→ 21/05/2013 @11:28

Nick Cave e a falta de patareca


A can­ção acima é so­bre a falta de pa­ta­reca, mal que cos­tuma afe­tar sol­tei­ros e ca­sa­dos por mo­ti­vos tão di­ver­sos quanto es­tra­nhos, dado que a dita cuja anda por aí aos mi­lhões e sem­pre com apo­quen­ta­dora proximidade…

Tão des­di­toso tema te­ria um dia de ser tra­tado mu­si­cal­mente em jeito de in­ter­ven­ção, e não ad­mira que tal acon­te­cesse com o for­mato dos blues. Nada como os ve­lhi­nhos blues para exor­ci­zar os gran­des pro­ble­mas da so­ci­e­dade, para não di­zer da humanidade.

«No Pussy Blues», se chama este blues de pro­testo e rei­vin­di­ca­ção. É o que de mais po­lí­tico se ou­viu na mú­sica com gui­tar­ras es­tes úl­ti­mos anos. Afinal, as ques­tões de pa­ta­reca são mais im­por­tan­tes do que as da eco­no­mia e da governação.

Mesmo para os in­gle­ses, tal­vez aque­les que mais se fin­gem su­pe­ri­o­res a esta pa­to­lo­gia so­cial de di­men­são pla­ne­tá­ria – para to­dos os efei­tos, as ima­gens e o som acima fo­ram gra­va­dos no pro­grama «Later» de Jools Holland, trans­mi­tido pela BBC 2.

Mas de cer­te­zi­nha por­que alu­dir a as­sun­tos in­con­ve­ni­en­tes tem con­sequên­cias – a cen­sura, meus ca­ros, a cen­sura –, esta su­blime peça de mú­sica nunca mais será in­ter­pre­tada. A banda que a tal se atre­veu, Grinderman, já não existe.

O seu men­tor, Nick Cave, deu a in­ves­tida por ter­mi­nada – a des­pe­dida foi o mês pas­sado, Abril, no ca­li­for­ni­ano Coachella Valley Music and Arts Festival. E tratou-se já de um co­me­back, por­que o po­eta, ro­man­cista, au­tor de can­ções, vo­ca­lista, gui­tar­rista e te­clista aus­tra­li­ano «de­ci­diu» em 2011 re­a­gru­par os Bad Seeds, a for­ma­ção que lhe dá mais acesso às no­tas de banco e… es­pera ele, mas é uma ilu­são… às pa­ta­re­cas deste mundo.

Má des­culpa, sabendo-se pre­ci­sa­mente que os Grinderman fo­ram for­ma­dos para fu­gir a uns Bad Seeds cada vez me­nos blu­esy e mais ba­la­dei­ros. Toda a gente já sabe que a ba­lada re­pre­senta a con­for­ma­ção mas­cu­lina à ideia de que há algo de di­vi­na­mente inal­can­çá­vel no Eterno Sexo – a ori­gem do mundo, se­gundo o pin­tor Gustave Courbet.

Nick Cave não apren­deu a li­ção com P.J. Harvey e Kylie Minogue. Pensava ter ga­nho umas pa­ta­re­cas, mas as pa­ta­re­cas é que lhe ga­nha­ram a ele…

→ 17/05/2013 @15:11

O rock das docas

The Fall é o punk de de­pois do punk, e tal­vez seja por isso que lhe co­lo­cam o ca­rimbo «pós». Uma sim­pli­fi­ca­ção que ig­nora al­guns fac­tos. Este, por exem­plo: se o punk era uma mú­sica de jo­vens em co­li­são com o sis­tema de en­sino, o punk pós-punk de Mark E. Smith, o vo­ca­lista, au­tor das can­ções e único mem­bro per­ma­nente deste grupo bri­tâ­nico, foi desde o co­meço – e as­sim con­ti­nuou – uma mú­sica de operários.

Mark E. Smith

Smith tra­ba­lhava nas do­cas, mas ti­nha um ape­tite in­te­lec­tual imenso. Devorava os es­cri­to­res exis­ten­ci­a­lis­tas e muito em par­ti­cu­lar Albert Camus (a quem foi bus­car o nome da banda), as­sim como a li­te­ra­tura ne­gra de um Edgar Allan Poe e um H. P. Lovecraft, e ti­nha es­pe­cial de­vo­ção pelo alu­ci­nado Philip K. Dick.

O sur­re­a­lismo nas ar­tes vi­su­ais e o neo-realismo ci­ne­ma­to­grá­fico eram ou­tras suas fon­tes de interesse.

Além disso, ga­nhara uma cons­ci­ên­cia po­lí­tica nas car­gas e des­car­gas dos na­vios: está há muito li­gado ao trots­kista Soci­a­list Workers Party.

Cedo viu no rock uma via para se ex­pres­sar ar­tis­ti­ca­mente, pelo que tro­cou a es­tiva por uma car­reira como mú­sico a par­tir de 1976, nunca es­que­cendo as suas ori­gens. Com uma tal con­vic­ção que che­gou a fa­zer uma tour­née com a ba­cia par­tida, sen­tado numa ca­deira de ro­das, até que as do­res e os efei­tos da me­di­ca­ção o im­pe­di­ram de con­ti­nuar com os concertos.

A sua con­tra­di­tó­ria aten­ção às re­a­li­da­des so­ci­ais e eco­nó­mi­cas e aos uni­ver­sos fan­ta­si­o­sos e de fic­ção ci­en­tí­fica de­ter­mi­nou o con­teúdo dos mi­lha­res de le­tras (ou, mais exa­ta­mente, de po­e­mas, pois têm re­le­vân­cia lí­rica) que já es­cre­veu: tanto canta so­bre os di­rei­tos dos tra­ba­lha­do­res, as con­sequên­cias do abuso de dro­gas e a vi­o­lên­cia dos ho­o­li­gans como so­bre o so­bre­na­tu­ral e as vi­a­gens no tempo.

Sempre de forma críp­tica, com jo­gos de sen­tido, pro­cu­rando mos­trar o ab­surdo dos mo­dos de vida capitalistas.

Tem uma voz e uma ma­neira de can­tar úni­cas, en­tre o de­cla­ma­tó­rio e o per­verso, ora pa­re­cendo cus­pir as pa­la­vras, ora mantendo-as na boca para lhes ava­liar a acidez.

Tornou-se num sím­bolo, sendo cons­tan­te­mente con­vi­dado para ses­sões de spo­ken word, fil­mes, sé­ries te­le­vi­si­vas e gra­va­ções de dis­cos de ou­tros gru­pos, como Mouse on Mars, Gorillaz, Coldcut e Inspiral Carpets. A in­dús­tria da mú­sica e do es­pe­tá­culo gosta às ve­zes de se mos­trar pro­gres­sista, e quando tal foi da con­ve­ni­ên­cia deste mi­li­tante ele apro­vei­tou as cir­cuns­tân­cias para es­pa­lhar a mensagem.

A mú­sica de The Fall, essa, é rit­mi­ca­mente re­pe­ti­tiva, hip­nó­tica, obsessivo-compulsiva. Há algo de funk nas li­nhas de baixo e ba­te­ria, mas a gui­tarra coloca-se de fora das tra­mas, sendo uti­li­zada como um ge­ra­dor de ruído.

Ou ama-se ou odeia-se e eu es­tou en­tre os que a ela ade­ri­ram logo desde a pri­meira au­di­ção. Pelos vis­tos, tam­bém os or­ga­ni­za­do­res do fes­ti­val Out Fest, que to­dos os anos de­corre no Barreiro. Em Outubro te­re­mos por cá Mark Edward Smith, o pro­le­tá­rio do rock, mais os seus parceiros…

→ 13/05/2013 @2:45

Zappapita

→ 10/05/2013 @10:51

Ora tomem e embrulhem

Os Ceramic Dog de Marc Ribot têm novo ál­bum, aca­ba­di­nho de sair: «Your Turn». Os ví­deos que se se­guem são de dois dos te­mas for­tes da co­le­ção: o psi­ca­dé­lico «Lies My Body Told Me»…


…e o muito po­lí­tico e pro­vo­ca­tó­rio «Masters of the Internet», este de­di­cado a to­dos os pi­ra­tas de água doce out there.


Marc Ribot, disse. Não sa­bem quem é? Pois de­viam, já que se trata, muito sim­ples­mente, de um dos me­lho­res gui­tar­ris­tas em ati­vi­dade, seja qual for a área mu­si­cal em que na oca­sião se mo­vi­menta: jazz, rock, funk (a par­tir de com­po­si­ções de John Cage!), im­pro­vi­sa­ção li­vre, ex­pe­ri­men­ta­lismo ma­rado ou ne­nhuma des­sas coi­sas, por­que no que faz há obras que de­sa­fiam qual­quer categorização.

O pró­prio cur­rí­culo do ho­mem de­mons­tra o seu ca­rác­ter mul­ti­fa­ce­tado: es­tu­dou com o mes­tre da gui­tarra ha­vai­ana Frantz Casseus, tra­ba­lhou com Tom Waits e com John Lurie nos em­ble­má­ti­cos Lounge Lizards, gra­vou e su­biu ao palco com gente como Elvis Costello, Robert Plant (sim, sim, o dos Led Zeppelin), Laurie Anderson, Caetano Veloso, Wilson Pickett, Chuck Berry, McCoy Tyner, James Carter, Norah Jones e Elton John.

Quando John Zorn pre­cisa de uma so­lid body, é ele quem vai bus­car, pelo que es­tará pre­sente nos vá­rios gru­pos do sa­xo­fo­nista que vêm à co­me­mo­ra­ção dos 60 anos deste no pró­ximo Jazz em Agosto, ali nos jar­dins da Gulbenkian.

Antes dos Ceramic Dog, Ribot li­de­rou ou­tras ban­das mais in­con­fun­di­vel­mente ro­quei­ras, em ver­são noise-punk-no wave, Rootless Cosmopolitans e Shrek.

Teve ou­tra de mú­sica fal­sa­mente cu­bana, Los Cubanos Postizos, e uma de­di­cada ao free jazz de Albert Ayler, Spiritual Unity, que ti­nha a par­ti­cu­la­ri­dade de in­cluir Henry Grimes, o len­dá­rio con­tra­bai­xista dos gru­pos do de­sa­pa­re­cido te­nor que, se­gundo um crí­tico ame­ri­cano, so­ava como se al­guém gri­tasse «foda-se» em plena missa.

 

Algemado só nos pulsos

Marc Ribot

É pre­ci­sa­mente essa a pos­tura as­su­mida por Marc Ribot: es­tou aqui «e não é para con­for­tar nin­guém», o tí­tulo de uma peça jor­na­lís­tica re­cen­te­mente pu­bli­cada so­bre esta fi­gura em des­ta­que na cena de Nova Iorque.

É, aliás, um ati­vista pe­los di­rei­tos dos ar­tis­tas. Quando se trata de fa­zer ocu­pa­ções, lá está ele. Volta e meia, apa­re­cem na im­prensa fo­tos de Ribot, al­ge­mado e ro­de­ado de po­lí­cias, rumo à es­qua­dra mais próxima.

«Your Turn» sucede-se ao ál­bum de es­treia dos Ceramic Dog, «Party Intellectuals», aquele mesmo em que surge uma obra-prima da can­ção cha­mada «When We Were Young and We Were Freaks”, que me dei­xou de queixo caído quando a ouvi pela pri­meira vez.

A di­fe­rença do novo CD re­la­ti­va­mente a esse pri­meiro está na ob­je­ti­vi­dade: en­quanto na­quele ha­via al­guns de­va­neios «van­guar­dis­tas», neste vai-se di­re­ta­mente à ques­tão, e a ques­tão chama-se rock and roll. Simples e efi­caz como uma pe­dra a rolar…

Ceramic Dog

Ceramic Dog: Marc Ribot, Ches Smith e Shahzad Ismaily

Com Ribot está Ches Smith, ba­te­rista re­par­tido en­tre o jazz e o rock que, neste úl­timo do­mí­nio, per­tence às for­ma­ções Secret Chiefs 3 e Xiu Xiu, jun­tando as duas abor­da­gens nos pro­je­tos These Arches (aten­ção, edi­tado por uma eti­queta por­tu­guesa, a Clean Feed) e Good for Cows.

E está tam­bém o bai­xista e ma­ni­pu­la­dor de sin­te­ti­za­do­res Shahzad Ismaily, um fi­lho de pa­quis­ta­ne­ses emi­gra­dos nos EUA que tem a par­ti­cu­la­ri­dade de ser o único mú­sico, no meu co­nhe­ci­mento, que to­cou tanto com Lou Reed como com Nels Cline, dos Wilco.

→ 08/05/2013 @21:06

A dita cuja de Iggy Pop

Faz este ano 66 de vida e acaba de lan­çar um ál­bum com tí­tulo pro­vo­ca­tó­rio, «Ready to Die».

Recentemente, um jor­na­lista fez-lhe a per­gunta que nin­guém ainda ti­vera a co­ra­gem de di­ri­gir ao ve­te­rano can­tor que é um dos mai­o­res sím­bo­los se­xu­ais do rock, ao lado de Jim Morrison, Lou Reed, David Bowie e Mick Jagger: se a sua re­la­ção com a pila ti­nha mu­dado com a idade…

Fazia todo o sen­tido. Em tem­pos que lá vão, James Osterberg – de seu ver­da­deiro nome – gos­tava de os­ten­tar o seu «grande e belo» (se­gundo Erik Hedegaard, hoje um dos edi­to­res da re­vista Rolling Stone) mem­bro nos pal­cos e di­ante das câ­ma­ras e volta e meia sur­giam no­tí­cias so­bre as suas no­vas na­mo­ra­das. Que fo­ram muitas.

Iggy Pop

Iggy Pop em Memphis, 2007

Além de que muito se es­pe­cu­lou so­bre a sua li­ga­ção a Bowie nos anos (de 1976 a 78) em que tra­ba­lha­ram jun­tos em Berlim. Iggy Pop ne­gou que te­nha ha­vido idas di­re­tas do es­tú­dio para a cama, e se o ex-Ziggy Stardust nunca o ad­mi­tiu, tam­bém nunca disse que não.

Pouca im­porta, na ver­dade. A sua ima­gem se­xual desde os tem­pos dos Stooges é tão car­re­gada que se tor­nou homo-erótica. Se mui­tas ra­pa­ri­gas sus­pi­ra­ram ao vê-lo can­tar de tronco nu, a não me­nos ra­pa­zes ins­pi­rou va­len­tes ereções.

Veja-se, de resto, a per­so­na­gem de Curt Wild no filme “Velvet Goldmine», nele inspirada…

O certo é que Iggy res­pon­deu ao jor­na­lista com esta enig­má­tica (ou nem tanto as­sim) frase: «Se an­tes o meu pé­nis era como todo um par­tido po­lí­tico, hoje di­ria que se pa­rece mais com uma ten­dên­cia or­ga­ni­zada den­tro de um par­tido.»

 

Olhar para os pássaros

O certo é que a sua longa his­tó­ria de amor com Nina Alu, um quarto de sé­culo mais nova do que ele (mas adulta!), o acal­mou. Já não é o mesmo que, aos 20 anos, an­dava atrás de miú­das de 13, 14 e 15, o que, se fosse agora, lhe te­ria va­lido umas pe­nas de pri­são por pedofilia.

Confessou Nina, se­pa­rando o ho­mem pú­blico e o ho­mem pri­vado: «Gosto de Iggy Pop e respeito-o, mas acho que não con­se­gui­ria vi­ver com ele. O Jim já é ou­tra coisa. O Jim é doce, é sos­se­gado e é ro­mân­tico. Quando es­ta­mos a jan­tar ou a fa­zer amor é o Jim que te­nho ali, não o Iggy, e às ve­zes apanho-o a olhar para as ár­vo­res e para os pás­sa­ros.»

De facto, mui­tas coi­sas se al­te­ra­ram na exis­tên­cia de Iggy: a de­pen­dên­cia da he­roína é uma in­fe­li­ci­dade do pas­sado, dei­xou de chei­rar coca e de fu­mar gan­zas, bebe um copo de vi­nho ape­nas ao jan­tar e já não con­some ta­baco. Só man­tém um ví­cio: café forte, cu­bano de preferência.

Continua a ser um re­cluso, mas em vez de se fe­char em casa vai para o campo pra­ti­car Tai Chi.

Não que isso lhe te­nha mu­dado a verve e a re­bel­dia. É o mesmo Iggy Pop, o an­te­ces­sor do punk nos Sixties, que berra para o mi­cro­fone, cheio de ener­gia, fú­ria e escárnio.

Só não se aven­tura mais em stage di­vings, com uma ou ou­tra ex­ce­ção quando a adre­na­lina lhe dis­para, e já não o ve­mos a ro­lar so­bre vi­dro par­tido e a golpear-se com ba­que­tas de ba­te­ria, o san­gue escorrendo-lhe pela cara e pelo peito.

Tem as fei­ções quase tão mar­ca­das pela vida que le­vou quanto as de Keith Richards (como já disse: «O meu look devo-o ao de­bo­che»), mas ainda pos­sui um ven­tre liso e duro que faz in­veja a muito jo­vem roc­ker e con­ti­nua a al­te­rar o ritmo car­díaco a quem não re­siste a tanta te­a­tra­li­za­ção da sua masculinidade…

Iggy Pop pode já ter-se pre­pa­rado para mor­rer, mas os seus fãs ainda não. Aquela pila mar­cou a mú­sica e não vão que­rer deixá-la ir.

→ 22/04/2013 @23:30

Olhem quem esteve cá

Samuel James fotografado por Jon Reece

Samuel James fo­to­gra­fado por Jon Reece

Foram ouvi-lo ao Centro Cultural de Belém no pas­sado fim-de-semana? Esteve in­cluído na pro­gra­ma­ção do Dias da Música, este ano de­di­cado ao tema Romantismo.

Deram um pulo, no sá­bado à noite, à Trem Azul, loja de dis­cos es­pe­ci­a­li­zada em jazz da Rua do Alecrim que se jun­tou às co­me­mo­ra­ções do Record Store Day com a aber­tura do seu pró­prio bar? Era ele o Mr. X do concerto-surpresa agendado…

Viram-no no Sargo Bar, da praia da Parede, quando por lá to­cou há dias o trio de free jazz Saka? Pois era ele quem, de ca­beça ra­pada, bra­ços cheios de ta­tu­a­gens, con­ver­sa­dor, chu­pava o seu ci­garro ele­tró­nico di­ante da avas­sa­la­dora in­ves­tida dos no­ru­e­gue­ses, para não ter de fu­mar um verdadeiro.


Se res­pon­de­ram a tudo afir­ma­ti­va­mente, sorte a vossa.

Se não, não sa­bem o que per­de­ram, mu­si­cal­mente ou ape­nas ouvindo-o fa­lar. Ou por esta al­tura já o per­ce­be­ram, se vi­ram o ví­deo acima.

Samuel James es­teve em Lisboa, com o fu­ra­cão que se esperava.

Trouxe con­sigo uma gui­tarra de caixa pla­ti­nada, um banjo e uma har­mó­nica, e o que nos ofe­re­ceu foi… blues.

Blues de raiz, da­que­les nas­ci­dos no delta do Mississippi, se bem que os usos vo­cais deste jo­vem e no­tá­vel re­cu­pe­ra­dor das tra­di­ções da ne­gri­tude nos Estados Unidos lem­brem por ve­zes um James Brown e até um Tom Waits, indo para des­fe­chos que fo­ram ali­men­ta­dos pe­los blues, mas que já não são blues.

Ou se­rão? O certo é que, se fi­ca­mos en­can­ta­dos com os seus do­tes como gui­tar­rista, às tan­tas esquecemo-nos de que se trata de blues ou se­quer de mú­sica, pois ele é, so­bre­tudo, um con­ta­dor de histórias.

É um story­tel­ler na ve­lha ace­ção da pa­la­vra, remetendo-nos para um tempo em que fa­mí­lias e ami­gos par­ti­lha­vam me­mó­rias e ima­gi­na­ções nas va­ran­das das ca­sas de ma­deira dos cam­pos do Louisiana, do Texas, do Maine, da Califórnia, qual­quer lu­gar onde, do ou­tro lado do Atlântico, se cul­ti­va­vam uns hec­ta­res de mi­lho ou ha­via uma pe­quena pocilga.

Digamos que ele é um rap­per ru­ral, um MC de ou­tros tem­pos que ainda vi­vem, fe­liz­mente, neste tempo de hoje.

Lembrando-nos que o re­ló­gio e o ca­len­dá­rio es­tão em per­ma­nente con­ta­gem, mas o que so­mos to­dos é o que fo­mos an­tes. E o que se­re­mos de­pois. Porque tudo muda me­nos o essencial…

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