­lho vivo, aque­les den­tes, aquela lín­gua semi-oculta é que di­tam as normas.

P.J. HarveyNão as mi­nhas ar­mas, por­que es­sas go­ver­na­ram du­rante mi­lé­nios, com os re­sul­ta­dos que se sabe.

Aliás, dar-me-ia um enorme pra­zer ser con­du­zido pela sua voz, uma das me­lho­res que por aí se ou­vem: os im­pul­sos de ou­trem são sem­pre uma in­cóg­nita e tudo aquilo que se des­co­nhece no que vai re­sul­tar é, à par­tida, aliciante.

Numa al­tura em que tal ainda não era muito co­mum, P.J. Harvey afir­mou a sua se­xu­a­li­dade (mais: o seu de­sejo como força ativa, que não pas­siva, bem exem­pli­fi­cado em «This is Love») de me­nina «feia» que não que­ria abster-se de nada.

As can­ções e a pró­pria ima­gem apon­ta­ram um po­der – o fe­mi­nino, mas de uma fe­mi­ni­li­dade es­tra­nha à do­mi­nante com­pre­en­são mas­cu­lina – con­tra o po­der de sempre.

O tema sado-masoquista «Rid of Me», com a exi­gên­cia de que o com­pa­nheiro lhe lamba as per­nas, é disso que trata, muito explicitamente.

 

Um pa­pel humilhante

P.J. Harvey

Um po­der con­tra o ou­tro, mas não para o vencer.

P.J. Harvey en­ce­nou as suas lu­tas entendendo-as como algo de per­ma­nente e ine­vi­tá­vel, um com­bate eterno en­tre ad­ver­sá­rios indissociáveis.

Em cri­ança brin­cava com ber­lin­des e car­ros e não com bo­ne­cas, recusava-se a ves­tir nada que não fosse cal­ções e cal­ças, não ti­nha ami­gas e exi­gia que lhe cha­mas­sem Paul. Aos 14 anos per­ce­beu que, ape­sar de que­rer ser um ra­paz, tam­bém que­ria fa­zer amor com rapazes.

Começavam os dra­mas: para ela, en­fiar um ves­tido para cha­mar a aten­ção de al­gum moço que a in­te­res­sava foi como re­pre­sen­tar um pa­pel numa peça de te­a­tro. Um pa­pel humilhante.

Acabou por usar ves­ti­dos fre­quen­te­mente desde en­tão, mas mesmo as­sim man­teve uma apa­rên­cia an­dró­gina e in­certa. Umas ve­zes sur­gindo como um ra­pa­zola tra­vesso, ou­tras como uma cute girl. Hoje encontramo-la mais nesta ver­são, com um exa­gero que só pode ser intencional.

Como es­cre­veu uma fã sua, P.J. Harvey é agora uma mu­lher tra­ves­tida de mu­lher, e isso excita-me para além de qual­quer ten­ta­tiva de compreensão.

O que é su­posto que os sím­bo­los se­xu­ais pro­vo­quem, ainda que neste caso de uma ma­neira muito di­fe­rente da ope­rada pe­los de­mais íco­nes que na mú­sica vão surgindo.

→ 16/04/2013 @20:47

Jason Moran ou o jazz estrábico

Jason Moran

Não obs­tante a sua per­ma­nente ca­pa­ci­dade de rein­ven­ção, o campo do jazz não se dis­tin­gue dos de­mais as­pe­tos da cri­a­ti­vi­dade hu­mana quando so­ci­al­mente considerados.

Na sua his­tó­ria, mas so­bre­tudo nos es­pe­cí­fi­cos pe­río­dos em que uma ou ou­tra das for­ças em pre­sença pre­do­mi­nou, de­ter­mi­nando um pa­ra­digma, houve sem­pre quem qui­sesse ir mais além e sem­pre quem fi­zesse ques­tão de recuar.

Por exem­plo, se a dé­cada de 1960 foi re­vo­lu­ci­o­ná­ria, impondo-se no­vos en­ten­di­men­tos e no­vas prá­ti­cas mu­si­cais, já a de 80 foi de pre­ser­va­ção do pa­tri­mó­nio adquirido.

A cé­le­bre po­lé­mica en­tre Anthony Braxton e Wynton Marsalis so­bre o que é e não é jazz in­di­cou, muito sim­ples­mente, que o tempo não é um fluxo con­tí­nuo e uni­forme em di­re­ção ao que vem de­pois, mas sim um rio em que duas cor­ren­tes se con­tra­riam, uma des­cendo até ao es­tuá­rio, na pro­cura de um fu­turo dis­tinto, ou­tra su­bindo com es­for­ços de truta para re­des­co­brir no pas­sado a fonte original.

Até que, no fi­nal dos anos 1990, sur­giu um pi­a­nista so­bre­do­tado de nome curto e fa­cil­mente me­mo­ri­zá­vel, Jason Moran, e com ele ou­tros tan­tos jo­vens mú­si­cos com uma pers­pe­tiva di­fe­rente das coisas.

Seja por in­ge­nui­dade, um fa­tor que até é bem mais po­si­tivo do que se julga, ou por vi­si­o­na­rismo to­tal­mente cons­ci­ente e vo­lun­ta­ri­oso, o que agora pouco im­porta con­si­de­rar, Moran vem de­mons­trando com o seu pró­prio exem­plo que não só o fu­turo in­clui o pas­sado de al­guma ma­neira como, in­clu­sive, que no pas­sado o fu­turo já es­tava delineado.

Ou seja, a água do rio é sem­pre ou­tra, mas tam­bém sem­pre a mesma: água.

 

O grande paradoxo

A arte pi­a­nís­tica de Jason Moran re­sulta de um es­tudo pro­fundo da his­tó­ria do jazz desde as suas ori­gens no stride e é pre­ci­sa­mente com base nesse co­nhe­ci­mento, não na sua ne­ga­ção, não em ru­tura ou em con­flito, que vem cons­truindo uma abor­da­gem ino­va­dora, ex­plo­ra­tó­ria e de pes­quisa das mais iné­di­tas possibilidades.

Este po­si­ci­o­na­mento vem tendo uma mul­ti­pli­ci­dade de im­pli­ca­ções, tam­bém elas con­tri­buindo para a des­mon­ta­gem do que pa­re­cia ser o grande pa­ra­doxo do jazz e o seu drama (com en­ce­na­ção no aceso diá­logo de Braxton e Marsalis acima referido).

Uma é o de­fi­ni­tivo der­rube do con­ceito de «van­guarda», que im­pli­cava a exis­tên­cia de uma su­posta re­ta­guarda, não ha­vendo ar­gu­men­tos su­fi­ci­en­tes para dis­tin­guir os que «vão à frente» dos que «fi­cam atrás», até por­que es­tes úl­ti­mos, re­gra ge­ral, não se­guiam os batedores.

Outra é a morte da no­ção de mains­tream, para mais numa al­tura em que a eco­no­mia tra­tou de ti­rar o jazz das auto-estradas da cul­tura – ou o que passa por esta na ide­o­lo­gia do entretenimento.

Jason e a sua ge­ra­ção destacaram-se, pre­ci­sa­mente, por in­cor­po­rar nas com­po­si­ções ele­men­tos vin­dos tanto das prá­ti­cas ex­pe­ri­men­tais como do âm­bito da pop.

Nesse mo­dus ope­randi co­lo­cando de lado an­ti­gos pre­con­cei­tos se­pa­ra­tis­tas re­la­ti­va­mente às con­di­ções «eru­dita» e «po­pu­lar» que co­lo­ca­vam o jazz na es­qui­zo­fré­nica si­tu­a­ção de am­bi­ci­o­nar o es­ta­tuto da pri­meira, num pro­cesso de gra­dual in­te­lec­tu­a­li­za­ção, ape­sar do seu berço na segunda.

Entre uma es­pe­cial de­vo­ção pelo con­tra­ponto de Bach (que, como já disse, «te­ria gos­tado de ver e ou­vir a im­pro­vi­sar»), um en­tu­si­as­mado in­te­resse pe­las fór­mu­las rít­mi­cas re­pe­ti­ti­vas do hip-hop e uma pai­xão pe­los fra­se­a­dos que­bra­dos e com pou­cas no­tas («me­nos é mais», sus­tenta) de Thelonious Monk, Jason Moran não quis fa­zer op­ções: jun­tou tudo.

 

Retro-futurismo

Todas es­sas di­men­sões co­e­xis­tem no seu riquís­simo vo­ca­bu­lá­rio ao pi­ano e na sua es­crita mul­ti­fa­ce­tada e retro-futurista para o Bandwagon, trio com Tarus Mateen e Nasheet Waits que alude a um filme es­tre­lado por Fred Astaire.

Estão em evi­dên­cia, ainda, nas sur­pre­en­den­tes e pouco or­to­do­xas ver­sões que gra­vou e que toca ao vivo de Monk, como não po­dia dei­xar de ser, de Jaki Byard e de Andrew Hill, seus professores.

Também de Fats Waller to­cado com um Fender Rhodes, em par­ce­ria com a can­tora soul Meshell Ndegeocello, de Conlon Nancarrow, com­po­si­tor para a me­câ­nica pi­a­nola que fu­rava o pa­pel em vez de de­se­nhar fás e si be­móis, ou de Afrika Bambaataa, pi­o­neiro do rap.

Juntou tudo, tam­bém, na cu­ri­osa in­cur­são que fez pela trans­po­si­ção das mo­du­la­ções da fala para a mú­sica, ins­pi­ra­das nas mi­me­ti­za­ções do canto dos pás­sa­ros ope­ra­das por Olivier Messiaen.

De resto, as­sim en­trando num es­treito rol de trans­la­da­do­res vo­cais em que fi­gu­ram Steve Reich, Paul DeMarinis, Hermeto Pascoal, Frank Zappa, Renée Lussier e Ben Neill.

Esta pre­dis­po­si­ção para a trans­ver­sa­li­dade le­vou Jason, in­clu­sive, a bus­car re­fe­rên­cias fora da mú­sica, de­sig­na­da­mente na pin­tura, em ar­tis­tas como Jean-Michel Basquiat, Egon Schiele e Robert Rauschenberg, e na per­for­mance, na dança e na vídeo-arte, áreas em que, de resto, co­la­bo­rou com Alonzo King, Glenn Ligon, Kara Walker, Joan Jonas e Adrian Piper.

O es­pec­tá­culo in­ter­me­dia «In My Mind: Monk at Town Hall, 1959» foi uma das con­sequên­cias. Nele não pro­cu­rou re­pro­du­zir a mú­sica de Thelonious Monk nesse len­dá­rio con­certo, mas sim re­la­tar o pro­cesso que nele resultou.

Se o «edi­fí­cio» já era do co­nhe­ci­mento pú­blico, gra­ças ao disco em que o mesmo fi­cou do­cu­men­tado, o que fez foi re­ve­lar os alicerces.

Costuma afir­mar este de­fen­sor de uma lei­tura não-Monk do song­book mon­ki­ano: «Quando se toca um tema de Thelonious Monk é como se fi­cás­se­mos pos­suí­dos. Temos de que­brar o fei­tiço. Temos de re­cor­dar que so­mos in­di­ví­duos, que não so­mos o Monk.»

 

Citações ele­tró­ni­cas

A vo­ca­ção trans­dis­ci­pli­nar deste na­tu­ral de Houston, no Texas, im­plica o re­curso à tec­no­lo­gia, mas se esta in­flui na sua mú­sica, so­bre­tudo me­di­ante a in­clu­são de ci­ta­ções ele­tró­ni­cas (como um fe­ed­back de gui­tarra pro­du­zido por Jimi Hendrix em Monterey), mais uma vez o mi­ni­ma­lismo ope­ra­tivo se impõe…

Em vez de um com­pu­ta­dor por­tá­til ou de um te­clado MIDI, é um mi­ni­disc re­ti­rado do bolso que serve a Jason Moran para dis­pa­rar os «sons en­con­tra­dos» de que faz fre­quente uso.

O mi­ni­disc de Jason é, de resto, sim­bó­lico, por­que a ati­tude do mú­sico face ao que tem a fa­zer é a de uma cri­ança ao li­dar com um brin­quedo (ou com um es­tojo de quí­mica – es­cre­veu um crí­tico que o au­tor de «Gangsterism» fun­ci­ona como se mis­tu­rasse um ácido com ou­tro para ve­ri­fi­car o que acon­tece, e o que acon­tece é uma ma­ra­vi­lhosa explosão).

Jogar uma lei­tura de um dis­so­nante épico como Prokofiev com uma co­ver da mais re­quin­tada cul­tora da can­ção, Bjork, e in­te­grar numa mesma ló­gica dis­cur­siva as sín­co­pes ba­lan­çan­tes de James P. Johnson com as po­lir­rit­mias do «caos-como-ordem» de Cecil Taylor não são, à par­tida, com­bi­na­ções plausíveis.

O certo é que ex­pli­cam o fe­nó­meno Jason Moran.

E não se trata ape­nas de um re­cei­tuá­rio de apli­ca­ção nas de­am­bu­la­ções do grupo de Moran, seja no seu for­mato ori­gi­nal, seja em quar­teto (já se fez acres­cen­tar por Sam Rivers e por Marvin Sewell), em quin­teto (com a jun­ção de Ralph Alessi e Abdou Mboup) ou em di­men­são or­ques­tral, en­quanto Big Bandwagon.

Em exer­cí­cio como con­sul­tor da pro­gra­ma­ção de jazz (leia-se: cu­ra­dor) do Kennedy Center, em Washington D.C., desde Outubro de 2012, o «mais pro­vo­ca­tivo pen­sa­dor do jazz atual», se­gundo a re­vista Rolling Stone, se­gue exa­ta­mente os mes­mos princípios.

Pela sua mão, já lá es­ti­ve­ram o «van­guar­dista» Anthony Braxton, um dos re­pre­sen­tan­tes do jazz que ainda se atreve a dan­çar, Eddie Palmieri, e um trio que pro­fessa um se­me­lhante (re­la­ti­va­mente à fór­mula Bandwagon) atra­ves­sa­mento de fron­tei­ras, Medeski, Martin & Wood.

 

Jazz para dançar


Aliás, e já que aludi à dança, uma das pri­mei­ras ini­ci­a­ti­vas de Moran foi trans­for­mar o átrio do Kennedy Center no que de­sig­nou por Supersized Jazz Club, com pista para a dita, bar, me­sas al­tas e ape­nas uns so­fás e ca­dei­ras em lo­ca­li­za­ções laterais.

A inau­gu­ra­ção foi com a sua «Fats Waller Dance Party», o que muito significa.

Para de­pois, fi­ca­ram mar­ca­das atu­a­ções de «his­tó­ri­cos» ainda a me­xer, como Lonnie Smith com o seu Hammond B-3, Dave Holland, o bai­xista do pri­meiro pe­ríodo elé­trico de Miles Davis, Kenny Barron, o pi­a­nista mais lí­rico do be bop, e Charles Lloyd, um so­bre­vi­vente do flower power jaz­zís­tico a cuja banda prin­ci­pal Jason Moran per­tence en­quanto si­de­man.

Na pers­pe­tiva deste recém-estreado pro­gra­ma­dor, «é pre­ciso ter do ca­non do jazz uma vi­são alar­gada».

Entretanto, Jason or­ga­ni­zou ses­sões mis­tas de jazz com co­mé­dia, na re­po­si­ção de uma re­a­li­dade que re­monta ao vau­de­ville e que, hoje, po­derá con­tri­buir para que este gé­nero de mú­sica não se leve de­ma­si­ado a sério.

E por­que há ques­tões que de­vem ser en­ca­ra­das com maior so­bri­e­dade pro­mo­veu, igual­mente, a sé­rie Election Night, as­so­ci­ando o jazz po­lí­tico ao ba­la­dismo folk de cam­pa­nha e à ele­tró­nica de fun­da­men­ta­ção hip-hop.

É este re­pre­sen­tante de uma ter­ceira via de com­pre­en­são da na­tu­reza e do pa­pel do jazz que al­gu­mas ve­zes já ti­ve­mos en­tre nós – a úl­tima no iní­cio deste ano, no Grande Auditório da Culturgest.

Habituei-me a imaginá-lo es­trá­bico quando en­tra no palco com os seus com­pa­nhei­ros de mis­são. Não o é de apa­rên­cia, mas to­dos sa­be­mos como as apa­rên­cias ilu­dem: na ver­dade, mira com um olho o que foi e vis­lum­bra com o ou­tro o que virá.

Porque os seus pi­a­nis­mos es­tão na tran­si­ção ri­tual en­tre es­ses dois tem­pos, per­ce­be­mos de­pressa que Jason Moran é o ter­ceiro olho, aquele que lhe ve­mos nas­cer no meio da testa à me­dida que a mú­sica desce e sobe o seu curso.

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