→ 19/05/2013 @22:08

Uma Foto e uma Música [116]

Foto: Lusa, au­tor des­co­nhe­cido | Música: The Jellyfish Kiss
→ 27/03/2013 @23:30

O Tiki-taka de Sócrates

Miguel A. Lopes

Foto: Miguel A. Lopes/LUSA

As en­tre­vis­tas a José Sócrates de­viam cons­tar da ma­té­ria cur­ri­cu­lar obri­ga­tó­ria nos cur­sos de Jornalismo. Imagino que a ideia de en­si­nar os alu­nos a en­fren­tar o ex-primeiro mi­nis­tro em en­tre­vista seja, para um pro­fes­sor da ca­deira, tão mo­ti­va­dora e de­sa­fi­ante como de­ter­mi­nar a tá­tica para ven­cer o Barcelona.

Porque a ver­dade – goste-se do ho­mem ou não – é que Sócrates é um Barça da po­li­ti­quice: os ad­ver­sá­rios não con­se­guem ter a posse de bola, perturbam-se, enervam-se e ten­tam dar umas sar­ra­fa­das, transformando-se os jornalistas/entrevistadores na­quele Real Madrid que per­deu 5–0 no Santiago Barnabéu.

Além de ser exí­mio no con­trolo de bola, Sócrates tam­bém é muito bom a si­mu­lar uns mer­gu­lhos para a pis­cina en­quanto, in­dig­nado, pede ao ár­bi­tro – ou seja, a to­dos nós – a mos­tra­gem do car­tão ama­relo aos ad­ver­sá­rios que o ten­tam travar.

→ 09/03/2013 @17:06

O professor Paunocu

A olho nu não se vê, mas de cer­teza que tem um pau a entrar-lhe pelo cu e a sair-lhe pela boca. Anda e articula-se como se algo mais lhe atra­ves­sasse a es­pi­nha para além da pró­pria es­pi­nha. Talvez por­que esta não existe: na­quela al­tura de gente não osso.

Parece um bo­neco, em­bora en­gra­va­tado como um ad­mi­nis­tra­dor de em­pre­sas. E quando a glote lhe ar­re­donda as pa­la­vras, um bo­neco con­ti­nua a pa­re­cer. Tem voz de Pinóquio, em­pres­tada de um ven­trí­lo­quo que tam­bém não é vi­sí­vel. Será de pre­su­mir que tal acon­tece por não a usar muito: re­gra ge­ral, está ca­lado. Tem ten­dên­cia para di­zer dis­pa­ra­tes. Daqueles com cheiro a alho, à labrego…

Aliás, das pou­cas ve­zes que fala per­ce­be­mos que anda por ali um per­tur­ba­dor com­plexo de in­fe­ri­o­ri­dade so­cial: o seu cur­rí­culo pode ser o de um ca­te­drá­tico, mas a con­versa que ar­risca, mis­tu­rando ver­bos e sa­liva seca, é a de um pes­ca­dor que se en­ver­go­nha das suas origens.

Diz-se um ho­mem de vi­sões lar­gas, mas afi­nal o que o ca­rac­te­riza é uma es­tra­nha re­ceita para re­sol­ver os seus con­fli­tos in­te­ri­o­res: pro­fessa o ca­pi­ta­lismo po­pu­lar. O seu ideal é um país em que to­dos jo­guem na Bolsa, uma so­ci­e­dade de pro­le­tá­rios acionistas.

Como, em vez de apos­tar­mos na ro­leta eco­nó­mica, va­mos a pouco-e-pouco per­dendo os em­pre­gos, tende a fechar-se. Não en­tende o que se passa, anda con­fuso e an­gus­ti­ado. Se ca­lha pôr a ca­beça fora da porta, não é ca­paz de di­ri­gir ao mundo mais do que um sor­riso atrapalhado.

Esse es­gar com den­ti­nho de fora he­sita en­tre o pa­té­tico e o si­nis­tro: ora sus­cita pena, ora de­nun­cia um se­creto Mefistófeles. O coi­tado diz que o di­nheiro não lhe chega até ao fim do mês e que fez mal em ter tro­cado o or­de­nado a que ti­nha di­reito por uma hu­milde pen­são. Mas quando es­ta­mos quase, quase a comiserar-nos com o po­bre, des­con­fi­a­mos. Os olhi­nhos de boi que se en­co­vam no seu rosto pa­ra­le­le­pí­pedo só po­dem es­con­der marosca.

O pior é que, como bons por­tu­gue­ses que so­mos, o pé atrás ape­nas con­tri­bui para ser­mos as­so­ber­ba­dos por cruéis sen­ti­men­tos de culpa. Sobretudo quando lhe go­za­mos a mar­quise, a pos­tura rí­gida e auto-repressiva de múmia.

Por isso, lá vai ele fi­cando es­con­dido e si­len­ci­oso, feito em­blema da me­di­o­cri­dade e da inér­cia na­ci­o­nais. Não é nin­guém em es­pe­cial, ape­nas um pro­fes­sor chico-esperto, mas o pior é que tam­bém é nós to­dos, co­le­ti­va­mente em­pa­la­dos por nos­sas pró­prias mãos de­pois de sé­cu­los de os­te­o­po­rose mental.

→ 04/03/2013 @17:43

O pequeno Hélder

Daniel Oliveira

Pronto, pá, ad­mito: te­nho uma grande con­si­de­ra­ção pelo Daniel Oliveira, ele que até está mais à di­reita do que eu (eheheheh) e tem um ponto de vista algo par­ti­dá­rio das coi­sas, o que não se com­pa­ti­bi­liza com a mi­nha con­fi­gu­ra­ção mental…

Procuro sem­pre sa­ber qual é a sua opi­nião, seja no blo­gue Arrastão, no Expresso ou no pro­grama da Sic Notícias em que par­ti­cipa, Eixo do Mal. Na maior parte dos ca­sos, acho que acerta na mu­che com uma rara sagacidade.

É um tipo in­te­li­gente e tem a vir­tude de não pen­sar só com a ca­beça: o co­ra­ção acom­pa­nha. Além disso, tem hu­mor, que é algo que mui­tas ve­zes me falta. Quem me lê aqui no Bitaites, sabe disso.

Somos ami­gos no Facebook, mas du­vido que ele se lem­bre de mim. Ao con­trá­rio dele, de me­diá­tico te­nho pouco e pre­firo as­sim. Conheci-o no Diário de Lisboa, por onde pas­sou epi­so­di­ca­mente, já na reta fi­nal de exis­tên­cia desse ves­per­tino de que te­nho tan­tas saudades.

O Daniel era, na al­tura, um miúdo, e es­cre­via mal que se farta. O salto que deu! Hoje é dos me­lho­res que pro­seiam por aí.

Nessa al­tura, já ele an­dava nas com­pa­nhias do Miguel Portas e do Paulo Varela Gomes, com quem eu ti­nha al­gu­mas afi­ni­da­des in­te­lec­tu­ais, mais do que po­lí­ti­cas – es­ta­vam na al­tura a afastar-se do PCP, par­tido que não ti­nha as mi­nhas sim­pa­tias, an­tes pelo contrário.

Acompanhei, de longe, a sua pas­sa­gem pela Plataforma de Esquerda e pela Política XXI, e de­pois o seu en­vol­vi­mento na fun­da­ção do Bloco de Esquerda. Também o que es­cre­via para o jor­nal Já e para a Vida Mundial.

Não sei se por­que es­tava com o en­tre­tanto fa­le­cido Miguel (grande sus­piro) e com o Paulo, se por ser fi­lho de um dos meus po­e­tas fa­vo­ri­tos, Herberto Hélder, ou se por ser do meu clube, o Sporting (pronto, lá vem ou­tra re­fe­rên­cia triste; já não vou ser ca­paz de me­ter umas gra­ço­las por aqui), a cu­ri­o­si­dade manteve-me atento ao seu percurso.

Sem ter­mos as mes­mas ideias (ele é um mar­xista, eu um so­ci­a­lista li­ber­tá­rio), e es­tando este vosso blo­guista há mais tempo nas an­dan­ças da vida, tornou-se-me numa re­fe­rên­cia diária.

E por­que es­tou a con­fes­sar isto? Nada de mais ób­vio: para vos acon­se­lhar que o leiam e oi­çam, in­de­pen­den­te­mente de con­cor­da­rem ou não com o Pequeno Hélder, como eu lhe chamo (é tão fi­si­ca­mente pa­re­cido com o pai que até assusta).

Vale sem­pre a pena dar aten­ção a quem tem ideias, e olhem que não há mui­tos assim…

 

Adenda

Entretanto, soube que o Daniel se de­mi­tiu do Bloco de Esquerda, acu­sando a di­re­ção, e a ten­dên­cia li­de­rada por Francisco Louçã, a do­mi­nante no par­tido, de sec­ta­rismo. Enfim, do que es­tava ele à es­pera numa or­ga­ni­za­ção que junta ma­oís­tas e trotzkys­tas, se­não au­to­ri­ta­rismo leninista?

→ 24/02/2013 @0:12

Anda uma pessoa a estudar para isto

Foto: Mário Cruz

Foto: Mário Cruz

Miguel Relvas foi im­pe­dido de in­ter­vir num evento or­ga­ni­zado pela TVI de­di­cado ao tema «Como vai ser o jor­na­lismo dos pró­xi­mos 20 anos?»

Quando ten­tou par­ti­lhar a sua fas­ci­nante vi­são do fu­turo do jor­na­lismo com a au­di­ên­cia pre­sente nas ins­ta­la­ções da uni­ver­si­dade, o fu­turo co­me­çou a gri­tar «de­mis­são, de­mis­são», «os es­tu­dan­tes uni­dos ja­mais se­rão ven­ci­dos» e o po­lí­tico não con­se­guiu fa­lar — é sem­pre chato quando isso acon­tece, ad­mito. Lá fora, na rua, cantava-se o «Grândola, Vila Morena».

Há quem con­si­dere os jo­vens que in­ter­rom­pe­ram Relvas uns pro­to­fas­cis­tas des­res­pei­ta­do­res da li­ber­dade alheia. Que o ho­mem ti­nha todo o di­reito de fa­lar. Em Democracia não se si­len­cia as­sim as pes­soas. A can­ção não é uma arma, é só uma in­ven­ção de po­e­tas e char­ra­dos de esquerda.

Entendo que por uma ques­tão de prin­cí­pio se fale de li­ber­dade quando ou­tra pes­soa é im­pe­dida de fa­lar, mas ao mesmo tempo tam­bém me ques­ti­ono por que ra­zão a TVI con­vi­dou Relvas para fa­lar so­bre o fu­turo do Jornalismo.

Sei que tu­tela a área, mas não o jul­gava um especialista.

A úl­tima vez que o vi in­ter­vir de forma enér­gica na Comunicação Social foi quando usou o te­le­fone para ame­a­çar a jor­na­lista Maria José Oliveira e o jor­nal onde tra­ba­lhava, pro­me­tendo que iria re­ve­lar da­dos so­bre a vida pri­vada da jor­na­lista e se­car fon­tes ao «Público» se um de­ter­mi­nado con­junto de ar­ti­gos me­nos abo­na­tó­rios para a sua pes­soa vi­esse a ser publicado.

Bem, tal­vez te­nha vindo à Universidade fa­lar do fu­turo de al­guns jor­na­lis­tas e não do Jornalismo em si — ex­pli­car, por exem­plo, as di­fe­ren­ças en­tre o fu­turo de ór­gãos de co­mu­ni­ca­ção so­cial que lhe de­sa­fiam a li­cen­ci­a­tura e o fu­turo dos que o con­vi­dam a dar pa­les­tras em universidades.

Graças aos me­li­an­tes que o in­ter­rom­pe­ram, nunca vi­re­mos a saber.

 

Deixem fa­lar o Relvas, pá

Reconheço que a ques­tão Relvas não deixa de ser in­có­moda: ao obri­gar o mi­nis­tro a retirar-se do au­di­tó­rio tão cedo, impediram-no de que­brar o seu re­corde de per­ma­nên­cia den­tro de uma uni­ver­si­dade. E bem pre­ci­sava ele que o des­tino o mi­masse um bo­ca­di­nho, de­pois de tanto tempo a ver car­ta­zes em todo o lado mandando-o es­tu­dar – e tudo por causa, re­pito, de umas quan­tas con­fu­sões so­crá­ti­cas com a licenciatura.

Quase es­tou ten­tado a pe­dir ao pes­soal «gran­du­lado» que deixe cair o co­muna do Zeca Afonso e preste ho­me­na­gem ao mi­nis­tro com o grito FRA dos es­tu­dan­tes de Coimbra:

Então malta e para o Relvas não vai nada, nada, nada, nada? Tudo!
Mas mesmo nada, nada, nada, nada? Tudo!

e por aí fora até ao re­tum­bante F-R-A final.

Portanto ó gen­tes do povo é quem mais or­dena, ga­nhem juízo, can­tem an­tes O povo é quem mais come e cala, deixem-se des­sas ati­tu­des anti-democráticas, pa­rem de es­can­da­li­zar os co­men­ta­do­res que sen­tam as ilu­mi­na­das pei­das nos so­fás das te­le­vi­sões e trans­for­mem o si­lên­cio em­ba­ra­çado do Relvas no re­con­for­tante triunfo dos tra­fu­lhas. A Democracia agradece.

→ 02/11/2012 @2:54

Olhinho do furacão

Jewel Samad

Vejam como esta foto de Jewel Samad nos conta uma his­tó­ria sim­ples e tão fá­cil de apre­en­der: um pre­si­dente mos­trando pre­sença e pre­o­cu­pa­ção, con­so­lando uma po­bre se­nhora de Nova Jersey que per­deu tudo o que ti­nha, Obama doing the right thing. Quantos vo­tos terá ga­nho com um sim­ples cli­que de um fotógrafo?

Esqueçam as es­tra­té­gias de mar­ke­ting po­lí­tico. Nada como um de­sas­tre na­tu­ral para ele­ger um pre­si­dente ame­ri­cano. Se o re­pu­bli­cano Romney for var­rido nas elei­ções de 6 de no­vem­bro, não o terá sido pela re­tó­rica de Obama mas pe­los ven­tos ci­cló­ni­cos do fu­ra­cão Sandy.

Romney pas­sou as úl­ti­mas ho­ras a ver o ad­ver­sá­rio em glo­ri­osa ação, im­pe­dido de o cri­ti­car em de­ma­sia e sem pos­si­bi­li­dade de amal­di­çoar pu­bli­ca­mente a merda da tem­pes­tade por ter apa­re­cido em tão má altura.

Fotogénico como sem­pre, Obama olha em frente como se es­ti­vesse a ob­ser­var os pri­mei­ros raios de sol es­prei­tando atra­vés das nu­vens. A es­pe­rança. O seu ra­di­ante fu­turo na Casa Branca.

Um «mo­mento de­ci­sivo» que a um ex­ce­lente fo­tó­grafo como Samad nunca po­de­ria pas­sar des­per­ce­bido. E as­sim foi cri­ado um pos­ter de cam­pa­nha. Uns re­to­ques em Photoshop e a foto até po­de­ria ser um da­que­les car­ta­zes United Colors of Benetton.

Mas Samad não se li­mi­tou a um único mo­mento ico­no­grá­fico. Registou tam­bém ou­tro, mais bar­rento, igual­mente re­ve­la­dor. Este:

Jewel Samad

Embora por ve­zes não pa­reça, um po­lí­tico tam­bém é um ser hu­mano. Quando Bush re­cor­dou os mo­men­tos pas­sa­dos com fa­mi­li­a­res das ví­ti­mas do 11 de se­tem­bro e fez bei­ci­nho di­ante das câ­ma­ras, acre­di­tei que a co­mo­ção fosse ver­da­deira: eram ci­da­dãos ame­ri­ca­nos em sofrimento.

Obama tam­bém fi­cou afe­tado pela dor das pes­soas, como é evi­dente. Prefiro o Obama do Obamacare ao re­pu­bli­cano e con­ser­va­dor Romney, como tam­bém é evidente.

Mas esta foto tem o mé­rito de nos for­ne­cer o qua­dro com­pleto. Mesmo numa tem­pes­tade de emo­ções, um po­lí­tico nunca deixa de fa­zer, muito cal­ma­mente, o cál­culo do que pode ga­nhar com um cli­que per­feito. Será um dia pos­sí­vel fazer-se po­lí­tica sem políticos?

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