Marco Santos → 27/03/2013 @23:30
O Tiki-taka de Sócrates
As entrevistas a José Sócrates deviam constar da matéria curricular obrigatória nos cursos de Jornalismo. Imagino que a ideia de ensinar os alunos a enfrentar o ex-primeiro ministro em entrevista seja, para um professor da cadeira, tão motivadora e desafiante como determinar a tática para vencer o Barcelona.
Porque a verdade – goste-se do homem ou não – é que Sócrates é um Barça da politiquice: os adversários não conseguem ter a posse de bola, perturbam-se, enervam-se e tentam dar umas sarrafadas, transformando-se os jornalistas/entrevistadores naquele Real Madrid que perdeu 5–0 no Santiago Barnabéu.
Além de ser exímio no controlo de bola, Sócrates também é muito bom a simular uns mergulhos para a piscina enquanto, indignado, pede ao árbitro – ou seja, a todos nós – a mostragem do cartão amarelo aos adversários que o tentam travar.
Rui Eduardo Paes → 09/03/2013 @17:06
O professor Paunocu

Foto: Carlos Manuel Ribeiro
A olho nu não se vê, mas de certeza que tem um pau a entrar-lhe pelo cu e a sair-lhe pela boca. Anda e articula-se como se algo mais lhe atravessasse a espinha para além da própria espinha. Talvez porque esta não existe: naquela altura de gente não há osso.
Parece um boneco, embora engravatado como um administrador de empresas. E quando a glote lhe arredonda as palavras, um boneco continua a parecer. Tem voz de Pinóquio, emprestada de um ventríloquo que também não é visível. Será de presumir que tal acontece por não a usar muito: regra geral, está calado. Tem tendência para dizer disparates. Daqueles com cheiro a alho, à labrego…
Aliás, das poucas vezes que fala percebemos que anda por ali um perturbador complexo de inferioridade social: o seu currículo pode ser o de um catedrático, mas a conversa que arrisca, misturando verbos e saliva seca, é a de um pescador que se envergonha das suas origens.
Diz-se um homem de visões largas, mas afinal o que o caracteriza é uma estranha receita para resolver os seus conflitos interiores: professa o capitalismo popular. O seu ideal é um país em que todos joguem na Bolsa, uma sociedade de proletários acionistas.
Como, em vez de apostarmos na roleta económica, vamos a pouco-e-pouco perdendo os empregos, tende a fechar-se. Não entende o que se passa, anda confuso e angustiado. Se calha pôr a cabeça fora da porta, não é capaz de dirigir ao mundo mais do que um sorriso atrapalhado.
Esse esgar com dentinho de fora hesita entre o patético e o sinistro: ora suscita pena, ora denuncia um secreto Mefistófeles. O coitado diz que o dinheiro não lhe chega até ao fim do mês e que fez mal em ter trocado o ordenado a que tinha direito por uma humilde pensão. Mas quando estamos quase, quase a comiserar-nos com o pobre, desconfiamos. Os olhinhos de boi que se encovam no seu rosto paralelepípedo só podem esconder marosca.
O pior é que, como bons portugueses que somos, o pé atrás apenas contribui para sermos assoberbados por cruéis sentimentos de culpa. Sobretudo quando lhe gozamos a marquise, a postura rígida e auto-repressiva de múmia.
Por isso, lá vai ele ficando escondido e silencioso, feito emblema da mediocridade e da inércia nacionais. Não é ninguém em especial, apenas um professor chico-esperto, mas o pior é que também é nós todos, coletivamente empalados por nossas próprias mãos depois de séculos de osteoporose mental.
Rui Eduardo Paes → 04/03/2013 @17:43
O pequeno Hélder
Pronto, pá, admito: tenho uma grande consideração pelo Daniel Oliveira, ele que até está mais à direita do que eu (eheheheh) e tem um ponto de vista algo partidário das coisas, o que não se compatibiliza com a minha configuração mental…
Procuro sempre saber qual é a sua opinião, seja no blogue Arrastão, no Expresso ou no programa da Sic Notícias em que participa, Eixo do Mal. Na maior parte dos casos, acho que acerta na muche com uma rara sagacidade.
É um tipo inteligente e tem a virtude de não pensar só com a cabeça: o coração acompanha. Além disso, tem humor, que é algo que muitas vezes me falta. Quem me lê aqui no Bitaites, sabe disso.
Somos amigos no Facebook, mas duvido que ele se lembre de mim. Ao contrário dele, de mediático tenho pouco e prefiro assim. Conheci-o no Diário de Lisboa, por onde passou episodicamente, já na reta final de existência desse vespertino de que tenho tantas saudades.
O Daniel era, na altura, um miúdo, e escrevia mal que se farta. O salto que deu! Hoje é dos melhores que proseiam por aí.
Nessa altura, já ele andava nas companhias do Miguel Portas e do Paulo Varela Gomes, com quem eu tinha algumas afinidades intelectuais, mais do que políticas – estavam na altura a afastar-se do PCP, partido que não tinha as minhas simpatias, antes pelo contrário.
Acompanhei, de longe, a sua passagem pela Plataforma de Esquerda e pela Política XXI, e depois o seu envolvimento na fundação do Bloco de Esquerda. Também o que escrevia para o jornal Já e para a Vida Mundial.
Não sei se porque estava com o entretanto falecido Miguel (grande suspiro) e com o Paulo, se por ser filho de um dos meus poetas favoritos, Herberto Hélder, ou se por ser do meu clube, o Sporting (pronto, lá vem outra referência triste; já não vou ser capaz de meter umas graçolas por aqui), a curiosidade manteve-me atento ao seu percurso.
Sem termos as mesmas ideias (ele é um marxista, eu um socialista libertário), e estando este vosso bloguista há mais tempo nas andanças da vida, tornou-se-me numa referência diária.
E porque estou a confessar isto? Nada de mais óbvio: para vos aconselhar que o leiam e oiçam, independentemente de concordarem ou não com o Pequeno Hélder, como eu lhe chamo (é tão fisicamente parecido com o pai que até assusta).
Vale sempre a pena dar atenção a quem tem ideias, e olhem que não há muitos assim…
Adenda
Entretanto, soube que o Daniel se demitiu do Bloco de Esquerda, acusando a direção, e a tendência liderada por Francisco Louçã, a dominante no partido, de sectarismo. Enfim, do que estava ele à espera numa organização que junta maoístas e trotzkystas, senão autoritarismo leninista?
Marco Santos → 24/02/2013 @0:12
Anda uma pessoa a estudar para isto
Miguel Relvas foi impedido de intervir num evento organizado pela TVI dedicado ao tema «Como vai ser o jornalismo dos próximos 20 anos?»
Quando tentou partilhar a sua fascinante visão do futuro do jornalismo com a audiência presente nas instalações da universidade, o futuro começou a gritar «demissão, demissão», «os estudantes unidos jamais serão vencidos» e o político não conseguiu falar — é sempre chato quando isso acontece, admito. Lá fora, na rua, cantava-se o «Grândola, Vila Morena».
Há quem considere os jovens que interromperam Relvas uns protofascistas desrespeitadores da liberdade alheia. Que o homem tinha todo o direito de falar. Em Democracia não se silencia assim as pessoas. A canção não é uma arma, é só uma invenção de poetas e charrados de esquerda.
Entendo que por uma questão de princípio se fale de liberdade quando outra pessoa é impedida de falar, mas ao mesmo tempo também me questiono por que razão a TVI convidou Relvas para falar sobre o futuro do Jornalismo.
Sei que tutela a área, mas não o julgava um especialista.
A última vez que o vi intervir de forma enérgica na Comunicação Social foi quando usou o telefone para ameaçar a jornalista Maria José Oliveira e o jornal onde trabalhava, prometendo que iria revelar dados sobre a vida privada da jornalista e secar fontes ao «Público» se um determinado conjunto de artigos menos abonatórios para a sua pessoa viesse a ser publicado.
Bem, talvez tenha vindo à Universidade falar do futuro de alguns jornalistas e não do Jornalismo em si — explicar, por exemplo, as diferenças entre o futuro de órgãos de comunicação social que lhe desafiam a licenciatura e o futuro dos que o convidam a dar palestras em universidades.
Graças aos meliantes que o interromperam, nunca viremos a saber.
Deixem falar o Relvas, pá
Reconheço que a questão Relvas não deixa de ser incómoda: ao obrigar o ministro a retirar-se do auditório tão cedo, impediram-no de quebrar o seu recorde de permanência dentro de uma universidade. E bem precisava ele que o destino o mimasse um bocadinho, depois de tanto tempo a ver cartazes em todo o lado mandando-o estudar – e tudo por causa, repito, de umas quantas confusões socráticas com a licenciatura.
Quase estou tentado a pedir ao pessoal «grandulado» que deixe cair o comuna do Zeca Afonso e preste homenagem ao ministro com o grito FRA dos estudantes de Coimbra:
Então malta e para o Relvas não vai nada, nada, nada, nada? Tudo!
Mas mesmo nada, nada, nada, nada? Tudo!
e por aí fora até ao retumbante F-R-A final.
Portanto ó gentes do povo é quem mais ordena, ganhem juízo, cantem antes O povo é quem mais come e cala, deixem-se dessas atitudes anti-democráticas, parem de escandalizar os comentadores que sentam as iluminadas peidas nos sofás das televisões e transformem o silêncio embaraçado do Relvas no reconfortante triunfo dos trafulhas. A Democracia agradece.
Marco Santos → 02/11/2012 @2:54
Olhinho do furacão
Vejam como esta foto de Jewel Samad nos conta uma história simples e tão fácil de apreender: um presidente mostrando presença e preocupação, consolando uma pobre senhora de Nova Jersey que perdeu tudo o que tinha, Obama doing the right thing. Quantos votos terá ganho com um simples clique de um fotógrafo?
Esqueçam as estratégias de marketing político. Nada como um desastre natural para eleger um presidente americano. Se o republicano Romney for varrido nas eleições de 6 de novembro, não o terá sido pela retórica de Obama mas pelos ventos ciclónicos do furacão Sandy.
Romney passou as últimas horas a ver o adversário em gloriosa ação, impedido de o criticar em demasia e sem possibilidade de amaldiçoar publicamente a merda da tempestade por ter aparecido em tão má altura.
Fotogénico como sempre, Obama olha em frente como se estivesse a observar os primeiros raios de sol espreitando através das nuvens. A esperança. O seu radiante futuro na Casa Branca.
Um «momento decisivo» que a um excelente fotógrafo como Samad nunca poderia passar despercebido. E assim foi criado um poster de campanha. Uns retoques em Photoshop e a foto até poderia ser um daqueles cartazes United Colors of Benetton.
Mas Samad não se limitou a um único momento iconográfico. Registou também outro, mais barrento, igualmente revelador. Este:
Embora por vezes não pareça, um político também é um ser humano. Quando Bush recordou os momentos passados com familiares das vítimas do 11 de setembro e fez beicinho diante das câmaras, acreditei que a comoção fosse verdadeira: eram cidadãos americanos em sofrimento.
Obama também ficou afetado pela dor das pessoas, como é evidente. Prefiro o Obama do Obamacare ao republicano e conservador Romney, como também é evidente.
Mas esta foto tem o mérito de nos fornecer o quadro completo. Mesmo numa tempestade de emoções, um político nunca deixa de fazer, muito calmamente, o cálculo do que pode ganhar com um clique perfeito. Será um dia possível fazer-se política sem políticos?











